domingo, 27 de setembro de 2026
quarta-feira, 23 de setembro de 2026
Da "cultura da certificação": retrato desta época
“Os donos do mundo precisam que você odeie alguém. Pode ser o imigrante,
o comunista, o capitalista, o terrorista... qualquer um serve, desde que você
não perceba quem são os verdadeiros ladrões.” (Eduardo Galeano)
Deveras preocupante o atual estágio
da “cultura da certificação”: retrato desta época. Particular tese deste
escriba de província atribui muito (e bote muito nisso!) da estupidez contemporânea
ao que denomina de cultura da certificação, ou seja, o certificado/diploma
em si supera em absoluto o saber conscientemente adquirido, oriundo do domínio da
informação, que independe de certificação, mas de leitura, debate,
dialetização, etc.
E eis que nos alcançamos, como
observador deste momento histórico, como vítima desta ‘modernidade’. Em nível
pátrio não deixa de ser mais uma jabuticaba: campanha eleitoral em tempo de
rádio e televisão sem debate (de ideias) onde presentes estejam todos os
candidatos. Porque a razão do debate (projeto político/ideias) deixou de ter cunho político
para corresponder ao que dele imagina o jornalismo “certificado”. E dói a quem tem
mais de dois neurônios ouvir alguns singulares exemplos de toupeiras “certificadas”
como oráculos de Delfos (assim se imaginam) salivando baboseiras, algumas vezes
expelindo veneno, tamanho o ódio destilado. (As serpentes se sentem agredidas em sua essência, porque são mais puras: possuem
veneno, mas não o utilizam por ódio).
O que começa por uma singular razão,
natural à terra brasilis: detentores do controle dos meios de
comunicação (mais uma vez) utilizando-se do sistema radioeletrônico para
manipular o resultado eleitoral passam a estabelecer “narrativas” como verdade
do que muitas vezes não foi dito.
Mas, reconheçamos: desde o clássico
último debate da Globo em 1989 (Lula x Collor) – marco zero depois da ditadura
militar – certamente não vimos o que ora vemos. E sem a classe dos Carlos
Lacerda de antigamente.
Por tal viés caminhamos na velocidade
da luz para o precipício. Materializado no domínio da pauta eleitoral não por
propostas (e domínio e credibilidade em torno delas) mas por aquilo que “pauta”
a mídia para constituir a verdade para corresponder ao interesse particular em
jogo.
Muito a propósito, a “vontade” e o
“desejo” de quem controla a emissora fazendo das suas sob a propaganda de que
promove um encontro da democracia (deles, naturalmente).
Em meio a isso a tentativa de esconder do cidadão/eleitor verdades escancaradas. E o patético levado à “narrativa” deste ou daquele que a manuseia conforme o seu interesse e – diga-se não de passagem – para corresponder aos interesses através do qual o país e sua gente, como nação (que os define ente soberano e autônomo), são apenas derréis-de-mel-coado augurando retorno às senzalas. O que, infelizmente, não é fato novo; apenas agravado!
E espocam denúncias de que
determinado candidato está envolvido até a boca com ladroagem; um juiz diz que
não. Mas – de repente não mais que de repente – já é o juiz que está
envolvido até a tampa com o candidato envolvido etc. etc.; mas a mídia diz que
não!
Diante do que vimos (os que tiveram
coragem para perder seu tempo e ouvir mais agressões do que sugestões e
projetos) uma indagação: debate de quê? Para quê?
Muito mais reitera nível de briga em puteiro de
antigamente (“É a mãe! É a sua!”), que nos perdoe o caro e paciente leitor
deste escriba de província.
Até que apareça alguém com um pau de
lenha para fazer justiça. Porque justiça para muita gente é matar (por “achar” –
a propósito, o substantivo acha é sinônimo de pau de lenha) – não porque
provado, mas por muito se “acharem” ilibados cidadãos detentores dos códices da justiça
privada “certificada” e amparada no ordenamento jurídico contemporâneo sob
inspiração de Talião), como fizeram recentemente com aquele rapaz no Rio de
Janeiro.
E, como lembra Galeano, enquanto você
agride esconde o ladrão.
E mais tal quadro se agrava quando a
instância máxima de julgamento do país se oferta “ao debate” através de alguns
de seus “certificados” membros, cada um com torcida cativa em meio aos "certificados" da mídia.
Mas, no campo da certificação como a
definimos, a augusta instância será assunto (e que assunto!) para o próximo texto.
Até lá!
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
Filosofia
“Para tirar o meu Brasil dessa baderna, só quando o morcego doar sangue
e o Saci cruzar as pernas”. (Bezerra da Silva)
Nestes dias sem registro no espaço
cabe-nos explicar – muito mais revelar – ao caro e paciente leitor deste escriba
de província o que nos ocorreu: em meio a uma enxurrada de acontecimentos,
internos e externos, diante da variedade dos fatos que inspirariam a coluna, de
certa forma nos sentimos como aquele compositor imaginado por Stanislaw Ponte
Preta, para explicar as razões do célebre enredo “Samba do Crioulo Doido”: aquele,
quando em efervescência os sinais de um golpe de extrema direita dentro do
golpe militar que nunca foi de esquerda, ao contrário, de uma direita
histórico-militar que ensaiava a ação da peça desde as teorias desenvolvidas na
Casa das Américas, aprimoradas pelo Departamento de Estado do sempre exaltado
John Kennedy e respaldado pela ‘diplomacia’ de Lincoln Gordon, com proteção
assegurada para possível intervenção armada estadunidense (Operação Brother
Sam) e farto financiamento aos IBADs da vida e aos acólitos locais de sempre (em
nada mudou).
Ilustra a “fina Flor dos Ponte Preta”
que de tanto mexer com a História brasilis para samba-enredo,
quando lhe solicitaram envolvendo a pátria sob a então
“conjuntura atual” pirou de vez.
De lá para cá – lá se vão 60 anos da
composição – buscávamos acompanhar o nosso cotidiano em ano eleitoral, que
naquele 1966 não ocorreria porque, no final do ano anterior, os democratas
que assumiram a missão de proteger o país e seu ditoso povo sob as bênçãos do
slogan Deus, Pátria e Família pela Democracia “democraticamente” exercitaram-na
monocraticamente e, com punho de ferro a caneta, baixaram um AI-2 – não confundir
com inteligência artificial – cancelando as eleições programadas por lei
para aquele ano.
Antes que o indague a caro e paciente
leitor deste escriba de província o que faz ali o 2 cabe explicar a razão por
quê: o segundo AI para acompanhar o sonhar de inspiração democrática que
norteara o primeiro com singular iniciativa de expressar o
reconhecimento aos valores democráticos vigentes e com uma canetada deu poderes
de exceção ao Poder Executivo para eleger indiretamente o presidente da
república (com letra minúscula mesmo, revisor!), cassar mandato dos ainda
eleitos pelo povo por dez anos – e para não perder o rebolado, ministros do STF, professores universitários etc. etc.
Pois é caro e paciente leitor: muita
gente, dos ainda vivos – porque daqueles anos todo mundo morto,
alguns desaparecidos por conta própria, outros suicidados etc. etc. – repete os
motivos do enredo que enlouqueceu o personagem pontepretano. E deixou este
escriba quase a requisitar o SUS para internamento.
Na parte superior do hemisfério a
mesma gente conspirando – reconheça-se, mais a descoberto – com inusitado apoio
interno, também mais descoberto ainda, amparado em singular civismo: discursos
inflamados de desconhecimento da realidade histórico-política; mesma natureza de
agentes políticos (leia-se, dirigentes) de outros países vindo a terrinha de
São Saruê meter o bedelho (vulgo big stick para os da casa!) na política
interna, agressão ao dirigente local com efusivos aplausos de parte dessa
singular nova elite política que passou a constituir um nada singular cotidiano.
Às vésperas de um momento da história político-eleitoral, em que interesses do além alinhados com alguns daqui, passou-nos pela mente as crises de 1954, 1955 (incluindo Jacareacanga e Aragarças, em 1956 e 1959), 1961 e 1964, sem descurar de 2005, 2013/2014, 2016, 2023. Definitivamente os tempos não mudaram; foram atropelados.
No entanto, algo no presente se faz
significativo de piora na doença que acomete esta parcela: a burrice e a
ausência de projetos por parte de muitos, além do histórico entregar.
Apenas uma diferença para este
escriba de província: o nível dos discursos de uma parcela em um e outro
instante – caso assim possamos denominar – o atual (diferente do anterior, de intelectual
expressar) beira o ridículo, a insanidade, a estupidez e a ignorância em todos
os níveis! Enaltecidos por uma plebe ignara (obrigado, Stanislaw!) que de tudo
se vale muito e muito contribui para a ópera bufa mal escrita! Se é que quem a
edita sabe ler e escrever.
A propósito do nível – não bastasse a
cultura linguística de comentaristas e figuras nada bissextas do rádio e
televisão – augusta personalidade de uma alta corte referindo-se a “jaez”
aproveitou os holofotes e lascou um “essa” (‘essa’ jaez) para não perder a
oportunidade de exibir erudição. E circulou a inovação: o substantivo masculino
agraciado/antecedido com o demonstrativo no feminino, gerando uma locução adjetiva ou substantiva
indicativa de espécie singular, ainda que alguém com dois neurônios de estudo
utilizaria deste. Supimpa!...
Para alguns falta a Brother Sam.
E para não dizer que não falei de
flores, até mesmo um candidato foi filiado a outro partido quando já com a candidatura
encaminhada a registro por outro! Quiá-quiá-quiá-quiá gargalharia debochado alguém
no boteco de fim de rua de subúrbio implorando por ouvir mais uma do filósofo
Bezerra da Silva.
domingo, 31 de maio de 2026
Releituras
Os que nos conhecem, e pouco ou nada de nós “ouviram do Ipiranga”, já escutaram uma nossa afirmação, muito mais oração do que possa imaginar o vil mortal: que nos seja dado viver tempo suficiente não só para ler o que ainda não lemos, mas, sobretudo, para reler o que lemos, a fim de que bebamos sob outro apreciar parte razoável do lido desde um tempo de candeeiro/placa, fifó, vela, petromax até que alcançado pela “luz” elétrica, hábito desenvolvido desde os dez anos, podemos precisar.
Certo que – o parêntesis se impõe – muito há de
pura utopia para alcançar o impossível etário haja vista que, na pior das
hipóteses, careceríamos esgotar a bondade divina (e haja bondade!) para nos
assegurar pelo menos setenta dos oitenta anos até aqui vividos, o que sob
aritmética primária exigiria uns cento e quarenta até o desenlace, o que vislumbra pedido que embute algo impossível.
Mas, enquanto não somos bafejado pelo chamado do Divino e Absoluto Ser, temos nos exercitado no hábito pretendido enquanto vida tenhamos e às vezes nos descobrimos folheando três, quatro, cinco livros simultaneamente: alguns por imperativo técnico (profissional ou literário), outros por inaudito prazer de ler ou reler. Neste instante estamos relendo (não diremos mais uma vez porque pode cheirar ao menino de “Pedro e o Lobo” – Esopo, 620 a.C. a 564 a.C. – musicada por Sergei Prokofiev e pretendemos continuar a merecer um fiapo que seja de credibilidade para continuarmos vivo na mente do leitor).
O que nos mobiliza ao batuque das teclas sucedâneas
das máquinas de datilografia tem um nome: Antônio Lopes, por uma de suas obras
– Luz Sobre a Memória, Editora Agora, 2001. E, em tempo de Copa do Mundo, o
futebol se fez presente e nos aproveitamos da mensagem para tratar do tema em
dois tempos (passado e presente vividos/vivendo) sob a égide dos motivos e
levarmos outra luz à memória.
O valoroso esporte bretão – expressão piegas e
subserviente, típica de quem desenvolveu e orgulhosamente viveu sob o “complexo de
vira-lata” divisado por Nelson Rodrigues, ilustradamente declinada por extasiados jornalistas de rádio e palavra escrita a serviço de tal singular estamento –
que por aqui surgiu desde que Charles Miller trouxe das ‘Oropa inglesa’ uma
‘couraça’ (ainda a alcançamos, pesada e com os gomos alinhavados em couro mesmo).
“Joãozinho Calça Frouxa”, referido por Lopes, nós o
conhecemos em Itororó, vestindo a camisa do “22 de Agosto” trazido durante um
tempo por Waldélio Campos, do Brasil de Buerarema (como também Vivi Banguela – o Vivi Guimarães,
de Lopes – Valfrido, Alício Peixe-Louro, dentre outros), simplesmente um
jogador que dispensava superlativos porque os punha sob o capacho para deles
fazer o que fazia com sofredores postos a marca-lo.
Mas, para não muito delongar e cansar o caro e paciente leitor deste escriba de província, uma indagação se impõe para justificar o texto: o que tem uma coisa com outra, futebol presente e o de antanho? E respondemos: a forma de transferência, remuneração etc. etc. O oferecido (e buscado) antes e do que hoje vemos, impondo afastar qualquer vinculação a capitalismo ou o neocapitalismo, mas ao fato em si.
Em tempos de antanho quando o trabalho fazia
sentido e era expressão de dignidade, um time se formava e se reforçava com
aquisições amparadas em emprego. Ou seja, o jogador jogava no time tendo um
emprego garantido na profissão exercida ou naquela por aprender.
Em Itororó, por exemplo, o Grêmio tinha n’ “A
Sergipana” de Agostinho Costa Santos uma garantia de trabalho fazendo botas,
botinas, chuteiras, sapatos e sandálias, como apoio no conterrâneo José
Boaventura, fabricante de selas. Alguns tinham garantido trabalho no comércio, serviço público (Alício, por exemplo, ocupou vaga de Oficial de Justiça) etc.
Tempos outros, sim. Recheados de uma realidade
muito distinta dos de hoje, quando o jogador de futebol profissionalizou-se ao
extremo de mais ser reconhecido (alguns) pelos astronômicos salários (e
mansões, iates deles decorrentes) que pelo evidente futebol que pratica.
Eis a razão por que – talvez especulação nossa – ainda lembremos de Gilmar, De Sordi, Bellini, Nilton Santos, Zito, Orlando, (Joel) Garrincha, Didi, (Mazzola) Vavá, (Dida), Pelé e Zagalo, de uma seleção que quebrou o “complexo de vira-lata” há 66 anos quando temos dificuldade em destacar quem integrou a ‘canarinho’ há quatro anos.
quinta-feira, 14 de maio de 2026
Lendo Eça de Queiroz e Lima Barreto
De certa forma – quando nos envolvemos com análises sobre o Brasil, no quesito soberania sob visão da classe dominante – em muito nos valemos de Eça de Queiroz, sob heterônimo de Fradique Mendes, em missiva a Eduardo Prado (“Cartas”, em Correspondência de Fradique Mendes).
Assim, o caro e paciente leitor deste
escriba de província há de encontrar considerações, sob a ótica da oportunidade
do texto, em nossos “Amendoeiras de Outono” (romance) e “Portal da Piedade” (crônica),
ambos editados pela Via Litterarum.
E a propósito de quê o faz nesse
instante, indagará o leitor!
Acompanhamos recente manifestação do
Presidente Luiz Inácio da Silva em evento do governo, da qual destacamos aquele
”Ninguém respeita quem não se respeita; ninguém respeita lambe-botas”.
No fundo reproduz lição da
experiência secular, ou mesmo milenar se caminhamos até Aristóteles e seu
conceito de “justo meio” (tema recorrente em A Ética a Nicômaco e A Ética a
Eudemio), porque adstrito à Ética como fenômeno de compreender a Virtude em
todas as suas dimensões, em particular – muito a propósito do caso concreto – o
fenômeno da acrasia em nível de astheneia, quando avaliado o caráter.
Mas, diante do que nos propomos
considerar a partir daquele ”Ninguém respeita...”, recomendamos ao leitor a tradução mais imediata sob o
imaginário e inconsciente coletivo: quem muito se abaixa acaba mostrando os
fundilhos.
A aí nos apropriamos de Eça de
Queiroz/Fradique Mendes, ilustrando a crônica Cumprindo Ordens, iniciada
com uma referência a Lima Barreto (Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá
ironizando a burguesia, à qual chamava de “essa gente de Petrópolis”, próceres
desta atual “estúpida mania de aristocracia”:
“... em vez de terem escolhido esta existência que daria
ao Brasil uma civilização sua, própria, genuína, de admirável solidez e beleza
– que fizeram os brasileiros? Apenas as naus do senhor D. João VI se tinham
sumido nas névoas atlânticas, os brasileiros, senhores do Brasil, abandonaram
os campos, correram a apinhar-se nas cidades e romperam a copiar
tumultuariamente a nossa civilização européia, no que ela tinha de mais vistoso
e copiável”.
Eça condena o país por ficar apinhado de instituições alheias, “quase contrárias a sua índole e ao seu destino”. E leciona o ainda inalcançado, apenas tentado recentemente: “No dia ditoso em que o Brasil, por um esforço heróico, se decidir a ser brasileiro, a ser do novo-mundo – haverá uma grande nação. (...) pode contar com um soberbo futuro histórico, desde que se convença que mais vale ser um lavrador original do que um doutor mal traduzido do francês”.
E ilustramos naquele texto: O instante vivido pelo país – a partir de parcela de sua gente – não permite outra visão que não a de Lima Barreto há 100 anos e a de Eça de Queiroz – mais vivo que nunca – apenas substituindo o ‘francês” por ‘estadunidense’, Paris e Londres por Miami e Disneylandia.
Quando Eça de Queiroz e Lima Barreto pontificaram
nem mesmo poder-se-ia sonhar com o que representa o Brasil como celeiro, como detentor
de reservas minerais e parcela considerável do ouro mineral ora chamado de “terras
raras”.
Ao caro e paciente leitor deste
escriba de província a leitura em torno do que quis dizer o presidente Luiz
Inácio da Silva.
Caso o pretenda, sob análise geopolítica.
domingo, 15 de março de 2026
Basta olhar em volta
“Aquele que não consegue mais distinguir entre o
bem e o mal perdeu a própria humanidade” (Dietrich Bonhoeffer)
Por tudo que temos acompanhado sob égide de tragédias humanas e a busca por explicá-las tem se acomodado sobre postulados em que a maldade (o Mal) surge como a resposta mais plausível, e mesmo inquestionável. Porém, ao observador, ao mais curioso e indagador, não deixa de ser assustador descobrir que entre os que o refletem não são os destituídos de informação, de escolaridade, de ambientes socialmente toleráveis etc.
Efetivamente nos chama a
atenção (no plano da incompreensão): ver a narrativa (sucedâneo contemporâneo do
fato concreto) também defendida (às vezes de forma exaltada!) por pessoas
inteligentes, bem informadas, educadas, religiosas (mesmo sob viés piegas), pais amorosos,
professores, advogados, médicos, clérigos, pregadores do Evangelho etc. etc.
colaborando com sistemas destrutivos que negam os mais elementares princípios e
conceitos de Humanidade e Civilização.
O que hoje vemos (e convivemos mais e
mais) foi observado pelo teólogo, filósofo e pastor luterano alemão Dietrich
Bonhoeffer (1906-1945) – no anteceder do processo que se materializou no
nazismo. O filósofo alemão não via nessa gente “fanáticos ou monstros, mas
cidadãos comuns, vizinhos gentis, cultos, mas defendendo ideias violentas com
firmeza e convicção absolutas”.
Tal fato despertou a sua análise e o
levou a uma conclusão por demais inquietante: o verdadeiro perigo não residia
apenas na maldade humana, mas na incapacidade de pensar de forma independente e
crítica quando sob pressão de forças coletivas.
Abstraindo em torno do observado por Dietrich
Bonhoeffer há quase um século, quando o rádio apenas ensaiava enfrentar a imprensa
escrita, cabe observar o quanto efetivamente presente se faz em nós em
decorrência de uma percepção oriunda de nós mesmos ou apenas absorvidas sem
nossa efetiva percepção.
Não custa, diante desta realidade
insofismável, compreender de imediato que não seria a incapacidade intelectual
ou inteligência – aspecto cômodo para nos fazer fugir de enfrentar o problema –
porque na raiz do fenômeno pode estar a estupidez que ameaça a sociedade não em
sua dimensão individual, mas coletiva aprofundada sob o fenômeno da pressão. E
essa pressão, em nível coletivo, faz sucumbir qualquer possibilidade de
enfrentamento, muito menos, sob parâmetros da dialética hegeliana, do diálogo clássico
entre opostos (tese-antítese) para alcançar uma conclusão (síntese) uma vez que
tal já chega pronta e acabada. Ou seja, tudo não decorre da limitação mental, mas do
enfraquecimento do pensamento crítico diante de estruturas sociais (coletivo) e
muitas produzidas e desenvolvidas por sistemas de poder (inclusive religioso).
Eis a razão por que pessoas
inteligentes e mesmo preparadas intelectualmente podem enveredar por caminhos
da estupidez quando deixam de exercitar a capacidade voltada para o julgamento
próprio (fruto da dialética) porque deixaram de pensar por si mesmos e repetem
comodamente o lugar comum oferecido pelo ambiente em todas as suas dimensões,
lançando às calendas a reflexão como instrumento de liberdade e autonomia. E na
esteira o “consenso” ocupa o espaço da “consciência” e passa ao largo do
refletir levando de roldão o questionar como virtude para dar lugar ao risco de
ameaça. Então a estupidez surge como fenômeno de natureza coletiva invisível e
nisso a origem da obediência como aliada siamesa do conformismo humano.
Caro e paciente leitor, não custa
trazer as observações do alemão ao dia a dia contemporâneo, instrumentalizado
para coagir muito mais que ao tempo dele utilizando-se dos meios de comunicação
de massa (rádio em cada quilômetro, reproduzindo a partir de uma ideia ou lugar
comum centralizada), aparelho(s) de televisão em cada casa quando não em cada
cômodo de uma casa, celulares e quejandos outros acessados por adultos e
crianças transmitindo a conformação da natureza coletiva a cada segundo.
O que se vê não traz em nenhum
instante a massificação de uma mensagem de amor e solidariedade, de
fraternidade como instrumentos de liberdade para o homem. De que viver em paz e
reconhecer e respeitar o outro nos faz presentemente vivos.
Que diga o leitor se algo há além da
massificação da estupidez multiplicada ao cubo a partir de uma idiotice a
serviço e em defesa do poder pelo poder voltado para subsumir o outro aos seus
interesses. Porque, “em verdade vos digo”, se não entendermos, descobrir e
utilizar nossa inteligência para a evolução da espécie, inclusive reconhecermos
que não somos a única espécie inteligente no universo, permaneceremos sob o
domínio do ter (Mal) em detrimento e retardando a vocação do Ser em nós.
Por fim, diante dessa ‘massa’ sem futuro
no presente, porque foge do agora como elemento concreto para ser alterado, estarrecido
lemos que professora foi recomendada a não receber presentes de alunos; que
outro não aceita cumprimentos ou elogios, especialmente mulheres; que crianças,
muitas, não respondem a um sorriso ou elogio.
Eis porque caminhamos céleres para o
conflito generalizado, onde o sorriso substituído pelo ranger de dentes e o
abraço pelo empurrão.
No mais, basta olhar em volta, com cuidado,
como o de não vestir vermelho ou cobrir-se com as cores do arco-íris. Como na terra e no tempo observado por
domingo, 1 de março de 2026
Abundância
Este escriba de província deu de
correr alguns poucos quilômetros dentro deste Brasil. Nem um milhar dentre os
milhões. Claro que, coerentemente, movido pela convicção de que somente viajará
para o exterior depois de conhecer o Brasil (ou seja, o torrão de qualquer parte do território nacional) declina e continuará declinando de buscar vistos
em seu passaporte para o Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, razão por
que ‘deu de descambar’ da Bahia ao Espírito Santo, e alcançou um lugar chamado
de Santa Tereza.
Em lá chegando (este escriba provinciano
ainda valoriza o gerúndio sem saber se é doença contagiosa capaz de rivalizar
com a tal Mpox que se aproxima) não se bastou em conhecer montanhas e a
experiência italiana que ali proliferou como vaidosamente o afirmam os
moradores como “primeira colonização” da gente da terra da bota no Brasil sob
auspícios do Imperador D. Pedro II, e se viu balouçando(!) não em rede
nordestina, mas no vicioso hábito da leitura em torno do qual se imagina
sobrevivente, embalado sob as liras de Virgílio (em suas Geórgicas), de Voltaire
(e seu Dicionário Filosófico), vibrando nos intervalos com Wilson Lins, Cid
Teixeira, Gustavo Falcón e Maria Alba Machado Mello (por meio de Coronéis e
Oligarquias) e muito riu reencontrando uma bissexta edição comercial de humor
de uma empresa reunindo de Ziraldo a Claudius, de Juarez a Zélio, passando por
Maurício de Souza e Rafael entremeados por textos de Chico Anísio e Stanislaw Ponte Preta (vox
populi, vox....wagen).
Mas aqui não tem como refletir em torno de tudo que leu, de tudo que reaprendeu, de tudo que riu. Apenas concluir a partir de parte do que lhe chamou a atenção, folheando aquele François-Marie Arouet (1694-1778), apátrida pelas circunstâncias em muitos instantes, profética e textualmente muito atual nesta terra brasilis quando debruçado sobre o verbete ‘Vida’:
“[...] Há
propriedades evidentes da matéria, cujo princípio jamais será conhecido por
nós. O da sensibilidade, sem a qual não há vida, é e será ignorado como tantos
outros.
Podemos viver
sem experimentar sensações? Não. Suponhamos uma criança que morreu depois de
ter estado sempre em letargia; ela existiu, mas não viveu.
Suponhamos,
porém, que um imbecil que nunca teve ideias complexas e que tenha tido
sentimentos; certamente viveu sem pensar; só teve as ideias simples
provenientes de suas sensações.
O pensamento é
necessário à vida? Não, porquanto esse imbecil não pensou e viveu.
Disso alguns
pensadores deduzem que o pensamento não é a essência do homem; afirmam que há
muitos idiotas que não pensam e que são homens, e tanto são homens que fazem
homens, sem jamais poder elaborar um raciocínio.
Os doutores que
julgam pensar respondem que esses idiotas tem ideias fornecidas por suas
sensações. Os pensadores ousados lhes replicam que um cão de caça, que aprendeu
muito bem seu ofício, tem ideias muito mais coerentes e que é muito superior a
esses imbecis. [...]”
Sem pretender estabelecer
conflitos de ideias e confrontos (naturais aos que ocupam microfones e telas de
televisão em programas onde se autodenominam fonte de análise da conjuntura contemporânea)
volvamos aos detalhes/provocações dos primórdios do verbete:
“[...] A vida é
organização com capacidade de sentir. Assim é que dizemos que os animais têm
vida. [...]”
E concluímos dizendo: e sendo
animais – os que integramos a espécie homo sapiens(?) – desenvolvemo-nos
para o avanço seletivo além do racional e criamos em nós os irracionais, tendo estes
alcançado sucesso como uma subdivisão da espécie, fruto de aperfeiçoamento mundo a fora e muito
fortemente encastelados neste Brasil, onde a raridade de domínio considerável
do espectro permeia a representação política, que deu de acolher e ampliar a
subdivisão expressa no singular processo de evolução.
Como fonte de pesquisa para
distinguir uma espécie de outra recomendamos ao caro e paciente leitor
acompanhar sessões do Poder Legislativo em diferentes espaços do país – em
nível municipal, estadual, federal e distrital – com direito à pós graduação através
de sessões de Comissões do Congresso Nacional.
Com a possibilidade concreta de
dispor de um primoroso orientador logo ali, ao dobrar a esquina, já que estamos
abundados de mestres e doutores publicando “teses” em celulares e quejandos
tais.