domingo, 11 de agosto de 2019

Por entre leituras, ou a falta delas, as armadilhas que nos cercam II


A armadilha I
O Brasil foi servido “com Supremo e tudo”. Não há como negar. As violações que sustentaram o impeachment e as escabrosidades cometidas pelo Judiciário para assegurar Lula fora do processo eleitoral – inclusive de nem mesmo poder dar entrevistas – encontraram na forma (processo) e não no conteúdo (direito material) os pilares para que tudo se consumasse. 

Brasil que de logo foi servido, também não há como negar, no imediato da posse do então vice-presidente tornado presidente por força do que hoje muito claro está delimitado: golpe institucional apoiado no Congresso e no STF, respaldado e alardeado como salvação da pátria pela grande mídia e aquele punhado da classe dominante que a tudo internamente comanda, escutando o que lhe recomenda algum ‘grande irmão’ comandando-a de fora.

Caso alguém imagine que tudo ocorreu graças aos lindos olhos dos que vieram a ocupar a presidência do país recomendamos adquirir passagem para a Lapônia.

O que está em jogo
Jogo bruto – geopolítica e hegemonia global postos à mesa – com mentor natural, basta abrir o leque dos beneficiados lá fora com todo o acontecido. 

No banquete o país foi servido, ofertando, no imediato, as iguarias mais imediatamente sonhadas pelos paladares de além-mar: pré-sal, base de Alcântara, perda do controle da indústria aeronáutica (Embraer), destruição da construção civil e naval, antes que lhes seja ofertado como sobremesa o projeto de enriquecimento de urânio e o de propulsão nuclear para submarino que aqui estava sendo desenvolvido. 

Na esteira, devagarinho, na calada da noite, outras conquistas históricas da sociedade (previdência universal partilhada, saúde pública gratuita, ascensão ao ensino superior para todos, agricultura familiar, moradia para todos etc. etc.) sem falar naquela joia rara chamada Amazônia brasileira e sua flora ambicionada pela indústria fármaco-química, sem perder de vista ouro e outro minerais. 

E, como grande segredo, guardado a sete chaves, a água. Não aquela que existe na superfície, mas a imensidão oceânico-subterrânea.

O jogo é bruto e são as riquezas do país prometidas para a nação através de políticas públicas mais distributivistas postas em prática pelos governos petistas que passaram a incomodar. Para tanto, a soberania passou a ser solapada, a brasilidade e o civismo apenas slogan de oportunidade.

A armadilha
Na esteira do quanto até aqui posto a análise deste escriba de província diante da ameaça de impeachment do atual inquilino do Alvorada. Sem negar que motivos os há, em potencial – afinal, se adjetivarmos tal governo como uma anomalia, somente pelo viés do internamento, como já sugerido, ou da extirpação do tumor – difícil é o entendimento de que tal fato se torne bandeira para quem deveria estar buscando nas bases a razão por que hoje está na oposição. 

Por assim pensarmos, legitimidade para o processo o tem, em plenitude, OAB, Janaína Pascoal, Miguel Reale Jr., Lobão, Alexandre Frota e quejandos tantos que o alimentaram contra a presidente Dilma Rousseff – para os quais não faltarão as leituras jurídico-político-constitucionais do STF. Não os que sempre o combateram e se deixaram vencer.

Porque quem lá está ou quem venha substituí-lo não mudará o projeto. Mexerá numa peça insignificante, aqui e ali, alardeada como de suma importância, mas o essencial (a entrega) será mantida. “Com Supremo e tudo”.

O resto são sonhos em noite de verão.

Não compreender isso – e manter um sistema de enfrentamento que em si mesmo já não basta – reflete apenas caminhar os mesmos passos que os ora vitoriosos caminharam: ocupar as ruas simplesmente. Afinal a direita tomou uma estratégia da esquerda e a manipulou em benefício, porque ao lado a mídia por ela controlada para convencer/iludir a massa. 

Onde se põe mídia tudo o mesmo. Difere conforme a ênfase dada ao noticiamento. Sob esse viés a esquerda fica em desvantagem. A não ser que levasse às ruas meia população do país num só instante. O que não conseguiu levar às urnas.

Afinal, outro afinal, são setores ao centro e à direita que começaram a grita por impichar o homem. E a esquerda busca utilizá-la como bandeira própria e exclusiva. Erra por não perceber que será o boi de piranha.

Ao fim e ao cabo, caso afastado o inquilino do Alvorada, sem eleições gerais (o que não está no centro da discussão) será a esquerda (com PT e tudo) legitimando a eleição fraudada, uma vez que certamente ocupará a presidência o vice do inquilino.

Post scriptum: este artigo se encontra elaborado há 15 dias. Bem antes, portanto, de o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, falar da impropriedade de um impeachment. A coluna insiste na leitura exposta: não é o ‘presidente’, mas os interesses que ele assegura e assegurará com sua permanência (ou quem o substitua). Também antes de o Presidente do STF confirmar o que todos desconfiavam: tremeu na hora de defender o Estado de Direito e aceitou a ameaça da linha dura do Exército, mantendo Lula na prisão. Acostumou-se ao grito e não mais viverá sem ele - sabe-o aquela parcela militar tipo 'sargentão'.

E há quem acredite que o problema é o inquilino do Alvorada!

E a esquerda encastelada no PT fazendo o voo programado no outro lado. Para quem qualquer ato que não lhe seja próprio (dela) "é coisa do PT" - como povo diz e repetirá enquanto ouvir o que lhe manda dizer a Globo e quejandos.

E nesta armadilha caminha esta nossa humanidade.

Em meio a isso em que nos tornamos a pérola do ‘inquilino’ a sugerir que controlemos as tripas. Ele que anda à tripas forra, como bom menino de recado nascido na senzala a serviço da casa grande.

domingo, 4 de agosto de 2019

Por entre leituras, ou a falta delas, as armadilhas que nos cercam


Sob o condão do título publicaremos, a partir de hoje, três artigos voltados mais precisamente para refletir em torno do comportamento da esquerda brasileira diante da uma realidade que se apresenta bem distinta daquela que a norteou em tempos de guerra fira.

É que, assim vemos, o hodierno pautado que está na velocidade – também no esquecimento – com que as informações chegam e se vão, manipuladas em profundidade sem o correspondente contraponto.

Pode ser compreendida sob diferentes dimensões, inclusive a de pessimismo.

Por entre leituras ou a falta delas

Lúcida reflexão de Gilberto Gil, de que o presidente eleito representa quem o elegeu, a vontade e o sentimento dos que votaram nele. Aquilo que lhe outorgam como idiossincrático traduz, no seu dizer e na porralouquice do singular expressar, o que diz e expressa parcela considerável da sociedade brasileira. 

E não se vincule tal fato à formação intelectual, à condição econômico-social, ao ser pobre ou miserável ou doutor.

Quem na sociedade faz movimento para combater as instituições democráticas, pedindo para fechar Congresso, para fechar Supremo Tribunal Federal, que se proclama contra o estatuído na Constituição, quem questiona o Estado de Direito, quem vê na decisão judicial um estorvo tem em si a mesma matriz autoritária, a mesma vocação ditatorial. 

Apenas carecia de um representante ideal, que afinal encontrou apesar de experiências e tentativas várias e variadas: de Jânio a Collor, de Sarney a FHC, de Temer ao atual inquilino do Palácio do Alvorada, a mais perfeita de todas no que diz respeito aos objetivos que em todos os instantes se fizeram presentes no pacto de tornar o país cuia de pedinte na mendicância internacional sem vocação a personagem de "Deus Lhe Pague", de Joracy Camargo (1898-1973).

O atual inquilino do palácio do Alvorada é a mais pura e perfeita tradução dessa encastelada tradição autoritária presente na sociedade. Não se vincule a ele, tampouco se lhe dê o privilégio, aquela ideia de que “bandido bom é bandido morto”, de que preso tem de apanhar, de que a pena de morte é a solução para a criminalidade porque ele não está só. Ao contrário, não são poucos os que sempre pensaram assim. O dito cujo apenas a representa; é sua ‘mais grata’ e atualizada manifestação.

O que nos deixa perplexo é a falta de leitura da realidade que nos aflige (há muito), que ainda não se encontra suficientemente dimensionada além do panfletarismo do instante ao sabor de quem o utilize, à direita ou à esquerda.

Quando a ex-presidente Dilma Rousseff (responsável por não ler o instante precipitado em 2013) proclama em torno da necessidade de ‘construir uma frente contra Bolsonaro’; quando Fernando Haddad denuncia que o Brasil se tornou protetorado dos Estados Unidos; quando, afinal, o óbvio surge como se fora revolução em plenitude, longe estão todos de expressar a RAZÃO por que tudo aconteceu e acontece.

No primeiro caso, por que alguém desconhecido e inexpressivo política e intelectualmente, reformado/aposentado aos 33 anos por prática de ameaça terrorista (explodir a adutora do Guandu, na cidade do Rio de Janeiro, em 1986), sem participar de qualquer debate, sem expor qualquer possível ideia de como administrar o país, de como via o Brasil no plano da diplomacia etc., de como enxergaria em nível de governo as Políticas de Estado de Bem Estar Social insculpidas na Constituição conseguiu amealhar os votos que conseguiu, quando apenas liderança oportunística dos antes relegados ao canto escuro da expressão social.

No segundo caso, como o exercício do Poder (inclusive sobre a Informação e a Contrainformação) não percebeu (ou dimensionou) o quão inconveniente se tornara o Brasil em relação aos interesses dos Estados Unidos ao conquistar espaços no terreno hegemônico e geopolítico do planeta.

Ainda quanto ao segundo: qual a percepção demonstrada – que alcançasse a compreensão da sociedade – do quanto representavam de prejuízo para os Estados Unidos os avanços obtidos pelo Brasil no âmbito do comércio internacional, na aproximação com China, Rússia, Índia, Suécia, França, da expansão comercial em relação ao continente Sul-americano, ao Africano e ao Caribe, Oriente Médio e Ásia.

Tenhamos a certeza, de que o que ora nos acomete tem raízes profundas, enraizadas nesta sociedade que não rompeu suas amarras com o escravismo, onde senhores ainda permanecem senhores e escravos ainda não sabem da Lei Áurea. Muito menos por que essa – a Lei Áurea – aconteceu e a que interesses atendeu (inclusive da Inglaterra).

Ou seja, não podemos repetir o erro de sempre: o de não ler e enxergar. 

Somente assim não sucumbiremos à cultura de retomadas esporádicas de vitória popular, massacradas em seguida. Não apenas “construir frentes”, mas muros de aço. E descobrindo quem, aqui dentro desta terra brasilis, assegura a vocação tupiniquim para protetorado dos Estados Unidos.

Enquanto a massa não souber – e aprender – viveremos de solavancos.

À esquerda – e ao PT em particular – compreender estes novos tempos e recuperar as ruas a partir da proximidade com cada morador, com a realidade, agonia e sofrimento de cada um, ser parceiro da desdita, compreendê-la, e assumirem juntos a consciência da luta.

A indignação precisa, sim, ocupar as ruas. Mas levando a alma e não somente cartazes e palavras de ordem. Porque a indignação por si mesma trilha pelas raias da emoção e hoje, mais do que nunca, precisamos estar norteados pela razão. E razão não se expressa apenas em cartazes e palavras de ordem.

Por outro lado, não há resposta para um fato concreto (que o povo sente, ainda que não o identifique ou compreenda): efetiva proposta – e saída – para a transferência da riqueza nacional, no âmbito interno, para a classe política, a classe dominante e algumas castas como membros do Judiciário, do Ministério Públicos e altos coturnos das Forças Armadas, sistema financeiro privado e grandes proprietários.

E mais que isso: a partir do concerto composto de 2013 para cá não sabemos se temos evidentemente o substituto para o “novo” que combate a “velha política” representado pelo inquilino do Alvorada, como posto pela mídia no imaginário da sociedade.

Afinal, ainda não percebemos reais mudanças no comportamento dos que o tornaram representante. Tampouco se deixaram de pensar como ele

domingo, 28 de julho de 2019

Dura reflexão ou como a verdade escondida dói


Verdade que dói
Garimpeiros, fortemente armados, invadem reserva indígena, ocupam terras e mesmo matam a facadas o chefe da tribo. Cena comum e recorrente em antigos filmes faroestes onde a ‘corrida’ às terras auríferas da Califórnia tudo justificava, inclusive chacinar índios à bala, incumbida a indústria cinematográfica (na quase totalidade das ‘mensagens’) escrever e pintar os atacados silvícolas/peles-vermelhas como bandidos cruéis e sanguinários, bárbaros lutando contra a civilização que lhes é oferecida.

Em tempos de rede social como instrumento de comunicação um ‘especialista’ invade telefones privados.

O dirigente maior da nação proclama nepotismo, ao lado de promover o desmonte de tudo que possa representar instrumento de defesa da soberania, da indústria, de riquezas e lança ao rés do chão os mais comezinhos princípios inerentes à liturgia do cargo.

Um ministro empossado como da Justiça anuncia aos quatro cantos que determinará à polícia sob seu comando a destruição de provas coletadas para apuração de fato possivelmente criminoso que o cita envolvido. E como dita apuração envolve estrangeiro residente no país – que deu de divulgar outras irregularidades do ‘ministro’ – sinaliza a deportação sumária de estrangeiros nos moldes preconizados em conveniente portaria de seu ministério para uso ao alvitre de sua caneta. (Antes da iniciativa tirara uns dias de férias e foi descansar nos EUA assim que pipocaram as denúncias contra si).

Alguns Procuradores da República utilizam-se de fama produzida (alimentada pela mídia) para reunir-se com banqueiros e ministro do STF antes das eleições (junho de 2018), em segredo, para traçar rumos, onde “eleições” era o tema servido, das quais alijado o candidato que a venceria no primeiro turno. Por mera coincidência esses bancos se beneficiam de privatização logo nos seis primeiros meses do novo governo abocanhando quinhão nobre da BR Distribuidora, fato que não ocorreria se outro o vencedor das “eleições”.

No primeiro caso nenhum espaço na mídia; 

no segundo, verdadeiro estardalhaço em torno dele, ainda que os fatos a ele vinculados fiquem de lado nas avaliações; 

no terceiro, silêncio conivente, limitado ao conveniente da divulgação; 

no quarto, embala-se a ‘informação’ na possível ilegalidade na obtenção da fonte e passa-se ao largo da gravidade contida no quando divulgado; 

no quinto... ora, mais uma das dezenas de “crimes contra o patrimônio público” que andam acontecendo, especialmente quando perpetrados por agentes públicos envolvidos no ‘combate à corrupção’.

Diante de tudo não custa perceber – à luz das ‘reflexões’ – que as redes sociais se apresentam delimitadas em dois campos de batalha precisos: dos que são a favor e dos que são contra alguma coisa. E que esse “alguma coisa” tem por nome e objeto um partido político e quem lhe seja a favor. O inverso também ocorre. Resultado: amor e ódio, permanente prato do dia.

Em meio a tudo – ainda que através da rede ou de veículos de comunicação – uma parcela de analistas, significativa, expressa o espanto diante de tudo que aí está. Entende ela que a verdade dos fatos não corresponde ao que está veiculado como informação. E diante de tal revelação claro fica que menos há de informação e bem mais de manipulação.

Eis por que também se espanta este escriba de província: crime a invasão de terras indígenas demarcadas, crime a prática de nepotismo, crime a destruição de provas que podem elucidar um ilícito praticado, crime desrespeitar os primados inseridos na Constituição em defesa da liberdade de imprensa e da atividade jornalística, incluindo a de proteger o sigilo da fonte.

E como, ainda que tudo seja crime, há quem diante disso se cale ou se omita, quando não defenda, porque 'sou' a favor, desde que ‘alguma coisa’ esteja por trás, como presumo ou convicção tenha. E nem aí se fale dos que não percebem e os que fingem não ver, todos embrulhados no mesmo pacote lançando ao precipício o sonhar uma gente que imaginou-se digna de um futuro com tal.

E para o caboclo no grotão, assistindo a tudo que ora vê e antes não via, a percepção de que nada há de novo. Tudo existia e havia. Apenas não se percebia por falta de oportunidade.

Vivemos a singular realidade expressa por Bertold Brecht: do tempo em que temos que defender o óbvio, como se fosse revolucionário.

Dura a reflexão. Ou como a verdade dói. 

Talvez tudo melhor expresse a racionalidade de quem observa “O Grito”, de Edvard Munch.

No mais, Mozart como fundo musical (abaixo):

          Dies irae (dia de ira)
          Dies illa (dia de raiva)
          Solvet saeclum en favilla (dissolve a terra em cinzas).

Apenas acrescentamos: onde se lê saeclum leia-se terra brasilis.

Algumas leituras para esta atualidade
Por tudo que acima escrevemos recomendamos ao estimado leitor, para caminhar o caminho da compreensão do quanto acontece, as leituras de Jessé Souza e seu “A Elite do Atraso” (Rio de Janeiro: Leya, 2017) ou descobrir em Pierre Bourdieu, para quem a concentração de capitais econômicos, sociais e culturais por determinados grupos são utilizados como forma de dominação sobre outros, em que a classe dominante se impõe distinta de assalariados em “A distinção: crítica social do julgamento” (Lisboa, Editorial Vega-1978) ou a reprodução, na escola, pelo sistema de ensino, das desigualdades que efetivam a estrutura social, em “A Reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino” (Porto Alegre: Editora Zouk, 2007).

                

domingo, 21 de julho de 2019

Afinal, nada mais que um afinal


Tanto de tudo tem acontecido. Só não o que deveria acontecer. Assim – transitando por vieses surrealistas – vamos descobrindo que novo aprendizado se nos afigura contemporâneo: o absurdo não é tão absurdo assim como pintam.

No fundo vivenciamos o absurdo como roteiro ao qual nunca imaginamos que quem dele participasse fossem aqueles que o têm sob rédeas.

Os que aprendemos nos alfarrábios o que representam as instituições e o seu significado na preservação e na defesa de valores tão permanentemente repetidos, como mantra espiritualista, passamos a duvidar se o que ora nos ocorre realmente o é ou se apenas vivemos um estágio de pesadelo.

Há quem – analisando o que ocorre à volta – vislumbre apenas um processo de retorno. Ou seja, os que atingimos a civilização ora trilhamos caminho inverso em velocidade superior à da luz. O que levou milênios para se materializar como avanço  despenca no abismo sem fundo. No inimaginável racionalmente pensado. 

Talvez – muito provável – vivamos apenas uma disputa entre tais extremos. Desta forma descobrimos – estarrecidos – que a primitividade existia e não sabíamos. E mais: muito mais forte que a racionalidade. E mesmo diríamos: era ela no fundo nossa razão de existir.

Aquilo que antes imaginávamos natural aos que se encontrassem internados em manicômios – porque eram eles os “sem juízo”, os desconformes em relação ao certo e ao errado que norteia o que denominam de civilização – estão ao redor a confundir ou exibir o impensável.
.
E mais: muito do que ora acontece antes compreendíamos somente possível – se o fosse – em grotões, nunca naquele país que se situa entre as dez maiores economias do planeta.

A responsabilidade deste país para com o concerto das nações sinalizava a existência de um compromisso para com a civilização, ainda que jovem no plano de sua representação histórica.

Mas descobrimos a barbárie como futuro, a irracionalidade como razão, o ódio como manifestação do amor, que o mundo será melhor sem poesia, sem música e sem cores.

E nem temos como vislumbrar a retomada do aprendizado.

Afinal, estamos naquela de nada mais que afinal.

domingo, 14 de julho de 2019

De Herodes Antipas e de procuradores


Outra cabeça
Por demais conhecida a passagem do Novo Testamento (Mateus e Marcos) que trata das ambições e caprichos humanos no capítulo Herodes Antipas versus João Batista, ao sabor dos desejos de Herodíades manipulando Salomé.

Rolou a cabeça de João Batista, servida em bandeja.

Tempos atuais outras ambições e caprichos, métodos diversos, final semelhante. 

Afinal, uma ‘outra’ cabeça na bandeja atende a outro tipo de ambição.

Em meio a tudo, a indagação que nunca calará: como interesses de um punhado de indivíduos se sobrepõem ao de milhões de cidadãos que os custeia?

É que – não custa analisar – a paixão desmedida peca menos que a ambição criminosa.

Especialmente quando se ganha dinheiro com o indecoroso que pratiquemos e mesmo busquemos uma “fundação” para garantir a patranha proibida por lei.

Lecionando
Nesta terra onde tristes figuras ocupam o espaço antes destinado aos que se fizeram destinatários – de uma forma ou de outra – as regras vão-se atropelando para garantir espaços à mediocridade.

Depois do encanto com o aumento de exportações com abacates destinados à Argentina (dizem as más línguas que toneladas imensuráveis em três caminhões), de ser anunciado o novo eldorado para a economia com a sugestão de exportação de bijuterias de nióbio passamos a mostrar ao mundo que não temos limites.

Eis que surge no horizonte próximo um mercado diplomático dispensando a tradição (carreira no Itamaraty ou representação intelectual respeitada por serviços à nação, como ocorre no caso de embaixadas ocupadas por ex-presidentes ou ex-ministros, intelectuais etc.).

No nosso et coetera (etc.) abre-se espaço para simples experiência em alguma coisa referente a algum país como fundamento de indicação.

Assim, “fritar hambúrguer” nos Estados Unidos habilita a quem o fez pretender a embaixada nos domínios de Trump.

Aproveitando a deixa há quem sugira a da Itália para quem goste de pizza, a da Alemanha para quem assistiu aquele 7x1, a da França para quem tenha foto na Torre Eiffel etc.

Como há em tudo um cheiro de ironia sádica não custa lembrarmos da inesquecível criação de Péricles como o grande mestre a lecionar para estes tempos.

MEC-USAID
A indecência embutida no Tratado MEC-USAID (no imediato do golpe de 1964, sinalizando a privatização da universidade pública de então) volta ao cenário.

Na época estávamos nas ruas do Centro Histórico, em Salvador, gritando contra. 

Os estudantes e professores vencemos a batalha

PHA
Paulo Henrique Amorim nos deixa. 

Órfãos ficamos de um texto limpo e objetivo. Sua passagem pela televisão marcou era. 

Assim como o papel pioneiro na rede com o seu Conversa Afiada.

O Brasil ficando menor a cada dia.  

domingo, 7 de julho de 2019

Um milênio de silêncio e o silêncio ensurdecedor

Aquele violão nos deixou
João Gilberto se foi. Levou para o túmulo o que o fez característico: de ser  como o afirma o maestro Aderbal Duarte  a expressão estética da Bossa Nova.

O Maracanã dedicou-lhe um minuto de silêncio, na íntegra. 

Um outro silêncio, 'ensurdecedor', mais adiante se fez, dedicado ao inquilino do Palácio do Alvorada, que a Globo não conseguiu esconder.

Para João Gilberto trazemos a singular expressão da Bahia, ritmando Dorival Caymmi em "Samba da Minha Terra".

Da coluna, um milênio de silêncio para João Gilberto (porque um minuto é pouco para quem traduz a Eternidade), que cantou o Brasil como poucos e rompeu com o tradicionalismo musical que norteou esta terra por tantos anos até que ele deixasse Juazeiro para tornar-se universal.

                      


Versões I
Os fatos últimos vão dando o rumo da confirmação do que somos em nível de informação. Em outras palavras: como se comporta a imprensa tradicional diante da realidade, diante da verdade factual. 

Para manter-se coerente permanece trabalhando conforme o instante, conforme a conveniência. Ou seja, menos informa ou, quando o faz, está naquela dimensão que Leonel Brizola dizia referindo-se a quem não assumia: “Costeando o alambrado”.

Singular para a análise o comportamento do jornal Folha de São Paulo e da revista Veja, como parceiros do Intercept na divulgação do escândalo já alcunhado de Vaza Jato, de um lado, e outros sistemas, capitaneados pela Globo, de outro.

De um lado a assunção da verdade quando mentiram deslavadamente para que a mentira prosperasse e gerasse monstros como os que se apresentam nesta contemporaneidade; de outro, aquele não dar o braço a torcer, ainda que tal seja necessário. 

Para tanto, neste último caso, em vez de buscar a verdade pune-se a fonte da verdade.

Versões II
Um empresário suicidou-se, em público, em protesto contra política de governo local.

Deu-se em Sergipe, terra de Tobias Barreto, de Manoel Bonfim, de Francisco J. C. Dantas e de Seixas Dórea. 

Nenhuma referência na imprensa tradicional, na dimensão que o fato representa.

Avaliando I
Há quem veja sua excelência (com letra minúscula, revisor) em processo de fritura, como bem ilustra a charge de Cristóvão Villela. 

Um ‘analista’ mais açodado disse a este escriba que não tarda a indigitada figura ser presa.

Na sexta-feira até mesmo o ‘parceiro’ Globo/Jornal Nacional não resistiu à verdade revelada e ‘dedicou’ (certamente contrariado) bons seis minutos às denúncias veiculadas na revista Veja. 

Os ratos, evidentemente, começam a abandonar o barco capitaneado pelo nada capitão de longo curso Moro (nada a ver com Jorge Amado, porque longo é este outro curso!).

Avaliando II
Nossa avaliação ao óbvio: 

1. Não se pode falar em fritura para quem há muito está cozido. Cumpre verificar a hora de ser servido. Parodiando o filme de Henri Verneuil (A 25ª Hora/1967) aquela 25ª hora, a da conformação; na morina, uma 26ª hora, a hora da conveniência.

Para demonstrar nosso otimismo realístico – coisa assim de política em seara de surrealismo fantástico – nada acontecerá com sua excelência (não mexa revisor!).

Inclusive, não será surpresa para a coluna que, com apoio do judiciário (não ponha maiúscula, revisor!), venha a tornar-se candidato a vice na reeleição do inquilino do Alvorada, em 2022.

Até lá o povo já esqueceu de tudo e os absurdos já terão sido reconhecidos como avanço democrático e por aí vai.

Por fim, antes as vivandeiras dos quartéis; hoje, do espaço conquistado – aquele em que o Estado Democrático de Direito se põe de joelhos para corresponder aos que nunca tiveram apoio tampouco apelo popular e somente através do autoritarismo encontram um púlpito e um microfone - aquela parcela incondicional de um eleitorado que elegeu o inquilino do Alvorada.

Avaliando III
Somente a descrença alimenta a Esperança. Essa contradição expressa a visão deste escriba diante do que ocorre no e ao país.

A uma, porque definitivamente escancarada a divisão, a luta de classes, a certeza de que o bom somente o que eu faço ou o que eu defendo; a duas, porque apenas a reação natural fará o quadro ser alterado. E tal não ocorrerá com a brevidade necessária, como alguns imaginam.

Temos no Brasil – claramente configurado – uma parcela definida de conservadorismo – em dimensão radical e fundamentalista – que afasta qualquer possibilidade de que algo diverso ocorra caso não seja “o meu” governar, “o meu pensar”. E este segmento assegura, em processo eleitoral, em torno de 20% fixos, permanentes, em defesa de suas propostas. 

O restante dilui em parcela de visão mais aberta, idealista e republicana, que pode alcançar o mesmo patamar de 20%, um pouco mais talvez. O restante acompanha o momento. Sob esse viés, essa a gente que decide. É aquela que reage aos interesses pessoais atingidos ou à mensagem do grupo, da igreja, da imprensa e hoje – o que pode ser acentuado – da comunicação via rede.

Faltando à sociedade, em geral, uma consciência do que sejam Políticas de Estado presentes neste ou naquele governo, o apelo ao óbvio, ao imediato, tende a tornar-se o mantra eleitoral. Foi assim com o momento do “contra os marajás” (mais remotamente) ou do “contra o que aí está” (presentemente).

Atente o leitor para fato de que qualquer forma de mensagem estribada nos apelos acima encontra eco.

"Sei não!"
Circulou na rede a notícia da pretensão do inquilino do Alvorada de reeleger-se. 

Quem duvida? Dispõe de 25% de um eleitorado disposto a tudo para que outro não ocupe o espaço que imagina “seu” como propriedade. 

Não bastasse, correspondendo aos interesses dos grandes grupos aqui representados naquela parcela de um punhado da classe dominante que pensa em Miami, como antigamente em Paris, não lhe faltará mídia. 

Por outro lado, quem lhe seja contrário tende a permanecer dividido e – ao centro e à esquerda – disputando a expansão do “seu” território e não do “coletivo”.

Pessimismo, pode ser. Mas, “não sei não!” – dirá o caboclo nos grotões.

Organização criminosa
FHC, PGR, Moro e quejandos flagrados em conspiração contra país estrangeiro. Conluio escuso. Trama diabólica apoiando adversários de um governo estrangeiro, ainda que conscientes do risco de instauração de uma guerra civil e do agravamento da “convulsão social e mais mortes” na Venezuela a partir de suas tramas. Aquilo que fizeram internamente, alimentando o impeachment e interferindo no processo eleitoral.

As publicações do Intercept na Folha deste domingo constituem-se escândalo imensurável.

Para essa gente Acordos e Tratados Internacionais nada representam. Olham como se olhassem o Direito interno, por eles violado, com apoio do STF.

A turma não respeita o que está escrito.

Em meio a tudo a participação concreta – pela omissão quando convocado – do STF.

Caro leitor: PGR, STF, PF nas pessoas que agiram criminosamente alimentam reações (que nos indignam) daqueles que dizem ser bom fechar STF, bastando um jipe e um soldado.

À deriva
A capitulação da Globo e seu Jornal Nacional aos fatos que antes noticiados apenas com o fito de descaracterizá-los não somente cheira a uma capitulação da emissora, mas a uma confissão explícita de que é tudo verdade.

Em outras palavras: Moro – que sempre por ela foi apoiado e incensado – fica à deriva. Porque simplesmente não tem como enfrentar o tsunami que desaba sobre a sua praia.

E la nave va
Antes vazando delações para corresponder às conveniências político-eleitorais. 

Para não perder o costume passa a vazar inquéritos sigilosos para os próprios investigados.

Gostem ou não os admiradores: o juiz(?) Moro é um transgressor por excelência (ops!).

domingo, 30 de junho de 2019

Escolha o leitor: uma droga de semana ou uma semana de drogas

Uma semana como sói natural nestes tempos singulares. Diplomacia –  ou o que isso representa para o atual governo , judiciário, hidrofobia, drogas e quejandos outros. E –  tema obrigatório –  o que traz o Intercept.

No quesito droga cremos que o título deste dominical deixa ao leitor reconhecê-la sob a melhor configuração semântica. 

Aos fatos, como observados pela coluna.

Aplausos
Não se diga que o governo liderado pelo inquilino do Alvorada não encontra apoio internacional. Por defender pauta das mais retrógradas na ONU o Brasil foi aplaudido pela Arábia Saudita, Paquistão e Barhein, como veiculou Jamil Chade

Inclusive o autor da matéria ouviu de um diplomata que circulava nos corredores do G-20, em Osaka-Japão, uma afirmativa de um o governo de Duterte (Filipinas) tinha apoio brasileiro para uma resolução para que os massacres naquele país não sejam investigados.

Na outra ponta,  a agenda com o presidente da França, Macron, foi por ele (Macron, naturalmente) cancelada, em protesto às posições da ‘diplomacia’ brasileira em relação ao clima.

O inquilino do Alvorada se tornou um típico leproso vivendo no auge das Escrituras: ninguém o quer por perto. E quando aparece fogem dele como o Diabo da cruz.

Não se diga que tudo foi ruim: o excelentíssimo – que já andou exaltando exportação de abacate brasileiro para a Argentina – acaba de anunciar a força da terra brasilis naquilo que vê como grande fonte de divisas para o país: exportação de bijuterias de nióbio.

Chade se disse decepcionado. Não sabemos se a adjetivação corresponde à realidade.

Lado desconhecido
O apoio de alguns militares ao inquilino do Alvorada (leia-se, ao seu governo e ideias) exibe um lado que nunca imaginamos existir nas Forças Armadas: o idiota de farda.

Tudo acrescido do singular instinto de cão raivoso, como alguns fazem questão de exibir.

Avião
Helicóptero de Perrela, com 548 quilos de pasta de cocaína; avião da comitiva presidencial, com 37 quilos; 33 quilos em outro avião militar.

Famosa a expressão ‘avião’ para definir crianças e adolescentes que servem ao tráfico transportando papelotes.

Oportunidade de conferir quem são os verdadeiros traficantes. 

E de onde surgem e quais a garantias de cada um deles.

E lá se vão as galinhas dos ovos de ouro
Estatais de outros países apropriam-se, via privatizações, das riquezas minerais brasileiras. Não são os investimentos que aportam, mas as facilitações do governo para que se apropriem da riqueza que é do povo.

O detalhe é que cai por terra o discurso interno de que as estatais são inconvenientes. Naturalmente as nossas – para os entreguistas – porque as estatais chinesas, norueguesas, francesas, italianas, até mesmo colombianas estão nadando de braçada em substituição às nossas.

País dos sonhos
Melhor diríamos: Judiciário dos sonhos. Sonhos de efetivação de Justiça, não. Mas os sonhos da classe dominante. Aquela que tem o país a seu serviço.

Deu no 247: aquele senador do Distrito Federal condenado por crimes financeiros a quatro anos acaba de ter autorização judicial para passar férias em Aruba, no Caribe.

Lula não teve autorização nem para ir ao enterro do irmão.


STF I
Trilhamos pelo perigoso caminho de desconhecer que toda ação humana carece de estar respaldada na Moral. Ou seja, somente se perfaz válida se moralmente reconhecida, se por aquela justificada.

Diante das dúvidas que pairam sobre algumas excelências degustadoras de filé de lagosta e vinhos importados (à custa do povo) diante do escândalo comandado por juiz e procuradores para condenar Lula cremos que o dito acima tornou-se apenas figura de retórica.

STF II
Como previsto a covardia, o comprometimento com o golpe confirmado fica com o adiamento inconcebível em um Estado de Direito, quando feridas as disposições legais que asseguravam o direito do autor ao julgamento.


Réu idoso preso, julgamento já iniciado para apreciar o habeas corpus.

Ainda que saibamos, não custa perguntar: o que ganha o STF afirmando-se conivente?

STF III
Temos escrito em torno do comprometimento do STF com tudo que ora ocorre. Até porque nada mais profético que aquele “Com Supremo e tudo” de Sérgio Machado dialogando com Romero Jucá, tradução literal do que se trama nos bolsões da classe dominante para se apropriar do Estado e dele fazer sua propriedade: a lei é para todos – os outros – não para mim

Mas uma pergunta sempre nos fazemos: quem nomeou tais ministros?

Da atual composição apenas quatro – já foram três – não são indicação de governos petistas. E olhe que outras peças (singulares) não mais lá estão (também indicações petistas) como Ayres Brito, Joaquim Barbosa, Eros Grau, César Peluso.

De origem petista indicações várias para Superior Tribunal de Justiça e TST.

Lula já afirmou, diante da juíza Gabriela Hardt, que as indicações para o STF ocorriam por acordo com a classe política. 

Aí o busílis: regra antiga (que devia ser combatida) como a indicação para cargos vários (inclusive diretorias da Petrobras) para assegurar a ‘governabilidade’.

A manutenção de tais vícios gerou ‘mensalão’ (caixa 2 julgado como corrupção) e petrolão. 

Naturalmente porque o PT era a vidraça. Afinal, beira a insanidade imaginar que tudo começou em 2003.