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domingo, 16 de fevereiro de 2020

Cavalos de Tróia criptografados


Petroleiros em greve há duas semanas. 20 mil paralisados. Justiça do Trabalho determina retorno, sob pena de multa. STF confirma. Grevistas descumprem decisão. O melindre do instante. Petroleiros rasgam comunicado de demissão. Ameaça de suspensão no fornecimento de combustíveis ao país. Caminhoneiros anunciam apoio aos grevistas da Petrobras visando redução nos preços dos combustíveis.

A imprensa não informa a dimensão alcançada pelo movimento de paralisação: 55 plataformas (38 no Rio de Janeiro, 9 no Ceará, 4 em São Paulo, 2 no Espírito Santo e 2 no Rio Grande do Norte,), 11 refinarias, 23 terminais, unidades de transporte, termelétricas, usinas, unidade industriais e administrativas.

Parcela significativa da produção e distribuição de energia, conteúdo altamente estratégico.

Governo militarizado tende a endurecer, porque dialogar não faz parte da doutrina do porrete. Em especial quando o porrete apenas é testa de ferro de interesses de além-mar que visam, entre outras premiações, a riqueza mineral sob controle da Petrobras.

O endurecimento do Governo Federal – dada a amplitude das áreas em greve – pode estar construindo um Cavalo de Tróia e pondo-o à disposição da já combalida economia.

Pode ser festa para mais privatizar o setor energético, mas pode tornar-se uma espécie de canto do cisne para o sistema. A sociedade não suportará a entrega à iniciativa privada (onde o lucro é a razão) de espaço tão melindroso.

Na esteira das especulações o endurecimento do regime, em que a democracia de fachada (congresso e eleições) respaldará uma ditadura militar consensuada pelo maniqueísmo de tudo e todos contra Lula e o PT.

Afinal, áreas sensíveis do governo em mãos militares das duas uma: ou a sociedade civil é inteiramente incompetente e destituída de quadros ou o objetivo das Forças Armadas haverem tolerado um terrorista do qual se desfizeram – através de um processo no Tribunal Militar, quando o reformaram em 1968 – se faz materializado no alcançarem o poder sem golpes, como no passado.

O número de militares respondendo por cargos no governo dá bem a conta de que o inquilino do Alvorada seria hoje refém do estamento militar que, através dele, governaria de fato, cumprindo seu papel de fantoche bufão. E assim não tem nenhum interesse de que seja afastado. Mas, caso o seja, o reserva Mourão.

Os Estados Unidos – e seu big stick – assistem com inusitada alegria e satisfação. Leia-se o verbo ‘assistir’ em seus amplos significados e regências (com ou sem preposição). Na falta de uma outra serve aos mesmos interesses. O projeto de construção do Cavalo de Tróia tem seu aval.

E há quem insista na retórica de condenar o fascismo nosso de cada dia e esquecer das razões por que se sustenta nesta terra tanta aberração. Demonstram aqueles não perceber a lição em letras garrafais de que tudo que ocorre, adredemente programado, exigiu um outro Cavalo de Tróia: essa discussão inócua que legitima – pelo discurso sem alcance – o que aí está.

Nesta guerra entre gregos e troianos  em que uns dão e outros recebem – muitos se confundem com baianos e abrigam em seus territórios figuras de páginas policiais como singular presente.

Certamente os petroleiros estão enxergando mais e melhor. E combatem com as armas de que dispõem. Menos discurso e mais ação. Sem trazer para o seu quintal qualquer "presente de grego".

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