Não sabemos se antecipado o futuro no
presente ou se agravado no instante. Mas, se profecia o é o caro e paciente
leitor deste escriba de província o dimensione, como introdução, com o texto do
jornalista e escritor Antônio Lopes, no Jornal Agora (extinto), que integra o
livro “Buerarema Falando Para o Mundo” (Letra Impressa, 1999, p. 90):
GERAÇÃO
DE IMBECIS
Pesquisadores
norte-americanos (o que é bom para os EUA é bom para o Brasil, não?) anunciam
que, no ano 2000 o, com licença da palavra, telespectador gastará todo o seu
tempo disponível diante da maquininha de ver novela. Teremos, segundo esses
cientistas, uma geração de imbecis, sem leitura, sem informação, sem formação
intelectual, com a TV “pensando” por esses pobres cretinos.
Sei
não, mas a julgar por muitas pessoas que conheço, o futuro já chegou a Itabuna.
(Maio,
1986)
Os nossos botões – que se imaginam
intérpretes – de logo envaidecidos por constatarem uma nova jabuticaba brasileira,
materializada nestes tempos virtuais: o aperfeiçoamento da imbecilidade elevada
ao cubo. Para tanto, não esqueçamos do processo histórico, de que a “maquininha
de fazer novela” de outros tempos difere muito da presente.
A propósito, para ilustrar, aquele
maio de 1986 ainda comentava a novela Roque Santeiro – nome dado na TV à peça
do baiano Dias Gomes, “O Berço do Herói”, que a ditadura militar impedira de
ser levada à telinha na década anterior – que em 209 capítulos entre junho de
1985 e fevereiro de 1986 fizera o país pregar os olhos na TV, e praticamente
fechou a audiência da televisão segundo o ‘augusto’ IBOPE de Carlos Augusto
Montenegro (não falem dele onde Marta Suplicy estiver!) e alcançou, no último
capítulo, 100% dos televisores ligados e 96% de audiência.
A diferença reside entre o ilustrado acima
comparando-o com a mesma ‘telinha’ ora retomando o folhetim. É que no período
que alimentou o estudo estadunidense reverberado por Antônio Lopes (antes de
1986) o caro e paciente leitor ainda dispunha de programas em canais de
televisão com audiência capaz de delimitar horários de encontros e conversas
para “antes ou depois” do(a)...
Ultrapassado um quarto do século XXI (a
fatalidade) – quarenta anos depois – a telinha perdeu espaço e sua programação
sucumbiu ao fato de cada indivíduo dispor de um instrumento para criar e editar
textos, filmes, fotos etc. etc. E o que já se imaginava ruim passou a pior. E
bote pior nisso!
Razão por que não custa o caro e
paciente leitor rever Stephen Hawking: “O maior inimigo do conhecimento não é a
ignorância, é a ilusão do conhecimento”.
Porque, sob “a ilusão do
conhecimento” passamos (afastados nós e o paciente leitor!) a desprezar toda a
Ciência desenvolvida no curso de milênios, levar de roldão a Filosofia, para a afirmação
individual de que a ignorância (como desconhecimento das coisas) não mais cobra
estudar para aprender (e apreender), aprender para conhecer, mas apenas dispor
da tecnologia e dela fazer brotar como conhecimento o que não passe de estupidez.
E não há a menor possibilidade de
presumir-se a existência de uma ideologia (como o estudo ou a ciência das
ideias, antes de superar o clássico entendimento de constituir-se “análise
filosófica”) que norteie e justifique as buscas, hoje vocacionada na síntese de
que todos somos destinados a nos tornar ricos,
meio pelo qual o conhecimento foi lançado à vala e tudo passou a se resumir no
quanto eu ganho (roubando, jogando, pregando – afinal tudo a mesma coisa)
porque para ficar rico basta o “ter”, “possuir”, não precisamos aprender para
conhecer.
Não à toa vivemos um instante que
muitos imaginavam singular e passageiro e descobrimos – para profundo pesar –
que essa é a “civilização” que se nos impõe reconhecer – e em torno dela nos
adaptarmos – até mesmo para física sobrevivência.
Antes a televisão manipulava; hoje
quem tiver a unha (celular) maior é quem sobe na parede. Ainda que não o saiba
cada novo “cientista” que há um “deus” para afirmar a efetivação orwelliana – “Guerra
é paz, Liberdade é escravidão, Ignorância é força” – ‘amenizada pelo huxleyano
“excesso de prazer, entretenimento e alienação” sob o soma.
E os que imaginávamos evoluindo
através do conhecimento vivemos a certeza de que isso, como futuro, foi objetiva
e efetivamente atropelado.
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