“Para tirar o meu Brasil dessa baderna, só quando o morcego doar sangue
e o Saci cruzar as pernas”. (Bezerra da Silva)
Nestes dias sem registro no espaço
cabe-nos explicar – muito mais revelar – ao caro e paciente leitor deste escriba
de província o que nos ocorreu: em meio a uma enxurrada de acontecimentos,
internos e externos, diante da variedade dos fatos que inspirariam a coluna, de
certa forma nos sentimos como aquele compositor imaginado por Stanislaw Ponte
Preta, para explicar as razões do célebre enredo “Samba do Crioulo Doido”: aquele,
quando em efervescência os sinais de um golpe de extrema direita dentro do
golpe militar que nunca foi de esquerda, ao contrário, de uma direita
histórico-militar que ensaiava a ação da peça desde as teorias desenvolvidas na
Casa das Américas, aprimoradas pelo Departamento de Estado do sempre exaltado
John Kennedy e respaldado pela ‘diplomacia’ de Lincoln Gordon, com proteção
assegurada para possível intervenção armada estadunidense (Operação Brother
Sam) e farto financiamento aos IBADs da vida e aos acólitos locais de sempre (em
nada mudou).
Ilustra a “fina Flor dos Ponte Preta”
que de tanto mexer com a História brasilis para samba-enredo,
quando lhe solicitaram envolvendo a pátria sob a então
“conjuntura atual” pirou de vez.
De lá para cá – lá se vão 60 anos da
composição – buscávamos acompanhar o nosso cotidiano em ano eleitoral, que
naquele 1966 não ocorreria porque, no final do ano anterior, os democratas
que assumiram a missão de proteger o país e seu ditoso povo sob as bênçãos do
slogan Deus, Pátria e Família pela Democracia “democraticamente” exercitaram-na
monocraticamente e, com punho de ferro a caneta, baixaram um AI-2 – não confundir
com inteligência artificial – cancelando as eleições programadas por lei
para aquele ano.
Antes que o indague a caro e paciente
leitor deste escriba de província o que faz ali o 2 cabe explicar a razão por
quê: o segundo AI para acompanhar o sonhar de inspiração democrática que
norteara o primeiro com singular iniciativa de expressar o
reconhecimento aos valores democráticos vigentes e com uma canetada deu poderes
de exceção ao Poder Executivo para eleger indiretamente o presidente da
república (com letra minúscula mesmo, revisor!), cassar mandato dos ainda
eleitos pelo povo por dez anos – e para não perder o rebolado, ministros do STF, professores universitários etc. etc.
Pois é caro e paciente leitor: muita
gente, dos ainda vivos – porque daqueles anos todo mundo morto,
alguns desaparecidos por conta própria, outros suicidados etc. etc. – repete os
motivos do enredo que enlouqueceu o personagem pontepretano. E deixou este
escriba quase a requisitar o SUS para internamento.
Na parte superior do hemisfério a
mesma gente conspirando – reconheça-se, mais a descoberto – com inusitado apoio
interno, também mais descoberto ainda, amparado em singular civismo: discursos
inflamados de desconhecimento da realidade histórico-política; mesma natureza de
agentes políticos (leia-se, dirigentes) de outros países vindo a terrinha de
São Saruê meter o bedelho (vulgo big stick para os da casa!) na política
interna, agressão ao dirigente local com efusivos aplausos de parte dessa
singular nova elite política que passou a constituir um nada singular cotidiano.
Às vésperas de um momento da história político-eleitoral, em que interesses do além alinhados com alguns daqui, passou-nos pela mente as crises de 1954, 1955 (incluindo Jacareacanga e Aragarças, em 1956 e 1959), 1961 e 1964, sem descurar de 2005, 2013/2014, 2016, 2023. Definitivamente os tempos não mudaram; foram atropelados.
No entanto, algo no presente se faz
significativo de piora na doença que acomete esta parcela: a burrice e a
ausência de projetos por parte de muitos, além do histórico entregar.
Apenas uma diferença para este
escriba de província: o nível dos discursos de uma parcela em um e outro
instante – caso assim possamos denominar – o atual (diferente do anterior, de intelectual
expressar) beira o ridículo, a insanidade, a estupidez e a ignorância em todos
os níveis! Enaltecidos por uma plebe ignara (obrigado, Stanislaw!) que de tudo
se vale muito e muito contribui para a ópera bufa mal escrita! Se é que quem a
edita sabe ler e escrever.
A propósito do nível – não bastasse a
cultura linguística de comentaristas e figuras nada bissextas do rádio e
televisão – augusta personalidade de uma alta corte referindo-se a “jaez”
aproveitou os holofotes e lascou um “essa” (‘essa’ jaez) para não perder a
oportunidade de exibir erudição. E circulou a inovação: o substantivo masculino
agraciado/antecedido com o demonstrativo no feminino, gerando uma locução adjetiva ou substantiva
indicativa de espécie singular, ainda que alguém com dois neurônios de estudo
utilizaria deste. Supimpa!...
Para alguns falta a Brother Sam.
E para não dizer que não falei de
flores, até mesmo um candidato foi filiado a outro partido quando já com a candidatura
encaminhada a registro por outro! Quiá-quiá-quiá-quiá gargalharia debochado alguém
no boteco de fim de rua de subúrbio implorando por ouvir mais uma do filósofo
Bezerra da Silva.