quinta-feira, 14 de maio de 2026

Lendo Eça de Queiroz e Lima Barreto

 

De certa forma – quando nos envolvemos com análises sobre o Brasil, no quesito soberania sob visão da classe dominante – em muito nos valemos de Eça de Queiroz, sob heterônimo de Fradique Mendes, em missiva a Eduardo Prado (“Cartas”, em Correspondência de Fradique Mendes).

Assim, o caro e paciente leitor deste escriba de província há de encontrar considerações, sob a ótica da oportunidade do texto, em nossos “Amendoeiras de Outono” (romance) e “Portal da Piedade” (crônica), ambos editados pela Via Litterarum.

E a propósito de quê o faz nesse instante, indagará o leitor!

Acompanhamos recente manifestação do Presidente Luiz Inácio da Silva em evento do governo, da qual destacamos aquele ”Ninguém respeita quem não se respeita; ninguém respeita lambe-botas”.

No fundo reproduz lição da experiência secular, ou mesmo milenar se caminhamos até Aristóteles e seu conceito de “justo meio” (tema recorrente em A Ética a Nicômaco e A Ética a Eudemio), porque adstrito à Ética como fenômeno de compreender a Virtude em todas as suas dimensões, em particular – muito a propósito do caso concreto – o fenômeno da acrasia em nível de astheneia, quando avaliado o caráter.

Mas, diante do que nos propomos considerar a partir daquele ”Ninguém respeita...”, recomendamos ao leitor a tradução mais imediata sob o imaginário e inconsciente coletivo: quem muito se abaixa acaba mostrando os fundilhos.

A aí nos apropriamos de Eça de Queiroz/Fradique Mendes, ilustrando a crônica Cumprindo Ordens, iniciada com uma referência a Lima Barreto (Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá ironizando a burguesia, à qual chamava de “essa gente de Petrópolis”, próceres desta atual “estúpida mania de aristocracia”:

“... em vez de terem escolhido esta existência que daria ao Brasil uma civilização sua, própria, genuína, de admirável solidez e beleza – que fizeram os brasileiros? Apenas as naus do senhor D. João VI se tinham sumido nas névoas atlânticas, os brasileiros, senhores do Brasil, abandonaram os campos, correram a apinhar-se nas cidades e romperam a copiar tumultuariamente a nossa civilização européia, no que ela tinha de mais vistoso e copiável”.

Eça condena o país por ficar apinhado de instituições alheias, quase contrárias a sua índole e ao seu destino”. E leciona o ainda inalcançado, apenas tentado recentemente: “No dia ditoso em que o Brasil, por um esforço heróico, se decidir a ser brasileiro, a ser do novo-mundo – haverá uma grande nação. (...) pode contar com um soberbo futuro histórico, desde que se convença que mais vale ser um lavrador original do que um doutor mal traduzido do francês”.

E ilustramos naquele texto: O instante vivido pelo país – a partir de parcela de sua gente – não permite outra visão que não a de Lima Barreto há 100 anos e a de Eça de Queiroz – mais vivo que nunca – apenas substituindo o ‘francês” por ‘estadunidense’, Paris e Londres por Miami e Disneylandia.

Quando Eça de Queiroz e Lima Barreto pontificaram nem mesmo poder-se-ia sonhar com o que representa o Brasil como celeiro, como detentor de reservas minerais e parcela considerável do ouro mineral ora chamado de “terras raras”.

Ao caro e paciente leitor deste escriba de província a leitura em torno do que quis dizer o presidente Luiz Inácio da Silva.

Caso o pretenda, sob análise geopolítica.