domingo, 9 de agosto de 2020

Aposta com a vida alheia quando “não é momento para isso”

 Evidentemente o que – técnica e formalmente – seria chamado de governo do inquilino do Alvorada, apenas no quesito combate ao Covid-19, há muito está à deriva. A aposta política, copiando o deus que idolatra (Trump) deu errado. E ficamos naquela de termos visto o jogador apostar o dinheiro que deveria entregar ao credor e perdeu tudo. Só que no caso do jogador há uma dimensão moral que não vemos no inquilino: de, pelo menos, arrepender-se de haver apostado ou introjetar nos limites de sua consciência o cometido.

Reportagem da Piauí, repercutida em comentário de Cruvinel publicado no 247, mostra a quantas anda o ‘jogo’ neste Brasil perdido nas águas turvas em que se encontra a piscina democrática.


“Reportagem da revista Piauí, divulgada nesta quarta-feira (5), destaca que Jair Bolsonaro teria comunicado a ministros militares que iria designar tropas para fechar o Supremo Tribunal Federal (STF), no dia 22 de maio, após o ministro Celso de Mello pedir parecer à Procuradoria-Geral da República (PGR) sobre uma possível apreensão dos telefones celulares do ex-capitão e do filho, Carlos Bolsonaro.  ‘Vou intervir’, teria dito Bolsonaro na ocasião.

   

“Bolsonaro queria mandar tropas para o Supremo porque os magistrados, na sua opinião, estavam passando dos limites em suas decisões e achincalhando sua autoridade. Na sua cabeça, ao chegar no STF, os militares destituiriam os atuais onze ministros. Os substitutos, militares ou civis, seriam então nomeados por ele e ficariam no cargo ‘até que aquilo esteja em ordem’, segundo as palavras do presidente”, diz a reportagem assinada pela jornalista Monica Gugliano. 


A ideia de intervir no STF foi feita uma reunião com os ministros militares Walter Braga Neto (Casa Civil), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional. A decisão teria sido bem recebida por Luiz Ramos, mas Braga Netto e o general Heleno teriam argumentado o contrário. ‘Não é momento para isso’, teria dito o ministro do GSI”.

Somente tal fato acontecendo em ‘repúblicas de banana’ para não repercutir como deveria. Por que assim indagamos? Por uma razão elementar: em jogo a democracia ou o que dela nos resta em nível de fachada. Tanto que, para o general, a pretensão é concreta: mantê-la é uma questão de tempo e de oportunidade.

O que nos cabe registrar transita entre um e outro fato – neste final de semana em que superamos 100 mil óbitos vinculados ao Covid-19: apostam com a vida alheia quando “não é momento para isso”.

Em suas pretensões o inquilino do Alvorada – assim nos parece – parece enxergar benefícios diante de tantas mortes, porque os vivos beneficiados pela tragédia através de programas sociais podem reconhecer nele o salvador de que necessitam.

Então chegará o “momento”.

Quando restarão os que forem vacinados (se não faltarem seringas – alerta da OMS).

Certamente não os povos indígenas, que caminham para a extinção, iniciada com o enterro de quase uma dezena de seus chefes (Carta Capital).

domingo, 2 de agosto de 2020

Cumpre-nos começar a rezar... pelas mortes a que estamos nos acostumando

Este escriba de província não se faz adepto dos que apelam a Deus para que não ocorra o que não é culpa d’Ele. A grandeza e bondade divinas – caso pudessem ser sopesadas – residem justamente no fato de nos haver dotado de um detalhe que nos torna sapien sapiens: entender e raciocinar em torno do que somos, do quê e do porquê fazemos, das consequências por fazê-lo, a compreensão de que sabemos o que sabemos. Ou seja, nos legou o livre arbítrio, a capacidade e a consciência de escolha em torno do que queremos e desejamos. 

Obviamente este “querer” nisso que chamam de Civilização não pode ser entendido restritivamente. Aí estão – de líderes religiosos a líderes políticos – os que conseguem impressionar e conduzir outrem a segui-los, a neles acreditar, a mesmo por eles matar e odiar o semelhante.

Em nível de Brasil as coisas estão a agravar-se. Não se afirme que por termos governantes que se espelham em quem não devia ser exemplo. Talvez aí também a razão por que o país caminha a passos céleres para um desastre humanitário sem precedentes. Mas não somente isso: a indiferença à dimensão de catástrofe vai ocupando as mentes. Aqui, como ali, em quem nos espelhamos. A pandemia não mais assusta. Está apenas matando.

Em sede de moradia do Covid-19 o Brasil vive o clima oferecido ao vírus nos Estados Unidos: por lá os dados não permitem falar em onda primeira, segunda etc.; é onda sobre outra. Nelas o vírus surfa a cavalheiro.

Em 22 de março (aqui), tomado de indignação registrávamos:


“Na Itália programam deixar morrer os idosos acima de 80. Aqui, não necessários os octogenários, nonagenários etc., porque os pobres e desvalidos de sempre estão dispensados de qualquer programação. Apenas engrossarão as covas rasas dos cemitérios, longe das estatísticas oficiais.

 

Porque por aqui não há necessidade de medidas oficiais que ampliem o obituário. Não nos faltam peças (in)significantes da classe dominante para – mesmo sabendo estar portador do Covid-19 colocar seus amigos de São Paulo no mesmo jatinho e vir infectar a gente humilde de Trancoso, em Porto Seguro.

 

A pandemia que assusta o planeta corre por estas plagas montada no alazão chamado ‘perversidade’, orientado por ginete chamado ‘incompetente’.”

Os que afirmam havermos alcançado o denominado platô – o pico, o máximo – que nos levaria à redução de infectados e mortos não encontram amparo para afirmação. Para alcançarmos o primeiro milhão de infectados levamos cerca de quatro meses; em apenas 27 dias (menos de mês) mais que dobramos aquele número. Mantida a média, precisaremos não mais que 22 dias para alcançarmos outro milhão e de menos disso para dobramos os atuais pouco mais de dois milhões. Na esteira o número de mortos. Em 17 de maio (Dia seguinte II) registrávamos haver passado de mil óbitos diários. 70 dias depois a média mantém-se, encorpando-se para 1.100.

Um mês antes, no dia 19 de abril (aqui), comentamos em torno do patético apelo do governador da Bahia pedindo o óbvio. Naquele espaço publicado parte de mensagem lida pelo prefeito de Entre Rios-RJ, tomando por base orientações do Ministério da Defesa, onde sinalizada a preocupação com a disponibilidade (não de hospitais) de “cemitérios, sepulturas e capacidade de sepultamentos diários”.

No dia 12 do mesmo abril (aqui) havíamos registrado:


O mundo continua apreensivo exigindo medidas restritivas à circulação de pessoas como instrumento imediato para evitar contágio. O Brasil tinha, neste domingo, 22.169 casos confirmados e 1.223 mortes pelo Covid-19 (avanço, em um dia, de mais 1.442 novos casos e 99 mortes). Na segunda, 6 de abril, tínhamos, respectivamente, 11.281 e 487. Ou seja, em seis dias praticamente dobraram os casos confirmados e quase triplicadas as mortes. Caso mantidas as atuais restrições à locomoção e considerando o período de risco concreto, que pode ir ao início de junho, ao final das próximas duas semanas (final de abril), mantida a projeção acima, poderemos registrar mais de 60 mil confirmações de contágio e o risco de ultrapassarmos 5 mil mortes.”

Pois é caríssimo leitor: naquele dia 6, início de abril, tínhamos em torno de 11.200 casos e 487 mortes, dobrados os casos de infecção e triplicadas as mortes em apenas uma semana transcorrida. E alertávamos para o risco de cinco mil óbitos logo, logo. Já estamos à beira das vinte vezes mais em apenas 100 dias percorridos de lá para cá.

Assim, os que estamos preocupados desde o final de março vemos assustadoramente o trilhar do Covid-19 no lar que se tornou para ele ideal, esmerado à perfeição. Em quatro meses o quadro mais se agrava. Dantesco.

Nada temos a dizer, porque tudo que dissermos se torna cansada repetição. Reconheçamos que a pequenez anestesiou o país e tornou habitual e normal o que evidentemente não o é. A indiferença está a vencer pelo cansaço e pela teimosia. São tantas as mortes nesta terra brasilis (de fome, de bala em confrontos com a polícia, de quadrilhas entre si, de índios, de negros e pobres de periferias, de doenças outras etc.) que nos habituamos a ela e alguns milhares mais começam pouco a dizer. E assim será em relação ao Covid-19 até que surjam os efeitos de uma vacinação em massa.

O mês de julho fechou com mais de 92 mil mortes. Mais de um terço delas apenas no juliano. Em menos de uma semana ultrapassaremos as 100 e, pelo andar da carruagem – considerando que a média de infecção já supera as 50 mil diárias – “ninguém segura este país”. 

Nos próximos três meses mais que dobraremos o número de infectados para alcançarmos entre 7,5 a 8 milhões e elevaremos o número de mortes ao nada glorioso patamar de 200 mil. E, se não houver vacina, o Natal de 2020 será de choro e lamentação para cerca de 270 mil famílias.

Diante do dantesco que se nos acomete cabe-nos implorar por orações.

Não para que Deus interceda em relação ao que nunca legou. Nem mais para que nos livremos do mal que nós mesmos causamos, aceitamos e a ele nos tornamos indiferentes.

Mas pelos mortos... que não podem falar.


domingo, 26 de julho de 2020

No reino da hipocrisia com as calças na mão exibe-se Simba

O registro passado, neste dominical, punha em evidência o desgaste por que passa a imagem dos militares encampando posturas em nada condizentes com seu papel institucional. Trilhamos por vertentes como a da defesa de guerra contra país estrangeiro, subserviências e aparelhamento no governo e, por sua postura ideologizada, o perfil de partido político.

O ex-Ministro das relações Exteriores e da Defesa, Celso Amorim, observa  em entrevista a Mino Carta, da Carta Capital  sua preocupação com a guinada levada a termo pelo ensaiado Plano de Defesa, uma vez que a dissuasão através da contribuição diplomática sempre norteou a postura brasileira em suas ações no continente e que a pretensão atual expressa claramente a transferência para as Forças Armadas em dimensão de intervenção, o que lança às calendas os caminhos pacíficos na condução da política externa para a América do Sul abrindo as portas para uma intervenção armada onde entendam os militares necessária para conter riscos ao país.

Antes a Política de defesa não falava em “riscos de conflitos” e agora explicita o raciocínio de crises e tensões no “entorno estratégico” do Brasil.

Análise do colunista Paulo Celso Rocha de Barros, de O Estado de São Paulo, repercutido no 247, observa uma outra dimensão (que alimenta nosso pensar em nível de desgaste):


"O capitão do Exército Jair Messias Bolsonaro foi acusado de planejar explodir bombas em unidades militares no Rio de Janeiro. E quem os militares, que haviam demonstrado moderação e respeito à democracia por quase 30 anos, resolveram lançar para presidente quando a oportunidade de eleger alguém surgiu?"

E conclui:


"Ao que parece, Bolsonaro finalmente conseguiu realizar seu objetivo de juventude: colocou uma bomba nos quartéis"

Um outro aspecto remete-nos a compreender que o pensamento militar que norteia apoio às políticas do atual governo, incluindo a ocupação e o aparelhamento do Estado por militares (também da ativa) em funções civis, os pegou com as calças na mão.

Em tempos como os de hoje, bastante diversos da ocupação ocorrida a chicote por força do golpe de 1964 e o golpe dentro do golpe de 1968 (AI-5), quando até falar que Castelo Branco tinha pescoço de tartaruga poderia levar aos porões de tortura, a atualidade é bem diversa haja vista o exercício da comunicação via internet.

Não fora isso o nepotismo ensaiado (o que sabemos) por um general (que não está sozinho na prática) para assegurar a presença de sua filha em função do governo nunca chegaria ao conhecimento geral, tampouco a pressão surgida com a denúncia levaria aos resultados atuais: a desistência, tão grande o desgaste.

Não bastasse, todos passamos a saber que os militares passam a se beneficiar de penduricalhos originados de normas trazidas pelo inquilino (aqui) e de interpretação da Advocacia-Geral da União. Aposentam-se, inclusive, com remuneração integral.

Sob o cariz da ideologia todas as mazelas por que passam as finanças públicas encontraram sempre os culpados de plantão: políticos, servidores públicos civis, judiciário. Caso fossemos menos hipócritas acrescentaríamos os gastos com as forças militares, parte considerável delas esperando por uma guerra.

Para percepção do que representam em nível de custo-benefício (não esqueçamos, esperando por uma guerra), trazemos anotações do Jornal Contábil:

 

Os militares representam hoje metade dos gastos da Previdência entre o funcionalismo público, embora representem apenas 31% do quadro. Os dados são do último Relatório de Acompanhamento Fiscal, divulgado pela Instituição Fiscal Independente, do Senado Federal.

De acordo com o estudo, dedicado especialmente à reforma da Previdência, hoje são gastos R$ 43,9 bilhões com pensões e aposentadorias para cerca de 300 mil militares e pensionistas, enquanto a União despende R$ 46,5 bilhões para 680 mil servidores do regime civil. É o caso da pensão por morte ficta, paga antecipadamente às famílias dos militares que são expulsos das Forças Armadas por terem cometido crimes”.

De certa forma, como outros são os tempos, e a tecnologia permitindo acesso a informações inimagináveis, começamos a perceber que muitos estão sendo pegos com as calças nas mãos. Para alguns, como os militares, no entanto, não há como ir além de dois caminhos: recusar ou aceitar. A segunda opção tende a aprofundar-se.

Não sabemos até quando a possibilidade que hoje dispomos de encontrar informações que permitem analisar e avaliar a realidade há de ser relegada à discussões de botequim, apaixonadas.

Enquanto assim agirmos – sempre encontrando no outro que não pense como eu o culpado perfeito – viveremos naquele reino da hipocrisia. Ainda que com as calças na mão.

E para não perdermos o clima salivando nos deleitamos com a exibição de Simba ao reino animal.


domingo, 19 de julho de 2020

Próximos passos depois de caídas as máscaras

Fôssemos dado à fanfarronices e à busca por louros vazios diríamos neste instante que os militares leram nosso artigo anterior, quando levantamos críticas à existência de uma tropa na ativa à espera de uma guerra. Eis que nos espantamos com o noticiado: Brasil se prepara para a guerra e preferencialmente contra a Venezuela. (Brasil 247)

Nada mais canhestro. A Paz sempre norteou a história recente do Brasil em sua dimensão diplomática.

Mas estamos prestes a retomar a subserviência de colonizado. Do mesmo modo que sacrificamos milhares de brasileiros (em especial negros e pardos) na guerra que encetamos contra o Paraguai de Solano Lopez e nos demos ao galardão de praticamente liquidar a população masculina, visto que 94% dela sucumbiu. A barbárie é tal que na Batalha de Acosta Ñu tivemos a grandeza de matar, como soldados paraguaios, adolescentes entre 9 e 15 anos, acompanhados por mulheres e crianças de 6, 7 e 8, última batalha de uma ‘guerra que já havia acabado’, como o dissera Caxias ao Imperador Pedro II. (BBC).

Fizemos uma guerra para atender aos interesses da Inglaterra, que se via atingida em seu poderio industrial diante de um Paraguai que já dispunha de uma indústria bélica e de uma indústria naval que ensaiava fazer concorrência aos ingleses.

O brasileiro que aplaude o inquilino do Alvorada e muito provavelmente será uma de suas ‘buchas de canhão’ nunca leu (até porque por aquilo que às vezes escutamos, uma parcela não alcança dois neurônios) em torno do quão criminosos fomos em relação ao Paraguai. O Duque de Caxias recusou comandar a aniquilação da gente paraguaia, tanto que coube ao Conde D’Eu a infausta e inglória tarefa. Quem pretender se inteirar um pouquinho sobre o crime que praticamos recomendamos a leitura de “Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai”, de Julio José Chiavenatto (Brasiliense, 1979). 

A propósito – já que nossos militares estão a falar em guerra como se fosse brinquedo, sem que haja a mínima ameaça ao país – cumpre trazer do relato de Chiavenatto o seguinte, sobre o inglória Batalha de Los Niños (como a nomina o Paraguai), “símbolo mais terrível da crueldade dessa guerra”, no dia 16 de agosto de 1869, quando 20 mil aliados comandados pelo Brasil (com rifles que alcançavam 500 metros) combateram cerca de 3.500 paraguaios (armas com alcance máximo de 50 metros):


"As crianças de 6 a 8 anos, no calor da batalha, aterrorizadas, se agarravam às pernas dos soldados brasileiros, chorando, pedindo que não os matassem. E eram degoladas no ato"

Nunca imaginamos que as Forças Armadas brasileiras se voltassem para um projeto que somente interessa a um Estado estrangeiro. Seremos o boi de piranha para eles. O motivo de que precisa Trump para mover a guerra que ele sabe hoje inconveniente para os soldados estadunidenses.

Alguns dos nossos chefes militares parecem demonstrar uma escondida pretensão: a de casta. Em meio à crise não lhes faltou uma “boquinha” para ampliar o soldo. E sonham com uma guerra. Serão remunerados em dólar? Certamente não. O militar que por lá está (como pau mandado dos Estados Unidos) é pago por nós outros.

Caminhamos – sob a omissão de toda uma sociedade, com esparsas reações – para nos tornarmos um protetorado estadunidense e nossos militares a sua guarda pretoriana.

Se nada mudar quem viver verá. E não tardará. Basta que Trump se reeleja.

Uma parcela do pensamento militar certamente não vê quão desonrosa tal função. Sonha com um convite para uma palestra em instituição estadunidense de categoria nenhuma e – quem sabe? – uma medalha qualquer para ostentar na lapela.

Essa gente perdeu o pudor, deixou escancarar sua vocação vassala, sem direito a um pedaço de terra como ocorria no feudalismo. Para ela uma honraria servir o colonizador.

E como – lembramos na coluna anterior, o absurdo como precedente – ora vivemos a singular ocupação do Brasil por uma potência estrangeira promovida por suas próprias Forças Armadas. Tornadas tão somente ‘força auxiliar’ dos Estados Unidos.

Não se desespere, apenas se prepare caro leitor. O próximo passo é lançar o brasileiro na linha de frente de uma guerra sem qualquer sentido.

Seriedade é o que se exige do exercício da função militar em sua dimensão profissional razão por que envolver-se em questiúnculas de política partidária não condiz com seu mister. Cabe-lhe como instância maior da defesa do país se constituírem no centro de unidade nacional e nunca corresponder a este ou aquele cariz ideológico, isto sim, inerente aos partidos políticos.

Estamos a reconhecer que a máscara caiu. Nossas Forças Armadas consolidam o triste raciocínio de que não são em essência uma instituição à qual caberia a defesa da soberania nacional e para tanto nela confiávamos; tornou-se um partido político armado com dinheiro do povo para aniquilar o povo.

A imagem que as Forças Armadas sempre tiveram perante o imaginário está sendo destroçada. Não há como não atrela-las aos desmandos do inquilino do Alvorada. Até porque peças de sua composição se fizeram aliadas dele e o promoveram.

Ainda que não queiramos crer que o pensamento militar haja aderido à bizarrice em que nos tornamos como país, o que o torna um apêndice ideologizado, para quem duvidar que se tornou partido político esqueça o leitor até o lamentável papel desempenhado na história recente do país e observe o número de militares encastelados em cargos civis, cerca de 2% de seu efetivo superando atualmente a fatia de 6,2 mil (GGN). Para que não esqueçamos que o toma lá dá cá não se efetiva só com o Centrão.

Diziam que o PT aparelhara o Estado. O que fazem as ‘gloriosas forças armadas’? Provar que o uso do verbo ‘aparelhar’ tem seu significado aplicado somente para o adversário, como sói ocorrer na propaganda político-partidária.

As Forças Armadas ainda não tomaram a iniciativa. Mas não custa promover o arrebanhamento de assinaturas para registro de seu partido oficial na Justiça Eleitoral.

Mais consentâneo com a democracia que temos. 


domingo, 12 de julho de 2020

Cozendo o galo em meio ao absurdo como precedente

Pense num absurdo na Bahia há precedente. Atribui-se o dito a Otávio Mangabeira há mais de 70 anos. Mas, considerando o que acontece no país do inquilino do Alvorada é o Brasil não mais o ‘país do futuro’ de Stefan Zweig, e sim o país do absurdo em permanente busca por precedentes.

Não afirmemos que tudo tenha origem na capacidade de abstrair do inquilino. Até porque nos instantes em que convocado a fazê-lo não demonstrou apetência para o mister. Mas não podemos deixar de reconhecer a condução da realidade, ao seu alvitre – ou de quem o manipule/comande – em momentos como os que vive.

Acossado por denúncias sempre encontra uma forma de desviar a atenção, de jogar o real problema para o escanteio. Então os ‘precedentes’ atropelam a realidade e escancaram o que nos tornamos.

E na esteira de cada ‘precedente’ tudo vai dando certo.

Estamos a findar a primeira quinzena de julho. Judiciário em recesso. Iniciativas que dependem do STF aguardarão agosto para seguimento. Nesse meio tempo assume o STJ quem pode aliviar as agruras do inquilino no affair Queiroz, a ponto de, como suspeitavam alguns – e se confirmou – levá-lo a uma prisão domiciliar e à revogação da ordem para a mulher foragida.

Um dos alvos do inquilino é o STF. Colocá-lo sob controle. E aí o presidente do STJ, na fila para mostrar serviço, na agonia para se antecipar nos ‘agrados’ esqueceu que negara recentemente sete pedidos de habeas corpus fundados no risco de os pacientes presos contraírem coronavírus e repensando sua argumentação anterior decide em contrário e libera Queiroz e a mulher da prisão e os remete à domiciliar.

Acha pouco o leitor? Ele que negou exibir exames em que constariam estar infectado pelo Covid-19 (buscando proteção mesmo no Judiciário para não exibir exames) de uma hora para outra vem a público confessar que está infectado. E para não perder o mote exercita seu lado de charlatão (mais um absurdo) e de garoto propaganda para indicar medicamento que o mundo todo reconhece ineficaz para o Covid-19.

Em meio a pancada por todo lado vai navegando leve e solto para consumar seus objetivos.

E como estamos falando em absurdo, que vai se tornando lugar comum, eis um outro, muito especial, guardado sob sete capas, com idade da República. Falar no assunto leva o indigitado ao paredão e fuzilamento com todos os adjetivos. 

Tendo como premissa a melhora na utilização das receitas públicas levantam-se teorias em torno de como reduzir despesas para equilibrar as chamadas contas públicas no jargão denominado de equilíbrio fiscal: suprimir as desnecessárias, no primeiro instante, e equacionar as imprescindíveis.

E aí entra a indagação: para que servem as forças armadas como instituição com quadros permanentes na ativa quando não vivemos tempos de guerra? Não seria mais lógico que existissem para a proteção da soberania e preparada para ‘quando’ viesse tal a ocorrer? Por que manter um ativo que supera 300 mil homens para comer e dormir esperando uma guerra?

Pois é, caro leitor: eis um país que mantém um efetivo de centenas de milhares de homens custeados pelo povo em bilhões de reais à espera de uma guerra? Cujos aposentados custam ao erário 17 vezes mais que os gastos com os do INSS, como denuncia o GGN.

Mais uma das castas que oneram esta terra brasilis ao lado de Judiciário, Congresso, Assembleias Legislativas e Câmaras de Vereadores, alto coturno do serviço público. Não que não devessem perceber bem. Mas não podem fazê-lo em detrimento do restante da sociedade que os sustenta, inclusive.  

São os nossos bastidores, que poucos percebem e muito menos a grande imprensa divulga.

Dirão que é coisa de comunista. Mas mentem, em sua crítica, Marx, Engels e Lênin em torno de um Estado em que as instituições estão a serviço de interesses de grupos?

Mas nos acostumamos com este Brasil, cozendo o galo em meio ao “absurdo” como precedente.


domingo, 5 de julho de 2020

‘Confesso que vivi’ e vi

Do chileno Pablo Neruda (1904-1973) – morto no imediato da tragédia que se abateu sobre o Chile (doze dias depois do 11 de setembro de 1973)  – a publicação póstuma “Confesso que vivi”. Nela relata em seu último capítulo (morreu enquanto ainda o escrevia) a amargura das esperanças destruídas pela violência do golpe militar que derrubou Salvador Allende. A dor de quem via sua pátria aviltada, sacrificada na pira das ambições e interesses. 

Vivemos nós – escriba de província – a cada dia que passa, a cada acontecimento, a cada absurdo, em profundo estágio de desencanto. Não porque nos falhe a esperança, a capacidade de lutar. Mas por percebermos que não cabe, à realidade nesta terra brasilis da atualidade, a moral expressa na fábula do passarinho que sozinho carreia no bico água para apagar o fogo que devora sua floresta. Não, não vemos o fazer sua parte sem que haja uma consciência em que se sustentar. E essa consciência residiria na confiança nas instituições, onde permeadas de homens. Afastadas algumas honrosas exceções nos defrontamos com o que há de mais iníquo e sórdido. Um país de surrealismo tal que até a morte criminosa se torna coisa comum e banal, tão natural a tornaram.

Eis que, ultrapassados os 74 anos de vida podemos ‘confessar que vivemos’. No curso destes anos acompanhando avanços e retrocessos. E por tal vivência comparar com o que ora vemos. 

Aos nove anos despertamos naquela manhã de agosto com a zoada de feira-livre, a cidade sob o clamor do choro uníssono “Getúlio Vargas morreu!”. Não compreendíamos, como hoje, o que ocorrera em sua dimensão política. Como também não compreenderíamos à época as razões por que tantas substituições no Catete até que assegurada a posse de Juscelino Kubitschek, período de singular alegria no país (incluindo o primeiro Mundial da Seleção), mas atribulado com duas revoltas da Aeronáutica (Aragarças e Jacareacanga). Vivemos as crises que levaram ao Parlamentarismo, ao Plebiscito, ao golpe civil-militar, a implantação da ditadura e sua queda formal (quando pudemos votar pela primeira vez para presidente da República já aos 43 anos de idade), a Constituinte arrumada, a denominada redemocratização, governos entreguistas e nacionalistas etc. Vivemos instantes de bonança, instantes de fastio.

Aprendemos em torno da tentativa de potentados de ocuparem plenamente esta terra abençoada, a busca incessante por tomar suas riquezas, controlar o seu povo. Desde os idos dos 20 no século passado, quando a Inglaterra, no período Bernardes, tentou tomar o Banco do Brasil e o Lóide Brasileiro. 

Um século ultrapassado de idas e vindas, mas, pelo menos, não sabíamos da ação nefanda de agentes públicos custeados pelo dinheiro nosso de cada dia em dimensão tão grave.

O estágio a que chegamos – em nível da atuação de instituições do Estado – demonstram à sorrelfa que não mais dispomos de um país, mas de um empório sem gerência, onde qualquer um encontra meios de ser servido.

Não mais a intervenção ocorre de fora para dentro mas no âmago de instituições que deveriam – por delimitação constitucional – defender o país como Estado independente. E, o mais grave, o que ocorre intencionalmente por parte de alguns decorre da não menos criminosa omissão de outros.

A mais recente não pode alimentar esperanças: instituições brasileiras em conluio com agências governamentais dos Estados Unidos minando nossa soberania e destruindo o que dispúnhamos. Agentes brasileiros da Procuradoria da República (sem descurar de seus superiores), Polícia Federal, Magistrados federais formando uma quadrilha para assaltar o país em benefício alheio.

Assim, já não confirmado apenas o uso de parcela do Ministério Público Federal, Judiciário federal e Polícia federal para atuação político-eleitoral. Também em crimes de traição à pátria. Por muito menos (por tentar) a Coroa Portuguesa enforcou Tiradentes.

Vida que vai...

Cada um vive também o seu Vietnã. Com 64 mil mortos em quatro meses de ‘harmoniosa’ convivência com o Covid-19 cá estamos a ultrapassar os 58 mil estadunidenses na guerra do Vietnã em nove anos. Aqui sem bombas de napalm.

                      

O napalm tupiniquim é outro. Aquele que Jessé Souza denomina de “A Elite do Atraso”.

Afinal, como dizem senhoras de sua ilustre representação em troca de amenidades (uma delas mulher de um governador de estado) nossos miseráveis que dormem ao relento o fazem porque gostam.

Por tão ilustrado raciocínio a mulher estuprada o é porque gosta, os negros assassinados nas periferias o são porque gostam, a fome existe porque o faminto gosta, índios, sem-terra e sem-teto assassinados o são porque gostam.

Por tal forma de pensar dispensamos repetir Catão – “Delenda est Cartago – porque a Roma está no seio de nossa classe dominante.

Por isso confessamos: vivemos e vimos. 

Inclusive o que nunca imaginamos ver: a amargura das esperanças destruídas pela violência de golpes. 


domingo, 28 de junho de 2020

A boiada de interesses precisa de um boi de piranha

Aquele que se faz cavalgadura por convicção não falta quem sinta a hora apropriada para defenestrá-la do plantão. E as ruas enchem-se de esperança. Uma reedição de manifestações como ‘Diretas Já’ embala ‘sonhos de uma noite de verão’ tupiniquim. Basta o povo nas ruas e tudo estará resolvido. Assim, levemo-lo às praças e as portas se abrirão para a retomada do crescimento com distribuição de renda, redução das desigualdades, justiça social e respeito internacional.

Na esteira de esperanças que afloram em mentes tantas há quem afague a ideia de que o inquilino está prestes a sair. Basta o povo exigir.

Tudo belo, mas não vemos este sonho amparado na plenitude da discussão em torno do dia seguinte a partir do porquê acontecido.

Levantamos senões à tais especulações, porque vemos esperança vã em quem não percebe que a luz que o guiou ao Alvorada ainda não está satisfeita em suas ambições. Porque não vemos ‘como’ acontecer se os motivos que levaram a tudo que passamos ainda são ‘motivos’. Isto afirmamos porque a obra – iniciada em 2016 – não está concluída. Caso contrário será imaginar que todo o elaborado seria desprezado pacificamente e deixado de lado a sua plena realização depois de ‘tanto trabalho’.

Naturalmente, para corresponder aos interesses em jogo, a melhor solução ‘moral’ passaria por afastar o inquilino e elevar o vice Mourão ao estrelato. Afinal – nos quesitos elaborados por quem banca o jogo de interesses – lê na mesma cartilha: aquela referida no texto de domingo passado neste blog – a partir da obra de Manoel Domingos Neto comentada no GGN – qual seja integrar a parcela de militares que se subjugam a uma nação diversa sob o manto da defesa de qualquer coisa que àquela não seja conveniente.

Para os beneficiados – destituídos de qualquer resquício moral, a não o ser o que para eles o é, lucro acima de tudo, não importando o que seja feito para que tal se consume, tampouco o meio de que se valha – cada tropeço do inquilino e cada vexame, nada dizem se continua a efetivar o projeto gestado lá fora com apoio de parte da classe dominante local que explora aqui para gastar lá. Neste trilhar o que nele assusta é a possibilidade concreta de sua megalomaníaca vocação ao absolutismo monárquico levar à interrupção do butim.

Escrevemos o que ora escrevemos para estender além destas linhas a certeza de que muito do que há de esperança panfletada, anunciada, protestada não será consumada no atual estágio caso não se aplaine ou se ajuste àqueles interesses. Começando por um pacto que os mantenha, nos moldes da ‘transição democrática’ conhecida onde o mínimo alcançado resultou em anistia para crimes contra a humanidade.

Tanto isso se confunde com a verdade que a única coisa impossível de acontecer para essa gente é o retorno do PT ao governo aplicando políticas em benefício da sociedade.

Por fim – para coroar o projeto em andamento – uma anistia nas apurações legitimada pelo STF, que se resolve com a protelação de decisões e, em casos de ordem penal, aguardar a prescrição.

Mas, caro leitor, acabamos de registrar: STF. Aí – para nós – o principal nó górdio a ser desatado. Desate que passa por conformar sua composição aqueles interesses. E nesse viés o inquilino tem papel crucial que é indicar membros. Como o PT indicou e o fez em prejuízo próprio e do país  tanto que parcela de suas indicações o escorraçou do poder – o que vem por aí para integrar a Casa consistirá no aperfeiçoamento de interpretações que favoreçam aqueles interesses em todas as searas (privadas, administrativas e políticas).

Sustentamos nossa descrença, alicerçada na profunda desconfiança em relação às instituições desta terra brasilis, a partir do que lemos em textos oriundos de visão progressista. Um deles escancara o que há dias vem sendo sinalizado: uma trégua entre o inquilino e o STF. No contraponto, a grande imprensa (a serviço daqueles interesses) sinaliza a profecia imediata: teria o inquilino sido enquadrado pela prisão de Queiroz e outros, pelo STF. Nem falemos da postura altamente ‘conciliadora’ do Congresso se aproveitamos as declarações do Presidente da Câmara.

O pitbull ficou desdentado, porque enquanto dentes teve rosnou ameaçadoramente. E um de seus alvos favoritos justamente o STF. Que – muito brevemente – para o bem de todos os interesses e felicidade geral dos mesmos – terá a composição dos sonhos. Assim, dentes os tenha, mas não os exiba.

Caso alguém imagine alguma reação, esqueça. Editorial de O Globo – tradicional representante de interesses estranhos aos do país retrata – à perfeição – a realidade: "A prisão de Queiroz pode ter ajudado Bolsonaro a entender que prejudica a si mesmo tentar governar como se tivesse um impossível poder absoluto”.

Ou seja, o recado claro: o inquilino precisa se limitar/compreender que dele nada mais esperam que “tentar governar” dentro do sistema que lá o colocou e que disso não passa a sua ‘honrosa’ missão.

Eis a chave do nó górdio indesatável: o problema não é o inquilino e seu desastroso governo para o país, mas pôr em risco que tal não ocorra.

No mais nos resta, escriba de província que caiu na besteira de aprender a ler e interpretar – para não morrermos calado – vivenciar indignação suficiente a permanecer expressando a profunda tristeza que nos acomete diante da destruição do Brasil, fato que avança nos bastidores aceleradamente enquanto o inquilino do Alvorada vai ocupando sua função de boi de piranha para que a boiada dos ‘interesses’ seja salva.

Há quem enxergue diversamente. O tempo dirá quem tem razão.