sábado, 21 de fevereiro de 2026

Releituras

 

Como categoria estranha aos hodiernos tempos, aprofundamo-nos no que cheira ao extremo dos extremos nesta contemporaneidade: relemos livros, livros e mais livros. Pedimos ao Cri(e)ador vida para reler mais do que o que nos foi dado reler, e muito mais dos que ainda não o fizemos.

Preparando-nos para uma entrevista televisiva sobre a cultura gastronômica revelada por Jorge Amado lá reencontramos registros centenários, esboço e redobro do quanto representou o amado Jorge para aquilo hoje estudado sob prisma de ciência (gastronomia) nascido dos fogareiros e fogões a lenha da Bahia, mesas grã-finas e tabuleiros de esquinas e terreiros que originaram o resgate de uma culinária que deixou de ser alimento para se tornar motivo e razão do existir de uma gente, de um povo: o reconhecimento das razões por que este ou aquele prato existiu ou o fizeram existir.

Detalhamos à guisa de exemplo e ilustração que, além de a feijoada ser registrada como experimento do negro escravizado a partir dos restos legados(?) da casa grande, nela está não o sabor peculiar, a forma do cozimento e do servir (que o carioca alienou) mas a razão por que se tornou alimento para sobrevivência dos miseráveis que só dela dependiam e dos regalos de uma classe dominante que se imaginava detentora até da ”receita” imposta aos que dela dependentes, então incompreendidos sobreviventes.

Reler para quem já leu é fundamental. Até para dispor de razões para perceber que certas homenagens literárias são vazias legando a brasileiros grapiúnas a adjetivação de tchaikowsquianos quando sobre o palco em torno do qual escreveram sobre cacau nada haja de assemelhamento a estepes e quejandos tais, tampouco tradução cultural das gentes. E nem mesmo se sabe se o adjetivado conheceu a geografia a ele vinculada.

Ainda que amparo possam encontrar tais analistas em Tolstói ("se queres ser universal, começa por pintar tua aldeia") nenhum escritor em sua pureza relatora traduzirá gelo se nunca o sentiu e o percebeu. Mesmo porque há limites para se aplicar a tanto o raciocínio de Ariano Suassuna de que o escritor é mentiroso por excelência.

Nenhuma pescaria nos traduzirá Ernest Hemingway de “O Velho e o Mar” se nunca entramos em barco de pesca, tampouco dispendamos força e inteligência para compreender o embate entre homem e pescado. Não temos que Hemingway tenha sido pescador profissional, mas bebeu, certamente, como Guimarães Rosa e Mário Palmério, na taça ou nos copos de butecos emprenhando os ouvidos a partir das experiências então anotadas.

Que dizer – preclaro, paciente e estimado leitor – de José Lins do Rego falando de pampas e de Érico Veríssimo debruçado sobre canaviais?!!!...  

Nestes tempos em que o Carnaval se torna referência/mercadoria apenas indagamos se alguém lembra ou reflete (em nível de Salvador) em torno do Bloco Faxina/Mudança do Garcia, dos Apaches do Tororó, ou dos “Casados I Responsáveis”, de Itabuna, e dos “filhos de Maiaiá”, de Itororó?

A folia esteve aí, caro e paciente leitor!

Que tenhamos feito releituras, recuperado o que sempre esteve próximo e tenhamos lançado às calendas aquela parcela erudita que hoje se faz inteligente a partir de algoritmos simplesmente!

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