segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Futuro atropelado

 

Não sabemos se antecipado o futuro no presente ou se agravado no instante. Mas, se profecia o é o caro e paciente leitor deste escriba de província o dimensione, como introdução, com o texto do jornalista e escritor Antônio Lopes, no Jornal Agora (extinto), que integra o livro “Buerarema Falando Para o Mundo” (Letra Impressa, 1999, p. 90):

 

GERAÇÃO DE IMBECIS

Pesquisadores norte-americanos (o que é bom para os EUA é bom para o Brasil, não?) anunciam que, no ano 2000 o, com licença da palavra, telespectador gastará todo o seu tempo disponível diante da maquininha de ver novela. Teremos, segundo esses cientistas, uma geração de imbecis, sem leitura, sem informação, sem formação intelectual, com a TV “pensando” por esses pobres cretinos.

Sei não, mas a julgar por muitas pessoas que conheço, o futuro já chegou a Itabuna.

(Maio, 1986)

 

Os nossos botões – que se imaginam intérpretes – de logo envaidecidos por constatarem uma nova jabuticaba brasileira, materializada nestes tempos virtuais: o aperfeiçoamento da imbecilidade elevada ao cubo. Para tanto, não esqueçamos do processo histórico, de que a “maquininha de fazer novela” de outros tempos difere muito da presente.

A propósito, para ilustrar, aquele maio de 1986 ainda comentava a novela Roque Santeiro – nome dado na TV à peça do baiano Dias Gomes, “O Berço do Herói”, que a ditadura militar impedira de ser levada à telinha na década anterior – que em 209 capítulos entre junho de 1985 e fevereiro de 1986 fizera o país pregar os olhos na TV, e praticamente fechou a audiência da televisão segundo o ‘augusto’ IBOPE de Carlos Augusto Montenegro (não falem dele onde Marta Suplicy estiver!) e alcançou, no último capítulo, 100% dos televisores ligados e 96% de audiência.

A diferença reside entre o ilustrado acima comparando-o com a mesma ‘telinha’ ora retomando o folhetim. É que no período que alimentou o estudo estadunidense reverberado por Antônio Lopes (antes de 1986) o caro e paciente leitor ainda dispunha de programas em canais de televisão com audiência capaz de delimitar horários de encontros e conversas para “antes ou depois” do(a)...

Ultrapassado um quarto do século XXI (a fatalidade) – quarenta anos depois – a telinha perdeu espaço e sua programação sucumbiu ao fato de cada indivíduo dispor de um instrumento para criar e editar textos, filmes, fotos etc. etc. E o que já se imaginava ruim passou a pior. E bote pior nisso!

Razão por que não custa o caro e paciente leitor rever Stephen Hawking: “O maior inimigo do conhecimento não é a ignorância, é a ilusão do conhecimento”.

Porque, sob “a ilusão do conhecimento” passamos (afastados nós e o paciente leitor!) a desprezar toda a Ciência desenvolvida no curso de milênios, levar de roldão a Filosofia, para a afirmação individual de que a ignorância (como desconhecimento das coisas) não mais cobra estudar para aprender (e apreender), aprender para conhecer, mas apenas dispor da tecnologia e dela fazer brotar como conhecimento o que não passe de estupidez.

E não há a menor possibilidade de presumir-se a existência de uma ideologia (como o estudo ou a ciência das ideias, antes de superar o clássico entendimento de constituir-se “análise filosófica”) que norteie e justifique as buscas, hoje vocacionada na síntese de que todos somos destinados a nos  tornar ricos, meio pelo qual o conhecimento foi lançado à vala e tudo passou a se resumir no quanto eu ganho (roubando, jogando, pregando – afinal tudo a mesma coisa) porque para ficar rico basta o “ter”, “possuir”, não precisamos aprender para conhecer.

Não à toa vivemos um instante que muitos imaginavam singular e passageiro e descobrimos – para profundo pesar – que essa é a “civilização” que se nos impõe reconhecer – e em torno dela nos adaptarmos – até mesmo para física sobrevivência.

Antes a televisão manipulava; hoje quem tiver a unha (celular) maior é quem sobe na parede. Ainda que não o saiba cada novo “cientista” que há um “deus” para afirmar a efetivação orwelliana – “Guerra é paz, Liberdade é escravidão, Ignorância é força” – ‘amenizada pelo huxleyano “excesso de prazer, entretenimento e alienação” sob o soma.

E os que imaginávamos evoluindo através do conhecimento vivemos a certeza de que isso, como futuro, foi objetiva e efetivamente atropelado.

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