“Aquele que não consegue mais distinguir entre o
bem e o mal perdeu a própria humanidade” (Dietrich Bonhoeffer)
Por tudo que temos acompanhado sob égide de tragédias humanas e a busca por explicá-las tem se acomodado sobre postulados em que a maldade (o Mal) surge como a resposta mais plausível, e mesmo inquestionável. Porém, ao observador, ao mais curioso e indagador, não deixa de ser assustador descobrir que entre os que o refletem não são os destituídos de informação, de escolaridade, de ambientes socialmente toleráveis etc.
Efetivamente nos chama a
atenção (no plano da incompreensão): ver a narrativa (sucedâneo contemporâneo do
fato concreto) também defendida (às vezes de forma exaltada!) por pessoas
inteligentes, bem informadas, educadas, religiosas (mesmo sob viés piegas), pais amorosos,
professores, advogados, médicos, clérigos, pregadores do Evangelho etc. etc.
colaborando com sistemas destrutivos que negam os mais elementares princípios e
conceitos de Humanidade e Civilização.
O que hoje vemos (e convivemos mais e
mais) foi observado pelo teólogo, filósofo e pastor luterano alemão Dietrich
Bonhoeffer (1906-1945) – no anteceder do processo que se materializou no
nazismo. O filósofo alemão não via nessa gente “fanáticos ou monstros, mas
cidadãos comuns, vizinhos gentis, cultos, mas defendendo ideias violentas com
firmeza e convicção absolutas”.
Tal fato despertou a sua análise e o
levou a uma conclusão por demais inquietante: o verdadeiro perigo não residia
apenas na maldade humana, mas na incapacidade de pensar de forma independente e
crítica quando sob pressão de forças coletivas.
Abstraindo em torno do observado por Dietrich
Bonhoeffer há quase um século, quando o rádio apenas ensaiava enfrentar a imprensa
escrita, cabe observar o quanto efetivamente presente se faz em nós em
decorrência de uma percepção oriunda de nós mesmos ou apenas absorvidas sem
nossa efetiva percepção.
Não custa, diante desta realidade
insofismável, compreender de imediato que não seria a incapacidade intelectual
ou inteligência – aspecto cômodo para nos fazer fugir de enfrentar o problema –
porque na raiz do fenômeno pode estar a estupidez que ameaça a sociedade não em
sua dimensão individual, mas coletiva aprofundada sob o fenômeno da pressão. E
essa pressão, em nível coletivo, faz sucumbir qualquer possibilidade de
enfrentamento, muito menos, sob parâmetros da dialética hegeliana, do diálogo clássico
entre opostos (tese-antítese) para alcançar uma conclusão (síntese) uma vez que
tal já chega pronta e acabada. Ou seja, tudo não decorre da limitação mental, mas do
enfraquecimento do pensamento crítico diante de estruturas sociais (coletivo) e
muitas produzidas e desenvolvidas por sistemas de poder (inclusive religioso).
Eis a razão por que pessoas
inteligentes e mesmo preparadas intelectualmente podem enveredar por caminhos
da estupidez quando deixam de exercitar a capacidade voltada para o julgamento
próprio (fruto da dialética) porque deixaram de pensar por si mesmos e repetem
comodamente o lugar comum oferecido pelo ambiente em todas as suas dimensões,
lançando às calendas a reflexão como instrumento de liberdade e autonomia. E na
esteira o “consenso” ocupa o espaço da “consciência” e passa ao largo do
refletir levando de roldão o questionar como virtude para dar lugar ao risco de
ameaça. Então a estupidez surge como fenômeno de natureza coletiva invisível e
nisso a origem da obediência como aliada siamesa do conformismo humano.
Caro e paciente leitor, não custa
trazer as observações do alemão ao dia a dia contemporâneo, instrumentalizado
para coagir muito mais que ao tempo dele utilizando-se dos meios de comunicação
de massa (rádio em cada quilômetro, reproduzindo a partir de uma ideia ou lugar
comum centralizada), aparelho(s) de televisão em cada casa quando não em cada
cômodo de uma casa, celulares e quejandos outros acessados por adultos e
crianças transmitindo a conformação da natureza coletiva a cada segundo.
O que se vê não traz em nenhum
instante a massificação de uma mensagem de amor e solidariedade, de
fraternidade como instrumentos de liberdade para o homem. De que viver em paz e
reconhecer e respeitar o outro nos faz presentemente vivos.
Que diga o leitor se algo há além da
massificação da estupidez multiplicada ao cubo a partir de uma idiotice a
serviço e em defesa do poder pelo poder voltado para subsumir o outro aos seus
interesses. Porque, “em verdade vos digo”, se não entendermos, descobrir e
utilizar nossa inteligência para a evolução da espécie, inclusive reconhecermos
que não somos a única espécie inteligente no universo, permaneceremos sob o
domínio do ter (Mal) em detrimento e retardando a vocação do Ser em nós.
Por fim, diante dessa ‘massa’ sem futuro
no presente, porque foge do agora como elemento concreto para ser alterado, estarrecido
lemos que professora foi recomendada a não receber presentes de alunos; que
outro não aceita cumprimentos ou elogios, especialmente mulheres; que crianças,
muitas, não respondem a um sorriso ou elogio.
Eis porque caminhamos céleres para o
conflito generalizado, onde o sorriso substituído pelo ranger de dentes e o
abraço pelo empurrão.
No mais, basta olhar em volta, com cuidado,
como o de não vestir vermelho ou cobrir-se com as cores do arco-íris. Como na terra e no tempo observado por