sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Filosofia

 

“Para tirar o meu Brasil dessa baderna, só quando o morcego doar sangue e o Saci cruzar as pernas”. (Bezerra da Silva)

 

Nestes dias sem registro no espaço cabe-nos explicar – muito mais revelar – ao caro e paciente leitor deste escriba de província o que nos ocorreu: em meio a uma enxurrada de acontecimentos, internos e externos, diante da variedade dos fatos que inspirariam a coluna, de certa forma nos sentimos como aquele compositor imaginado por Stanislaw Ponte Preta, para explicar as razões do célebre enredo “Samba do Crioulo Doido”: aquele, quando em efervescência os sinais de um golpe de extrema direita dentro do golpe militar que nunca foi de esquerda, ao contrário, de uma direita histórico-militar que ensaiava a ação da peça desde as teorias desenvolvidas na Casa das Américas, aprimoradas pelo Departamento de Estado do sempre exaltado John Kennedy e respaldado pela ‘diplomacia’ de Lincoln Gordon, com proteção assegurada para possível intervenção armada estadunidense (Operação Brother Sam) e farto financiamento aos IBADs da vida e aos acólitos locais de sempre (em nada mudou).

Ilustra a “fina Flor dos Ponte Preta” que de tanto mexer com a História brasilis para samba-enredo, quando lhe solicitaram envolvendo a pátria sob a então “conjuntura atual” pirou de vez.

De lá para cá – lá se vão 60 anos da composição – buscávamos acompanhar o nosso cotidiano em ano eleitoral, que naquele 1966 não ocorreria porque, no final do ano anterior, os democratas que assumiram a missão de proteger o país e seu ditoso povo sob as bênçãos do slogan Deus, Pátria e Família pela Democracia “democraticamente” exercitaram-na monocraticamente e, com punho de ferro a caneta, baixaram um AI-2 – não confundir com inteligência artificial – cancelando as eleições programadas por lei para aquele ano.

Antes que o indague a caro e paciente leitor deste escriba de província o que faz ali o 2 cabe explicar a razão por quê: o segundo AI para acompanhar o sonhar de inspiração democrática que norteara o primeiro com singular iniciativa de expressar o reconhecimento aos valores democráticos vigentes e com uma canetada deu poderes de exceção ao Poder Executivo para eleger indiretamente o presidente da república (com letra minúscula mesmo, revisor!), cassar mandato dos ainda eleitos pelo povo por dez anos – e para não perder o rebolado, ministros do STF, professores universitários etc. etc.

Pois é caro e paciente leitor: muita gente, dos ainda vivos – porque daqueles anos todo mundo morto, alguns desaparecidos por conta própria, outros suicidados etc. etc. – repete os motivos do enredo que enlouqueceu o personagem pontepretano. E deixou este escriba quase a requisitar o SUS para internamento.

Na parte superior do hemisfério a mesma gente conspirando – reconheça-se, mais a descoberto – com inusitado apoio interno, também mais descoberto ainda, amparado em singular civismo: discursos inflamados de desconhecimento da realidade histórico-política; mesma natureza de agentes políticos (leia-se, dirigentes) de outros países vindo a terrinha de São Saruê meter o bedelho (vulgo big stick para os da casa!) na política interna, agressão ao dirigente local com efusivos aplausos de parte dessa singular nova elite política que passou a constituir um nada singular cotidiano.

Às vésperas de um momento da história político-eleitoral, em que interesses do além alinhados com alguns daqui, passou-nos pela mente as crises de 1954, 1955 (incluindo Jacareacanga e Aragarças, em 1956 e 1959), 1961 e 1964, sem descurar de 2005, 2013/2014, 2016, 2023. Definitivamente os tempos não mudaram; foram atropelados.

No entanto, algo no presente se faz significativo de piora na doença que acomete esta parcela: a burrice e a ausência de projetos por parte de muitos, além do histórico entregar.

Apenas uma diferença para este escriba de província: o nível dos discursos de uma parcela em um e outro instante – caso assim possamos denominar – o atual (diferente do anterior, de intelectual expressar) beira o ridículo, a insanidade, a estupidez e a ignorância em todos os níveis! Enaltecidos por uma plebe ignara (obrigado, Stanislaw!) que de tudo se vale muito e muito contribui para a ópera bufa mal escrita! Se é que quem a edita sabe ler e escrever.

A propósito do nível – não bastasse a cultura linguística de comentaristas e figuras nada bissextas do rádio e televisão – augusta personalidade de uma alta corte referindo-se a “jaez” aproveitou os holofotes e lascou um “essa” (‘essa’ jaez) para não perder a oportunidade de exibir erudição. E circulou a inovação: o substantivo masculino agraciado/antecedido com o demonstrativo no feminino, gerando uma locução adjetiva ou substantiva indicativa de espécie singular, ainda que alguém com dois neurônios de estudo utilizaria deste. Supimpa!...

Para alguns falta a Brother Sam.

E para não dizer que não falei de flores, até mesmo um candidato foi filiado a outro partido quando já com a candidatura encaminhada a registro por outro! Quiá-quiá-quiá-quiá gargalharia debochado alguém no boteco de fim de rua de subúrbio implorando por ouvir mais uma do filósofo Bezerra da Silva.


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