Decididamente essa terrinha de
São Saruê tem coisas como as que deram de chamar “jabuticabas”, porque não
frutificam em outras paragens. Fruta nossa, coisa específica assim como
‘emendas pix’ – instrumento de que se valem alguns legisladores para gastar
dinheiro do povo sem prestação de contas – único sistema no mundo onde o Poder
Executivo deixa de ‘executar’ o orçamento e transfere ao legislador esta
inusitada dimensão executiva para ser efetivada às escondidas.
Mas a sociedade, tutelada sob
cutelo da ordem legal, tem suas peças no plano da organização social por meio
da representação dos diversos estamentos, cada um defendendo o seu pirão mesmo
que isso ofenda as mais comezinhas regras de isonomia.
Um deles – comendo mingau quente
pelas beiradas – se propõe a ser a voz e defensor de tudo, de todos e
fiscalizador também de tudo e de todos, como típico arauto (ou oráculo?) da
realidade que expressa como verdade, ainda que não o seja. E por meio de
introjeção no inconsciente coletivo repete à exaustão o que entende como
“verdade” e faz com que parcela considerável de seus leitores e ouvintes a
admita.
Espaços – cada um em seu quadro
específico – que expõem aspectos da vida social e que revelam ‘verdades’ que
parecem pouco interessar aos arautos da imprensa, a não ser para atingir o que
não seja conveniente ao sistema que os sustenta e custeia.
De singular o tratamento dado a
presidiários, por exemplo. Direitos previstos em lei exaltados para um deles em
especial. A massa de presos – que supera nove centenas de milhares no país –
vive em condições sub-humanas, para não se dizer inumanas, parte encarcerada em
celas (mais de 700 mil) – reconhecida como a terceira maior população carcerária do planeta.
Os presídios não os conhecemos
como lugar de visitas, a não ser àquelas obrigadas pelas circunstâncias.
Albergando os que violaram a lei e ali estão para cumprir uma pena como forma
de reeducá-los, vivendo vinte e quatro horas entre quatro paredes de uma cela e
uma grade como acesso visual para o exterior, expresso no corredor que acomoda
a todos no coletivo de individualidades.
O mais terrível para o vil mortal
que vive no presídio é o isolamento social com o exterior. Visitas determinadas
periodicamente horários definidos e mais nada além de comer, dormir e trabalhar
quando permitido.
Mas, em meio a tantas mazelas,
eis que a terrinha de São Saruê lança aos quatro ventos do universo uma singularidade:
a cela como QG eleitoral, que se tornou comitê político-partidário autorizado por
ministro do STF, escolhendo o residente, inclusive, quem deva a ela comparecer
sob seu convite referendado pela Corte para discutir o futuro do país. Porque
já não basta saída para hospital, assistência de dois médicos diariamente,
visitas íntimas a qualquer instante etc. etc. etc. Inclusive, ao que parece,
dispensa do uniforme de presidiário!
Não consideremos a visita de
padre(s) católico(s) ao evangélico prisioneiro(?) como estranha porque os
pecados – quem os tem – podem exigir intervenção de vários credos.
O próximo passo, pelo caminhar da
carruagem – como estamos para ingressar no período de propaganda eleitoral – em
defesa da liberdade de pensamento, muito possível uma solicitação para falar e
conclamar à nação – através de rede nacional de rádio e televisão – a eleger a
continuidade da dinastia.
Com efusivos aplausos da mídia e
suas verdades.
E há quem fale mal do Ministro
Alexandre de Morais por tanto “torturar” o residente!