domingo, 1 de março de 2020

O que (não) dizer como Verdade


Fará parte do anedótico imaginar que aquele que pretende dominar o mundo, suas riquezas, escravizar o semelhante faça-o anunciando seu projeto por meio de assembleias populares. Que derrubar governos e submeter povos seja tema de discussão em ágoras modernas, ou nas que se imaginam sucedendo-as (rádio, televisão etc.).

E sempre foi assim. À sorrelfa, na calada da noite reúnem-se os sátrapas em seus covis. Trafegam em carruagens fechadas atiçando os cães pelas ruas. Sempre foi assim, inclusive vasto tema explorado na literatura. Os lobos não caçam a descoberto.

As coisas realizadas em segredo o são para que possam corresponder ao planejado e ao decidido. E ninguém planeja o controle do planeta às escâncaras.

Desde que o vento é vento, e ventou para o homo sapiens a caminho de ser o sapiens sapiens, democracia é instrumento de fazer valer o controle social por um dirigente escolhido pela maioria. Tal ocorre por afinidades de interesses (governantes e governados). Mas não se confabula com as multidões as políticas de Estado que este ou aquele governo põe em prática. 

A Democracia – não precisa aprofundar – é apenas um dos meios por que se alcança o poder. O exercício do poder, portanto, tem suas próprias regras, que nunca serão levadas ao povo para discussão, porque – para isso – há representante e gestores eleitos para o mister.

Sentimo-nos cansado – e não desistimos porque tal ação verbal não se coaduna com o pensamento idealista – em ler, ver e ouvir em torno da realidade imediata: a política e a econômica como sustentáculo do existir nesta sociedade contemporânea. Sem serem levadas em conta – com a clareza ideal – as razões por que de existirem na forma atual, fruto de um processo construído historicamente, apenas aperfeiçoado aqui e ali, mas sem perder a essência em si contida: o controle do poder não está necessariamente no exercício do poder.

Cansa pela superficialidade o lugar comum levado ao debate: ora tudo recai sobre o inquilino do Alvorada, ora o inquilino culpa a todos que estejam a sua volta desde que o alvo seja o de sempre: Lula, PT, comunistas, inimigos da Pátria etc. etc.

Cansa, porque um ano já ultrapassado em que – reconheçamos tal verdade – o inquilino do Alvorada nada fez além do que sempre representou e do que prometeu. Consciente ou não nunca enganou. O histriônico que é sempre foi. Quando muito podemos elevá-lo ao patamar patológico, mas nunca de que ‘enganou’.

Mas – isso o que muito cansa – o inquilino é centro e motivo para tudo.

Os que o criticam deixam de lado a razão por que está lá e – mais significativo – porque permanece lá.

Mas, caro e paciente leitor, esta terra brasilis tornou-se – não de agora – pródiga em manuais: de direito, de política, de economia etc. Do manual não se pode exigir aprofundamento, porque cuida ele de informar o básico para uso imediato. Nunca saber o porquê.

E quem trabalha com manuais nesta contemporaneidade foge – como o Diabo da cruz – de analisar a realidade. Mais seguro reproduzir um pensar próximo à homogeneidade, cuidar de expandir indefinidamente uma narrativa comum, convergente.

A imprensa a grande cabeça de ponte, abrigo dessa gente: os mesmos “notáveis”, os mesmos “gênios”, os mesmos “intelectuais”. Parecem ter ciência de que erram, mas errando em conjunto não lhes faltará mercado e audiência.

Eis o porquê de tudo acima escrito.

Porque já anunciadas as mobilizações – à direita e à esquerda – contra tudo e contra todos.

Cansa-nos tudo ver, tudo ouvir na certeza de que nada mudará. Porque estamos na era do manual, do superficial. E o superficial é a discussão posta como solução sem de longe tocar na razão do por que acontece.

Quem tudo aqui promoveu e quem de fora o comandou deixou o ‘manual’: discuta o superficial, nunca indague por quê.

Ainda que você diga que é Verdade o que não é, ou nunca foi, Verdade.

Querem nos convencer de que a riqueza acumulada torna o homem Humanidade feliz. Querem nos convencer de que não é a riqueza e a avareza que nos tornou no que nos tornamos. Querem nos convencer de que entregando o que possuímos nos fará mais ricos. Querem nos fazer crer que desempregar é solução, que destruir a Natureza é progresso, que empobrecer mais e mais os despossuídos é caminho para sua própria melhoria. Afinal – para não enveredar por chavões – que sermos mortos-vivos no pensar nos faz caminhar para o Conhecimento.

E por aí vai!

O não dizer como Verdade ao largo de dizê-la em plenitude. Apegados aos manuais dos ‘notáveis’, dos ‘gênios’ e dos ‘intelectuais’ que convergiram para o conveniente e nos dizem diariamente o que não é Verdade.

E ladramos enquanto a carruagem continua passando. Nela escondidos os que tudo planejam, elaboram os manuais e remuneram quem os divulga como mantra ou dogma de Fé.

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