domingo, 1 de março de 2026

Abundância

 

Este escriba de província deu de correr alguns poucos quilômetros dentro deste Brasil. Nem um milhar dentre os milhões. Claro que, coerentemente, movido pela convicção de que somente viajará para o exterior depois de conhecer o Brasil (ou seja, o torrão de qualquer parte do território nacional) declina e continuará declinando de buscar vistos em seu passaporte para o Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, razão por que ‘deu de descambar’ da Bahia ao Espírito Santo, e alcançou um lugar chamado de Santa Tereza.

Em lá chegando (este escriba provinciano ainda valoriza o gerúndio sem saber se é doença contagiosa capaz de rivalizar com a tal Mpox que se aproxima) não se bastou em conhecer montanhas e a experiência italiana que ali proliferou como vaidosamente o afirmam os moradores como “primeira colonização” da gente da terra da bota no Brasil sob auspícios do Imperador D. Pedro II, e se viu balouçando(!) não em rede nordestina, mas no vicioso hábito da leitura em torno do qual se imagina sobrevivente, embalado sob as liras de Virgílio (em suas Geórgicas), de Voltaire (e seu Dicionário Filosófico), vibrando nos intervalos com Wilson Lins, Cid Teixeira, Gustavo Falcón e Maria Alba Machado Mello (por meio de Coronéis e Oligarquias) e muito riu reencontrando uma bissexta edição comercial de humor de uma empresa reunindo de Ziraldo a Claudius, de Juarez a Zélio, passando por Maurício de Souza e Rafael entremeados por textos de  Chico Anísio e Stanislaw Ponte Preta (vox populi, vox....wagen).

Mas aqui não tem como refletir em torno de tudo que leu, de tudo que reaprendeu, de tudo que riu. Apenas concluir a partir de parte do que lhe chamou a atenção, folheando aquele François-Marie Arouet (1694-1778), apátrida pelas circunstâncias em muitos instantes, profética e textualmente muito atual nesta terra brasilis quando debruçado sobre o verbete ‘Vida’:

“[...] Há propriedades evidentes da matéria, cujo princípio jamais será conhecido por nós. O da sensibilidade, sem a qual não há vida, é e será ignorado como tantos outros.

Podemos viver sem experimentar sensações? Não. Suponhamos uma criança que morreu depois de ter estado sempre em letargia; ela existiu, mas não viveu.

Suponhamos, porém, que um imbecil que nunca teve ideias complexas e que tenha tido sentimentos; certamente viveu sem pensar; só teve as ideias simples provenientes de suas sensações.

O pensamento é necessário à vida? Não, porquanto esse imbecil não pensou e viveu.

Disso alguns pensadores deduzem que o pensamento não é a essência do homem; afirmam que há muitos idiotas que não pensam e que são homens, e tanto são homens que fazem homens, sem jamais poder elaborar um raciocínio.

Os doutores que julgam pensar respondem que esses idiotas tem ideias fornecidas por suas sensações. Os pensadores ousados lhes replicam que um cão de caça, que aprendeu muito bem seu ofício, tem ideias muito mais coerentes e que é muito superior a esses imbecis. [...]”

Sem pretender estabelecer conflitos de ideias e confrontos (naturais aos que ocupam microfones e telas de televisão em programas onde se autodenominam fonte de análise da conjuntura contemporânea) volvamos aos detalhes/provocações dos primórdios do verbete:

“[...] A vida é organização com capacidade de sentir. Assim é que dizemos que os animais têm vida. [...]”

E concluímos dizendo: e sendo animais – os que integramos a espécie homo sapiens(?) – desenvolvemo-nos para o avanço seletivo além do racional e criamos em nós os irracionais, tendo estes alcançado sucesso como uma subdivisão da espécie, fruto de aperfeiçoamento mundo a fora e muito fortemente encastelados neste Brasil, onde a raridade de domínio considerável do espectro permeia a representação política, que deu de acolher e ampliar a subdivisão expressa no singular processo de evolução.

Como fonte de pesquisa para distinguir uma espécie de outra recomendamos ao caro e paciente leitor acompanhar sessões do Poder Legislativo em diferentes espaços do país – em nível municipal, estadual, federal e distrital – com direito à pós graduação através de sessões de Comissões do Congresso Nacional.

Com a possibilidade concreta de dispor de um primoroso orientador logo ali, ao dobrar a esquina, já que estamos abundados de mestres e doutores publicando “teses” em celulares e quejandos tais.


Nenhum comentário:

Postar um comentário