Páginas

domingo, 31 de maio de 2026

Releituras

 

Os que nos conhecem, e pouco ou nada de nós “ouviram do Ipiranga”, já escutaram uma nossa afirmação, muito mais oração do que possa imaginar o vil mortal: que nos seja dado viver tempo suficiente não só para ler o que ainda não lemos, mas, sobretudo, para reler o que lemos, a fim de que bebamos sob outro apreciar parte razoável do lido desde um tempo de candeeiro/placa, fifó, vela, petromax até que alcançado pela “luz” elétrica, hábito desenvolvido desde os dez anos, podemos precisar.

Certo que – o parêntesis se impõe – muito há de pura utopia para alcançar o impossível etário haja vista que, na pior das hipóteses, careceríamos esgotar a bondade divina (e haja bondade!) para nos assegurar pelo menos setenta dos oitenta anos até aqui vividos, o que sob aritmética primária exigiria uns cento e quarenta até o desenlace, o que vislumbra pedido que embute algo impossível.

Mas, enquanto não somos bafejado pelo chamado do Divino e Absoluto Ser, temos nos exercitado no hábito pretendido enquanto vida tenhamos e às vezes nos descobrimos folheando três, quatro, cinco livros simultaneamente: alguns por imperativo técnico (profissional ou literário), outros por inaudito prazer de ler ou reler. Neste instante estamos relendo (não diremos mais uma vez porque pode cheirar ao menino de “Pedro e o Lobo” – Esopo, 620 a.C. a 564 a.C. – musicada por Sergei Prokofiev e pretendemos continuar a merecer um fiapo que seja de credibilidade para continuarmos vivo na mente do leitor).

O que nos mobiliza ao batuque das teclas sucedâneas das máquinas de datilografia tem um nome: Antônio Lopes, por uma de suas obras – Luz Sobre a Memória, Editora Agora, 2001. E, em tempo de Copa do Mundo, o futebol se fez presente e nos aproveitamos da mensagem para tratar do tema em dois tempos (passado e presente vividos/vivendo) sob a égide dos motivos e levarmos outra luz à memória.

O valoroso esporte bretão – expressão piegas e subserviente, típica de quem desenvolveu e orgulhosamente viveu sob o “complexo de vira-lata” divisado por Nelson Rodrigues, ilustradamente declinada por extasiados jornalistas de rádio e palavra escrita a serviço de tal singular estamento – que por aqui surgiu desde que Charles Miller trouxe das ‘Oropa inglesa’ uma ‘couraça’ (ainda a alcançamos, pesada e com os gomos alinhavados em couro mesmo).

“Joãozinho Calça Frouxa”, referido por Lopes, nós o conhecemos em Itororó, vestindo a camisa do “22 de Agosto” trazido durante um tempo por Waldélio Campos, do Brasil de Buerarema (como também Vivi Banguela – o Vivi Guimarães, de Lopes – Valfrido, Alício Peixe-Louro, dentre outros), simplesmente um jogador que dispensava superlativos porque os punha sob o capacho para deles fazer o que fazia com sofredores postos a marca-lo.

Mas, para não muito delongar e cansar o caro e paciente leitor deste escriba de província, uma indagação se impõe para justificar o texto: o que tem uma coisa com outra, futebol presente e o de antanho? E respondemos: a forma de transferência, remuneração etc. etc. O oferecido (e buscado) antes e do que hoje vemos, impondo afastar qualquer vinculação a capitalismo ou o neocapitalismo, mas ao fato em si.

Em tempos de antanho quando o trabalho fazia sentido e era expressão de dignidade, um time se formava e se reforçava com aquisições amparadas em emprego. Ou seja, o jogador jogava no time tendo um emprego garantido na profissão exercida ou naquela por aprender.

Em Itororó, por exemplo, o Grêmio tinha n’ “A Sergipana” de Agostinho Costa Santos uma garantia de trabalho fazendo botas, botinas, chuteiras, sapatos e sandálias, como apoio no conterrâneo José Boaventura, fabricante de selas. Alguns tinham garantido trabalho no comércio, serviço público (Alício, por exemplo, ocupou vaga de Oficial de Justiça) etc.

Tempos outros, sim. Recheados de uma realidade muito distinta dos de hoje, quando o jogador de futebol profissionalizou-se ao extremo de mais ser reconhecido (alguns) pelos astronômicos salários (e mansões, iates deles decorrentes) que pelo evidente futebol que pratica.

Eis a razão por que – talvez especulação nossa – ainda lembremos de Gilmar, De Sordi, Bellini, Nilton Santos, Zito, Orlando, (Joel) Garrincha, Didi, (Mazzola)   Vavá, (Dida), Pelé e Zagalo, de uma seleção que quebrou o “complexo de vira-lata” há 66 anos quando temos dificuldade em destacar quem integrou a ‘canarinho’ há quatro anos.


 

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Lendo Eça de Queiroz e Lima Barreto

 

De certa forma – quando nos envolvemos com análises sobre o Brasil, no quesito soberania sob visão da classe dominante – em muito nos valemos de Eça de Queiroz, sob heterônimo de Fradique Mendes, em missiva a Eduardo Prado (“Cartas”, em Correspondência de Fradique Mendes).

Assim, o caro e paciente leitor deste escriba de província há de encontrar considerações, sob a ótica da oportunidade do texto, em nossos “Amendoeiras de Outono” (romance) e “Portal da Piedade” (crônica), ambos editados pela Via Litterarum.

E a propósito de quê o faz nesse instante, indagará o leitor!

Acompanhamos recente manifestação do Presidente Luiz Inácio da Silva em evento do governo, da qual destacamos aquele ”Ninguém respeita quem não se respeita; ninguém respeita lambe-botas”.

No fundo reproduz lição da experiência secular, ou mesmo milenar se caminhamos até Aristóteles e seu conceito de “justo meio” (tema recorrente em A Ética a Nicômaco e A Ética a Eudemio), porque adstrito à Ética como fenômeno de compreender a Virtude em todas as suas dimensões, em particular – muito a propósito do caso concreto – o fenômeno da acrasia em nível de astheneia, quando avaliado o caráter.

Mas, diante do que nos propomos considerar a partir daquele ”Ninguém respeita...”, recomendamos ao leitor a tradução mais imediata sob o imaginário e inconsciente coletivo: quem muito se abaixa acaba mostrando os fundilhos.

A aí nos apropriamos de Eça de Queiroz/Fradique Mendes, ilustrando a crônica Cumprindo Ordens, iniciada com uma referência a Lima Barreto (Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá ironizando a burguesia, à qual chamava de “essa gente de Petrópolis”, próceres desta atual “estúpida mania de aristocracia”:

“... em vez de terem escolhido esta existência que daria ao Brasil uma civilização sua, própria, genuína, de admirável solidez e beleza – que fizeram os brasileiros? Apenas as naus do senhor D. João VI se tinham sumido nas névoas atlânticas, os brasileiros, senhores do Brasil, abandonaram os campos, correram a apinhar-se nas cidades e romperam a copiar tumultuariamente a nossa civilização européia, no que ela tinha de mais vistoso e copiável”.

Eça condena o país por ficar apinhado de instituições alheias, quase contrárias a sua índole e ao seu destino”. E leciona o ainda inalcançado, apenas tentado recentemente: “No dia ditoso em que o Brasil, por um esforço heróico, se decidir a ser brasileiro, a ser do novo-mundo – haverá uma grande nação. (...) pode contar com um soberbo futuro histórico, desde que se convença que mais vale ser um lavrador original do que um doutor mal traduzido do francês”.

E ilustramos naquele texto: O instante vivido pelo país – a partir de parcela de sua gente – não permite outra visão que não a de Lima Barreto há 100 anos e a de Eça de Queiroz – mais vivo que nunca – apenas substituindo o ‘francês” por ‘estadunidense’, Paris e Londres por Miami e Disneylandia.

Quando Eça de Queiroz e Lima Barreto pontificaram nem mesmo poder-se-ia sonhar com o que representa o Brasil como celeiro, como detentor de reservas minerais e parcela considerável do ouro mineral ora chamado de “terras raras”.

Ao caro e paciente leitor deste escriba de província a leitura em torno do que quis dizer o presidente Luiz Inácio da Silva.

Caso o pretenda, sob análise geopolítica.