domingo, 31 de janeiro de 2021

Esperando Godot

O chefe da diplomacia (com minúscula, revisor!), aquele que defendeu um movimento criminoso, nos Estados Unidos (invasão do Capitólio), para agradar o ainda chefe e dono da coleira de plantão, ainda que correligionários e adversários repudiassem tal absurdo internamente e o mundo se visse estarrecido diante do acontecido, o mesmo que gargarejava “mito!”, “mito!”, “mito!”,  em reunião em que o inquilino do Alvorada desancava (com palavras doces e amenas ao seu estilo) a imprensa que descobriu o inusitado consumo de leite condensado, goma de mascar e quejandos tais adquiridos a uma empresa de parente de um pastor evangélico foi posto na corda-bamba. Insatisfeito com o nível de suas proezas tenta uma ‘aliança contra a China’, ainda que seja o gigante asiático o maior parceiro comercial do Brasil.

E o que dizer da ‘divisão do dinheiro’ envolvendo suíços, americanos (estadunidenses). A quadrilha que integrou a Operação Lava Jato local contando com ajuda suíça para dar menos dinheiro das apurações aos amigos do Tio Sam e sobrar mais. Não à toa aquela fundação picareta esperando um dinheiro para ser por eles 'administrado'..

Em meio a isso a confirmação oficial, com mais uma revelação da fraude judicial promovida contra Lula.

Efeito derrota de Trump: o inquilino do Alvorada abre espaço para os chineses no leilão do 5G.

Caro e paciente leitor: tudo d’antes como no quartel de Abrantes.

"Parem o mundo que precisamos descer", parodiemos Raul Seixas.

Agravando o quadro moribundo por que passamos como país e parece que nos acostumamos.

Nos acostumamos a clamar por impeachment, mas nada acontecerá e – de nossa parte, pessimismo que seja – não acontecerá, mesmo! Isso porque enquanto as classes dominantes internas e externas se beneficiarem permanecerá aquele que as atende.

Afinal, o que representa um milharzinho de mortos diariamente?

Mas esta nossa gente, por mais que tenha cometido seus deslizes e tenha pecados e culpa no cartório no curso de sua história, não merece passar pelo que passa.

Em meio a tantos Godots que poderíamos esperar – como típico teatro de absurdo – Godot nenhum há... Em singular instante desta terra brasilis um singular zeitgeist (espírito da época) nortearia Samuel Beckett.

E cá ficamos os largados em um mundo devastado, que nem de árvore dispõe para quem deseje dele fugir.

Pasmo o país da lucidez e da sensatez espera... espera...

Espera por respostas que não vêm.

Amanhã, talvez!...

Amanhã, talvez!...

domingo, 24 de janeiro de 2021

Derrota

 

Enguiando, não conseguimos registrar mais que isso.

Para os que asfixiaram e asfixiam, para os que negaram e ainda negam eis que pautam a mais hipócrita das mensagens: “Brasil imunizado / Somos uma só nação”.

Quando precisaríamos de, pelo menos, 350 milhões de doses para estabelecer mecanismos de proteção para a população os que propagam – e ainda propagam – a ‘prevenção’ como solução dão-se por pais da vacina(ção), ainda que meia dúzia de doses diante das necessidades.

Vacina que continua sendo objeto de debate ideológico que nos leva a pagar mais caro à Índia – que a pretendeu distribuída ao mundo sem ônus – mas o Brasil recusou para agradar aos compromissos estadunidenses de Trump para com a indústria farmacêutica.

Mas aí estamos: ainda discutindo ideologias enquanto o mortandade avança.

Duas derrotas se fazem, no entanto, presentes: uma, a do governo, que passa a admitir a vacina que ele mesmo não admite; e uma outra, do povo, que continua morrendo, especialmente quando a variante do coronavírus pode já ter se espalhado pelo país.

Alguns continuam aplaudindo o ‘mito’, como o fariam gladiadores: “Ave Cesar, morituri te salutant” (Ave César, os que vão morrer te saúdam!).

Ao banquete.

domingo, 17 de janeiro de 2021

Zkylon pelo “Banquete de vermes”

 

Em contato com o ar o Zkylon-2 se transforma em gás letal, de ação rápida. Experimentado em Auschwitz, pela primeira vez em setembro de 1941, no auge de sua utilização eliminava até 6 mil diariamente. Foi o coroamento das experiências em extermínio posto em prática pelo nazismo. Sua inalação levava a um ataque cardíaco em poucos segundos, depois de gerar uma dor intensa, convulsões violentas, afetar o cérebro e bloquear a respiração celular.

No curso da semana o mundo, estarrecido, assistiu ao desenrolar da crise manuara, com a infraestrutura de saúde amazonense em estado de caos absoluto, por falta de oxigênio, mortes multiplicadas por asfixia.

Neste domingo a Anvisa anunciava a liberação de vacinas em caráter emergencial. Não sabe quando a vacinação — em nível necessário — ocorrerá. Afinal, a logística parece não dispor nem de insumo básico, como seringas, tampouco produção e distribuição da vacina suficientes à demanda etc.

O planeta enfrenta a segunda onda do Covid-19 (incluindo suas variantes) e aqui ainda discutimos o sexo dos anjos no plano de guerra entre liberdade e comunismo stalinista.

A quem representa o inquilino do Alvorada?

Jessé Souza — dos mais lúcidos intérpretes da burguesia brasileira, na dimensão dos encastelados na classe dominante que se beneficia de crises e mesmo as promove, aquela “elite branca” de que fala Cláudio Lembro — em entrevista concedida à TV 247 a classificou como a “elite do saque” para traduzir o porquê da eleição e manutenção de um dirigente com evidentes sinais de desequilíbrio e uma política econômica sedimentada em não promover o desenvolvimento, mas privatizar a preço de banana podre.

Como temos registrado em opinião neste espaço, Jessé alimenta as razões da manutenção de tão estranha gente, muito bem atendida em seus reclamos:


“A elite brasileira é uma elite do saque, e ela está contente com o saque que Bolsonaro está promovendo. O grande saqueador de Bolsonaro é Guedes.

[...]

““Esse é o serviço que essa elite quer de um presidente, essa elite tem desprezo pelo povo, essa elite, a classe média branca, odeia o povo, tem vergonha do povo brasileiro. É isso que a gente tem que pôr, o povo brasileiro precisa saber quem é seu inimigo. O povo brasileiro nunca vai ter chance sem que seja explicitado o saque e o ódio que a elite tem desse mesmo povo”.

Enquanto aguardamos o instante para pagar nosso IPVA de cada ano (os que possuem veículo para trabalhar, se transportar etc.), a “elite branca” permanece isenta de tributação para aviões, iates, jetisquis. Enquanto os despossuídos se amontoam em transporte ou locais de trabalho, quando muito usando máscaras para barrar um pouco o contágio, essa gente navega em águas cristalinas pelo Caribe ou se recolhe às mansões paradisíacas em ilhas particulares.

Para essa gente Manaus não existe. É fake news de comunistas, de Lula, do PT, de esquerdopatas outros.

Para ela — amparada em poderosa divulgação sionista — extermínio só o nazista nunca o da escravidão africana e a contemporânea, nunca o da fome, nunca o das guerras sem razão, nunca...

Mortos ontem e hoje, alhures e aqui: em Auschwitz, nas câmaras de gás, asfixiados, em poucos segundos; em Manaus, asfixiados em hospitais, mais lentamente, por falta de oxigênio.

Escorregando em palha de bananeira amanteigada o país não é convidado para cúpulas que discutem a pandemia (não tem prestígio nem para comprar vacinas da Índia), fábricas cerram as portas, Banco do Brasil fecha agências e busca demitir 5 mil funcionários, e a ideologia definindo se libera ou não a vacina.

Porque para quem a iniciou o foi “em desacordo com a lei” — declara-o o Ministro da Saúde(?). Afinal, a “lei” de quem comanda é para exterminar, não para salvar!

Em meio a uma crise humanitária a quem competia definir soluções nada mais faz que lutar para permanecer no poder e manter suas sinecuras. E, naturalmente, atender à classe dominante.

Um governo muito bem enxergado por Aroeira em o “O banquete dos vermes”. Servindo ao povo Zkylon no cardápio...



domingo, 10 de janeiro de 2021

A fábula a que chegamos

 Quando insistimos no tema não fazemos buscando proselitizar em relação a este ou aquele. A circunstância de existir este ou aquele decorre do fato elementar de que tudo que ocorre na sociedade diz respeito a um este ou aquele. Conforme quem veja qualquer deles — ou a circunstância que motiva — este pode ser aquele e vice-versa.

No particular chama a atenção quando este ou aquele é vítima de um sistema que não admite concorrentes. Seja Assange, destruindo a ‘verdade’ estadunidense, seja o manuseio de instrumentos estatais (judiciais, legislativos, policiais) contra este ou aquele cidadão para corresponder a interesses privados, alguns muito particulares em seara tupiniquim.

E voltamos ao que nos motiva escrever, posto no primeiro parágrafo. O que gira em torno deste ou daquele. Em entrevista concedida ao Canal 247 o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos destaca: “A credibilidade do sistema judicial brasileiro depende de anular a condenação de Lula”.

Redigimos neste espaço, aos 22 de novembro do ano findo, "Direito, STF, democratas estadunidenses, Lula e leituras". Fundávamos nossas considerações no “’Manifesto de solidariedade internacional ao presidente Lula e pela votação do habeas corpus pelo STF’, subscrito por 356 líderes e intelectuais em diversos ramos”.

E refletíamos:

“Nossa leitura é outra: não a temos como pedido em favor do ex-presidente. Pelo contrário: há no manifesto uma clara defesa do Direito que deve ser aplicado de forma equânime". 

E afirmávamos:

"E, mais grave, muitíssimo grave: parcela respeitável da comunidade jurídica internacional duvida do Julgador brasileiro. Este o aspecto mais grave — mesmo inimaginável — posto à luz na manifestação”.

 

Quase 60 dias daquele registro. E nos vem Boaventura novamente tocar na ferida, clamando por “credibilidade do sistema judicial brasileiro”, que estará indelevelmente maculada caso não anule a condenação de Lula, escândalo dos maiores nos registros da história da Justiça no planeta. Aqui não há uma particularidade como a denunciada por Émile Zola, em “J’acuse’, no que se tornou o famoso Caso Dreyfus, mas a escancarada bocarra de um poder que se faz casta no país de famintos, de desempregados e de sem vacina. Do poder responsável diretamente — afirmamos peremptoriamente — por tudo que está a nos ocorrer.

Um dedicado leitor nos encaminhou uma relação que supera cinco dezenas de envolvidos no escândalo do judiciário baiano. Agradecemos e lhe dissemos que está a faltar muita gente de agora e de antes. E não enveredamos em torno de outras honrosas carreiras de Estado maculadas por nada honrosos ocupantes.

A manifestação do sociólogo português Boaventura de Souza Santos é a reafirmação de que a luta desta terra brasilis diz respeito a sair do luto em que está: luto por mais de 200 mil mortes pelo Covid-19 atestadas e por outras milhares omitidas ou que virão inexoravelmente; luto por havermos perdido a credibilidade política e diplomática; luto por termos de conviver com o permanente alerta de que uma injustiça perpetrada neste país permanece porque a instituição maior se nega a fazer a Justiça que deve não só ao condenado sem provas mas a todos os que um dia acreditaram que o Poder Judiciário (onde se destaca o STF) seria o último bastião para os desalentados.

Ou, talvez careçamos a nos habituar, como na fábula, e permaneçamos o cordeiro que tenta convencer o lobo de que quem está abaixo (jusante) não suja a água de quem a bebe acima (montante).


domingo, 3 de janeiro de 2021

Em ano que nasce velho resta-nos contar os dias

 

Vivemos em tempos idos de província —  áureos tempos! —  costumes singulares levados às ruas no formato de celebrações: o enterro do Ano Velho, por exemplo. Alcançamos a tradição de um grupo em desfile noturno carregando um caixão de defunto. Os que estranhavam enterro àquela hora e levavam a curiosidade aos píncaros, afastar os chorões em volta, meter a cara e lá encontrar o ‘defunto’ Ano Velho e abrir na gargalhada. Acompanhantes entoavam loas regadas a cerveja servida em penicos cheios de salsichas... o que escandalizava muita gente —  maldosa, naturalmente. Uma toada servia de ‘incelença’: “Minha comadre, meu compadre morreu / e a senhora vai ficar sozinha / se a senhora quiser namorar, minha comadre / a primeira preferência é minha”.

Certo que não havia concentrações gigantescas, espetáculos artísticos e queima de fogos. Sintetizando: não havia a exploração comercial das tradições. Não precisava o que ‘luta pelo pão nosso de cada dia’ cingir-se à esta ou aquela marca de cerveja, à necessidade de comprar uma mesa e quejandos tais. Gasto, mesmo, ocorria para um punhado de sócios de um clube social, que dançava sambas e boleros até a meia-noite (em traje social) e no primeiro instante do ano entrante a orquestra atacava com as marchinhas tradicionais ou as que o rádio lançara a partir de novembro para o momesmo seguinte (quando a indumentária oportuna vinha à tona). E rompia o Carnaval até o amanhecer. Ali o primeiro ‘grito de carnaval’. Mas, efetivamente um ano se findava e outro começava: de esperanças, de começar com o pé direito, de repetir erros do passado.

Ficamos nos passos de cágado que esperamos dar no caminhar para completar três quarteis de existência (adiantamos de logo por que de janeiro a abril o tempo é pouco e não deixa de ser um jeito de fazer soar como esperança a incerteza). E, um pouco de personagem de Millôr Fernandes, com o pé atrás: “’Estou de passagem. Vim só dar uma olhada’ com dizia o outro, entre o berço e a cova”, vendo “numa laje, meu nome meio apagado”

Ultrapassados os cinquenta o existir nos levou a aprofundar reflexões, pensar em torno das coisas, buscar razões em meio às contradições, exercitar a dialética à procura tão somente de uma síntese. Alcançamos a capacidade de refletir, de pensar, de maturar, de inovar e discutir o porquê das coisas.

Em instante de passagem de ano-calendário fica-nos a certeza de que tal abstração atende apenas à limitação humana. Afinal, vida bilionesimamente curta no que toca à Eternidade o tempo medido é apenas um mote para “passar o tempo” sem que isso possa ser considerado um passatempo. Quando nada o calendário é apenas uma convenção humana. O tempo imanente não o reconhece, observa-o com desdém.

Toda a construção humano-civilizatória está pautada no tempo: passado, presente, futuro. Uma ciência o registra quanto ao passado (ainda que conforme quem o registre) como lição para o presente e reflexão para o futuro: a História.

E tudo que em torno dele se faz menos alimenta o Homem/Humanidade, o Ser destinatário de tudo que por este planeta ocorre e mais, muito mais, o que se beneficia de oportunas soluções que atendem apenas uns poucos bafejados pelas oportunidades onde encastelados.

Personagem nosso em “Amendoeiras de Outono” (Via Litterarum, 2005) reflete em torno dos avanços e criações da civilização: “O progresso me traz comodidade, não felicidade”. Eis o mote para refletir em torno da passagem de um ano-calendário: progredimos em busca da Felicidade?.

Arrumando o que chamamos de ‘biblioteca particular’ nos deparamos com duas circunstâncias flagrantemente escancaradas: encontro com velhas e sábias leituras (reservadas para imediatas releituras) e a constatação dolorosa de que de útil para o semelhante pouco adiantou-nos tanta leitura e tanto ler. Até porque quem deu de escrever padece de não ser lido como gostaria ou —  quando muito —  pouco lido.

Não deixa de ser um caso perdido essa coisa de mais um ano ultrapassado na estrada da vida (nada a ver com Federico Fellini e seu clássico “La Strada”, de 1954).

E em meio aos alfarrábios reencontrados uma edição de “A Revista” (editada por Carlos Drummond de Andrade e Martins de Almeida, em Belo Horizonte, nos idos de julho de 1925), em edição especial reimpressa por José Mindlin/Metal Leve em 1978.

Registra Mindlin que Carlos Drummond protestou porque “...não considerou válido fazer ressurgir do passado uma produção literária a seu ver de pouco valor”.

Registre-se que entre o de “pouco valor” para Drummond o primeiro capítulo de Mário de Andrade “(do romance Amar, Verbo Intransitivo) – (INÉDITO)”.

Em ‘Para os Scepticos’ os editores registram no último parágrafo:


“[...] Ao Brasil desorientado e nevrotico de até agora, oponhamos o Brasil laborioso e prudente que a civilização está a exigir de nós”. (Redação original).

E deixamos o quase um século e partimos para o “Sobre o autor”, de ‘Solo de Trombone (ditos & feitos de Alberto Roisel)’, de Antônio Lopes (Editus-Editora da UESC, 2001):


“Lopes é dono de texto econômico, meditado, não raro irônico, traduzindo um profundo cansaço com o discurso político que o rodeia. Costuma dizer que se ganhasse pelas vezes em que editou a salvação da Pátria (em reportagens e entrevistas) estaria rico, e a Pátria salva. Mas, filosoficamente, reconhece que —  apesar do discurso politico repetido —  ele e o Brasil continuam os mesmos: um pobre, outro à beira do abismo. Ou vice-versa.”

No limiar deste calendárico 2021 nos debruçamos em reler sobre um “Brasil desorientado e nevrotico” de antanho ou aquele ‘vice-versa’, de “um pobre, outro a beira do abismo”, para concluir que não há quem se oponha. E quando há quem cuide de fazê-lo não falta quem atropele o indigitado “Com Supremo, com tudo”.

Por tal mister —  e suas singularidades —  temos apenas o tempo permanente, querendo ser imanente, provando que o novo nasce velho. Coisa que nem Benjamin Button* em vice-versa ao cubo resolve.

E nem mesmo temos as províncias enterrando o “Ano Velho” e cantando ‘incelenças’. Resta-nos, tão somente, contar os dias.

__________

* Personagem do conto homônimo de F. Scott Fitzgerald (1896-1940), publicado em 1921, levado ao cinema sob direção de David Fincher, em 2008.

domingo, 27 de dezembro de 2020

De desumanidades, Natal e Aquários

 Contadas apenas as mortes anotadas, as que atendem às estatísticas. Onde o homem/ser apenas dado expresso em unidade aritmética. 

O Covid-19 já nos levou quase duas centenas de milhares, oficialmente; extraoficialmente superando pelo menos 230 mil.

Mas, como cerca de oito milhões foram por ele alcançados e ‘apenas’ duas míseras centenas de milhares (os registrados) — e mais três dezenas — foram a óbito as ‘estatísticas’ soam promissores.

Uma festa tantos curados!

Não, caro e paciente leitor. No plano de desumanidades há quem a tudo comemore. A autoestima não pode sucumbir à realidade — alardeiam!

Em meio a tudo, o Natal. Particularmente não gostamos do que é feito em nome dele. Ou, simplesmente como professado por este mundo consumista.

O Natal que nos comove está nas lapinhas de Vó Tormeza, de minha mãe Adelaide e de minha irmã Eva Lima, do Comendador João Alves de Oliveira e de Francisquinha de Roque Borges (em Itororó), ou aquelas todas nos rincões deste Nordeste sofrido expressando a esperança muda de dias melhores e de mais compreensão, lembrança do Menino que nasce para renovar os homens desde mundo. Há dois mil anos sem ser escutado.

Dizemos o que dele sentimos em crônica publicada em livro pela Editora Via Litterarum e disponibilizada na rede (GGN).

Lá registramos: 

"Afinal, quando despenca a distribuição da riqueza, quando o desemprego se aprofunda, a senilidade do Papai Noel se acentua e torna-o mais seletivo, conduzindo o trenó somente para endereços de quem disponha de castelos com reluzentes luminárias que lhe sirvam de farol em noite de tempestade". 

Também não esqueçamos da matança atribuída à determinação de Herodes. 

E não custa nos inspirarmos em Marcos (10, 14-15): “Deixai vir a mim as criancinhas. O que fizerdes a qualquer delas é a mim que o fareis!” 

Outros tempos, outros Natais, outros Herodes. E a matança continua. Uma matança cotidiana em espaços que o Natal não alcança.

E nesta última postagem de 2020 fazemos acrescer ao final o que os versos permitiram expressar do grosso sentimento.

De alvissareiro a chegada da Era de Aquários. Não custa rever Hair, de Milos Forman. Pelo menos pelo tema de abertura. A conjunção não de “Júpiter com Marte”, mas esta que se escancara para o planeta: Júpiter e Saturno. 


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Periferia

 

O corpo padece e não mais sente

Atingido pelo disparo, nada raro, inerte

 

Inertes todos à volta

indiferentes

— Outra vida, apenas! —

 

Uma lágrima escorre face abaixo

lágrima de morto

           

Na calçada a criança chora

não entende

mas padece

e sente

 

Outra lágrima lhe escorre

também negra

 

 

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Século XXI

 

No presépio de então

a infância tenra

o armava como tradição

Avenidas e ruas de papelão

da fonte correndo água

lantejoulas cintilando

no céu de seda em amplidão

A manjedoura refletia

da penúria exibida

o sorriso da Redenção

Os magos reis

caminhando

 um pouco a cada dia

Tudo no mais ali

completava

a devoção

 

Não mais a lapinha de antão

nada da tenra infância

e da devota tradição

 

Na manjedoura não há penúria

tão só exibição em fúria

de hodierna ostentação




domingo, 20 de dezembro de 2020

Como d'antes, mesmo antes do Abrantes

 


“O império não sendo hereditário, era lícito ao imperador vivente escolher o herdeiro de seu patrimônio particular, designando-o ao Senado e ao povo para que lhe conferissem depois a autoridade imperial. Assim, Augusto designou Tibério e este designou Calígula. Mas este não teve tempo de designar seu herdeiro. Era preciso eleger, portanto, um sucessor. Muitos senadores eram contrários a isso; e se esse partido tivesse vencido, o império teria voltado a ser uma república aristocrática. Mas a sorte de Roma foi, ao contrário, decidida pela vontade do exército e especialmente das guardas pretorianas, isto é a guarda imperial. De fato, os soldados, em particular os pretorianos, eram muito contrários ao governo republicano; por isso. Morto Calígula, proclamaram imperador Cláudio César Germânico, tio de Calígula. E o Senado teve de aceita-lo. Foi esse o primeiro exemplo de eleição devida inteiramente aos soldados, exemplo que depois foi seguido numerosas vezes, o que teve grande e funesta influência na sorte de Roma”. (Texto extraído de “Petrônio — O tempo, o homem, a obra histórica”, de Giulio Davide Leoni, in Satiricon, de Petrônio, tradução de Miguel Ruas, Coleção Universidade, Edições de Ouro, sem data). Obs.: Respeitamos a redação e pontuação originais desta tradução, ainda que as tenhamos como sofrível — a primeira — e lamentável – a segunda).

Fortes são as democracias contemporâneas as destituídas de controle militar sobre os poderes. Aquelas que inviabilizam o exercício da vontade ‘pretoriana’. Outras há que manipulam a serviço de interesses privados o poderia militar. São aquelas que o tem (e dele se serve) para invadir e depredar o alheio (país) para garantir à sua classe dominante a intervenção nos negócios de outros povos (capitaneada pelas indústrias farmacêutica, química, bélica, financeira etc.) Para tanto se utilizam desde a formação de ‘lideranças’ internas ideologizadas no que pensam e defendem até às descaradas intervenções, antes tipicamente militares, hoje também judiciais e legislativas. Para alcançar o objetivo corrompem dizendo combater a corrupção.

Sábia gente há neste planeta que nem mesmo forças armadas regulares possui, somente policiais (com formação e comportamento em nada parecidos com as que conhecemos por estas bandas).

Aristocrática a república romana o foi até que a pretoriana força descobriu o que lhe interessava: o império, que lhe deu status. Antes o soldado servia — e garantia o soldo — invadindo países, escravizando o conquistado, saqueando suas riquezas. O império levou à mudança ao retirar da aristocracia o controle do poder, fazendo com que o imperador criasse a guarda pretoriana, um corpo militar de elite, para protege-lo e à sua família. Calígula, por exemplo — o nefando como pintado por historiadores que lhe foram contemporâneos — era adorado pelo povo e pela guarda pretoriana. Motivo: ambos recebiam  benesses materiais.

Muda alguma coisa de lá para cá? Certamente o tempo. Como d’antes no quartel de Abrantes. Mas, bem antes de Abrantes e seu quartel.

Pruridos não o há, desde que a(s) boquinha(s) seja(m) ampliada(s) e mantida(s).

Em nível desta terra brasilis nada mais ridículo que a história da proclamação da república. O marechal monarquista, acamado e ardendo em febre, chamado a liderar o movimento contra o Gabinete de Ouro Preto. Os militares — que se utilizaram da Guerra do Paraguai para ocupar espaços — naturalmente em defesa do pensamento republicano (já apoiado por parcela da aristocracia rural ferida com a ‘conveniente’ abolição da escravatura), viu-se por este aclamado e aclamou o sonho que nunca foi do povo na época e do qual não participou tiquinho de nada. A não ser do quadro pintado e elaborado posteriormente. Que pintura!

Esqueceram de registrar o motivo que fez Deodoro deixar a cama para ‘liderar’ o movimento: ciúmes de Silveira Martins, futuro Presidente do Conselho de Ministros (que o seria a partir de 20 de novembro) que conquistara, nos confins do Rio Grande, o coração da baronesa do Triunfo, viúva bonita e elegante, que escanteou o proclamador da república. Que idealismo, que romantismo, que paixão cívica!

Quem ascendeu ao comando supremo do poder? Qualquer dos republicanos idealistas? José do Patrocínio, Antônio da Silva Jardim, Joaquim Maurício de Abreu, Quintino Bocaiúva, Ruy Barbosa, Júlio de Castilhos, Lauro Miller, Aristides Lobo, Rangel Pestana (dentre outros)? Não. O golpe contra a Monarquia não foi dado para a que república florescesse, mas para garantir o poder do Estado para quem tinha o poder das armas e da guerra. E quem o diz não é o idealista ‘Policarpo Quaresma’.

Implantou-se, de logo, a pretensão da ‘ala positivista’ do movimento republicano (nascido nos anos 70 do século XIX, justamente no final da Guerra do Paraguai): uma estrutura de poder centralizada nas mãos dos militares. Uma res publica de uma minoria que se pretendia casta, sem povo, sem vela, nascendo com direito a choro.

Dispensamo-nos de tergiversar entre o novo e o velho do que somos no plano histórico. Afinal, já o fez esgotando o assunto o escritor Antônio Lopes em “Buerarema Falando Para o Mundo” (edição histórica pela Letra Impressa, nos idos de 1999), em “Que País é Este”, ao questionar naquele 1986 se a alcunhada Nova República o seria até quando. Não imaginou o cronista que em tão pouco tempo seria ela totalmente decrépita.

Isso por vivenciarmos a cada dia o insofismável de que nos tornamos uma terra “coberta com os cacos de um grande império”, como escreveu Eça de Queirós em carta a Fradique Mendes (Cartas Inéditas de Fradique Mendes), criticado aquele por Gilberto Freyre em Ordem e Progresso.

Mas, eis o desafio: que alguém diga que não. Ou quem tem razão — Eça de Queirós ou Gilberto Freyre.

E partamos para outro ‘eis que’: por cá os da ‘boquinha’ insistem em continuar “muito contrários ao governo republicano”. Como os pretorianos da Roma que ensaiava a decadência.

Afinal, pelo andar da carruagem — que denominamos de omissão/medo das instituições — tudo muito apropriado aos tempos de bizarrice tupiniquim a solução romana: em vez de república, império. Pretorianos já os temos às pampas.

O tempora o mores (Oh! Tempos; oh! Costumes!) — proclamaria Cícero contra os tantos Catilinas tupiniquins.

Como d’antes, antes mesmo do/de Abrantes.