Como categoria estranha aos
hodiernos tempos, aprofundamo-nos no que cheira ao extremo dos extremos nesta
contemporaneidade: relemos livros, livros e mais livros. Pedimos ao Cri(e)ador
vida para reler mais do que o que nos foi dado reler, e muito mais dos que
ainda não o fizemos.
Preparando-nos para uma
entrevista televisiva sobre a cultura gastronômica revelada por Jorge Amado lá
reencontramos registros centenários, esboço e redobro do quanto representou o
amado Jorge para aquilo hoje estudado sob prisma de ciência (gastronomia)
nascido dos fogareiros e fogões a lenha da Bahia, mesas grã-finas e tabuleiros
de esquinas e terreiros que originaram o resgate de uma culinária que deixou de
ser alimento para se tornar motivo e razão do existir de uma gente, de um povo:
o reconhecimento das razões por que este ou aquele prato existiu ou o fizeram existir.
Detalhamos à guisa de exemplo e
ilustração que, além de a feijoada ser registrada como experimento do negro
escravizado a partir dos restos legados(?) da casa grande, nela está não o
sabor peculiar, a forma do cozimento e do servir (que o carioca alienou) mas a razão
por que se tornou alimento para sobrevivência dos miseráveis que só dela
dependiam e dos regalos de uma classe dominante que se imaginava detentora até
da ”receita” imposta aos que dela dependentes, então incompreendidos
sobreviventes.
Reler para quem já leu é
fundamental. Até para dispor de razões para perceber que certas homenagens literárias
são vazias legando a brasileiros grapiúnas a adjetivação de tchaikowsquianos
quando sobre o palco em torno do qual escreveram sobre cacau nada haja de
assemelhamento a estepes e quejandos tais, tampouco tradução cultural das
gentes. E nem mesmo se sabe se o adjetivado conheceu a geografia a ele
vinculada.
Ainda que amparo possam encontrar tais analistas em Tolstói ("se queres ser universal, começa por pintar tua aldeia") nenhum escritor em sua pureza relatora traduzirá gelo se nunca o sentiu e o percebeu. Mesmo porque há limites para se aplicar a tanto o raciocínio de Ariano Suassuna de que o escritor é mentiroso por excelência.
Nenhuma pescaria nos traduzirá Ernest
Hemingway de “O Velho e o Mar” se nunca entramos em barco de pesca, tampouco
dispendamos força e inteligência para compreender o embate entre homem e
pescado. Não temos que Hemingway tenha sido pescador profissional, mas bebeu,
certamente, como Guimarães Rosa e Mário Palmério, na taça ou nos copos de butecos
emprenhando os ouvidos a partir das experiências então anotadas.
Que dizer – preclaro, paciente e
estimado leitor – de José Lins do Rego falando de pampas e de Érico Veríssimo
debruçado sobre canaviais?!!!...
Nestes tempos em que o Carnaval
se torna referência/mercadoria apenas indagamos se alguém lembra ou reflete (em
nível de Salvador) em torno do Bloco Faxina/Mudança do Garcia, dos Apaches do
Tororó, ou dos “Casados I Responsáveis”, de Itabuna, e dos “filhos de Maiaiá”,
de Itororó?
A folia esteve aí, caro e
paciente leitor!
Que tenhamos feito releituras, recuperado
o que sempre esteve próximo e tenhamos lançado às calendas aquela parcela
erudita que hoje se faz inteligente a partir de algoritmos simplesmente!
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