Este escriba de província deu de
correr alguns poucos quilômetros dentro deste Brasil. Nem um milhar dentre os
milhões. Claro que, coerentemente, movido pela convicção de que somente viajará
para o exterior depois de conhecer o Brasil (ou seja, o torrão de qualquer parte do território nacional) declina e continuará declinando de buscar vistos
em seu passaporte para o Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, razão por
que ‘deu de descambar’ da Bahia ao Espírito Santo, e alcançou um lugar chamado
de Santa Tereza.
Em lá chegando (este escriba provinciano
ainda valoriza o gerúndio sem saber se é doença contagiosa capaz de rivalizar
com a tal Mpox que se aproxima) não se bastou em conhecer montanhas e a
experiência italiana que ali proliferou como vaidosamente o afirmam os
moradores como “primeira colonização” da gente da terra da bota no Brasil sob
auspícios do Imperador D. Pedro II, e se viu balouçando(!) não em rede
nordestina, mas no vicioso hábito da leitura em torno do qual se imagina
sobrevivente, embalado sob as liras de Virgílio (em suas Geórgicas), de Voltaire
(e seu Dicionário Filosófico), vibrando nos intervalos com Wilson Lins, Cid
Teixeira, Gustavo Falcón e Maria Alba Machado Mello (por meio de Coronéis e
Oligarquias) e muito riu reencontrando uma bissexta edição comercial de humor
de uma empresa reunindo de Ziraldo a Claudius, de Juarez a Zélio, passando por
Maurício de Souza e Rafael entremeados por textos de Chico Anísio e Stanislaw Ponte Preta (vox
populi, vox....wagen).
Mas aqui não tem como refletir em torno de tudo que leu, de tudo que reaprendeu, de tudo que riu. Apenas concluir a partir de parte do que lhe chamou a atenção, folheando aquele François-Marie Arouet (1694-1778), apátrida pelas circunstâncias em muitos instantes, profética e textualmente muito atual nesta terra brasilis quando debruçado sobre o verbete ‘Vida’:
“[...] Há
propriedades evidentes da matéria, cujo princípio jamais será conhecido por
nós. O da sensibilidade, sem a qual não há vida, é e será ignorado como tantos
outros.
Podemos viver
sem experimentar sensações? Não. Suponhamos uma criança que morreu depois de
ter estado sempre em letargia; ela existiu, mas não viveu.
Suponhamos,
porém, que um imbecil que nunca teve ideias complexas e que tenha tido
sentimentos; certamente viveu sem pensar; só teve as ideias simples
provenientes de suas sensações.
O pensamento é
necessário à vida? Não, porquanto esse imbecil não pensou e viveu.
Disso alguns
pensadores deduzem que o pensamento não é a essência do homem; afirmam que há
muitos idiotas que não pensam e que são homens, e tanto são homens que fazem
homens, sem jamais poder elaborar um raciocínio.
Os doutores que
julgam pensar respondem que esses idiotas tem ideias fornecidas por suas
sensações. Os pensadores ousados lhes replicam que um cão de caça, que aprendeu
muito bem seu ofício, tem ideias muito mais coerentes e que é muito superior a
esses imbecis. [...]”
Sem pretender estabelecer
conflitos de ideias e confrontos (naturais aos que ocupam microfones e telas de
televisão em programas onde se autodenominam fonte de análise da conjuntura contemporânea)
volvamos aos detalhes/provocações dos primórdios do verbete:
“[...] A vida é
organização com capacidade de sentir. Assim é que dizemos que os animais têm
vida. [...]”
E concluímos dizendo: e sendo
animais – os que integramos a espécie homo sapiens(?) – desenvolvemo-nos
para o avanço seletivo além do racional e criamos em nós os irracionais, tendo estes
alcançado sucesso como uma subdivisão da espécie, fruto de aperfeiçoamento mundo a fora e muito
fortemente encastelados neste Brasil, onde a raridade de domínio considerável
do espectro permeia a representação política, que deu de acolher e ampliar a
subdivisão expressa no singular processo de evolução.
Como fonte de pesquisa para
distinguir uma espécie de outra recomendamos ao caro e paciente leitor
acompanhar sessões do Poder Legislativo em diferentes espaços do país – em
nível municipal, estadual, federal e distrital – com direito à pós graduação através
de sessões de Comissões do Congresso Nacional.
Com a possibilidade concreta de
dispor de um primoroso orientador logo ali, ao dobrar a esquina, já que estamos
abundados de mestres e doutores publicando “teses” em celulares e quejandos
tais.