quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Da "cultura da certificação": retrato desta época

 

“Os donos do mundo precisam que você odeie alguém. Pode ser o imigrante, o comunista, o capitalista, o terrorista... qualquer um serve, desde que você não perceba quem são os verdadeiros ladrões.” (Eduardo Galeano)

 

Deveras preocupante o atual estágio da “cultura da certificação”: retrato desta época. Particular tese deste escriba de província atribui muito (e bote muito nisso!) da estupidez contemporânea ao que denomina de cultura da certificação, ou seja, o certificado/diploma em si supera em absoluto o saber conscientemente adquirido, oriundo do domínio da informação, que independe de certificação, mas de leitura, debate, dialetização, etc.

E eis que nos alcançamos, como observador deste momento histórico, como vítima desta ‘modernidade’. Em nível pátrio não deixa de ser mais uma jabuticaba: campanha eleitoral em tempo de rádio e televisão sem debate (de ideias) onde presentes estejam todos os candidatos. Porque a razão do debate (projeto político/ideias) deixou de ter cunho político para corresponder ao que dele imagina o jornalismo “certificado”. E dói a quem tem mais de dois neurônios ouvir alguns singulares exemplos de toupeiras “certificadas” como oráculos de Delfos (assim se imaginam) salivando baboseiras, algumas vezes expelindo veneno, tamanho o ódio destilado. (As serpentes se sentem agredidas em sua essência, porque são mais puras: possuem veneno, mas não o utilizam por ódio).

O que começa por uma singular razão, natural à terra brasilis: detentores do controle dos meios de comunicação (mais uma vez) utilizando-se do sistema radioeletrônico para manipular o resultado eleitoral passam a estabelecer “narrativas” como verdade do que muitas vezes não foi dito.

Mas, reconheçamos: desde o clássico último debate da Globo em 1989 (Lula x Collor) – marco zero depois da ditadura militar – certamente não vimos o que ora vemos. E sem a classe dos Carlos Lacerda de antigamente.

Por tal viés caminhamos na velocidade da luz para o precipício. Materializado no domínio da pauta eleitoral não por propostas (e domínio e credibilidade em torno delas) mas por aquilo que “pauta” a mídia para constituir a verdade para corresponder ao interesse particular em jogo.

Muito a propósito, a “vontade” e o “desejo” de quem controla a emissora fazendo das suas sob a propaganda de que promove um encontro da democracia (deles, naturalmente).

Em meio a isso a tentativa de esconder do cidadão/eleitor verdades escancaradas. E o patético levado à “narrativa” deste ou daquele que a manuseia conforme o seu interesse e – diga-se não de passagem – para corresponder aos interesses através do qual o país e sua gente, como nação (que os define ente soberano e autônomo), são apenas derréis-de-mel-coado augurando retorno às senzalas. O que, infelizmente, não é fato novo; apenas agravado!

E espocam denúncias de que determinado candidato está envolvido até a boca com ladroagem; um juiz diz que não. Mas – de repente não mais que de repente – já é o juiz que está envolvido até a tampa com o candidato envolvido etc. etc.; mas a mídia diz que não!

Diante do que vimos (os que tiveram coragem para perder seu tempo e ouvir mais agressões do que sugestões e projetos) uma indagação: debate de quê? Para quê?

Muito mais reitera nível de briga em puteiro de antigamente (“É a mãe! É a sua!”), que nos perdoe o caro e paciente leitor deste escriba de província.

Até que apareça alguém com um pau de lenha para fazer justiça. Porque justiça para muita gente é matar (por “achar” – a propósito, o substantivo acha é sinônimo de pau de lenha) – não porque provado, mas por muito se “acharem” ilibados cidadãos detentores dos códices da justiça privada “certificada” e amparada no ordenamento jurídico contemporâneo sob inspiração de Talião), como fizeram recentemente com aquele rapaz no Rio de Janeiro.

E, como lembra Galeano, enquanto você agride esconde o ladrão.

E mais tal quadro se agrava quando a instância máxima de julgamento do país se oferta “ao debate” através de alguns de seus “certificados” membros, cada um com torcida cativa em meio aos "certificados" da mídia.

Mas, no campo da certificação como a definimos, a augusta instância será assunto (e que assunto!) para o próximo texto.

Até lá!