domingo, 15 de março de 2026

Basta olhar em volta

 

“Aquele que não consegue mais distinguir entre o bem e o mal perdeu a própria humanidade” (Dietrich Bonhoeffer)

Por tudo que temos acompanhado sob égide de tragédias humanas e a busca por explicá-las tem se acomodado sobre postulados em que a maldade (o Mal) surge como a resposta mais plausível, e mesmo inquestionável. Porém, ao observador, ao mais curioso e indagador, não deixa de ser assustador descobrir que entre os que o refletem não são os destituídos de informação, de escolaridade, de ambientes socialmente toleráveis etc.

Efetivamente nos chama a atenção (no plano da incompreensão): ver a narrativa (sucedâneo contemporâneo do fato concreto) também defendida (às vezes de forma exaltada!) por pessoas inteligentes, bem informadas, educadas, religiosas (mesmo sob viés piegas), pais amorosos, professores, advogados, médicos, clérigos, pregadores do Evangelho etc. etc. colaborando com sistemas destrutivos que negam os mais elementares princípios e conceitos de Humanidade e Civilização.

O que hoje vemos (e convivemos mais e mais) foi observado pelo teólogo, filósofo e pastor luterano alemão Dietrich Bonhoeffer (1906-1945) – no anteceder do processo que se materializou no nazismo. O filósofo alemão não via nessa gente “fanáticos ou monstros, mas cidadãos comuns, vizinhos gentis, cultos, mas defendendo ideias violentas com firmeza e convicção absolutas”.

Tal fato despertou a sua análise e o levou a uma conclusão por demais inquietante: o verdadeiro perigo não residia apenas na maldade humana, mas na incapacidade de pensar de forma independente e crítica quando sob pressão de forças coletivas.

Abstraindo em torno do observado por Dietrich Bonhoeffer há quase um século, quando o rádio apenas ensaiava enfrentar a imprensa escrita, cabe observar o quanto efetivamente presente se faz em nós em decorrência de uma percepção oriunda de nós mesmos ou apenas absorvidas sem nossa efetiva percepção.

Não custa, diante desta realidade insofismável, compreender de imediato que não seria a incapacidade intelectual ou inteligência – aspecto cômodo para nos fazer fugir de enfrentar o problema – porque na raiz do fenômeno pode estar a estupidez que ameaça a sociedade não em sua dimensão individual, mas coletiva aprofundada sob o fenômeno da pressão. E essa pressão, em nível coletivo, faz sucumbir qualquer possibilidade de enfrentamento, muito menos, sob parâmetros da dialética hegeliana, do diálogo clássico entre opostos (tese-antítese) para alcançar uma conclusão (síntese) uma vez que tal já chega pronta e acabada. Ou seja, tudo não decorre da limitação mental, mas do enfraquecimento do pensamento crítico diante de estruturas sociais (coletivo) e muitas produzidas e desenvolvidas por sistemas de poder (inclusive religioso).

Eis a razão por que pessoas inteligentes e mesmo preparadas intelectualmente podem enveredar por caminhos da estupidez quando deixam de exercitar a capacidade voltada para o julgamento próprio (fruto da dialética) porque deixaram de pensar por si mesmos e repetem comodamente o lugar comum oferecido pelo ambiente em todas as suas dimensões, lançando às calendas a reflexão como instrumento de liberdade e autonomia. E na esteira o “consenso” ocupa o espaço da “consciência” e passa ao largo do refletir levando de roldão o questionar como virtude para dar lugar ao risco de ameaça. Então a estupidez surge como fenômeno de natureza coletiva invisível e nisso a origem da obediência como aliada siamesa do conformismo humano.  

Caro e paciente leitor, não custa trazer as observações do alemão ao dia a dia contemporâneo, instrumentalizado para coagir muito mais que ao tempo dele utilizando-se dos meios de comunicação de massa (rádio em cada quilômetro, reproduzindo a partir de uma ideia ou lugar comum centralizada), aparelho(s) de televisão em cada casa quando não em cada cômodo de uma casa, celulares e quejandos outros acessados por adultos e crianças transmitindo a conformação da natureza coletiva a cada segundo.

O que se vê não traz em nenhum instante a massificação de uma mensagem de amor e solidariedade, de fraternidade como instrumentos de liberdade para o homem. De que viver em paz e reconhecer e respeitar o outro nos faz presentemente vivos.

Que diga o leitor se algo há além da massificação da estupidez multiplicada ao cubo a partir de uma idiotice a serviço e em defesa do poder pelo poder voltado para subsumir o outro aos seus interesses. Porque, “em verdade vos digo”, se não entendermos, descobrir e utilizar nossa inteligência para a evolução da espécie, inclusive reconhecermos que não somos a única espécie inteligente no universo, permaneceremos sob o domínio do ter (Mal) em detrimento e retardando a vocação do Ser em nós.

Por fim, diante dessa ‘massa’ sem futuro no presente, porque foge do agora como elemento concreto para ser alterado, estarrecido lemos que professora foi recomendada a não receber presentes de alunos; que outro não aceita cumprimentos ou elogios, especialmente mulheres; que crianças, muitas, não respondem a um sorriso ou elogio.

Eis porque caminhamos céleres para o conflito generalizado, onde o sorriso substituído pelo ranger de dentes e o abraço pelo empurrão.

No mais, basta olhar em volta, com cuidado, como o de não vestir vermelho ou cobrir-se com as cores do arco-íris. Como na terra e no tempo observado por Dietrich Bonhoeffer.


domingo, 1 de março de 2026

Abundância

 

Este escriba de província deu de correr alguns poucos quilômetros dentro deste Brasil. Nem um milhar dentre os milhões. Claro que, coerentemente, movido pela convicção de que somente viajará para o exterior depois de conhecer o Brasil (ou seja, o torrão de qualquer parte do território nacional) declina e continuará declinando de buscar vistos em seu passaporte para o Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, razão por que ‘deu de descambar’ da Bahia ao Espírito Santo, e alcançou um lugar chamado de Santa Tereza.

Em lá chegando (este escriba provinciano ainda valoriza o gerúndio sem saber se é doença contagiosa capaz de rivalizar com a tal Mpox que se aproxima) não se bastou em conhecer montanhas e a experiência italiana que ali proliferou como vaidosamente o afirmam os moradores como “primeira colonização” da gente da terra da bota no Brasil sob auspícios do Imperador D. Pedro II, e se viu balouçando(!) não em rede nordestina, mas no vicioso hábito da leitura em torno do qual se imagina sobrevivente, embalado sob as liras de Virgílio (em suas Geórgicas), de Voltaire (e seu Dicionário Filosófico), vibrando nos intervalos com Wilson Lins, Cid Teixeira, Gustavo Falcón e Maria Alba Machado Mello (por meio de Coronéis e Oligarquias) e muito riu reencontrando uma bissexta edição comercial de humor de uma empresa reunindo de Ziraldo a Claudius, de Juarez a Zélio, passando por Maurício de Souza e Rafael entremeados por textos de  Chico Anísio e Stanislaw Ponte Preta (vox populi, vox....wagen).

Mas aqui não tem como refletir em torno de tudo que leu, de tudo que reaprendeu, de tudo que riu. Apenas concluir a partir de parte do que lhe chamou a atenção, folheando aquele François-Marie Arouet (1694-1778), apátrida pelas circunstâncias em muitos instantes, profética e textualmente muito atual nesta terra brasilis quando debruçado sobre o verbete ‘Vida’:

“[...] Há propriedades evidentes da matéria, cujo princípio jamais será conhecido por nós. O da sensibilidade, sem a qual não há vida, é e será ignorado como tantos outros.

Podemos viver sem experimentar sensações? Não. Suponhamos uma criança que morreu depois de ter estado sempre em letargia; ela existiu, mas não viveu.

Suponhamos, porém, que um imbecil que nunca teve ideias complexas e que tenha tido sentimentos; certamente viveu sem pensar; só teve as ideias simples provenientes de suas sensações.

O pensamento é necessário à vida? Não, porquanto esse imbecil não pensou e viveu.

Disso alguns pensadores deduzem que o pensamento não é a essência do homem; afirmam que há muitos idiotas que não pensam e que são homens, e tanto são homens que fazem homens, sem jamais poder elaborar um raciocínio.

Os doutores que julgam pensar respondem que esses idiotas tem ideias fornecidas por suas sensações. Os pensadores ousados lhes replicam que um cão de caça, que aprendeu muito bem seu ofício, tem ideias muito mais coerentes e que é muito superior a esses imbecis. [...]”

Sem pretender estabelecer conflitos de ideias e confrontos (naturais aos que ocupam microfones e telas de televisão em programas onde se autodenominam fonte de análise da conjuntura contemporânea) volvamos aos detalhes/provocações dos primórdios do verbete:

“[...] A vida é organização com capacidade de sentir. Assim é que dizemos que os animais têm vida. [...]”

E concluímos dizendo: e sendo animais – os que integramos a espécie homo sapiens(?) – desenvolvemo-nos para o avanço seletivo além do racional e criamos em nós os irracionais, tendo estes alcançado sucesso como uma subdivisão da espécie, fruto de aperfeiçoamento mundo a fora e muito fortemente encastelados neste Brasil, onde a raridade de domínio considerável do espectro permeia a representação política, que deu de acolher e ampliar a subdivisão expressa no singular processo de evolução.

Como fonte de pesquisa para distinguir uma espécie de outra recomendamos ao caro e paciente leitor acompanhar sessões do Poder Legislativo em diferentes espaços do país – em nível municipal, estadual, federal e distrital – com direito à pós graduação através de sessões de Comissões do Congresso Nacional.

Com a possibilidade concreta de dispor de um primoroso orientador logo ali, ao dobrar a esquina, já que estamos abundados de mestres e doutores publicando “teses” em celulares e quejandos tais.