“Foi
bonita a festa, pá
Fiquei contente
Ainda guardo renitente
Um velho cravo para mim
Canta
primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar”
Sei, também, como é preciso
Navegar, navegar”
(Chico Buarque, “Tanto Mar”/1978)
Ainda
por ser percebida a dimensão do que realmente aconteceu no segundo turno das
eleições presidenciais de 2026. Muitos atribuirão à importância, inédita, da
reversão de um resultado do primeiro turno; outros dimensionarão a impactante
redução de abstenções, votos brancos e nulos entre um e outro turnos; ainda, a
participação de parcela da sociedade – à frente uma juventude aguerrida como há
muito não se via nestes 41 anos desde a Nova República. Ao final, a descoberta
pelo candidato vitorioso do que representa a modernidade de redes sociais
quando bem utilizadas, abrindo caminho para a confissão de que sem o povo ao
lado o governo não vai a lugar nenhum.
No
entanto, não nos ficam os fatos acima relatados; mas a razão por que de haverem
acontecido e – o mais profundo – a dimensão que em si representam para a
História do país, que soava acomodado sob profunda letargia, entoando “deitado
eternamente em berço esplêndido”.
Despertou
neste escriba de província não a impactante redução de abstenções, votos
brancos e nulos; mas quem o ator vivo e atuante dessa redução. Porque, adiante nos
debruçamos, não ocorreu apenas isso, como muitos o vemos no imediato do plano
da superficialidade.
Chamou-nos
a atenção as cenas que marcaram a busca pelas urnas por eleitores. Não só
idosos centenários (ou quase), cadeirantes, milhares de índios a pé por
estradas, navios-gaiolas, barcos e canoas pelos rios, jovens tetraplégicos.
Simplesmente, parcela de gente carregada ou amparada nos braços por parentes,
amigos, vizinhos escancarando no sorriso largo uma alegria como há muito não se
via neste país a não ser comemorando vitória, não tentando-a.
Para
os que atravessamos oito décadas de vida, ou dela nos aproximamos, de imediato
nos vieram dois instantes da história do país, nestes últimos 50 anos, por seus
significados: a campanha de Ulisses Guimarães como anticandidato nas eleições
de 1974, amparado no imortalizado e antológico motivo fernando-pessoano “Navegar
é preciso, viver não é preciso” (Mar Português) e, dez anos depois, na campanha
das Diretas Já, que precipita a derrocada da ditadura militar. E, em meio a
isso – caro e paciente leitor – a saudade como sonho de Chico Buarque, em Tanto
Mar, de 1975 (censurada pela ditadura) – com a versão que lhe deu em 1978 – ansiando
por uma revolução dos cravos liderada por alguma nordestina que se chamasse Celeste
Caeiro, e que houvesse por esta terra brasilis uma Rádio Renascença
tocando “Grândola, Vila Morena (“o povo é quem mais ordena”).
Eis
aí, caro e paciente leitor deste escriba de província, o registro para história
de quem viveu o segundo turno das presidenciais de 2026: não foi o resultado,
mas o que dele deriva – como lição e motivação – como declaração viva de que uma
nação se faz com aquela parcela que acreditou, confiou e foi às urnas – e irá
sempre – quando em risco conquistas cívico-políticas e lega para os pósteros uma
lição aos que dela divergem (mensagem ao Congresso recém-eleito) de que, como
o afirmou Castro Alves: "A praça! A praça é do povo / Como o céu é do
condor".
Por meios diversos a oportunidade
foi escancarada por uma Rádio Renascença chamada povo brasileiro e cabe ao
governo reeleito entender a mensagem.