“Os donos do mundo precisam que você odeie alguém. Pode ser o imigrante,
o comunista, o capitalista, o terrorista... qualquer um serve, desde que você
não perceba quem são os verdadeiros ladrões.” (Eduardo Galeano)
Deveras preocupante o atual estágio
da “cultura da certificação”: retrato desta época. Particular tese deste
escriba de província atribui muito (e bote muito nisso!) da estupidez contemporânea
ao que denomina de cultura da certificação, ou seja, o certificado/diploma
em si supera em absoluto o saber conscientemente adquirido, oriundo do domínio da
informação, que independe de certificação, mas de leitura, debate,
dialetização, etc.
E eis que nos alcançamos, como
observador deste momento histórico, como vítima desta ‘modernidade’. Em nível
pátrio não deixa de ser mais uma jabuticaba: campanha eleitoral em tempo de
rádio e televisão sem debate (de ideias) onde presentes estejam todos os
candidatos. Porque a razão do debate (projeto político/ideias) deixou de ter cunho político
para corresponder ao que dele imagina o jornalismo “certificado”. E dói a quem tem
mais de dois neurônios ouvir alguns singulares exemplos de toupeiras “certificadas”
como oráculos de Delfos (assim se imaginam) salivando baboseiras, algumas vezes
expelindo veneno, tamanho o ódio destilado. (As serpentes se sentem agredidas em sua essência, porque são mais puras: possuem
veneno, mas não o utilizam por ódio).
O que começa por uma singular razão,
natural à terra brasilis: detentores do controle dos meios de
comunicação (mais uma vez) utilizando-se do sistema radioeletrônico para
manipular o resultado eleitoral passam a estabelecer “narrativas” como verdade
do que muitas vezes não foi dito.
Mas, reconheçamos: desde o clássico
último debate da Globo em 1989 (Lula x Collor) – marco zero depois da ditadura
militar – certamente não vimos o que ora vemos. E sem a classe dos Carlos
Lacerda de antigamente.
Por tal viés caminhamos na velocidade
da luz para o precipício. Materializado no domínio da pauta eleitoral não por
propostas (e domínio e credibilidade em torno delas) mas por aquilo que “pauta”
a mídia para constituir a verdade para corresponder ao interesse particular em
jogo.
Muito a propósito, a “vontade” e o
“desejo” de quem controla a emissora fazendo das suas sob a propaganda de que
promove um encontro da democracia (deles, naturalmente).
Em meio a isso a tentativa de esconder do cidadão/eleitor verdades escancaradas. E o patético levado à “narrativa” deste ou daquele que a manuseia conforme o seu interesse e – diga-se não de passagem – para corresponder aos interesses através do qual o país e sua gente, como nação (que os define ente soberano e autônomo), são apenas derréis-de-mel-coado augurando retorno às senzalas. O que, infelizmente, não é fato novo; apenas agravado!
E espocam denúncias de que
determinado candidato está envolvido até a boca com ladroagem; um juiz diz que
não. Mas – de repente não mais que de repente – já é o juiz que está
envolvido até a tampa com o candidato envolvido etc. etc.; mas a mídia diz que
não!
Diante do que vimos (os que tiveram
coragem para perder seu tempo e ouvir mais agressões do que sugestões e
projetos) uma indagação: debate de quê? Para quê?
Muito mais reitera nível de briga em puteiro de
antigamente (“É a mãe! É a sua!”), que nos perdoe o caro e paciente leitor
deste escriba de província.
Até que apareça alguém com um pau de
lenha para fazer justiça. Porque justiça para muita gente é matar (por “achar” –
a propósito, o substantivo acha é sinônimo de pau de lenha) – não porque
provado, mas por muito se “acharem” ilibados cidadãos detentores dos códices da justiça
privada “certificada” e amparada no ordenamento jurídico contemporâneo sob
inspiração de Talião), como fizeram recentemente com aquele rapaz no Rio de
Janeiro.
E, como lembra Galeano, enquanto você
agride esconde o ladrão.
E mais tal quadro se agrava quando a
instância máxima de julgamento do país se oferta “ao debate” através de alguns
de seus “certificados” membros, cada um com torcida cativa em meio aos "certificados" da mídia.
Mas, no campo da certificação como a
definimos, a augusta instância será assunto (e que assunto!) para o próximo texto.
Até lá!