domingo, 14 de fevereiro de 2021

Na pátria da hipocrisia uma pá de cal no sonho de democracia

 

Eis-nos diante de um ministro do STF, fisionomia condoída, “perturbado” e querendo entender “como permitimos isso acontecer”, o que “fizemos de errado para que institucionalmente produzíssemos isso, um setor que cria sua própria constituição e opera seguindo seus sentimentos de justiça”.

O posto no primeiro parágrafo colhemos de Eric Nepomuceno no 247. O excelentíssimo em tal estado de inocência perplexo com o que se tornou a ‘lava jato’ — reconhecido pelo articulista Gaspard Estrada, do NYT, como “o maior escândalo judicial da história” — tem nome: Gilmar Mendes.

Promovido o intróito que nos leva a este dominical, convocamos o caríssimo e paciente leitor a ratificar conosco o significado de hipocrisia através no atual “pai dos burros”, a Wikipédia:

 

Hipocrisia é o ato de fingir ter crenças, virtudes, ideias e sentimentos que a pessoa na verdade não possui, frequentemente exigindo que os outros se comportem dentro de certos parâmetros de conduta moral que a própria pessoa extrapola ou deixa de adotar

 Vivesse Dante Alighieri nesta terra brasilis (de onde divisaria as quatro estrelas que diz ter visto quando deixa o Inferno para buscar o Paraíso), realizaria uma Divina Comédia rica em círculos. Não lhe bastariam nove no Inferno, onde desdobrou o oitavo em dez. Na sexta vala deste oitavo círculo reservou-a para os simoníacos, rufiões, sedutores, hipócritas etc.

Mas Dante não conheceu algumas peças desta singularidade chamada Brasil. Muito provável que criasse/arranjasse uma vala muito especial, dentro do oitavo para o “perturbado” Gilmar Mendes, porque sua conduta exigiria muito do chumbo existente na Terra para vesti-lo.

Por que o ilustre ministro do STF nos serve de apoio ao presente texto? Porque para nós é ele o expoente singular da hipocrisia encastelada no STF, representando uma parcela considerável dos que ali estão.

Ilustremos o raciocínio por etapas.

Noticiado o absurdo. Cômodo, porque conveniente, explorar a mesquinhez funcional (pautada no que se tornou comum entre parcela considerável do Judiciário, do Ministério Público, sem falar no papel decisivo de Procuradores da República em todos os níveis: atuação político-partidária) exposta por uma procuradora, Carolina Rezende: “Precisamos atingir Lula na cabeça (prioridade nº 1)”.

Partindo de uma indagação primária: teria ela, em si e funcionalmente, competência institucional para materializar o que disse? Claro que não. Sabia-o, no entanto, que não estava só. Tinha do juiz de Curitiba ao STF, passando por TRF-4, STJ, Procurador-Geral da República e quejandos outros, o apoio à sua pretensão. Apenas mera agente do absurdo por cometer.

Um general do exército (não o de Caxias, razão por que com letra minúscula, revisor!) confessa — sem qualquer preocupação com a Constituição da República, tampouco com as instituições jurídico/judiciárias — que pressionou, depois de decisão conjunta do alto comando da arma, para que o STF julgasse contra o Direito e negasse um habeas corpus a Lula em 2018. (247)

Um vice-presidente (também com minúscula, revisor!) confessa que tramou contra a instituição republicana para ascender ao poder (o que certamente lhe assegurou lugar cativo no nono círculo do Inferno).

No imediato da declaração do general sublevador, o ministro Lewandowsky publicou artigo na Folha, do qual destacamos, a partir do 247:

 

“E mais: para desencorajar possíveis tentações autoritárias, a Lei Maior prudentemente prevê que o chefe do Executivo e seus subordinados respondem por crime de responsabilidade, ou mesmo comum, pelo cometimento de eventuais excessos no exercício dos poderes extraordinários".

 Ironia para o instante, considerando a ponderação de Sua Excelência: quem vai pôr o guizo no gato?

Ultrapassemos a decantada hipocrisia e acolhamos a preocupação de Lewandowski. Partamos para a realidade, em torno da qual uma nada velada vocação do inquilino do Alvorada para perpetuar-se no poder se possível, não custa tentar não está em horizonte distante.

No imediato da vitória retumbante, elegendo presidentes da Câmara e do Senado, tudo começou a andar e de lambuja a autonomia do Banco Central foi sacramentada na Câmara Federal (339 x 114) mesmo em dia em que a casa não estava cheia (faltaram 60 deputados). Com nada mais, nada menos que 75% dos votos presentes a vitória do sistema financeiro-bancário poderia ser bem maior.

Este escriba de província indignado com os hipócritas (políticos, magistrados, ministros, procuradores etc.) a serviço da tragédia que se abate sobre o país indaga, altaneiro: quem duvida de que a pauta sonhada pelo inquilino do Alvorada não se materialize?

Ampliação do direito ao porte de armas; propaganda de armas na televisão, rádio, revistas e jornais, redes sociais e aplicativos; a excludente de ilicitude (que visa beneficiar policiais, que passariam a matar “em legítima defesa”); redução da maioridade penal; exploração mineral em terras indígenas; ensino domiciliar na educação básica etc.

Por razões tais não cremos em dias melhores. Cidadãos armados e polícias amparadas em suas ações letais (que se tornarão “legítima defesa”) tenderão a assegurar o golpe maior: tornar o país uma ditadura militar, ampliar o poder das milícias e calar qualquer voz contrária. Afinal, as mordomias e sinecuras, incluindo alimentares, não podem ser privilégio apenas do Judiciário e devem manter-se nos quartéis.

Na esteira da fala de um general golpista e do temor revelado por um ministro do STF (que não tem quem ponha o guizo institucional onde devido), temos que um outro ministro do STF está vitorioso no que tanto buscou ainda que “perturbado” e, sem dúvida alguma, trouxe para a pátria da hipocrisia aquela primeira pá de cal que acaba de ser lançada no sonho de democracia.


domingo, 7 de fevereiro de 2021

Em meio à vitória avassaladora Mourão é a solução

Temos, neste espaço, levantado permanente dúvida sobre a saída forçada do inquilino do Alvorada amparada em impeachment. Temos afirmado que sua presença à frente do governo atende aos interesses mais comezinhos, tanto da classe dominante local como de além mar.

Também levantado indignação crítica à forma como a denominada oposição ao inquilino se porta, já que limitada ao ramerrão da denúncia midiática que em si mesma não alcança o real objetivo (justamente porque interpretada aos olhos e ouvidos do homem comum como apenas ‘coisa da oposição’, de quem perdeu o poder), sem meios e força para enfrentar ou competir com os discursos de ódio, com a mensagem evangélica. Ou seja, o discurso levado a termo pela oposição não conseguiu, em dois anos de descalabro, reduzir o BOM(!) e ÓTIMO(?) de avaliação do inquilino para menos de 30%. Simplesmente por incrível que pareça dispõe ele de 1/3 de apoio até agora imutável.

Salvo esparsas vozes sem a penetração necessária na base da sociedade a experiência recente deixa no ar que a oposição não aprendeu a lição de que não precisa agredir ou perseguir mas não pode confiar em projeto nacional amparado na burguesia. Sua postura nesse instante parece demonstrar apenas a realidade imediata: a retomada do poder. Para tanto ataca o inquilino do Alvorada e esquece (e não o combate) a razão que a afastou do poder: o projeto neoliberal, com o qual de certa forma conviveu e tolerou. Parece não atentar que o que está em jogo permanece sendo uma luta de classes em torno da qual não se situou além do discurso.

Reconheçamos (demonstrado está) que não conta a oposição com a força e os meios de que dispõe o projeto espúrio do pentecostalismo (evangélico e católico); que perdeu muito de suas bases e está a reboque dos erros do inquilino do Alvorada. E este, com uma simples canetada, contornará os problemas em relação às bases desprotegidas da sociedade (fonte de votos), basta-lhe acenar com um “auxílio emergencial” no instante necessário, que mesmo castrado no momento ressurgirá próximo ao processo eleitoral, até porque (acuada) é esta oposição quem o defende (o que lhe é natural).

Dirá o paciente leitor que caminho outro não há no momento.

Este o busílis: o momento. O momento cobra ser compreendido. E a compreensão exige olhar o processo histórico por que passou o país e sua gente sob o tacão da classe dominante (escravidão e espoliação). Imperativo entender que essa classe que constitui a burguesia nacional é colonialista: servindo a quem quer que seja além desde que assegurados seus históricos privilégios e sinecuras às favas, dirá ela, os pruridos pátrios, o que inclui a democracia.

No fundo, uma classe dominante já muito bem espelhada por Gregório de Mattos Guerra no século XVII, por ele cognominada de “canalha infernal”, que não encontra para corresponder aos seus desígnios ninguém melhor que o inquilino do Alvorada.

Caso alguém duvide não custa fazer uma pausa para analisar o resultado das eleições para mesa da Câmara e do Senado: traduzem acordos espúrios, nada a favor da nação. 

Mas, caríssimo leitor – deixados os pruridos ao largo, fato concreto – o inquilino do Alvorada alcançou uma vitória retumbante, maior que a da sua própria ascensão ao poder. Não precisou de Moro, de procuradores da Lava Jato, da rede Globo, da Polícia Federal, da PGR, do TRF-4, do STF, de ‘marrecos’ nas ruas. Obteve-a a partir do projeto a que serve, do controle que soube exercer sobre seus correligionários e admiradores. Soube usar do que dispunha diante de um congresso (com letra minúscula, revisor!) fisiologista, emprenhado por bancadas que se digladiam em busca de cargos mas unida em torno de quem possa ‘ampará-las’.

No imediato do resultado os primeiros desdobramentos: uma deputada (processada judicialmente) famosa por seus fake news e deboche em relação ao combate ao Covid-19 assume a Comissão de Constituição e Justiça, o que significa que dispensada pelos pares está de conhecer a Constituição e muito menos a Justiça. Mas atenderá aos reclamos do inquilino do Alvorada.

A Comissão de Constituição e Justiça é a mais importante das comissões no Poder Legislativo. A primeira a apreciar em qualquer instância federativa (União, Estados, Municípios e Distrito Federal) analisa propostas de emenda à Constituição (ou à Lei Orgânica), a legalidade de projetos de lei, e tem a prerrogativa de mesmo segurar denúncias por lacunas jurídicas ou barrar o andamento de cassações de políticos e processos de impeachment.

Não se negue: uma vitória avassaladora!

O que acontecerá ao país aguarde o leitor: muito provavelmente tentativa de federalização das polícias militares o grande projeto do inquilino que tende a ser posto em discussão levantando os policiais militares do país em defesa do projeto de fechamento do regime para garantia de uma nova casta castrense (superam 400 mil que podem somar-se a outros 300 mil policiais civis), a partir de qualquer estado da federação, capaz de fechar o país e torná-lo império do inquilino, tão habituados estão a movimentos paredistas.

Não, caro leitor, este escriba de província não acredita como muitos o imaginam que o inquilino do Alvorada será defenestrado. Já acena com o que eles querem: privatizações... privatizações... da Eletrobras, da Petrobras; Banco do Brasil, CEF e Correios logo, logo etc. E quem poderia afastá-lo a quem incumbe, o Congresso enquanto participar do butim lhe dará sustentação. A não ser que o pedido extrapole as disponibilidades...

No mais, que Deus tenha pena de nós! Porque a oposição, presa ao torreão do castelo a que lançada, continuará pedindo por um impeachment que não ocorrerá.

E para completar o atual projeto das classes dominantes locais, considerando a possibilidade concreta de a suspeição de Moro ser declarada e anulados os processos da Lava Jato por ele manipulados em conluio criminoso com os procuradores da Lava Jato, reconheçamos a perseguição a Lula, anulemos as sentenças que o condenaram mas mantenhamos a suspensão dos direitos políticos (absurdo! absurdo! se anulada a sentença principal também o será a acessória) não o deixemos ser candidato, castremos seus direitos políticos.

Porque Lula é ainda o pavor desta classe dominante.

No mais muito provável que os mesmos se unam aos mesmos que hoje se concentram no inquilino do Alvorada: este mesmo STF conivente com o golpe por vingança ou temor a Lula (não sabemos por quê!) detém em mãos o cordel: acolhe um pedido e anula todo o processo contra o ex-presidente mas mantém o outro que o mantém inelegível.

Diante desta podridão a classe dominante (STF, Congresso, “elite branca” empresarial, latifundiária e financista) tem inegavelmente o seu melhor representante.

De nossa parte considerando o quão responsável pelo o golpe o foi o STF não duvidamos do alto nível de sordidez judiciária ali encastelada. Somente isso para lermos o que anda ‘vazado’ a Mônica Bérgamo por integrantes do STF de que com base na sentença do sítio de Atibaia aquela do ctrl-C ctrl-V da juíza Hardt, que substituiu Moro e deu seguimento ao ‘projeto’, e copiou e colou a partir da sentença do apartamento Lula permanecerá inelegível.

Pela teoria dos frutos da árvore envenenada (fruits of the poisonous tree) se são o juiz e seus acólitos procuradores a razão contra um réu tudo que viciado o seja partindo deles em relação a este réu o será por consequência. E foram Moro e seus procuradores a promovê-lo em relação ao sítio de Atibaia, inclusive usurpando competência territorial.

Esperar apreciação de cada um processo para o mesmo final apenas assegura a certeza da sordidez que norteia o STF e confirmará o fato de que Sérgio “Com Supremo, com tudo”  Machado tinha razão. Este STF que tem medo até de General de pijama e não resistirá ao cerco que lhe fizerem policiais amotinados.

Por quejandos tais afirmamos esperando estar errado que a vitória do inquilino do Alvorada foi avassaladora.

Na esteira dos fatos concretos para demonstrar o quão perdidos estamos há quem imagine que Mourão é a solução.

domingo, 31 de janeiro de 2021

Esperando Godot

O chefe da diplomacia (com minúscula, revisor!), aquele que defendeu um movimento criminoso, nos Estados Unidos (invasão do Capitólio), para agradar o ainda chefe e dono da coleira de plantão, ainda que correligionários e adversários repudiassem tal absurdo internamente e o mundo se visse estarrecido diante do acontecido, o mesmo que gargarejava “mito!”, “mito!”, “mito!”,  em reunião em que o inquilino do Alvorada desancava (com palavras doces e amenas ao seu estilo) a imprensa que descobriu o inusitado consumo de leite condensado, goma de mascar e quejandos tais adquiridos a uma empresa de parente de um pastor evangélico foi posto na corda-bamba. Insatisfeito com o nível de suas proezas tenta uma ‘aliança contra a China’, ainda que seja o gigante asiático o maior parceiro comercial do Brasil.

E o que dizer da ‘divisão do dinheiro’ envolvendo suíços, americanos (estadunidenses). A quadrilha que integrou a Operação Lava Jato local contando com ajuda suíça para dar menos dinheiro das apurações aos amigos do Tio Sam e sobrar mais. Não à toa aquela fundação picareta esperando um dinheiro para ser por eles 'administrado'..

Em meio a isso a confirmação oficial, com mais uma revelação da fraude judicial promovida contra Lula.

Efeito derrota de Trump: o inquilino do Alvorada abre espaço para os chineses no leilão do 5G.

Caro e paciente leitor: tudo d’antes como no quartel de Abrantes.

"Parem o mundo que precisamos descer", parodiemos Raul Seixas.

Agravando o quadro moribundo por que passamos como país e parece que nos acostumamos.

Nos acostumamos a clamar por impeachment, mas nada acontecerá e – de nossa parte, pessimismo que seja – não acontecerá, mesmo! Isso porque enquanto as classes dominantes internas e externas se beneficiarem permanecerá aquele que as atende.

Afinal, o que representa um milharzinho de mortos diariamente?

Mas esta nossa gente, por mais que tenha cometido seus deslizes e tenha pecados e culpa no cartório no curso de sua história, não merece passar pelo que passa.

Em meio a tantos Godots que poderíamos esperar – como típico teatro de absurdo – Godot nenhum há... Em singular instante desta terra brasilis um singular zeitgeist (espírito da época) nortearia Samuel Beckett.

E cá ficamos os largados em um mundo devastado, que nem de árvore dispõe para quem deseje dele fugir.

Pasmo o país da lucidez e da sensatez espera... espera...

Espera por respostas que não vêm.

Amanhã, talvez!...

Amanhã, talvez!...

domingo, 24 de janeiro de 2021

Derrota

 

Enguiando, não conseguimos registrar mais que isso.

Para os que asfixiaram e asfixiam, para os que negaram e ainda negam eis que pautam a mais hipócrita das mensagens: “Brasil imunizado / Somos uma só nação”.

Quando precisaríamos de, pelo menos, 350 milhões de doses para estabelecer mecanismos de proteção para a população os que propagam – e ainda propagam – a ‘prevenção’ como solução dão-se por pais da vacina(ção), ainda que meia dúzia de doses diante das necessidades.

Vacina que continua sendo objeto de debate ideológico que nos leva a pagar mais caro à Índia – que a pretendeu distribuída ao mundo sem ônus – mas o Brasil recusou para agradar aos compromissos estadunidenses de Trump para com a indústria farmacêutica.

Mas aí estamos: ainda discutindo ideologias enquanto o mortandade avança.

Duas derrotas se fazem, no entanto, presentes: uma, a do governo, que passa a admitir a vacina que ele mesmo não admite; e uma outra, do povo, que continua morrendo, especialmente quando a variante do coronavírus pode já ter se espalhado pelo país.

Alguns continuam aplaudindo o ‘mito’, como o fariam gladiadores: “Ave Cesar, morituri te salutant” (Ave César, os que vão morrer te saúdam!).

Ao banquete.

domingo, 17 de janeiro de 2021

Zkylon pelo “Banquete de vermes”

 

Em contato com o ar o Zkylon-2 se transforma em gás letal, de ação rápida. Experimentado em Auschwitz, pela primeira vez em setembro de 1941, no auge de sua utilização eliminava até 6 mil diariamente. Foi o coroamento das experiências em extermínio posto em prática pelo nazismo. Sua inalação levava a um ataque cardíaco em poucos segundos, depois de gerar uma dor intensa, convulsões violentas, afetar o cérebro e bloquear a respiração celular.

No curso da semana o mundo, estarrecido, assistiu ao desenrolar da crise manuara, com a infraestrutura de saúde amazonense em estado de caos absoluto, por falta de oxigênio, mortes multiplicadas por asfixia.

Neste domingo a Anvisa anunciava a liberação de vacinas em caráter emergencial. Não sabe quando a vacinação em nível necessário ocorrerá. Afinal, a logística parece não dispor nem de insumo básico, como seringas, tampouco produção e distribuição da vacina suficientes à demanda etc.

O planeta enfrenta a segunda onda do Covid-19 (incluindo suas variantes) e aqui ainda discutimos o sexo dos anjos no plano de guerra entre liberdade e comunismo stalinista.

A quem representa o inquilino do Alvorada?

Jessé Souza — dos mais lúcidos intérpretes da burguesia brasileira, na dimensão dos encastelados na classe dominante que se beneficia de crises e mesmo as promove, aquela “elite branca” de que fala Cláudio Lembro — em entrevista concedida à TV 247 a classificou como a “elite do saque” para traduzir o porquê da eleição e manutenção de um dirigente com evidentes sinais de desequilíbrio e uma política econômica sedimentada em não promover o desenvolvimento, mas privatizar a preço de banana podre.

Como temos registrado em opinião neste espaço, Jessé alimenta as razões da manutenção de tão estranha gente, muito bem atendida em seus reclamos:


“A elite brasileira é uma elite do saque, e ela está contente com o saque que Bolsonaro está promovendo. O grande saqueador de Bolsonaro é Guedes.

[...]

“Esse é o serviço que essa elite quer de um presidente, essa elite tem desprezo pelo povo, essa elite, a classe média branca, odeia o povo, tem vergonha do povo brasileiro. É isso que a gente tem que pôr, o povo brasileiro precisa saber quem é seu inimigo. O povo brasileiro nunca vai ter chance sem que seja explicitado o saque e o ódio que a elite tem desse mesmo povo”.

Enquanto aguardamos o instante para pagar nosso IPVA de cada ano (os que possuem veículo para trabalhar, se transportar etc.), a “elite branca” permanece isenta de tributação para aviões, iates, jetisquis. Enquanto os despossuídos se amontoam em transporte ou locais de trabalho, quando muito usando máscaras para barrar um pouco o contágio, essa gente navega em águas cristalinas pelo Caribe ou se recolhe às mansões paradisíacas em ilhas particulares.

Para essa gente Manaus não existe. É fake news de comunistas, de Lula, do PT, de esquerdopatas outros.

Para ela amparada em poderosa divulgação sionista extermínio só o nazista nunca o da escravidão africana e a contemporânea, nunca o da fome, nunca o das guerras sem razão, nunca...

Mortos ontem e hoje, alhures e aqui: em Auschwitz, nas câmaras de gás, asfixiados, em poucos segundos; em Manaus, asfixiados em hospitais, mais lentamente, por falta de oxigênio.

Escorregando em palha de bananeira amanteigada o país não é convidado para cúpulas que discutem a pandemia (não tem prestígio nem para comprar vacinas da Índia), fábricas cerram as portas, Banco do Brasil fecha agências e busca demitir 5 mil funcionários, e a ideologia definindo se libera ou não a vacina.

Porque para quem a iniciou o foi “em desacordo com a lei” declara-o o Ministro da Saúde(?). Afinal, a “lei” de quem comanda é para exterminar, não para salvar!

Em meio a uma crise humanitária a quem competia definir soluções nada mais faz que lutar para permanecer no poder e manter suas sinecuras. E, naturalmente, atender à classe dominante.

Um governo muito bem enxergado por Aroeira em o “O banquete dos vermes”. Servindo ao povo Zkylon no cardápio...



domingo, 10 de janeiro de 2021

A fábula a que chegamos

 Quando insistimos no tema não fazemos buscando proselitizar em relação a este ou aquele. A circunstância de existir este ou aquele decorre do fato elementar de que tudo que ocorre na sociedade diz respeito a um este ou aquele. Conforme quem veja qualquer deles — ou a circunstância que motiva — este pode ser aquele e vice-versa.

No particular chama a atenção quando este ou aquele é vítima de um sistema que não admite concorrentes. Seja Assange, destruindo a ‘verdade’ estadunidense, seja o manuseio de instrumentos estatais (judiciais, legislativos, policiais) contra este ou aquele cidadão para corresponder a interesses privados, alguns muito particulares em seara tupiniquim.

E voltamos ao que nos motiva escrever, posto no primeiro parágrafo. O que gira em torno deste ou daquele. Em entrevista concedida ao Canal 247 o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos destaca: “A credibilidade do sistema judicial brasileiro depende de anular a condenação de Lula”.

Redigimos neste espaço, aos 22 de novembro do ano findo, "Direito, STF, democratas estadunidenses, Lula e leituras". Fundávamos nossas considerações no “’Manifesto de solidariedade internacional ao presidente Lula e pela votação do habeas corpus pelo STF’, subscrito por 356 líderes e intelectuais em diversos ramos”.

E refletíamos:

Nossa leitura é outra: não a temos como pedido em favor do ex-presidente. Pelo contrário: há no manifesto uma clara defesa do Direito que deve ser aplicado de forma equânime". 

E afirmávamos:

"E, mais grave, muitíssimo grave: parcela respeitável da comunidade jurídica internacional duvida do Julgador brasileiro. Este o aspecto mais grave — mesmo inimaginável — posto à luz na manifestação”.

 

Quase 60 dias daquele registro. E nos vem Boaventura novamente tocar na ferida, clamando por “credibilidade do sistema judicial brasileiro”, que estará indelevelmente maculada caso não anule a condenação de Lula, escândalo dos maiores nos registros da história da Justiça no planeta. Aqui não há uma particularidade como a denunciada por Émile Zola, em “J’acuse’, no que se tornou o famoso Caso Dreyfus, mas a escancarada bocarra de um poder que se faz casta no país de famintos, de desempregados e de sem vacina. Do poder responsável diretamente afirmamos peremptoriamente por tudo que está a nos ocorrer.

Um dedicado leitor nos encaminhou uma relação que supera cinco dezenas de envolvidos no escândalo do judiciário baiano. Agradecemos e lhe dissemos que está a faltar muita gente de agora e de antes. E não enveredamos em torno de outras honrosas carreiras de Estado maculadas por nada honrosos ocupantes.

A manifestação do sociólogo português Boaventura de Souza Santos é a reafirmação de que a luta desta terra brasilis diz respeito a sair do luto em que está: luto por mais de 200 mil mortes pelo Covid-19 atestadas e por outras milhares omitidas ou que virão inexoravelmente; luto por havermos perdido a credibilidade política e diplomática; luto por termos de conviver com o permanente alerta de que uma injustiça perpetrada neste país permanece porque a instituição maior se nega a fazer a Justiça que deve não só ao condenado sem provas mas a todos os que um dia acreditaram que o Poder Judiciário (onde se destaca o STF) seria o último bastião para os desalentados.

Ou, talvez careçamos a nos habituar, como na fábula, e permaneçamos o cordeiro que tenta convencer o lobo de que quem está abaixo (jusante) não suja a água de quem a bebe acima (montante).


domingo, 3 de janeiro de 2021

Em ano que nasce velho resta-nos contar os dias

 

Vivemos em tempos idos de província  áureos tempos!  costumes singulares levados às ruas no formato de celebrações: o enterro do Ano Velho, por exemplo. Alcançamos a tradição de um grupo em desfile noturno carregando um caixão de defunto. Os que estranhavam enterro àquela hora e levavam a curiosidade aos píncaros, afastar os chorões em volta, meter a cara e lá encontrar o ‘defunto’ Ano Velho e abrir na gargalhada. Acompanhantes entoavam loas regadas a cerveja servida em penicos cheios de salsichas... o que escandalizava muita gente  maldosa, naturalmente. Uma toada servia de ‘incelença’: “Minha comadre, meu compadre morreu / e a senhora vai ficar sozinha / se a senhora quiser namorar, minha comadre / a primeira preferência é minha”.

Certo que não havia concentrações gigantescas, espetáculos artísticos e queima de fogos. Sintetizando: não havia a exploração comercial das tradições. Não precisava o que ‘luta pelo pão nosso de cada dia’ cingir-se à esta ou aquela marca de cerveja, à necessidade de comprar uma mesa e quejandos tais. Gasto, mesmo, ocorria para um punhado de sócios de um clube social, que dançava sambas e boleros até a meia-noite (em traje social) e no primeiro instante do ano entrante a orquestra atacava com as marchinhas tradicionais ou as que o rádio lançara a partir de novembro para o momesmo seguinte (quando a indumentária oportuna vinha à tona). E rompia o Carnaval até o amanhecer. Ali o primeiro ‘grito de carnaval’. Mas, efetivamente um ano se findava e outro começava: de esperanças, de começar com o pé direito, de repetir erros do passado.

Ficamos nos passos de cágado que esperamos dar no caminhar para completar três quarteis de existência (adiantamos de logo por que de janeiro a abril o tempo é pouco e não deixa de ser um jeito de fazer soar como esperança a incerteza). E, um pouco de personagem de Millôr Fernandes, com o pé atrás: “’Estou de passagem. Vim só dar uma olhada’ com dizia o outro, entre o berço e a cova”, vendo “numa laje, meu nome meio apagado”

Ultrapassados os cinquenta o existir nos levou a aprofundar reflexões, pensar em torno das coisas, buscar razões em meio às contradições, exercitar a dialética à procura tão somente de uma síntese. Alcançamos a capacidade de refletir, de pensar, de maturar, de inovar e discutir o porquê das coisas.

Em instante de passagem de ano-calendário fica-nos a certeza de que tal abstração atende apenas à limitação humana. Afinal, vida bilionesimamente curta no que toca à Eternidade o tempo medido é apenas um mote para “passar o tempo” sem que isso possa ser considerado um passatempo. Quando nada o calendário é apenas uma convenção humana. O tempo imanente não o reconhece, observa-o com desdém.

Toda a construção humano-civilizatória está pautada no tempo: passado, presente, futuro. Uma ciência o registra quanto ao passado (ainda que conforme quem o registre) como lição para o presente e reflexão para o futuro: a História.

E tudo que em torno dele se faz menos alimenta o Homem/Humanidade, o Ser destinatário de tudo que por este planeta ocorre e mais, muito mais, o que se beneficia de oportunas soluções que atendem apenas uns poucos bafejados pelas oportunidades onde encastelados.

Personagem nosso em “Amendoeiras de Outono” (Via Litterarum, 2005) reflete em torno dos avanços e criações da civilização: “O progresso me traz comodidade, não felicidade”. Eis o mote para refletir em torno da passagem de um ano-calendário: progredimos em busca da Felicidade?.

Arrumando o que chamamos de ‘biblioteca particular’ nos deparamos com duas circunstâncias flagrantemente escancaradas: encontro com velhas e sábias leituras (reservadas para imediatas releituras) e a constatação dolorosa de que de útil para o semelhante pouco adiantou-nos tanta leitura e tanto ler. Até porque quem deu de escrever padece de não ser lido como gostaria ou  quando muito  pouco lido.

Não deixa de ser um caso perdido essa coisa de mais um ano ultrapassado na estrada da vida (nada a ver com Federico Fellini e seu clássico “La Strada”, de 1954).

E em meio aos alfarrábios reencontrados uma edição de “A Revista” (editada por Carlos Drummond de Andrade e Martins de Almeida, em Belo Horizonte, nos idos de julho de 1925), em edição especial reimpressa por José Mindlin/Metal Leve em 1978.

Registra Mindlin que Carlos Drummond protestou porque “...não considerou válido fazer ressurgir do passado uma produção literária a seu ver de pouco valor”.

Registre-se que entre o de “pouco valor” para Drummond o primeiro capítulo de Mário de Andrade “(do romance Amar, Verbo Intransitivo) – (INÉDITO)”.

Em ‘Para os Scepticos’ os editores registram no último parágrafo:


“[...] Ao Brasil desorientado e nevrotico de até agora, oponhamos o Brasil laborioso e prudente que a civilização está a exigir de nós”. (Redação original).

E deixamos o quase um século e partimos para o “Sobre o autor”, de ‘Solo de Trombone (ditos & feitos de Alberto Roisel)’, de Antônio Lopes (Editus-Editora da UESC, 2001):


“Lopes é dono de texto econômico, meditado, não raro irônico, traduzindo um profundo cansaço com o discurso político que o rodeia. Costuma dizer que se ganhasse pelas vezes em que editou a salvação da Pátria (em reportagens e entrevistas) estaria rico, e a Pátria salva. Mas, filosoficamente, reconhece que  apesar do discurso politico repetido  ele e o Brasil continuam os mesmos: um pobre, outro à beira do abismo. Ou vice-versa.”

No limiar deste calendárico 2021 nos debruçamos em reler sobre um “Brasil desorientado e nevrotico” de antanho ou aquele ‘vice-versa’, de “um pobre, outro a beira do abismo”, para concluir que não há quem se oponha. E quando há quem cuide de fazê-lo não falta quem atropele o indigitado “Com Supremo, com tudo”.

Por tal mister  e suas singularidades  temos apenas o tempo permanente, querendo ser imanente, provando que o novo nasce velho. Coisa que nem Benjamin Button* em vice-versa ao cubo resolve.

E nem mesmo temos as províncias enterrando o “Ano Velho” e cantando ‘incelenças’. Resta-nos, tão somente, contar os dias.

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* Personagem do conto homônimo de F. Scott Fitzgerald (1896-1940), publicado em 1921, levado ao cinema sob direção de David Fincher, em 2008.