Sempre oportuno o expresso por Otávio
Mangabeira: “Pense num absurdo, na Bahia tem precedentes!” Ou seja, o píncaro
do surrealismo não reside na arte, mas coisas que acontecem na Bahia em razão
da irrealidade. Frasista emérito, tido como o “filósofo da baianidade”, compreendia
a sua gente como ninguém e não se dispensou, como sói ao político, tão só cobri-la
de loas: “A Bahia está tão
atrasada que, quando o mundo se acabar, os baianos só vão saber cinco anos
depois”.
O
neologismo trazido como adjetivo ao título diz respeito, pois, ao “absurdo” em
sua dimensão de irrealidade como precedente, muito além dos limites da Bahia de
Octávio Mangabeira.
Assim,
diríamos que o Brasil não está abaianado (porque aqui não nos atemos aos modos
e costumes dos baianos, mas ao atribuído a uma de suas históricas lideranças no
passado), mas ‘mangabeirado’ a partir de tempos inimagináveis no plano do
respeito às instituições.
Não é que a coisa mais e mais se precipita para o inconcebível? Eis que o Ministro da Defesa, não importa o nome – que em si nada representa, por ser passageiro e temporário no cargo por mais que nele demore – e sim o Ministério em si, que é órgão do Estado brasileiro, envia ofício ao Poder Judiciário Eleitoral pedindo explicações em meio aos questionamentos panfletários que publicamente faz do processo eleitoral pelo viés da urna eletrônica sob argumentos(?) como o de estar em risco a soberania nacional. SOBERANIA, caro e paciente leitor – segundo a lente obtusa do ilustre – sob o crivo de um processo eleitoral que, criticável ou não (particularmente o questionamos por negar respeito ao sacrossanto direito à irresignação, ao recurso pela recontagem dos votos) que vem funcionando e elegendo mandatários e legisladores (em todos os níveis) desde 1996, inclusive os atuais, dentre eles o inquilino do Alvorada.
A sua missiva encerra o absurdo de
ameaçar veladamente:
“A todos nós não interessa concluir o
pleito eleitoral sob a sombra da desconfiança dos eleitores. Eleições
transparentes são questões de soberania nacional e de respeito aos eleitores”.
Claro que para o ilustrado subalterno caso
tenha havido o pedido do presidente do país para que um chefe de estado de uma
nação estrangeira intervenha para alterar o possível resultado eleitoral no
Brasil não constitui violação ao princípio da Soberania!...
Mas, voltando à vaca fria: a conclusão
do pleito está sob mira de baionetas e fuzis.
Muito da fábula “O Lobo e o Cordeiro”.
A busca de um motivo para exercício da força como argumento último e absoluto.
Afinal, o que há além da inconsequente e indisciplinada postura de um
subalterno a não ser criar no imaginário da sociedade brasileira a ideia de
fraude eleitoral quando o atual inquilino do Alvorada se afundar no resultado
das urnas, que ora assinala para que ocorra no primeiro turno.
Ou seja, se eu perder não aceitarei o resultado e como não há outro modo de fazê-lo se não através de um golpe vou preparando o terreno para – ‘amparado’ no artigo 142 da Constituição Federal – utilizar as armas para defender a ‘soberania’ nacional!
Qualquer ministro, secretário etc.
exercita competência para o exercício das funções a si delegadas na forma da
lei. Cabe indagar se o dito cujo exercita suas funções ou delas se utiliza para
ferir de morte os princípios democráticos que norteiam a nação brasileira,
dentre eles as eleições regidas por um ordenamento jurídico sancionado pelas
instituições amparado no regime da Constituição e das leis a que sujeito.
Sob este condão, eis a ‘mangabeirada’
sob o absurdo dos absurdos: anúncio antecipado de um golpe de estado para
frustrar o desejo do eleitor.
Pelo andar da carruagem o observador
percebe, com clareza meridiana, que o que está em andamento não é mais a
efetivação ou não de um golpe de estado, mas se dará certo. A cada nova
pesquisa que vai apontando a candidatura do ex-presidente Lula mais vitoriosa e
tendente a liquidar a fatura no primeiro turno intensificam-se os ataques do
inquilino do Alvorada ao processo eleitoral e ao Poder Judiciário no particular
da Justiça Eleitoral. E agora assumida de forma despudorada por um subalterno.
O processo – absurdo para padrões que sustentam uma democracia e um Estado de Direito – se encontra escancarado. Com propaganda institucionalizada e ampliando as bases armadas que venham a sustenta-lo/defendê-lo. Um corredor de contrabando de armas (Itaguaí) está sem fiscalização e uma pequena parcela fanática da sociedade civil se armando para apoiar militares golpistas.
Não esqueçamos – e nos fazemos aqui sob inspiração de Millôr Fernandes – que o golpe militar se sustenta em uma singular constituição, sim: ino Direito Constitucional Militar Imaginado, apoiado em fuzis e baionetas e aprovada e promulgada sob aplausos de todas as classes (naturalmente dominantes) por ele beneficiadas. Inclusive, por justiça, a dos próprios militares, sob rígido respeito à hierarquia, razão por que direito a salmão, botox, viagra, prótese peniana somente para poucos.
Deixemos para outro instante em torno
do ‘todos iguais perante o de sempre’: eleger-se. Sejam o inquilino do Alvorada
e seus apaixonados seguidores, sejam os que pretendem reeleger-se quando se
trata de deputanças federais. A ponto de defenderam absurdo com finalidade
meramente eleitoreira e com prazo de validade estabelecido até o final do ano.
Ali na vizinha Bolívia aquela
ex-presidente interina foi condenada a 10 anos de prisão por ter efetivado um
golpe contra Evo Morales em 2019. (UOL)
Mas, tenha certeza o paciente e
estimado leitor que aqui o ilustre porta-voz do golpe nem mesmo será
repreendido. Talvez até elogiado e condecorado por inventar o golpe previamente
programado e anunciado.
Mesmo porque a corte Eleitoral está pondo os devidos panos quentes para não causar incômodo aos que flertam abertamente com o golpe. A ponto de admitir estender às Forças Armadas parcela do que lhe cabe – por lei – na fiscalização do processo eleitoral (outra mangabeirada!)
Claro que se estivesse pelo menos na
Bolívia estaria processado.
Quando nada interpelado judicialmente
para explicar o porquê de haver se tornado arauto de um golpe de estado.
E dar nome aos bois que pretendem
acompanhar o toque do seu berrante.
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