domingo, 31 de maio de 2026

Releituras

 

Os que nos conhecem, e pouco ou nada de nós “ouviram do Ipiranga”, já escutaram uma nossa afirmação, muito mais oração do que possa imaginar o vil mortal: que nos seja dado viver tempo suficiente não só para ler o que ainda não lemos, mas, sobretudo, para reler o que lemos, a fim de que bebamos sob outro apreciar parte razoável do lido desde um tempo de candeeiro/placa, fifó, vela, petromax até que alcançado pela “luz” elétrica, hábito desenvolvido desde os dez anos, podemos precisar.

Certo que – o parêntesis se impõe – muito há de pura utopia para alcançar o impossível etário haja vista que, na pior das hipóteses, careceríamos esgotar a bondade divina (e haja bondade!) para nos assegurar pelo menos setenta dos oitenta anos até aqui vividos, o que sob aritmética primária exigiria uns cento e quarenta até o desenlace, o que vislumbra pedido que embute algo impossível.

Mas, enquanto não somos bafejado pelo chamado do Divino e Absoluto Ser, temos nos exercitado no hábito pretendido enquanto vida tenhamos e às vezes nos descobrimos folheando três, quatro, cinco livros simultaneamente: alguns por imperativo técnico (profissional ou literário), outros por inaudito prazer de ler ou reler. Neste instante estamos relendo (não diremos mais uma vez porque pode cheirar ao menino de “Pedro e o Lobo” – Esopo, 620 a.C. a 564 a.C. – musicada por Sergei Prokofiev e pretendemos continuar a merecer um fiapo que seja de credibilidade para continuarmos vivo na mente do leitor).

O que nos mobiliza ao batuque das teclas sucedâneas das máquinas de datilografia tem um nome: Antônio Lopes, por uma de suas obras – Luz Sobre a Memória, Editora Agora, 2001. E, em tempo de Copa do Mundo, o futebol se fez presente e nos aproveitamos da mensagem para tratar do tema em dois tempos (passado e presente vividos/vivendo) sob a égide dos motivos e levarmos outra luz à memória.

O valoroso esporte bretão – expressão piegas e subserviente, típica de quem desenvolveu e orgulhosamente viveu sob o “complexo de vira-lata” divisado por Nelson Rodrigues, ilustradamente declinada por extasiados jornalistas de rádio e palavra escrita a serviço de tal singular estamento – que por aqui surgiu desde que Charles Miller trouxe das ‘Oropa inglesa’ uma ‘couraça’ (ainda a alcançamos, pesada e com os gomos alinhavados em couro mesmo).

“Joãozinho Calça Frouxa”, referido por Lopes, nós o conhecemos em Itororó, vestindo a camisa do “22 de Agosto” trazido durante um tempo por Waldélio Campos, do Brasil de Buerarema (como também Vivi Banguela – o Vivi Guimarães, de Lopes – Valfrido, Alício Peixe-Louro, dentre outros), simplesmente um jogador que dispensava superlativos porque os punha sob o capacho para deles fazer o que fazia com sofredores postos a marca-lo.

Mas, para não muito delongar e cansar o caro e paciente leitor deste escriba de província, uma indagação se impõe para justificar o texto: o que tem uma coisa com outra, futebol presente e o de antanho? E respondemos: a forma de transferência, remuneração etc. etc. O oferecido (e buscado) antes e do que hoje vemos, impondo afastar qualquer vinculação a capitalismo ou o neocapitalismo, mas ao fato em si.

Em tempos de antanho quando o trabalho fazia sentido e era expressão de dignidade, um time se formava e se reforçava com aquisições amparadas em emprego. Ou seja, o jogador jogava no time tendo um emprego garantido na profissão exercida ou naquela por aprender.

Em Itororó, por exemplo, o Grêmio tinha n’ “A Sergipana” de Agostinho Costa Santos uma garantia de trabalho fazendo botas, botinas, chuteiras, sapatos e sandálias, como apoio no conterrâneo José Boaventura, fabricante de selas. Alguns tinham garantido trabalho no comércio, serviço público (Alício, por exemplo, ocupou vaga de Oficial de Justiça) etc.

Tempos outros, sim. Recheados de uma realidade muito distinta dos de hoje, quando o jogador de futebol profissionalizou-se ao extremo de mais ser reconhecido (alguns) pelos astronômicos salários (e mansões, iates deles decorrentes) que pelo evidente futebol que pratica.

Eis a razão por que – talvez especulação nossa – ainda lembremos de Gilmar, De Sordi, Bellini, Nilton Santos, Zito, Orlando, (Joel) Garrincha, Didi, (Mazzola)   Vavá, (Dida), Pelé e Zagalo, de uma seleção que quebrou o “complexo de vira-lata” há 66 anos quando temos dificuldade em destacar quem integrou a ‘canarinho’ há quatro anos.


 

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Lendo Eça de Queiroz e Lima Barreto

 

De certa forma – quando nos envolvemos com análises sobre o Brasil, no quesito soberania sob visão da classe dominante – em muito nos valemos de Eça de Queiroz, sob heterônimo de Fradique Mendes, em missiva a Eduardo Prado (“Cartas”, em Correspondência de Fradique Mendes).

Assim, o caro e paciente leitor deste escriba de província há de encontrar considerações, sob a ótica da oportunidade do texto, em nossos “Amendoeiras de Outono” (romance) e “Portal da Piedade” (crônica), ambos editados pela Via Litterarum.

E a propósito de quê o faz nesse instante, indagará o leitor!

Acompanhamos recente manifestação do Presidente Luiz Inácio da Silva em evento do governo, da qual destacamos aquele ”Ninguém respeita quem não se respeita; ninguém respeita lambe-botas”.

No fundo reproduz lição da experiência secular, ou mesmo milenar se caminhamos até Aristóteles e seu conceito de “justo meio” (tema recorrente em A Ética a Nicômaco e A Ética a Eudemio), porque adstrito à Ética como fenômeno de compreender a Virtude em todas as suas dimensões, em particular – muito a propósito do caso concreto – o fenômeno da acrasia em nível de astheneia, quando avaliado o caráter.

Mas, diante do que nos propomos considerar a partir daquele ”Ninguém respeita...”, recomendamos ao leitor a tradução mais imediata sob o imaginário e inconsciente coletivo: quem muito se abaixa acaba mostrando os fundilhos.

A aí nos apropriamos de Eça de Queiroz/Fradique Mendes, ilustrando a crônica Cumprindo Ordens, iniciada com uma referência a Lima Barreto (Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá ironizando a burguesia, à qual chamava de “essa gente de Petrópolis”, próceres desta atual “estúpida mania de aristocracia”:

“... em vez de terem escolhido esta existência que daria ao Brasil uma civilização sua, própria, genuína, de admirável solidez e beleza – que fizeram os brasileiros? Apenas as naus do senhor D. João VI se tinham sumido nas névoas atlânticas, os brasileiros, senhores do Brasil, abandonaram os campos, correram a apinhar-se nas cidades e romperam a copiar tumultuariamente a nossa civilização européia, no que ela tinha de mais vistoso e copiável”.

Eça condena o país por ficar apinhado de instituições alheias, quase contrárias a sua índole e ao seu destino”. E leciona o ainda inalcançado, apenas tentado recentemente: “No dia ditoso em que o Brasil, por um esforço heróico, se decidir a ser brasileiro, a ser do novo-mundo – haverá uma grande nação. (...) pode contar com um soberbo futuro histórico, desde que se convença que mais vale ser um lavrador original do que um doutor mal traduzido do francês”.

E ilustramos naquele texto: O instante vivido pelo país – a partir de parcela de sua gente – não permite outra visão que não a de Lima Barreto há 100 anos e a de Eça de Queiroz – mais vivo que nunca – apenas substituindo o ‘francês” por ‘estadunidense’, Paris e Londres por Miami e Disneylandia.

Quando Eça de Queiroz e Lima Barreto pontificaram nem mesmo poder-se-ia sonhar com o que representa o Brasil como celeiro, como detentor de reservas minerais e parcela considerável do ouro mineral ora chamado de “terras raras”.

Ao caro e paciente leitor deste escriba de província a leitura em torno do que quis dizer o presidente Luiz Inácio da Silva.

Caso o pretenda, sob análise geopolítica.


domingo, 15 de março de 2026

Basta olhar em volta

 

“Aquele que não consegue mais distinguir entre o bem e o mal perdeu a própria humanidade” (Dietrich Bonhoeffer)

Por tudo que temos acompanhado sob égide de tragédias humanas e a busca por explicá-las tem se acomodado sobre postulados em que a maldade (o Mal) surge como a resposta mais plausível, e mesmo inquestionável. Porém, ao observador, ao mais curioso e indagador, não deixa de ser assustador descobrir que entre os que o refletem não são os destituídos de informação, de escolaridade, de ambientes socialmente toleráveis etc.

Efetivamente nos chama a atenção (no plano da incompreensão): ver a narrativa (sucedâneo contemporâneo do fato concreto) também defendida (às vezes de forma exaltada!) por pessoas inteligentes, bem informadas, educadas, religiosas (mesmo sob viés piegas), pais amorosos, professores, advogados, médicos, clérigos, pregadores do Evangelho etc. etc. colaborando com sistemas destrutivos que negam os mais elementares princípios e conceitos de Humanidade e Civilização.

O que hoje vemos (e convivemos mais e mais) foi observado pelo teólogo, filósofo e pastor luterano alemão Dietrich Bonhoeffer (1906-1945) – no anteceder do processo que se materializou no nazismo. O filósofo alemão não via nessa gente “fanáticos ou monstros, mas cidadãos comuns, vizinhos gentis, cultos, mas defendendo ideias violentas com firmeza e convicção absolutas”.

Tal fato despertou a sua análise e o levou a uma conclusão por demais inquietante: o verdadeiro perigo não residia apenas na maldade humana, mas na incapacidade de pensar de forma independente e crítica quando sob pressão de forças coletivas.

Abstraindo em torno do observado por Dietrich Bonhoeffer há quase um século, quando o rádio apenas ensaiava enfrentar a imprensa escrita, cabe observar o quanto efetivamente presente se faz em nós em decorrência de uma percepção oriunda de nós mesmos ou apenas absorvidas sem nossa efetiva percepção.

Não custa, diante desta realidade insofismável, compreender de imediato que não seria a incapacidade intelectual ou inteligência – aspecto cômodo para nos fazer fugir de enfrentar o problema – porque na raiz do fenômeno pode estar a estupidez que ameaça a sociedade não em sua dimensão individual, mas coletiva aprofundada sob o fenômeno da pressão. E essa pressão, em nível coletivo, faz sucumbir qualquer possibilidade de enfrentamento, muito menos, sob parâmetros da dialética hegeliana, do diálogo clássico entre opostos (tese-antítese) para alcançar uma conclusão (síntese) uma vez que tal já chega pronta e acabada. Ou seja, tudo não decorre da limitação mental, mas do enfraquecimento do pensamento crítico diante de estruturas sociais (coletivo) e muitas produzidas e desenvolvidas por sistemas de poder (inclusive religioso).

Eis a razão por que pessoas inteligentes e mesmo preparadas intelectualmente podem enveredar por caminhos da estupidez quando deixam de exercitar a capacidade voltada para o julgamento próprio (fruto da dialética) porque deixaram de pensar por si mesmos e repetem comodamente o lugar comum oferecido pelo ambiente em todas as suas dimensões, lançando às calendas a reflexão como instrumento de liberdade e autonomia. E na esteira o “consenso” ocupa o espaço da “consciência” e passa ao largo do refletir levando de roldão o questionar como virtude para dar lugar ao risco de ameaça. Então a estupidez surge como fenômeno de natureza coletiva invisível e nisso a origem da obediência como aliada siamesa do conformismo humano.  

Caro e paciente leitor, não custa trazer as observações do alemão ao dia a dia contemporâneo, instrumentalizado para coagir muito mais que ao tempo dele utilizando-se dos meios de comunicação de massa (rádio em cada quilômetro, reproduzindo a partir de uma ideia ou lugar comum centralizada), aparelho(s) de televisão em cada casa quando não em cada cômodo de uma casa, celulares e quejandos outros acessados por adultos e crianças transmitindo a conformação da natureza coletiva a cada segundo.

O que se vê não traz em nenhum instante a massificação de uma mensagem de amor e solidariedade, de fraternidade como instrumentos de liberdade para o homem. De que viver em paz e reconhecer e respeitar o outro nos faz presentemente vivos.

Que diga o leitor se algo há além da massificação da estupidez multiplicada ao cubo a partir de uma idiotice a serviço e em defesa do poder pelo poder voltado para subsumir o outro aos seus interesses. Porque, “em verdade vos digo”, se não entendermos, descobrir e utilizar nossa inteligência para a evolução da espécie, inclusive reconhecermos que não somos a única espécie inteligente no universo, permaneceremos sob o domínio do ter (Mal) em detrimento e retardando a vocação do Ser em nós.

Por fim, diante dessa ‘massa’ sem futuro no presente, porque foge do agora como elemento concreto para ser alterado, estarrecido lemos que professora foi recomendada a não receber presentes de alunos; que outro não aceita cumprimentos ou elogios, especialmente mulheres; que crianças, muitas, não respondem a um sorriso ou elogio.

Eis porque caminhamos céleres para o conflito generalizado, onde o sorriso substituído pelo ranger de dentes e o abraço pelo empurrão.

No mais, basta olhar em volta, com cuidado, como o de não vestir vermelho ou cobrir-se com as cores do arco-íris. Como na terra e no tempo observado por Dietrich Bonhoeffer.


domingo, 1 de março de 2026

Abundância

 

Este escriba de província deu de correr alguns poucos quilômetros dentro deste Brasil. Nem um milhar dentre os milhões. Claro que, coerentemente, movido pela convicção de que somente viajará para o exterior depois de conhecer o Brasil (ou seja, o torrão de qualquer parte do território nacional) declina e continuará declinando de buscar vistos em seu passaporte para o Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, razão por que ‘deu de descambar’ da Bahia ao Espírito Santo, e alcançou um lugar chamado de Santa Tereza.

Em lá chegando (este escriba provinciano ainda valoriza o gerúndio sem saber se é doença contagiosa capaz de rivalizar com a tal Mpox que se aproxima) não se bastou em conhecer montanhas e a experiência italiana que ali proliferou como vaidosamente o afirmam os moradores como “primeira colonização” da gente da terra da bota no Brasil sob auspícios do Imperador D. Pedro II, e se viu balouçando(!) não em rede nordestina, mas no vicioso hábito da leitura em torno do qual se imagina sobrevivente, embalado sob as liras de Virgílio (em suas Geórgicas), de Voltaire (e seu Dicionário Filosófico), vibrando nos intervalos com Wilson Lins, Cid Teixeira, Gustavo Falcón e Maria Alba Machado Mello (por meio de Coronéis e Oligarquias) e muito riu reencontrando uma bissexta edição comercial de humor de uma empresa reunindo de Ziraldo a Claudius, de Juarez a Zélio, passando por Maurício de Souza e Rafael entremeados por textos de  Chico Anísio e Stanislaw Ponte Preta (vox populi, vox....wagen).

Mas aqui não tem como refletir em torno de tudo que leu, de tudo que reaprendeu, de tudo que riu. Apenas concluir a partir de parte do que lhe chamou a atenção, folheando aquele François-Marie Arouet (1694-1778), apátrida pelas circunstâncias em muitos instantes, profética e textualmente muito atual nesta terra brasilis quando debruçado sobre o verbete ‘Vida’:

“[...] Há propriedades evidentes da matéria, cujo princípio jamais será conhecido por nós. O da sensibilidade, sem a qual não há vida, é e será ignorado como tantos outros.

Podemos viver sem experimentar sensações? Não. Suponhamos uma criança que morreu depois de ter estado sempre em letargia; ela existiu, mas não viveu.

Suponhamos, porém, que um imbecil que nunca teve ideias complexas e que tenha tido sentimentos; certamente viveu sem pensar; só teve as ideias simples provenientes de suas sensações.

O pensamento é necessário à vida? Não, porquanto esse imbecil não pensou e viveu.

Disso alguns pensadores deduzem que o pensamento não é a essência do homem; afirmam que há muitos idiotas que não pensam e que são homens, e tanto são homens que fazem homens, sem jamais poder elaborar um raciocínio.

Os doutores que julgam pensar respondem que esses idiotas tem ideias fornecidas por suas sensações. Os pensadores ousados lhes replicam que um cão de caça, que aprendeu muito bem seu ofício, tem ideias muito mais coerentes e que é muito superior a esses imbecis. [...]”

Sem pretender estabelecer conflitos de ideias e confrontos (naturais aos que ocupam microfones e telas de televisão em programas onde se autodenominam fonte de análise da conjuntura contemporânea) volvamos aos detalhes/provocações dos primórdios do verbete:

“[...] A vida é organização com capacidade de sentir. Assim é que dizemos que os animais têm vida. [...]”

E concluímos dizendo: e sendo animais – os que integramos a espécie homo sapiens(?) – desenvolvemo-nos para o avanço seletivo além do racional e criamos em nós os irracionais, tendo estes alcançado sucesso como uma subdivisão da espécie, fruto de aperfeiçoamento mundo a fora e muito fortemente encastelados neste Brasil, onde a raridade de domínio considerável do espectro permeia a representação política, que deu de acolher e ampliar a subdivisão expressa no singular processo de evolução.

Como fonte de pesquisa para distinguir uma espécie de outra recomendamos ao caro e paciente leitor acompanhar sessões do Poder Legislativo em diferentes espaços do país – em nível municipal, estadual, federal e distrital – com direito à pós graduação através de sessões de Comissões do Congresso Nacional.

Com a possibilidade concreta de dispor de um primoroso orientador logo ali, ao dobrar a esquina, já que estamos abundados de mestres e doutores publicando “teses” em celulares e quejandos tais.


sábado, 21 de fevereiro de 2026

Releituras

 

Como categoria estranha aos hodiernos tempos, aprofundamo-nos no que cheira ao extremo dos extremos nesta contemporaneidade: relemos livros, livros e mais livros. Pedimos ao Cri(e)ador vida para reler mais do que o que nos foi dado reler, e muito mais dos que ainda não o fizemos.

Preparando-nos para uma entrevista televisiva sobre a cultura gastronômica revelada por Jorge Amado lá reencontramos registros centenários, esboço e redobro do quanto representou o amado Jorge para aquilo hoje estudado sob prisma de ciência (gastronomia) nascido dos fogareiros e fogões a lenha da Bahia, mesas grã-finas e tabuleiros de esquinas e terreiros que originaram o resgate de uma culinária que deixou de ser alimento para se tornar motivo e razão do existir de uma gente, de um povo: o reconhecimento das razões por que este ou aquele prato existiu ou o fizeram existir.

Detalhamos à guisa de exemplo e ilustração que, além de a feijoada ser registrada como experimento do negro escravizado a partir dos restos legados(?) da casa grande, nela está não o sabor peculiar, a forma do cozimento e do servir (que o carioca alienou) mas a razão por que se tornou alimento para sobrevivência dos miseráveis que só dela dependiam e dos regalos de uma classe dominante que se imaginava detentora até da ”receita” imposta aos que dela dependentes, então incompreendidos sobreviventes.

Reler para quem já leu é fundamental. Até para dispor de razões para perceber que certas homenagens literárias são vazias legando a brasileiros grapiúnas a adjetivação de tchaikowsquianos quando sobre o palco em torno do qual escreveram sobre cacau nada haja de assemelhamento a estepes e quejandos tais, tampouco tradução cultural das gentes. E nem mesmo se sabe se o adjetivado conheceu a geografia a ele vinculada.

Ainda que amparo possam encontrar tais analistas em Tolstói ("se queres ser universal, começa por pintar tua aldeia") nenhum escritor em sua pureza relatora traduzirá gelo se nunca o sentiu e o percebeu. Mesmo porque há limites para se aplicar a tanto o raciocínio de Ariano Suassuna de que o escritor é mentiroso por excelência.

Nenhuma pescaria nos traduzirá Ernest Hemingway de “O Velho e o Mar” se nunca entramos em barco de pesca, tampouco dispendamos força e inteligência para compreender o embate entre homem e pescado. Não temos que Hemingway tenha sido pescador profissional, mas bebeu, certamente, como Guimarães Rosa e Mário Palmério, na taça ou nos copos de butecos emprenhando os ouvidos a partir das experiências então anotadas.

Que dizer – preclaro, paciente e estimado leitor – de José Lins do Rego falando de pampas e de Érico Veríssimo debruçado sobre canaviais?!!!...  

Nestes tempos em que o Carnaval se torna referência/mercadoria apenas indagamos se alguém lembra ou reflete (em nível de Salvador) em torno do Bloco Faxina/Mudança do Garcia, dos Apaches do Tororó, ou dos “Casados I Responsáveis”, de Itabuna, e dos “filhos de Maiaiá”, de Itororó?

A folia esteve aí, caro e paciente leitor!

Que tenhamos feito releituras, recuperado o que sempre esteve próximo e tenhamos lançado às calendas aquela parcela erudita que hoje se faz inteligente a partir de algoritmos simplesmente!

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

O próximo passo

 

Decididamente essa terrinha de São Saruê tem coisas como as que deram de chamar “jabuticabas”, porque não frutificam em outras paragens. Fruta nossa, coisa específica assim como ‘emendas pix’ – instrumento de que se valem alguns legisladores para gastar dinheiro do povo sem prestação de contas – único sistema no mundo onde o Poder Executivo deixa de ‘executar’ o orçamento e transfere ao legislador esta inusitada dimensão executiva para ser efetivada às escondidas.

Mas a sociedade, tutelada sob cutelo da ordem legal, tem suas peças no plano da organização social por meio da representação dos diversos estamentos, cada um defendendo o seu pirão mesmo que isso ofenda as mais comezinhas regras de isonomia.

Um deles – comendo mingau quente pelas beiradas – se propõe a ser a voz e defensor de tudo, de todos e fiscalizador também de tudo e de todos, como típico arauto (ou oráculo?) da realidade que expressa como verdade, ainda que não o seja. E por meio de introjeção no inconsciente coletivo repete à exaustão o que entende como “verdade” e faz com que parcela considerável de seus leitores e ouvintes a admita.

Espaços – cada um em seu quadro específico – que expõem aspectos da vida social e que revelam ‘verdades’ que parecem pouco interessar aos arautos da imprensa, a não ser para atingir o que não seja conveniente ao sistema que os sustenta e custeia.

De singular o tratamento dado a presidiários, por exemplo. Direitos previstos em lei exaltados para um deles em especial. A massa de presos – que supera nove centenas de milhares no país – vive em condições sub-humanas, para não se dizer inumanas, parte encarcerada em celas (mais de 700 mil) – reconhecida como a terceira maior população carcerária do planeta.

Os presídios não os conhecemos como lugar de visitas, a não ser àquelas obrigadas pelas circunstâncias. Albergando os que violaram a lei e ali estão para cumprir uma pena como forma de reeducá-los, vivendo vinte e quatro horas entre quatro paredes de uma cela e uma grade como acesso visual para o exterior, expresso no corredor que acomoda a todos no coletivo de individualidades.

O mais terrível para o vil mortal que vive no presídio é o isolamento social com o exterior. Visitas determinadas periodicamente horários definidos e mais nada além de comer, dormir e trabalhar quando permitido.

Mas, em meio a tantas mazelas, eis que a terrinha de São Saruê lança aos quatro ventos do universo uma singularidade: a cela como QG eleitoral, que se tornou comitê político-partidário autorizado por ministro do STF, escolhendo o residente, inclusive, quem deva a ela comparecer sob seu convite referendado pela Corte para discutir o futuro do país. Porque já não basta saída para hospital, assistência de dois médicos diariamente, visitas íntimas a qualquer instante etc. etc. etc. Inclusive, ao que parece, dispensa do uniforme de presidiário!

Não consideremos a visita de padre(s) católico(s) ao evangélico prisioneiro(?) como estranha porque os pecados – quem os tem – podem exigir intervenção de vários credos.

O próximo passo, pelo caminhar da carruagem – como estamos para ingressar no período de propaganda eleitoral – em defesa da liberdade de pensamento, muito possível uma solicitação para falar e conclamar à nação – através de rede nacional de rádio e televisão – a eleger a continuidade da dinastia.

Com efusivos aplausos da mídia e suas verdades.

E há quem fale mal do Ministro Alexandre de Morais por tanto “torturar” o residente!


domingo, 18 de janeiro de 2026

Entre Manoel Bonfim e simon bolivar

 

Não nego a surpresa com o ocorrido no dia 3 na América Latina. Não imaginava – ainda que possível, caso ultrapassado os limites da loucura – que a insanidade chegasse a tanto e pulverizasse todos os postulados desenvolvidos no curso dos séculos para delimitação das regras internacionais consubstanciadas no respeito à autodeterminação dos povos e da não intervenção em assuntos internos de cada país, capítulos registrados nos livros como demonstração da evolução civilizatória.

Apenas para ilustrar, no particular da história estadunidense o que não lhe falta são as guerras de conquista, inclusive territorial, haja vista o que tomaram do México (apenas como exemplo imediato), que para encerrar a guerra por eles promovida que durava desde 1845 cedeu, pelo Tratado de Guadalupe Hidalgo (1848), a totalidade dos atuais estados da Califórnia, Nevada, Utah, e a maior parte do Arizona, Novo México e Colorado, além de partes de Oklahoma, Kansas e Wyoming, cerca de 1,36 milhão de km² – e reconheciam a anexação dos 695.661 km² do Texas (1845), e a tudo logo depois o acresceu com a compra de outros 76.800km² (1853-1854).

Sintetizando: o México perdeu 55% de todo o seu território. 

Mas, tudo isso há quase 200 anos, meados do século XIX. De lá para cá duas grandes guerras mundiais na primeira metade do século XX se desdobraram na fixação de uma nova ordem mundial, e a Carta da ONU, de 1948, estabeleceu em seu preâmbulo:

NÓS, OS POVOS DAS NAÇÕES UNIDAS, RESOLVIDOS a preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra, que por duas vezes, no espaço da nossa vida, trouxe sofrimentos indizíveis à humanidade, e a reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e no valor do ser humano, na igualdade de direito dos homens e das mulheres, assim como das nações grandes e pequenas, e a estabelecer condições sob as quais a justiça e o respeito às obrigações decorrentes de tratados e de outras fontes do direito internacional possam ser mantidos, e a promover o progresso social e melhores condições de vida dentro de uma liberdade ampla. “

E fixou no Capítulo I, dos Propósitos e Princípios:

“2. Desenvolver relações amistosas entre as nações, baseadas no respeito ao princípio de igualdade de direitos e de autodeterminação dos povos, e tomar outras medidas apropriadas ao fortalecimento da paz universal”.

Ainda que no presente texto não caiba aprofundamento em torno, não custa lembrar que a Carta da Nações Unidas não “elegeu” xerife ou delegado algum a não ser a mesma ONU como interveniente entre as nações.

Mas, caro e paciente leitor deste escriba de província, nestes quase oitenta anos vimos praticamente a totalidade de assunção da xerifia por um país a ponto, desde então guerrear contra a Coreia (1950-1953) e o Vietnã (1955-1975) sem falar-se em derrubadas de governos constitucionalmente eleitos na América Latina.

Como mote a ‘narrativa’ de combate ao comunismo e suas ditaduras (hegemonizado por União Soviética e China) e desencadeando um processo de acumulação de poder bélico de triste lembrança, haja vista Hiroshima e Nagasaki como demonstração.

Dando um salto, cumpre realçar, pós debâcle da União Soviética (1990), um processo geopolítico em busca de multilateralidade passou a ser desenvolvido e aprofundado no curso do século XXI e são visíveis os sinais de que algo de concreto está ocorrendo.

Mas, ultrapassadas as considerações nos vemos diante de reações interno-brasileiras ao 3 de janeiro último: uma parte defendendo o respeito à Carta das Nações Unidas; outra, aplaudindo sob égide das narrativas de sempre: retomada da democracia, combate ao narcotráfico (mote atual), defesa da liberdade etc. etc. etc.

E ficamos nós – que evitamos o aplauso barato sem apurar a qualidade da obra – a rever/sugerir escritos nos últimos 100 anos, destacando um brasileiro e um uruguaio: o sergipano Manoel Bonfim (1868-1932) e Eduardo Galeano (1940-2015).

As Veias Abertas da América Latina (1971), que se tornou clássico, certamente é a análise mais difundida do drama geopolítico sul-americano no curso dos séculos. Uma leitura imprescindível para qualquer análise. E neste instante temos visto a citação deste trabalho de Galeano como referência para uma análise da conjuntura.

Mas – este o objetivo primordial para este escrito – cumpre-nos observar o Brasil como destinatário da análise buscando o que representa no contexto “americano” de um brasileiro muito pouco lido, para não dizer desconhecido: Manoel Bonfim, autor de clássicos como América Latina, Males de Origem, O Brasil na América: caracterização da formação brasileira, O Brasil Nação: realidade da soberania brasileira, dentre meia centena trabalhos escritos.

Darcy Ribeiro nele via o “pensador mais original do Brasil” e Raymundo Faoro a ele se refere como o “indignado” diante das mazelas por que passávamos.

Nos dispensamos de escrever sobre outras vertentes afins, mas de recomendar análise comparativa entre os textos: Teoria da Dependência, de Fernando Henrique Cardoso/Enzo Faletto) e as teses para uma teoria do subdesenvolvimento em várias obras de Celso Furtado, a exemplo de Subdesenvolvimento e Estagnação na América Latina, Raízes do Subdesenvolvimento, O Mito do Desenvolvimento Econômico, A Nova Dependência, dívida externa e monetarismo.

Ao paciente leitor que até aqui chegou deixamos caminhos para reflexão, fugindo a fundá-las na narrativa simplesmente, para nos aliarmos aos sábios afirmando a incerteza em meio a tantas certezas afirmando-a ciência e dogma. Certamente descobrirá as razões dos arroubos que sustentam as bandeiras libertário-democratas estadunidenses.

Aliás, parece-nos que o ‘simon bolivar’ (com minúscula mesmo) da Venezuela já definiu o que pretende: a maior reserva de petróleo. Como já o fez com o Iraque, Líbia...


quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

“Quando a justiça não chega aos pobres, não é justiça para ninguém”

 

(Ou)víamos na rede um vídeo em que o Ministro Flávio Dino pontuava em evento acadêmico declinando São Tomás Morus, Papa Francisco, Pepe Mujica... Despareceu da telinha o que assistíamos, mas ficou-nos o que está no título.

Acompanhamos a atuação do ministro em sua bandeira contra atos espúrios – ora legitimados nesta república que sonha e anseia retorno a ser “de bananas” – oriundos de um Poder Legislativo que passou a negar a sua função institucional – de elaborar leis conforme a representação a ele delegada pelo povo – e se apossou e invadiu atribuições do Poder Executivo na função de efetivar a administração pública em benefício próprio/particular.

Trazemos o exemplo da atuação do ministro que salva – para este escriba de província – uma Corte que tem em sua história recente (não tão) exemplos nada dignificantes no exercício de sua função, de intérprete da Constituição da República primordialmente. E neste particular aspecto parece estar solitariamente só, haja vista que dormita há cinco anos nos escaninhos do STF uma ação que simplesmente pede, em definitivo, uma decisão para o que o ministro isoladamente tem promovido bastando, para tanto, que o Presidente do STF a leve a julgamento.

Breve repassar não nos leva a muito procurar.

Em 1964, no abril para esquecer, o STF compunha-se de nomes como Victor Nunes Leal, Hermes Lima, Evandro Lins e Silva, Antônio Gonçalves de Oliveira, Adaucto Lúcio Cardoso, Aliomar Baleeiro. Mas, o seu então Presidente, Ministro Ribeiro da Costa, naquela madrugada de 1º de abril – para preservar a ordem jurídica – legitimava e empossava Ranieri Mazzilli como Presidente da República no imediato da conturbada declaração de vacância do cargo de presidente. 

Não tardaram as intervenções da ditadura e aposentadoria compulsória de muitos de seus integrantes.

Como natural em ditaduras (assim o foi na de Vargas) a “legislação” por decretos-lei pós 1964 se tornou lugar comum. Inúmeros deles legitimados pelo STF depois da denominada redemocratização, ainda que sob égide de uma Nova Constituição Republicana!...

Não nos falta neste STF composto inteiramente sob o condão da Constituição de 1988, à qual cabe defender, “interpretações” de canalhice tal como a expressada por Tancredo Neves naquela madrugada de abril de 1964, haja vista até mesmo violar cláusula pétrea da Constituição (Art. 5º, inciso LVII) para assegurar ações político-golpistas negando a Carta no que nela afirmado sobre prisão depois do “trânsito em julgado”.

De um de seus ministros, até mesmo uma declaração pública legitimando o absurdo de um impeachment de uma presidente da República sem causa material.

E mais, um outro – hoje muito aclamado como democrata por setores esquerdistas de frágil memória – interveio em ato legítimo da Presidente (qual seja o de nomear ad nutum), deferindo liminar interposta e subscrita por integrante de seu Instituto (do qual sócio, naturalmente) para negar posse a quem por ela nomeado.

Um outro – a lista é grande, assegurando maioria absoluta a tal – negou habeas corpus para sustar procedimento processual penal promovido por vara incompetente, o que assegurou prisão para o paciente quando convinha ao sistema.

Em instante épico, de edificância lamentável, uma integrante do STF afirmou que, ainda que não existissem provas nos autos contra o indigitado acusado, se via “autorizada pela literatura jurídica a fazê-lo”. Na esteira de tamanha “defesa” dos direitos e garantias individuais, um juiz federal condenou e prendeu – à míngua de provas materiais e testemunhais – amparado em ‘atos indeterminados’.

E não podemos esquecer daquele ministro que determinou à Polícia Federal, em 2006, a instauração de inquérito (2474) para produzir a prova de que precisava para assegurar a condenação por corrupção dos integrantes do mensalão que escolhera a dedo e como tal inquérito nada apurou de existência de recursos públicos para “compra de votos no parlamento”, alijou a “prova” que requisitara por não atender aos seus espúrios desejos.

E nem falemos das decisões todas a envolver a relação entre o Estado, o sistema financeiro e os direitos do povo em que ou aquele ou o outro (sistema) são amplamente beneficiados por ‘interpretações’ mais políticas que jurídico-constitucionais.

Ainda bem que por aqui não corremos o risco de ocorrer aquele 1º de janeiro de 1959, quando um pardieiro da elite caiu sob o condão de uma gente que não mais aguentava a exploração.

Por aqui a espera de que a justiça ainda chegue aos pobres, para que seja justiça para alguém.

 

domingo, 28 de dezembro de 2025

Marx, Kant, fato, revelação e narrativa

 

Quando a sociedade humana – assim referida porque vinculada a quem pensa, raciocina, dialetiza – falha em reconhecer no seu passado as suas tragédias, fadada está a vê-las repetidas de forma piorada.

A conclusão se ampara na análise de Karl Marx logo no início de seu “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”, tomando da dialética hegeliana o que entendia este haver citado: que todos os grandes fatos e personagens da história universal aparecem, por assim, dizer, duas vezes, e logo acrescentar, certeiro (para ele, o esquecido por Hegel): “a primeira vez como tragédia, e a segunda como farsa”.

E nos vemos, como escriba de província, a revolver fatos destes últimos oitenta anos desta terra brasilis, a partir de uma singularidade apenas (porque tragédias são tantas!): duas cartas ao princípio e ao fim. E, para não perder fatos histórico-pretéritos que então se afinam – porque religião e fé sempre encontram uso – o Concílio de Nicéia.

Palco de permanente controle do mandonismo das elites e de bissextas chances de ser nação para o seu povo (e haja bissexto!) este país nosso de cada, que alternou – como fenômeno sócio-político em vertente econômica – aquela fase de “feudalismo retardatário dos primórdios da colonização”, como observa Wilson Lins, e o transfigura na contemporaneidade sob outros rótulos acadêmicos, mudados apenas os elementos de divulgação e controle em razão de cada época, desde que mantido o status quo socialmente tão vetustamente como a expressão latina que o afirma como significado.

Mas, deixemos o muito a dizer para chegarmos ao pouco a que nos propusemos: instantes destes últimos oitenta anos incensados por coisas oriundas no séc. IV d.C.

Naquele agosto de 1954 Getúlio Vargas escreveu e se foi: “[...] Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida... meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos.”

Neste dezembro de 2025, às vésperas de uma manifestação de religião e fé, uma outra carta – que soa a testamento – proclama: “[...] Entrego o que há de mais importante na vida de um pai: o próprio filho para a missão de resgatar o nosso Brasil. ...Ele é a continuidade do caminho de prosperidade que iniciei bem antes de ser presidente”.

Naquele maio de 325 d.C. o Imperador Constantino I partia para encontrar a consolidação da Fé Cristã (até então dividida entre ser pretendida “do e para o Estado” e a que até então existira, do Cristianismo primitivo proclamado a todas as gentes) que se consumou sob égide da Santíssima Trindade (Cristo como “Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado e não criado, consubstancial ao Pai”), afirmando o dogma da Trindade Pai, Filho e Espírito Santo.

O melhor – e para dar fim ao conflito: apagar os fatos, e não precisar explicar a razão por que Jesus fora o criminoso judeu morto por judeus através do estado romano na solução que até hoje perdura em meio a alguns dogmas de fé (eureca!): Deus amou tanto o homem que deu seu filho à morte para resgatar os pecados dele, “para que todo que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (João, 3:16).

Caso nos voltemos para observar o processo desenvolvido pela História, ao longo de um lento e penoso curso para evolução, observaremos diferentes etapas que trazem, ao final, a conformação de conhecimento e informação, afirmando serem revelações que, em si se esgotam e se bastam, constituem fatos percebíveis porque verdadeiros. Verdades em si, verdades criadas à conveniência; fatos e narrativas.

Para não dispensarmos Emanuel Kant partindo-se de que intelecto humano se aperfeiçoa pela capacidade de colecionar incertezas – (“avalia-se a inteligência de uma pessoa pelo número de incertezas que ela é capaz de suportar”), muito nesta terra brasilis transita no terreno do transtorno cognitivo resultante da corrupção de todos os processos elucidativos e esclarecedores que se consumaram em verdades e certezas falsas para obtenção de um controle sob manipulação de quem as detenha.

Não à toa Paulo Freire é execrado por tal parcela de nossa sociedade, justamente por afirmar: “a prática de se pensar a prática é a única maneira de pensar certo.”    

Sócrates foi tido por uma das sacerdotisas do Oráculo de Delfos como o mais inteligente dos homens pelo fato de afirmar nada saber, razão por que não emitia nenhuma afirmação, tão só indagava, indagava...

Neste Natal, em tempos como o presente, de tão aprofundamento da narrativa (transtorno cognitivo) prevalecendo sobre o fato, não custa alguém afirmar que no ditoso solo brasileiro nasceu – não o mito – mas o próprio Messias.

E triste de quem disser que há um transtorno psíquico!

domingo, 14 de dezembro de 2025

Exemplo de um tempo para não esquecer

Em tempos de antanho o fim de ano nos rincões provincianos se fazia de mudar a roupagem apenas, porque nada de efetivamente de novo havia a não ser aquele “mais um dia” na vida de cada um.

Mas tudo transcorria naquele “existir” autêntico, oriundo de uma sinceridade implícita lecionada por gerações. Este escriba de província, prestes a alcançar 80 anos  se os donos do planeta permitirem que abril de 2026 transcorra no Calendário Gregoriano  viveu no curso de sete décadas o processo de evolução da Civilização e percebe em detalhes o que no curso delas ocorreu. E mesmo se debruça a escrever em torno disso.

Nesse final de 2025 muito teríamos a registrar. Entretanto pouco a acrescer no universo da preservação de valores que dignificam o homem como expressão da Humanidade. Buscando lições folheamos textos deste espaço que vão se tornando alfarrábios e resgatamos um exemplo de vida dignificante, impossível de existir nestes tempos hodiernos: o de ‘minha’ inesquecível mãe, e seu “Mingau de café".

Neste 16 faria 105 anos.  

[...} “Faleceu sem alcançar os 64. Da mais nobre estirpe sertaneja. Não por honrarias de família, títulos ou brasões. Mas pela intrepitude em decorrência da vivência naqueles confins de mundo, à época muito menos assistido que hoje. Por ali e além aprendeu a traduzir os lajedos como natural à crueza do ambiente. E quem não o fizer sucumbe.

Nascer por ali exige marca na testa em ferro em brasa como mensagem a ser lembrada diante de um espelho: sobreviver é tudo. Sem faltar o “Se Deus quiser”! – porque Ele se tornou  dos púlpitos único caminho para tudo ‘desculpar’ do que o semelhante por aqui causa ao semelhante.

Multípara, com sete sobreviventes: dos nove, um levado aos dois meses; outro nasceu na terra quando já no Paraíso.

Fazia milagres com o quase nada. De invejar economistas, que só sabem teorizar em torno da acumulação da riqueza, porque em seus vocabulários nenhuma palavra há sobre a escassez como sinônimo de fome, onde a vítima participa tão somente como unidade estatística.

Desenvolveu singular técnica para atender as necessidades familiares em nível de Vitamina C: uma laranja espremida, tornada laranjada, e o bagaço levado ao próprio estômago. A laranjada desdobrava-se em tantos copos ou meio copos até o limite de atender os filhos.

Quando terminava o cozer, a lavagem dos pratos de esmalte, de carrear água da cisterna para o encher de potes e moringas, hora de cuidar da banca dos que estudassem e logo o pedalar na velha máquina Singer para costurar os retalhos e torna-los em colchas, cobertas ou cerzir as roupinhas dos filhos. De vez em quando um vestidinho, um calçãozinho.

Nunca se viu nela uma lamúria, um desassossego.

Tampouco alimentou ‘papai noel’ algum. Tanto que aprendemos a assistir os visitados escolhidos pela lenda debruçados no batente das janelas quando amanhecido o dia. Até que esquecêssemos que não fôramos visitados pelo velhinho porque, muito provável, desobedientes quando insistimos em ficar acordados a sua espera para agradecer por tudo.

No rádio da vizinha, “seja rico ou seja pobre, o velhinho sempre vem” abafava o alarido da alegria infante exibindo bonecas, carrinhos, bicicletas, bolas, brinquedos vários.

Mas havia algo mais.

Sabido e consabido que carne seca – quando dispõe –, rapadura e farinha de mandioca são o milagre dos peixes que faz sobreviver no sertão caatingado e resseguido.

Para ela, outro milagre: quando tudo faltava – do dinheiro ao que comprar – café e farinha. Reunidos naquele manjar dos deuses chamado mingau de café.

O mingau de café de Adelaide.

A “mãe e heroína” que nos levou “à compreensão mais extrema do significado de saudade”.*

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*Extraído da dedicatória levada ao romance Amendoeiras de Outono (Via Litterarum, 2ª edição, 2013).”

 

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Retornando aos poucos

Cá estamos retomando a busca por incomodar o estimado e paciente leitor. Algo temos escrito. E publicado em livro. No entanto, por razões que não conseguimos explicar, não levamos à publicação aquilo que nos zumbe na forma de crônicas, ensaios e poesia. Mas algo nos pede para retornar. E o fazemos explorando e abusando daqueles que leram e escreveram algo sobre este escriba de província.

Assim, como o fez o escritor e jornalista Antônio Lopes.

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Em busca das palavras perdidas

Antônio Lopes *

    Inquieto e indignado, Adylson Machado é capaz de dissertar, desde que tenha auditório interessado, sobre variados temas. É um erudito, sem ofensas. A história, a filosofia, a literatura de ficção, a economia, os estudos de Direito e a degradada política partidária nacional formam sua agenda diária. Na rua, no ABC da Noite ou em sala de aula, a palavra, límpida, cortante e justiceira, é sua lança, brandida contra todas as formas de injustiça, mesmo que venham disfarçadas em moinhos de vento.

    Admitamos que, grosso modo, o romance é o ápice da produção ficcional, de culto difícil, às vezes doloroso, quase vedado a principiantes. Estes costumam ensaiar a memória, a crônica e o conto, antes do voo mais arrojado. Adylson, fiel ao seu modo desafiante de ser, logo enfrentou e venceu as armadilhas do romance, estreando com Amendoeiras de outono (Via Litterarum/2005), obra que surpreendeu positivamente quantos a leram.

    Ali, críticos atilados perceberam uma linguagem com nuances de Joyce ou tinturas de Proust, num bem-sucedido esforço de ligadura passado-presente pela via da palavra escrita. O autor imprime em seus trabalhos as pegadas do novo, sem ruptura com o passado, mas não se aprisiona ao saudosismo doentio ou ao romantismo piegas. Ainda que vagueie por pasárgadas e utopias, sua face de realista fantástico está sempre desnuda.

    Em verdade, trata-se de um artista que escreve como quem vive: sua tessitura ficcional sabe a Julio Cortázar, num combate diuturno contra o que está posto: há de se mudar a escrita e o mundo, parece nos dizer. Nesse anseio, ele, a poder de construções alicerçadas na crueldade dos dias sujos e no ideal espaço da poesia, se propõe a desconstruir velhos moldes, para dar lugar ao provir – preservando o que, por ventura, deva ser preservado.

    Em O cinza e o silêncio, ora dado a lume, ele comprova essa suspeição de inquietude destruidora (no sentido cortazariano da palavra), e inverte os termos da equação: do romance, foi ao conto (não o contrário), transgredindo a práxis consuetudinária. O cinza... é uma coletânea de apenas oito estórias curtas, sendo que a mais densa (O queiro) tem treze páginas, algo como frasco pequeno para perfume de alta qualidade – se mereço clemência pelo lugar-comum.

    É escritura engagée: denúncia das desigualdades sociais (sobretudo num meio rural com relações vassalo-suserano), expressões regionais com sabor de coisa antiga e boa (certamente não sabidas dos moradores do asfalto), em moldura de poesia em prosa – como a tornar menos cruel a vida dos seus anti-heróis. Isto lembra Amendoeiras? Felizmente, sim – do contrário não teríamos um estilo. E temos.

    Um conto deve ser fechado, unir início e fim, de sorte que a impressão inicial seja confirmada no fecho – adverte o mestre Hélio Pólvora, divulgando valiosa lição de Tchekhov: “Se no primeiro capítulo aparecer uma espingarda, mais adiante alguém terá de dispará-la.” Nesse particular, agradou-me sobremaneira uma navalha que surge em Carrilhões e que, no fecho, terá papel decisivo.

    Teria sido Mallarmé quem afirmou estar a poesia nas palavras, não nas ideias e sentimentos, mesmo que sejam destes, os sentimentos, que vêm ao poeta as palavras justas. Adylson maneja as palavras, sugeridas pela força subliminar do seu espírito de artista, como verdadeiro poeta.

    Músico, ele lapida o texto como se anotasse melodia em pentagrama, o que resulta numa escrita cuidadosa, limpa, detalhista, sonora, colorida: começa com um acorde, muda de modo, vai do maior ao menor (ou vice-versa), improvisa, voa, viaja, retoma o tema e encerra no acorde inicial, às vezes discreto, às vezes apoteótico.

    Além de Carrilhões, é imperioso destacar Espelho Partido, pelo seu ambiente de tragédia grega, ambos os contos dignos de antologia. Anote-se ainda um sujeito que “vestia arrebóis e alvoradas” (em Sísifo, uma estória que soa com sutis citações de Stendhal), o suave erotismo de Encontro, outra vez o trágico, com punição para o pecado. O queiro (que nos dá a deliciosa expressão “a viúva a cântaros, diariamente”) é sobre um personagem esfacelado, posto atônito diante do mundo, angustiado, esmagado pelo peso dos dias iguais que se sucedem, talvez qualquer um de nós. Essa rotina é como um queiro inflamado (ou dentiqueiro, ciso ou queixeiro) – nos lembrando que pior do que dor de dente, só dor de amor... E se mais não aponto é por não querer tirar do leitor o prazer das descobertas.

    Adylson Machado, se falamos dessa coisa um tanto vaga, aqui chamada arbitrariamente de “literatura do sertão” (seja no romance ou na estória de mais curto fôlego), lembra Graciliano Ramos, tangencia Guimarães Rosa e assenta-se ao lado de Francisco J. C. Dantas. Não é pouco.

* Jornalista

 

 


domingo, 13 de abril de 2025

Anistia destes tempos

 

A voz corrente para uma corrente da sociedade: anistia. Para alguns eleitos, naturalmente.

Aprende, ao vivo e em cores, o  caro e paciente leitor que não está em pauta a “anistia”, mas a narrativa que dela se faz para a apropriação de interesses em jogo.

Diversamente de outras anistias concedidas a pretendida tem singularidade muito própria à terra brasilis, o que – muito apropriadamente – nos leva a defini-la como a ‘nova’ jabuticaba brasileira: anistiar quem nem mesmo foi condenado. 

E para demonstrar que em nível de jabuticaba o Brasil é ímpar – e inova sob seara surrealista – também se busca que nem o poder estatal incumbido de apurar e julgar exerça o que lhe determina a Constituição.

Como os pretendidos à anistia são um punhado de coitadinhos poderíamos – aproveitando a narrativa que ocupa o noticiário – propor estendê-la de forma explícita e nominada aos deputados que subscrevem o projeto.

Ah! E como há intimidade entre os interesses também incluir os que estão sob investigação por desvio de dinheiro do Orçamento Público (parte de 200 bilhões de reais nos últimos quatro anos).

E como corre em meio a pedidos de anistia a sofrência de intestinos sensíveis sob observação não custa reconhecer tudo como tempero de um mesmo cardápio que naquele órgão se metaboliza.

Cuidemos, por precaução, de tamparmos nossas sensíveis narinas, que não podem ser alvo de anistia!


domingo, 6 de abril de 2025

O que esperar de tão estranhos tempos

 

Cumpre-nos chamar a atenção do caro e estimado leitor que por estas linhas não serão traçados caminhos que se sustentam em convicções. Ou seja, não são propostas para levantar balões em temas que embasam certezas em cada um, tais como carnaval, religião, política, futebol. Ainda que possa alguma interpretação avançar ou se apropriar deste ou daquele “certificado”.

No lapso temporal de 10 anos temos que os últimos quatro definiram – ou estão a definir – uma nova conformação para o país, para sua gente. Como reflexo mundial, mas aqui com sinais muito específicos. O principal deles o de que inexiste – desde tempos pretéritos – uma proposta de país que envolva todos os espectros que o constituem. Assim, mais e mais estamos a confirmar a visão de Jessé Souza de que a “elite” de que dispomos voltada está para o atraso. Que o diga a ‘conveniente’ extinção da escravatura formal e o seu imediato.  

Desde muito perdemos – o que parece definitivo – a capacidade de reconhecer o diálogo, a conversa, a troca de ideias como instrumento natural à civilização. De reconhecer as diferenças e os diferentes como peças de um mesmo tabuleiro.

Não vivemos o fato, mas a narrativa. E no destinatário final (o leitor, o cidadão, o ouvinte, o telespectador) prevalece o que lhe chega e como chega: narrativa.

Inelutável que no imediato do processo eleitoral de 2022 o país vivenciou duas situações que hoje mais esclarecidas estão: a) um avanço de setores conservadores na composição do Congresso; b) um golpe de Estado posto em andamento.

O avanço do conservadorismo no Congresso não se pautou no convencimento do eleitor a reconhece-lo como sua “representação” (basta ver algumas figuras que lá estão!). Sabe-se que parcela considerável se alimentou de um escândalo chamado “emendas” (em suas diferentes espécies) que municiou redutos eleitorais asseguradores de eleição deste ou daquele ‘aliado’ do cacique. Simplesmente dinheiro público desviado escancaradamente para favorecer grotões alimentando a secular compra de votos com um volume de recursos jamais visto. Um outro, de um messianismo à brasileira, o único que vê o sionismo israelense como manifestação de Jesus Cristo!

Do golpe de Estado nada mais há a ser dito: provado e comprovado; com responsabilidades definidas. Até mesmo confessado explicitamente.

O que estranha este escriba de província não é o que aconteceu de então, mas o que não aconteceu desde então. No primeiro caso, o ensaio de enfrentamento pelo Poder Judiciário de buscar a “transparência” que deve ser exigida de dinheiro do povo já começa a ser levado em banho-maria, cozendo o galo em fogo lento até que a “narrativa” possa transformar o fato em mentira; no segundo, lá se vão três anos do golpe e ainda discutido pela "narrativa" como se houvesse dúvida em torno de sua elaboração e início de execução.

Nenhuma dúvida de que o andar da carruagem demonstra o quão frágeis são os caminhos de que dispomos. Tais caminhos têm uma tradução em Política: instituições. Ou seja, a construção histórica da civilização para alcançar e manter o que alcançou.

Mas, não duvide e estimado leitor: não mais são as instituições que orientam a sociedade, mas a narrativa que lhe é oferecida/imposta por quem a controla (a narrativa).

O mundo – o Brasil em particular – está lançando às calendas as conquistas civilizatórias que desaguaram no edifício das instituições simplesmente levando-as à covardia. Ao ponto de nem mesmo mais se reconhecerem que existem como pilares da sociedade.

Diante de instituições acovardadas talvez não haja o que esperar de tão estranhos tempos.


domingo, 30 de março de 2025

Revendo o futuro nas águas de março

 

Eis-nos a quixotear em torno dos moinhos deste nosso tempo. Há meses trilhando caminhos de encontro, distorcidos da realidade compreendida no curso das décadas deste existir efêmero. Com dificuldade para aceitar que o sistema de controle é o mesmo e que todo o avanço científico tão só avança tecnicamente nestes hodiernos tempos em aprofundada proporção inversa aos conceitos de civilização e humanidade.

Relia nossa última postagem. De lá para cá aprofundaram-se os conflitos internos, agravaram-se os externos. E sob a égide da modernidade, do acesso instantâneo ao que acontece aqui e alhures, McLuhan mais se fez atual.

Destaca-se a cada dia a impropriedade da Verdade, superada pela supremacia do dizer e pensar de cada um. A individualidade assomou poderes inimagináveis. E a Verdade aristotélica a cada um destes instantes mais se torna inaceitável e se faz mentira.

Na esteira de tais pérolas o genocídio cometido sobre o povo palestino (sob aplausos de parcela disto que chamam ‘civilização’) está sendo praticado por uma espécie de “sionismo cristão” haja vista os que divulgam e incensam o povo que matou profetas, inclusive Jesus Cristo, como exemplo de país cristão. E não falta quem aplauda a proposta de matar idosos, mulheres, crianças e expulsar os que restarem (quanta magnanimidade!) para que seja dado espaço a uma nova “Riviera” no Mediterrâneo oriental.

Do bom dia a cavalo, rapsódia húngara e quejando tais eis-nos ano depois retomando o tomar o tempo alheio para lembrar que, até que enfim, aquela crítica aos “órgãos de comunicação do Governo” incumbidos de falar em nome dele parece ter sido ouvida (oh! vaidade!).

Tempo também de confirmar que neste estágio de negação da Verdade o coração conveniente esquece a razão. E quem bateu, ameaçou, pretendeu matar descobre que chorar é o melhor dos argumentos. A convencer até mesmo quem se arvora de pautar-se no racional sob a égide de uma toga de um tribunal superior. Mas, tudo pode mudar desde que quem alimente o racional esteja a expressar a “sua” conveniência.

Vivemos o fato singular, de que na disputa entre a Verdade e a Mentira vence(rá?) quem melhor domine e articule o meio para a narrativa. Demonstrando que a negra realidade que se põe diante do olhar que vê é engano ótico de quem não enxergar o azul celeste que não existe, mas propagado.

Era de tudo digitalizar. Mais fácil. Aceito como dogma de fé. Para que pensar, ler para aprender a raciocinar, compor uma nova realidade se tudo, evidentemente mais fácil e imediato, chega pronto e acabado? E dispensando questionamentos porque imediato o resultado!

E descobre a mesma Ciência que a isso chegou que nós, os destinatários de todo o avanço por ela propagado, já estamos na primeira nova geração reduzindo o QI, porque nosso cérebro está sendo reconfigurado, limitado à digitalização como o deus desta contemporaneidade e futuro que dela emana. A produtividade não mais exige atenção; apenas a mecânica da digitalização. Mas isso é coisa desta neurociência orientada por alguns negacionistas etc. etc. etc. inimigos do progresso etc. etc. etc.

E aqui estamos: revendo o futuro. Porque nele somente o avanço tecnológico manuseando o retrocesso civilizatório ao passado mais primitivo a que possamos alcançar.

Ultrapassando as águas de março, imortalizadas na canção elaborada em um tempo em que se pensava e a criação frutificava do pensar, caminhamos para o mês de abril. Que de imediato anuncia o primeiro dia como o “da mentira”. Profético enunciado em calendário de uma época que vai abarcando o futuro em busca do passado que pensávamos haver superado.

domingo, 31 de março de 2024

Do bom dia a cavalo à rapsódia húngara

 

A sabedoria popular leciona que ‘quem fala muito acaba dando bom dia a cavalo’. Expressão clássica de uso corriqueiro pela sapiência nordestina em torno da qual deve muito conhecer o Presidente da República.

O noticiário reflete o desdobramento de uma denúncia feita ainda no ano passado, de que o ex-presidente da República não teria devolvido cerca de 161 bens móveis que integram o acervo do Palácio do Alvorada, residência oficial do Chefe da Nação. Não se descura que entre ditos ‘desviados’ estivessem alguns da Granja do Torto. Bem possível.

O alardeado pela imprensa é de que o Presidente teria falado do ‘desaparecimento’ de ditos móveis. E mais: também a primeira-dama não perdeu o mote e verbalizara em torno do tema.

A reflexão a que nos propomos gira em torno do como andam os órgãos de comunicação do Governo e, particularmente, os incumbidos de falar em nome e pelo Presidente. Isso porque não é a pessoa do Presidente, mas a instituição “Presidência da República” que utiliza dos meios técnico-institucionais para tal mister.

Não enveredemos pelo lacerdismo udenista de gastos feitos para aquisição de móveis novos; afinal, em termos de gastos o ex bate o atual disparando velocidade astronômica, basta lembrar que até gastos para limpeza do lago de entrada do Palácio do Alvorada que fizeram desaparecer as moedas ali acumuladas pela tradição turística de alimentá-lo para dar sorte.

Mas, voltando à vaca morta: ao que nos parece, nenhum deles (Presidente, primeira-dama) respeitou as normas em torno do assunto. E, não bastasse – sem qualquer ressalva de que algum órgão competente estaria a buscar localizar os móveis e até aquele instante não encontrara – aproveitaram o estado de ‘cachorro morto’ do ex-presidente e participaram da sessão de socos, chutes, pauladas e pontapés. Naturalmente tudo levado às alturas pelo noticiário; afinal, a fonte justificava o alarde em torno do ‘escândalo’.

Mas não é que descobriram os tais 161 móveis?

E a divulgação não traz notícia de apuração em torno de quem veiculou a falácia levada ao Chefe de Estado – na qual também embarcou a primeira-dama.

E eis que refém o governo de (mais) uma futrica de ‘comadres’ ainda que esteja surpreendendo em nível de economia, PIB, relações externas, soberania, investimentos, retomada do crescimento, queda de juros, redução do desemprego, criação de escolas técnicas (só a Bahia é destinatária de 10 deles) etc.

E o “cachorro morto”, envolvido em denúncias graves até o pescoço se vê (mais uma adiante analisada) – e à sua turma – na proa de ataques ao Governo e se amparando (como se isso pudesse livrá-lo dos incômodos) na “injustiça” cometida contra sua augusta figura.

E está certo nesse quesito: até que provem o contrário foi acusado indevidamente.

Cremos que – até que venha à tona quem induziu o Presidente à acusação (a qual não precisava assumir) – um mote para o palanque contra o PT e o Governo foi dado de mão beijada.

Mas – mas que se impõe – em sua atual gestão – o Presidente Lula está devendo muito no quesito comunicação. Para nós em duas latitudes singularmente negativas: assumir-se porta-voz político-eleitoral no ataque ao ex-presidente (mister que não lhe cabe e sim ao PT) e falando demais.

Sobre esse “falar demais” – muito provável, queremos crer – que esteja a amparar a primeira-dama, que fala o que bem entende onde bem entenda.  

Que saudades de D. Marisa Letícia! Que se limitava a ser mulher do Presidente da República e não dava “bom dia a cavalo”.

Mas, tudo isso ultrapassado – caro e paciente leitor deste escriba de província – há também os que falam pouco em meio aos que falam muito. E não falta quem não entenda de música, mas busque embaixadas para ouvir e aprender rapsódia húngara! Quando bastaria ouvir Liszt Ferenc, mais conhecido nos botequins da vida como Franz Liszt (1811-1886).

Mas, do alto da intemperança, fazendo ou falando demais – dizemos nós – de certa forma se aproxima da ironia de José Simão, de que há gente nesta terra brasilis que até “decreta Estado de circo!”