domingo, 23 de maio de 2021

Falando em pactos

 

Afastados os senões que temos levantado em torno do que representa o atual andamento do processo eleitoral em relação ao tanto de tragédia até agora consumada há sinais evidentes de que a debandada em torno do inquilino do Alvorada tomou corpo de forma inexorável. Caso não materialize suas ameaças de golpe ou alguma tragédia física ocorra em relação ao ex-presidente Lula o instante afirma-o futuro presidente da República.

As águas turbulentas não recomendam tranquilidade ao inquilino na travessia para a reeleição. O apoio complementar ao seu universo ‘delirante’ (ver), mesmo que não míngue mais, não será suficiente para barrar o avanço das forças que se unem em torno de sua naufragada. Tomando os dados expressos através do Vox Populi (disponilizados no 247) percentual ‘espontâneo’ que vota no inquilino (19%) e aquele outro de 28% que votaria nele no segundo turno temos os limites mínimo máximo de efetivo eleitorado que “mata e morre” por ele neste instante. No primeiro aspecto (a pequena parcela que mata) fato concreto; no segundo (a parcela que morre) há controvérsias.

Contra a sua pretensão de continuar à frente de tragédias (econômica, saúde, aniquilação do patrimônio público etc.) a presença de Lula no palco sucessório abala pilares que o sustentaram, o que inclui até mesmo a mídia digital (“popularidade digital”), onde seus grupos fizeram o ‘discurso’ eleitoral e permaneciam em estado de ‘louvação’ ao mito. Por outro lado, tendem a esvaziar-se as ameaças e chantagens do inquilino pondo à frente da tropa os militares em nível de unidade. Tal fato nunca fora demonstrado, muito menos agora. A não ser os que formam o ‘partido da boquinha’ como a eles se referiu Florestan Fernandes em razão da quantidade de cargos que ocupam no Governo Federal. Por outro lado, as cúpulas devem perceber os riscos à imagem, caso se aprofunde o observado em pesquisa publicada no 247.

Os interesses em jogo que o levaram ao Alvorada perceberam o risco (desnecessário) em mantê-lo. Sua utilidade se efetivou no quesito entrega do país e satisfaz o conseguido pelo mercado até aqui. Não podem aventurar a postura belicosa do inquilino a colocar no olho do furacão a partir de uma hecatombe social o que a banca conseguiu até agora.

Então a saída se impõe: vencer suas diatribes sem pôr na berlinda os interesses obtidos. Para tanto como sói ocorrer em tais instantes um pacto social por via eleitoral, que possa garantir o afastamento do inquilino sem melindrar o conquistado. Para tanto uma ação concreta: consenso. Para quem está fora, o desejo de entrar. Mas sob articulações que não avancem sobre os resultados alcançados.

Neste instante, grandeza e desprendimento são a tônica. Depois da tempestade em muito causada por exacerbações individualistas postas acima do interesse coletivo, ainda que não se exija de quem quer que seja renunciar às suas convicções, o encontro de FHC e Lula sinaliza uma retomada da ação política justamente por colocar na mesma mesa de conversa peças emblemáticas no que diz respeito a projetos de governo que cada um defende em relação às políticas de Estado. Demonstram, ambos — ainda que alguma carta do tucano não esteja à mostra  que não há diferenças inegociáveis, que não há divergência que não possa transitar para uma confluência programável.

De elementar — por aquilo que significa FHC para a corrente neoliberal — um sinal evidente de que o mercado nada tem a temer de Lula; para o centro-esquerda a nova chance de recomeçar dentro do dar os dedos para não perder anéis.

Política debate conflito de interesses em busca de um consenso. A ausência deste debate no campo político, das ideias em conflito em momentos recentes não podemos dizer que as coisas acontecidas recentemente são fruto de atuação política — exige a renúncia de parte a parte para construir um ponto comum, farol a demonstrar o que leva o homem civilizado à construção do Estado que deseja. Dos últimos grandes exemplos a transição na África do Sul com Mandela e o Pacto de Moncloa que edificou a transição da ditadura franquista para a democracia, aceitando-a sob a égide de uma monarquia constitucional onde o rei foi a solução para atender aos adeptos de Franco, aonde o irônico é que a monarquia espanhola (então extinta) ‘ressurge’ sob o crivo de uma canetada do ditador: a ‘nomeação’ do rei por ele indicado em 1969.

Os pactos assinados em Moncloa visavam sustar a profunda crise econômica em andamento e estabelecer um programa de ação política e social.

Neste Brasil de hoje há sinais de que uma parcela considerável de apoiadores do inquilino chegou a uma conclusão: sua permanência será a hecatombe para todos. Neste sentido até o comando de doutrinas evangélicas “quero mais” como bênção do Altíssimo — ainda não se manifestou o pentecostalismo católico — percebem que não há milagre nem exorcismo que as alimente ($$$$) e faça-as sobreviver sem os meios de que se valem: dinheiro em poder dos fiéis.

O dízimo nos tempos áureos da distribuição de renda, ganhos reais para o salário mínimo e o quase pleno emprego fartou-as. Minguou com o desastre atual de uma economia que não gera nem trabalho, quanto mais riqueza a ser distribuída.

Para este escriba de província eis o lado oculto do pacto em andamento: interesses de igrejas (que) carecem da retomada de ações político-sociais. Que levem mais recursos ao bolso do povo. Não estarão na mesa de negociações diretamente, mas influenciarão, com certeza.

No mais, ficamos a matutar desta singular capacidade de por aqui inovarmos em tudo: inclusive em pactuação política. Na Espanha Moncloa se fez à sombra de uma monarquia extinta cujo rei foi ‘nomeado’ pelo ditador; aqui, até com o pentecostalismo ‘quero mais’.


domingo, 16 de maio de 2021

De perfunctórios e de fato

 Inquirem os instantes perfunctórios (não é palavrão!) deste escriba de província, sibilando o olhar sobre colunas de ontem e de hoje, as razões por que muitos não enfrentam a persecução em torno dos reais motivos que levaram o Brasil ao atual estágio de mediocridade, subserviência e colonialidade.

Em especial depois de escancarada a porteira da desmoralização dos ‘donos’ e ‘construtores’ da verdade lavajatense, aquela que enaltece o “eu acho”, justamente porque dito ‘achar’ em muito se amparava na certeza de que sempre haveria uma fraude por trás da criminosa atuação funcional ao arrepio da lei nos casos em que o interesse político ocupava o jurídico.

Eis o que nos deixa cabreiro: parece-nos que efetivamente são perfunctórios os interesses dos que discutem a realidade desta terra brasilis a ponto de limitar-se ao imediatismo das superficialidades. E cômodo – assim nos parece – focar o fato em si em sua dimensão de irrelevância, em sua dimensão imediata, que discuti-lo.

Sob tal jaez alcançar o poder mais interessa que aprofundar razões e motivos por que tanta coisa aconteceu. Ou seja, o poder em si ainda que o “fato” esteja mais entronizado no controle do que lhe interessa.

Claro – sabe-o o caro e paciente leitor – que através da lavra deste escriba de província tem sido levantada a questão basilar de tanto acontecer sem que motivo plausível justifique tanto absurdo. E tal caminhar aponta sempre para o horizonte externo reproduzido nas telas internas como se de nossa lavra o fosse.

Até quem provoca o tema evita enfrentá-lo (aqui). Exceções há! (aqui)

Mas, sabemos e já o dissemos: o jogo é bruto. E não custa avaliar que sempre é possível algum temor guardado no fundo baú que pode ser a caixa de Pandora sobre cada um.

Sob o crivo de nossa observação o que se tornou fato: eleições. Que vai concentrando atenções, atraindo para si o olhar superficial e lançando ao largo das discussões o “fato”.

E a semana nos trouxe CPI para tornar público o que já sabemos a mancheia. E mais uma pesquisa elevando o ex-presidente Lula a estribo mais alto no palco sucessório, onde venceria com folga o inquilino do Alvorada no segundo turno e mesmo viabilizada a possibilidade de fazê-lo ainda no primeiro.

Euforia! Certezas!

Na verdade, a certeza de Lula disputar eleições faz precipitar, em nível eleitoral, os tropeços do inquilino do Alvorada, muitas vezes maiores que comer picanha de 1,8 mil reais quando o desemprego aumenta, o custo de vida mais que dobrou, a fome retorna, os pedintes voltam a ocupar as ruas e o número de mortes por Covid-19 caminha a passos não tão de cágado para ingressar nos quinhentos mil. E, como auxílio, a ameaça de Edir Macedo “quero mais” romper com o ‘mito’.

Os sinais de que pode ficar à própria sorte (com aqueles 20% a 25% que o têm como o encanto maior deste planeta) vão se solidificando. Parcela de quem o elegeu sente-se desamparada, até traída em alguns casos.

Por seu turno, a denominada direita, o âmago do conservadorismo nacional encastelado na classe dominante, às vésperas do processo eleitoral nada como “bosta n’água”, sábia expressão cabocla para dizer que a coisa não vai a lugar nenhum por vontade própria.

Para demonstrar como as coisas andam mesmo FHC(apareceu!) fala em votar em Lula como saída para enfrentamento ao inquilino.

Mas, eis, para este escriba de província, o busílis: FHC votando em Lula. Ele, pensador/servidor mor do mercado, arauto do neoliberalismo predador, custeado pela Fundação Ford desde que adjutorou aquela teoria da dependência, paternidade maior da entrega do patrimônio nacional, que não fala o que o ‘patrão’ não queira, sinalizando acompanhar petralhas e comunistas de plantão.

Isto o que muito preocupa este escriba: vencer eleição sem vitória para o povo. Naturalmente as políticas de governo petistas traduzem melhor as políticas de Estado. E não faltam a Lula capacidade e inteligência (como o fez no tempo em que governou) para entregar os dedos (agradar o mercado) para não perder os anéis (reduzir desigualdades, aplacar a fome, oferecer emprego etc.).

Mas, alguma certeza de reversão da criminosa entrega do patrimônio do povo? Particularmente não cremos que tal ocorra.

Quando FHC, oráculo do entreguismo, fala em votar em Lula alguma coisa sabe.

Concluamos explicando a quem diga que 2023 não será 2003, que a geopolítica econômica  mundial é diversa etc. etc. etc. Não trilhamos por tal raciocínio como prévia de avaliação do próximo governo.

Cremos que o próximo presidente nunca encontraria estado melhor para mostrar o que fazer, mesmo pouco. Afinal, depois da política de terra arrasada do atual inquilino do Alvorada tudo que seja pouco será de sobra.

O que deve preocupar mesmo são os perfunctórios escondendo o ‘fato’. Ainda que imprescindíveis neste instante.


domingo, 9 de maio de 2021

De Boétie e a servidão consentida ao aplauso à criminalização da pobreza e da miséria

 

O pensamento e a ciência política moderna, o Estado e o governo, encontram em Maquiavel (1469-1527) seu reconhecimento em razão de sua análise diante do que representavam, do que realmente eram, e não do ‘como’ deveriam ser.

No limiar da Era Moderna então abriam-se as portas para discutir uma atuação estatal dentro de limites de legitimidade, trânsito para as teorias monárquico-absolutistas de Thomas Hobbes (1588-1679) e seu Leviatã (concentrando o poder), a Jacques Bossuet (1627-1704) teorizando ser a vontade divina a fonte do poder do monarca até que o advento do Século das Luzes ilumina o repensar em torno deste Estado sob o condão de valores como a razão para a fonte da autoridade e da legitimidade e a liberdade, o progresso científico, a tolerância, a igualdade, a fraternidade e uma ordem constitucional (decorrente de um ordenamento discutido por representantes do povo) que assegurasse a efetiva participação dos representados nas decisões (sem falar no calcanhar-de-Aquiles do Absolutismo, ferido de morte pelas novas ideias: a relação Igreja-Estado).

No alvorecer desta época Étienne de La Boétie (1530-1563) cunha de tirania a governança, a partir de um questionamento vinculado à legitimidade, uma vez que não discutia em torno de serem as formas de República “melhores que a monarquia” mas se “as diversas formas de governar a coisa pública... num governo no qual tudo depende de um só” (p. 32) seriam o melhor caminho.

Daí, questiona ele:

“[...] gostaria de entender como tantos homens, tantos burgos, tantas cidades e tantas nações suportam às vezes um tirano só, que não tem mais poder que o que lhe dão[...]”. (p. 32).

Adiante avalia circunstância da eleição do dirigente relacionando-o às outras formas de ascensão ao poder (como a guerra ou a hereditariedade):

“Parece-me que aquele a quem o povo entregou o Estado deveria ser mais suportável, e o seria, como creio. Mas, logo que se vê elevado acima dos outros, encantado com esse não sei quê que chamam grandeza, decide não sair mais. Considera quase sempre o poder que o povo lhe conferiu como devendo ser transferido aos seus filhos. E, desde que adotaram essa ideia, é surpreendente ver como superam os outros tiranos em todos os tipos de vícios, e mesmo em crueldade”. (p. 42).

Ainda dele extraímos:

“É incrível ver como o povo, quando é submetido, cai de repente num sono tão profundo de sua liberdade, que não consegue despertar para reconquistá-la. Serve tão bem e de tão bom grado que se diria, ao vê-lo, que não só perdeu a liberdade, mas ganhou a servidão”. (p. 44).

Dirá o precioso e estimado leitor aonde pretende chegar este escriba de província em plena terceira década do século XXI trazendo a lume análise vinculada historicamente ao século XVI.

Paciente leitor, os que compreendemos a existência da patologia social em suas diversas vertentes, dentre elas o transtorno delirante, cremos que Boétie transita ao seu tempo em torno dele, vinculando todas as mazelas ao tirano/governante.

Por estas bandas diverso o instante e o rótulo do perfume, mas não a essência.

Temos que cinco séculos não fizeram qualquer contribuição à construção do Estado brasileiro. Em nada aperfeiçoado à luz dos ditames elaborados no curso do Iluminismo. De tudo utilizamos os rótulos: do Estado, do exercício do Poder (tripartido para os Pensadores de então), da representação popular em níveis de executivo e legislativo.

Não construímos um conceito de nação. Tão somente do Estado patrimonialista que serve à classe dominante em suas várias esferas e do povo apenas se serve, em plenitude este daquele a que se refere Boétie para justificar o tirano na contraposição.

Da Antiguidade à Contemporaneidade o Poder exercido em suas diferentes vertentes no curso da História avançou apenas na conformação administrativa criando funções e instituições para asseguramento do Estado Nacional organizado.

Sob este aspecto fomos buscar em Boétie o retrato do que vivemos. E o fazemos – para não nos alongarmos mais – diante de mais uma tragédia, ora vivenciada por uma destas favelas desta vida de meu Deus!

É que o Estado brasileiro faliu no exercício de uma de suas competências institucionais primárias: do clássico combate ao crime, desde que – há muito – deixou de investigar e articular prisões e levar a julgamento os infratores da lei. Substituiu-o pela cômoda situação de eliminar por eliminar, de fazer a estatística substituir a cruel realidade. Para essa gente não importa se algum inocente morreu, porque em seus ‘relatórios’ todos que sucumbem às suas balas resistiram à prisão ou receberam as forças de segurança(?) à bala.

Não lhes falta apoio: desde a mídia que se vale de sangue para vender mercadorias aos que sonham retornar ao velho faroeste roliudiano.

Não vê o homem comum, vítima por excelência de tamanha brutalidade, que sempre morrem os eleitos para tanto: moradores das periferias, negros em sua maioria. Sob o nominado ‘combate às drogas’ as chacinas se avultam. Ainda que desconheçamos ações policiais ou a mínima atuação repressora em aviões presidenciais ou helicópteros de políticos transportando drogas ou em bairros nobres das grandes cidades onde se efetivam sua distribuição.

Em meio ao processo de destruição das instituições democráticas, onde o Estado Absolutista regido sob o codinome ‘democracia’ assegura o controle do poder a quem detenha a força, caminhamos céleres para unirmo-nos sob dois extremos: o policial-militar miliciano e a sociedade servo-consentida.

Nada à toa. Há quem sonhe tornar-se o personagem perfeito de Thomas Hobbes (1588-1679) amparado na teoria absolutista de Jacques Bossuet (1627-1704). Pouco importando que Boétie se faça vivo cinco séculos depois.

Afinal, uma linha tênue separa o pensamento de Boétie da contemporaneidade tupiniquim. Apenas não tinha como saber o francês que outros seriam os meios de convencimento, tampouco que de outros instrumentos se valeriam os tiranos contemporâneos. Não apenas os tipos de Gutemberg dão-lhes coliseus, altares, fantasias etc.

Também outras as formas de servidão. Dentre elas a que aplaude a criminalização da pobreza e da miséria.

Não repitamos aqui o dito por Karl Marx no “18 de Brumário de Luís Bonaparte”. (Reler). Permaneçamos com Étienne de La Boétie, no século XVI que se faz XXI:

“Hoje não são melhores os que, antes de cometer seus crimes mais graves, sempre os fazem preceder por alguns belos discursos sobre o bem público e o interesse geral”. (p. 58)

______

Valemo-nos neste dominical de “Discurso da Servidão Voluntária”, de Étienne de La Boétie, na Edição bilíngue da Martin Claret, traduzida por Casemiro  Linarth, reimpressão de 2017).

domingo, 2 de maio de 2021

Quando acontece não custa reler

Estamos vivendo tamanho desencontro no plano da solidariedade humana, cada vez mais afastados da discussão civilizada, da salutar troca de ideias e raciocínios que não duvidamos de mais nada neste país. 

Lamentável que tenhamos desenvolvido (não que o devêssemos) uma cultura não do ódio a determinado fato, mas do odiar como meta humana. Dizer que tal conduta é incompatível com o mais remoto conceito de civilização de logo levará a que sejamos julgado/tachado de comunista, petralha e adjetivos que engordam o vocabulário desta parcela de ‘modernidade de pensamento’.

A especulação financeira — prática híbrida de capitalismo, nada gera ou distribui da riqueza produzida socialmente, incompatível com o mais elementar conceito do liberalismo clássico, que a tornava meio de acumulação pelo reinvestimento na produção — tornou-se em sua versão neoliberal ampliada na vertente da ‘gloriosa’ globalização, na bíblia dos idiot  savant que integram parte da contemporânea intelectualidade, que vê em tal aberração a alavanca propulsora do que denomina de desenvolvimento. Coisa assim do tipo  crítica pessoal  daquele que se diz cristão e busca no Deuteronômio e no Talião a vocação e a expressão de sua fé no Amor.

Assim anda nossa gente em sua augusta atualidade: não faça ao outro o que gostaria que não lhe fosse feito, mas pratique o olho por olho dente por dente. Não compreenda, não seja semelhante a Cristo mensageiro do Amor como redenção do homem; apunhale o próprio filho, porque o ‘deus’ que você acredita é aquele que pode sustar a adaga como o fez com Abrão, antes de torná-lo Abraão.

E dessa forma aplaude o Estado que mata o semelhante. Afinal, a morte é a festa, que já conta com mais de 400 mil participantes. Dos mais de 500 mil antes do final de junho. 

Temos exercitado a leitura deste universo tupiniquim, desde que o compreendemos como instrumento de exploração tal que o faz pátria da desigualdade social elevada ao cubo. Aprendemos que as razões históricas que assim o tornam até o momento não foram enfrentadas. E mesmo quando o é não foi compreendida pelos próprios beneficiados.

As raízes de tal mazela se encontram fincadas na condução do processo, em razão de uma classe dirigente que, de uma forma ou de outra — com raríssimas exceções — se apega ao patrimonialismo e ao compadrio como política pública e faz do Estado seu instrumento de atuação, diferindo, tão somente, em relação aos destinatários, conforme a ideologia que a norteie.

Desta forma permanecemos no embate histórico de uns lutarem para reduzir a desigualdade e outros para que se amplie. A vitória dos últimos tem sido mais permanente. Assim, afastada a conformação de uma unidade nacional beneficiada pelas riquezas imensuráveis presentes no território pátrio, cada dia mais distante da base da pirâmide social (mais e mais achatada) e mais concentrada naquele punhado de insignificância aritmética.

Sob essa vertente, a atuação político-eleitoral — como instrumento de ocupação do poder estatal — não alcançou em nível de resultados o mínimo que se possa esperar para uma terra que ultrapassa cinco séculos de existência.

Construímos no curso de dois séculos de independência política a dependência subserviente. E quando anunciamos posições contrárias a ela não o fazemos sob a égide da compreensão do por que ocorre.

Abaixo alguns trechos de dezenas dos que escrevemos neste espaço abordando o fato acima posto em relação à discussão da atualidade: 

A esquerda — tomando-se o PT como referência — enquanto no poder não interpretou os fatos à luz da experiência histórica. Não leu os almanaques e alfarrábios da política e do poder no curso da história, pelo menos da recente.

Não dimensionou a geopolítica como instrumento de hegemonia.

Não leu a cartilha estadunidense, em que pese alertado por entrevista de Moniz Bandeira, em 2013 (queremos crer que não tenha lido, para não ficarmos com a ideia de que foi burra) quando afirmou que os Estados Unidos não tolerariam o protagonismo do Brasil.

Não viu a ‘primavera árabe-tupiniquim’ batendo às portas em 2013 sob o álibi das tarifas em São Paulo; tampouco dimensionou que a diplomata estadunidense presente quando derrubaram Lugo no Paraguai se mudara de mala e cuia para Brasília (lá e cá o mesmo método, congresso-judiciário).

Sempre afirmamos que o jogo é bruto.

A desgraça se voltando para o Brasil começou com a descoberta e prospecção do pré-sal. Estados Unidos (CIA e Departamento de Estado) abertamente espionando. O esquema Petrobras foi todo manipulado a partir dos Estados Unidos em conluio com a república de Curitiba. Pepe Escobar, Assange divulgaram os fatos.

...

Por enxergar detalhes tais — como já escrevemos recentemente — só acreditamos na candidatura de Lula se houver por parte dele garantia para o mercado/classe dominante (que se apropriou do país recentemente) de que não haverá ‘quebra de contrato’. Ou seja, o que fizeram/compraram/espoliaram/queimaram será respeitado.

Caso contrário é ficar com as euforias e fazer de conta que não se vê o caminhar da juristocracia e dos que ora dela se beneficiam.  

(in Euforias a reboque).

“Ainda que seja ele o único capaz (como o fez quando governou) de perder os dedos para não perder os anéis. Os milagrosos anéis das políticas de governo petistas voltadas para os menos favorecidos.

Se o sistema o permitir, recomporá a credibilidade e o respeito do país.

Até outro golpe.”

                                                                       (in Lula, a bola da vez...). 

“[...] sua presença à frente do governo atende aos interesses mais comezinhos, tanto da classe dominante local como de além mar.

Também levantado indignação crítica à forma como a denominada oposição ao inquilino se porta, já que limitada ao ramerrão da denúncia midiática que em si mesma não alcança o real objetivo (justamente porque interpretada aos olhos e ouvidos do homem comum como apenas ‘coisa da oposição’, de quem perdeu o poder), sem meios e força para enfrentar ou competir com os discursos de ódio, com a mensagem evangélica. Ou seja, o discurso levado a termo pela oposição não conseguiu, em dois anos de descalabro, reduzir o BOM(!) e ÓTIMO(?) de avaliação do inquilino para menos de 30%. Simplesmente — por incrível que pareça — dispõe ele de 1/3 de apoio até agora imutável.

Salvo esparsas vozes sem a penetração necessária na base da sociedade a experiência recente deixa no ar que a oposição não aprendeu a lição de que não precisa agredir ou perseguir mas não pode confiar em projeto nacional amparado na burguesia. Sua postura nesse instante parece demonstrar apenas a realidade imediata: a retomada do poder.

Para tanto ataca o inquilino do Alvorada e esquece (e não o combate) a razão que a afastou do poder: o projeto neoliberal, com o qual de certa forma conviveu e tolerou. Parece não atentar que o que está em jogo permanece sendo uma luta de classes em torno da qual não se situou além do discurso.

(in Em meio à vitória avassaladora...)

Esta angústia que se nos acomete resulta de não vermos a saída necessária e imprescindível ao trágico que vivemos com um resultado eleitoral que sonhemos. Porque não bastará o discurso, a retomada do poder, o retorno às políticas de redução das desigualdades ora destruídas se tudo pode voltar a acontecer.

Sabemos — e parece que nos portamos indiferentes — diante de fatos comprovados – que:


o Departamento de Justiça (DoJ) norte-americano – órgão equivalente à Procuradoria-Geral da Justiça brasileira, com a diferença de que seu titular é ministro de Estado e, como tal, é demissível pelo presidente da República – recrutou e treinou a malta curitibana, ainda no início da segunda década deste século.


Em suma, a tarefa consistia em desencadear a 'perseguição constante e sistemática ao ‘rei’…', para usar as palavras de Karine Moreno-Taxman, a “especialista” da embaixada ianque, que inculcou aos seus aplicados alunos o método por eles executado estritamente, como se viu nos anos seguintes: adoção de task force; doutrina jurídica das “delações premiadas”; e 'compartilhamento informal' de informações com o DoJ, por fora dos canais oficiais.


E, o principal: criação do clima de ódio ao alvo da perseguição, mediante intenso uso dos meios de comunicação de massa, de modo a articular na chamada opinião pública, a demanda por sua condenação. A propósito, sempre é bom recordar o motivo do especial empenho dos agentes do Império nesta empreitada – a diplomacia “ativa e altiva” dos governos petistas, inclusive a atuação das empresas brasileiras no mercado internacional de infra-estrutura, exercendo forte concorrência às congêneres ianques.”

                                                       (Carlos Frederico Guazzelli, in Sul21)

Precisamos reler os fatos. Mensagem de Pepe Escobar (na TV247) reitera — com todas as letras — o que temos dito. E não vemos discutidos, tampouco enfrentados publicamente.

Não por falta de aviso.


domingo, 25 de abril de 2021

A campanha começou anunciando farsa

 

Nas primeiras linhas d’ “O 18 de Brumário de Luis Bonaparte”, trazendo a lume Hegel (Preleções sobre a Filosofia da História, Terceira Parte) e ao seu comentário de que “todos os grandes fatos e todos os grandes personagens da história mundial são encenados, por assim dizer, duas vezes”, afirma Marx que “Ele se esqueceu de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. (Aqui disponibilizamos edição eletrônica da BoitempoEditorial, com tradução de Nélio Schneider, que inclui prefácios imprescindíveis à leitura e ao bom leitor para entender, inclusive, o que ora acontece no país).

Longe do palco que norteou Karl Marx, Marcuse, Engels, Proudhon não temos que a História que nos afeta se repita ‘como farsa’. Cremos que a farsa (pior que a tragédia) é uma constante. A propósito – apenas para provocar a leitura – aproveitemos a deixa posta na Nota da Editora aventando dentre as conclusões de Marx: “a tese de que o proletariado não deve assumir o velho aparato estatal, mas desmantelá-lo”. Que o diga a esquerda tupiniquim, sempre preocupada com as alianças e esquecendo de trazer para o palco o destinatário da luta, o próprio povo.

Mas, adiante com nosso dominical.

Exibindo os dentes do que dispôs, dispõe e disporá, a campanha do inquilino do Alvorada para permanecer no poder muito mais daqueles que se beneficiam de seu (des)governo acaba de ser lançada. Assim nos parece.

De certa forma ajustada à realidade há uma espécie de alae jacta est e dela nos aproveitamos. A expressão, atribuída a Julio César (100 a.C-44 a.C), de atravessar o Rubicão com suas tropas para enfrentar os encastelados no Senado em Roma, que buscavam afastá-lo do poder, encontra nesta realidade tupiniquim uma contraposição idêntica, quando nada, assemelhada: o ingresso do nome do ex-presidente Lula como candidato em 2022 e o que pode representar de incômodo para o atual detentor do poder.

Em Roma daquele 52 a.C. quando acabara de derrotar e subjugar Vercingetórix (quem já leu ou lê “Asterix, o gaulês”, de Goscinny e Uderzo, em que cada instante histórico é posto sob o prisma da hilariedade, compreenderá melhor) ­ o Senado impunha a César que dispensasse seu exército e retornasse a Roma como simples cônsul. Uma forma simples de destituí-lo do poder que concentrava como imperador desde que o triunvirato se desfez com a morte de Crasso e Pompeu se tornara adversário.

Aqui o risco paira na realização de eleições limpas com candidato altamente competitivo, com o agravante de que possam exigir debates com quais o inquilino não se afina. Afinal, sonha ele em atravessar, antes de 2022, um ‘rubicão’ chamado golpe.

Mas, indagará o caro e paciente leitor: onde a campanha lançada? E quem acabou de lançá-la?

Sabido e consabido que os métodos que levaram o inquilino ao poder pautaram-se em vários aspectos, sendo o primeiro deles o impedimento de Lula candidatar-se, e mesmo de participar da campanha. Aliado a isso, um processo eleitoral apoiado em mensagens mentirosas (as famosas fake news) e, como fosse pouco, um lance singular: uma facada sem sangue, sem cirurgia, para ocupar o noticiário, desviando do real debate necessário o processo eleitoral. Para consolidar o método o apoio salivante da mídia, deslumbrada diante da única saída de que dispunha para defesa do projeto e agindo como cão de Pavlov.

Sem programa de governo capaz de levar à discussão o inquilino escancara através de seus áulicos o método a ser utilizado: o mesmo. Com facada e tudo. (A facada tem o condão de justificar sua ausência em debates).

Por azar das circunstâncias que criou e não soube administrar, ele que imaginava nadar de braçadas sem candidato competitivo, está diante da única coisa que não desejava: Lula. De quem se livrou graças a Sérgio Moro (a quem agradeceu de público e premiou-o com o Ministério da Justiça) e Procuradores de Curitiba, desmoralizados pelos fatos trazidos a público e hoje nada mais que resto de traque queimado.

Para não perder tempo o ilustre ‘inquilino’ acaba de ver lançada por admiradores a campanha à sucessão, caso tomemos a irresponsabilidade de Leda Nagle anunciando em rede (UOL) que o indigitado está ameaçado de morte. Mesmo desmentido posteriormente o tema viralizou, especialmente em meio aos apoiadores do singular messias tupiniquim.

Não sabemos se a farsa do atentado se repetirá. E, se repetida, funcionará.

Mas, como anúncio de campanha este escriba de província não a descarta porque, no fundo, vivemos uma típica farsa: a de que somos uma nação, temos instituições sólidas, vivemos numa democracia... e o inquilino preside o país.

E que o expresso por Herbert Marcuse, como Prólogo publicado em 1965 sobre o 18 Brumário, não faça com que este país se transforme “num aparato político-militar encabeçado por um líder ‘carismático’ que tira das mãos da burguesia as decisões que essa classe não consegue mais tomar e executar por suas próprias forças”. Porque “a farsa é mais terrível do que a tragédia à qual ela segue”.  

domingo, 18 de abril de 2021

Euforias a reboque

 

Uma Vela a Deus, outra ao Diabo. Assim entendemos a postura do STF em dois julgamentos que se encontram quanto ao destinatário Lula, que sinalizam ameaças a direitos assegurados em habeas corpus passando por rever a declarada suspeição de Moro. Como observa Pedro Serrano na Carta Capital  “suspeição e incompetência” são fenômenos diferentes. 

Está ficando cansativo. Não basta o estado de calamidade institucional no plano jurídico em decorrência da postura do STF diante de descalabros postos quando observados sob a ótica técnico-jurídica substituída pela jurídico-política em que sinaliza tornar-se guardião de candidaturas políticas e de mandatos sob sua ótica moral.

Uma articulista, Nadejda Marques, no GGN, alerta para o que denomina de juristocracia. Tocou na ferida. A decisão do plenário do STF retirando a corriqueira apreciação de habeas corpus das turmas para o plenário mostra a quantas anda o STF.

Alertávamos deste espaço ser muito cedo para a esquerda e o PT em particular fazerem festa com a declaração de incompetência do juiz Sérgio Moro para o processo do tríplex, assim como sua suspeição. Um ministro mesmo dissera em entrevista a Bandnews que o plenário a reverteria por 6x5.

Aqui estamos caminhando para um beco sem saída dentro do atual formato de autoritarismo, de ditadura sem uso de armas e tropas militares, mas de uma juristocracia respaldada pela cara feia da caserna. Afinal, como mesmo o confessou, o general Heleno ameaçou o STF para que não concedesse habeas corpus a Lula em 2018 a fim de garantir o inquilino do Alvorada.

O que está em jogo não é o direito que assista a Lula, mas o direito que lhe conceda na cuia da mesquinhez o STF. Com recado dado tudo fica claro: sair candidato você pode sair, desde que o queiramos, se coincidir com os interesses que defendemos.

Como se dissessem ­ completamos: ainda não engolimos seu sucesso como governante...

O caro e paciente leitor que nos acompanha sabe o quão crítico temos sido em relação à denominada esquerda e seu discurso nestes últimos e tempestuosos anos. Sabe que temos dito e afirmado que não reflete ela a leitura em torno da realidade e tem se apegado a uma dimensão mítica, qual seja a referência (única) que a expressa (porque por si se fez): Lula.

Na esteira desta toada tudo passa por Lula: o futuro, etc. etc. etc. E para tanto mesmo aplaude o STF de agora; o mesmo que causou toda desgraça.

No tanger da realidade os que levaram Lula ao cadafalso tornam-se santos ao livrarem o líder de pesares em um instante qualquer. A leitura plena da realidade não se configura. Talvez exigência de quem longe está do palco, dialetizando a partir desta província. Mas não se pode descurar de que ele STF existe e a peça é apresentada conforme o público/instante: ontem, afastar Lula; hoje, fazer retornar Lula.

Com um detalhe que ninguém está atentando: dentro de pouco tempo (com futuras indicações do inquilino do Alvorada) a corrente político-religiosa do STF tende a controlar a Corte. Para quem duvida analise a atuação do recém indicado.

A esquerda tomando-se o PT como referência  enquanto no poder não interpretou os fatos à luz da experiência histórica. Não leu os almanaques e alfarrábios da política e do poder no curso da história, pelo menos da recente.

Não dimensionou a geopolítica como instrumento de hegemonia.

Não leu a cartilha estadunidense, em que pese alertado por entrevista de Moniz Bandeira, em 2013 (queremos crer que não tenha lido, para não ficarmos com a ideia de que foi burra) quando afirmou que os Estados Unidos não tolerariam o protagonismo do Brasil.

Não viu a ‘primavera árabe-tupiniquim’ batendo às portas em 2013 sob o álibi das tarifas em São Paulo; tampouco dimensionou que a diplomata estadunidense presente quando derrubaram Lugo no Paraguai se mudara de mala e cuia para Brasília (lá e cá o mesmo método, congresso-judiciário).

Sempre afirmamos que o jogo é bruto.

A desgraça se voltando para o Brasil começou com a descoberta e prospecção do pré-sal. Estados Unidos (CIA e Departamento de Estado) abertamente espionando. O esquema Petrobras foi todo manipulado a partir dos Estados Unidos em conluio com a república de Curitiba. Pepe Escobar, Assange divulgaram os fatos.

Não que desmandos comprovados não devessem ser apurados e punidos. Mas o problema não era a Petrobras, e sim o que ela gerava e o que representaria para a geopolítica posta em prática pela diplomacia dos governos petistas.

Mas outro mas internamente o governo se entendia imbatível, defendido no plano do imaginário pelas camadas beneficiadas por suas exitosas políticas públicas de distribuição de renda, redução do desemprego etc.

No entanto, não lia nas entrelinhas da classe dominante controlando os meios de comunicação (à qual não basta participar, mas deter o comando) e de uma massa de manobra (a pentecostal católica e evangélica) sob comando adverso. Tampouco nem mesmo atinou para o risco de Eduardo Cunha (inimigo de Dilma) assumindo a Câmara e o controle sobre aceitar ou não pedidos de impeachment.

E aí estamos: economia destruída, pré-sal nas mãos estrangeiras, diplomacia em frangalhos. E tudo começa com a aceitação do acima relatado que poderia ter sido frustrado caso Lula fosse candidato em 2014, mas isso é outra história.

Preocupa-nos a leitura que fazemos dos fatos. Não estamos só. Razão por que recomendamos a leitura de Moisés Mendes no 247.

Por enxergar detalhes tais como já escrevemos recentemente só acreditamos na candidatura de Lula se houver por parte dele garantia para o mercado/classe dominante (que se apropriou do país recentemente) de que não haverá ‘quebra de contrato’. Ou seja, o que fizeram/compraram/espoliaram/queimaram será respeitado.

Caso contrário é ficar com as euforias e fazer de conta que não se vê o caminhar da juristocracia e dos que ora dela se beneficiam.


domingo, 11 de abril de 2021

Entre o ideal e o deboche

 

Aproveitando o que nos oferece a biblioteca particular encontramos em Vinicius de Moraes — Poesia Completa e Prosa (volume único), editado pela Nova Aguillar, em 1968 — uma peça que nos motivou a crônica “Outros tempos”, que consta do nosso Portal da Piedade (Via Litterarum, 2018). Diz o motivo que “O exercício da crônica” (pág. 509 da obra original) nele se materializava em sentar-se diante de sua máquina, acender o cigarro e olhar através da janela e buscar fundo em sua imaginação um fato qualquer, de preferência colhido no noticiário matutino, ou da véspera, em que com suas artimanhas particulares possa injetar um sangue novo.

Trilhamos no ‘exercício’ provinciano de situar os tempos de distintos entre o cronicar de Vinicius e o deste escriba de província, esparsados em torno de setenta anos, e tomamos o “sangue” em sua literalidade, sob o viés de ‘novo’ como tratado nesta contemporaneidade aonde norteia a (des)informação que ampara o consumismo que aliena e concluíamos:


   “Nossa resistência — utópica que seja!  talvez resida no texto de uma artéria aberta da qual se esvai o sangue Esperança.

   Tantas as mazelas e os desencantos como leitura do cotidiano que  muito certamente  não escrevemos crônica, mas o laudo de uma hemodiálise”. (Pág. 13)


Verdade, caro e paciente leitor, que a distância entre o romantismo que levava Vinicius de Moraes a escrever suas crônicas e o que ensaiamos está a anos-luz. Os tempos não são somente distintos; os atuais queimam como ferro em brasa.

E assim folheamos o que nos chega como motivo.

20 novos brasileiros integram a relação de bilionários; em meio à pandemia, de patrícios a além-mar, crescem no quesito riqueza aqueles que constituem insignificativo punhado aritmético no planeta que acolhe tantos bilhões de almas mas que concentra nas mãos destes poucos mais da metade da riqueza produzida.

Ler sobre riquezas incomoda qualquer que pense humanisticamente, que deseje redução das desigualdades e  o mais imprescindível  que a fome desapareça.

No Brasil mais da metade da população já não tem garantia de comida em casa  afirma-o pesquisa veiculada na Istoédinheiro. Ou seja: não somente os que já se filiam ao infame número de miseráveis (27 milhões, triplicado em seis meses segundo o IBGE, via 247); também os que ainda fora dele estão perdendo empregos e desfazendo-se das escassas poupanças não têm assegurado o direito ao filho de comer um pedaço de pão.

De uns tempos para cá  em especial no Brasil a partir de 2016  passamos a descrer na humanidade em nível de Civilização. Não podemos admitir progresso paralelo à miséria de milhões.

Espasmos de reação ocorrem aqui e ali: o estado de Nova York deseja (!) aumentar impostos de pessoas com renda superior a US$ 1 milhão. Cremos que tal pretensão morra no nascedouro.

O status quo que domina o planeta cunhou uma expressão para macular quem fale em distribuição de renda, menos desigualdade: comunista. Mas comunismo para essa gente é justamente não a doutrina que defenda o socialismo real (ainda utópico) mas o que o sinonimize com um autoritarismo na linha stalinista.

O cristianismo primitivo, os socialdemocratas, como os comunistas têm em comum a preocupação em relação aos pobres como destinatários da miséria material e espiritual programada para o planeta. Mas, como o disse Dom Hélder Câmara: “Quando dou comida aos pobres me chamam de santo; quando pergunto por que são pobres me chamam de comunista”.

Em outra vertente nos deparamos com singulares diálogos e tratamentos com que se passaram a tratar Excelências encasteladas no STF (exemplo do que se perpetra em boa parte das cortes do país): um Advogado-Geral da União esquece do Direito amparado na Lei Maior do Estado de Direito ao qual cabe defender e se baseia na Bíblia para justificar seu ponto de vista(?!!!). O Procurador-Geral da República afirma que a fé “também salva vidas” (faltou quem perguntasse o que têm Malafaia, Edir Macedo, Valdomiro, Bispo Rodrigues e quejandos de contribuição no combate à pandemia). Uma das Excelências  diante do absurdo defendido por outrem — diz ter o indigitado chegado de Marte.

Sendo assunto de cada segundo cotidiano a pandemia em sua versão Brasil do inquilino do Alvorada já vislumbra logo ali a possibilidade de cinco mil mortes diárias (alerta do presidente do Butantan). A fala começou a se tornar realidade na quinta-feira (8) quando o número de mortes alcançou 4.249.

Enquanto isso hospitais das Forças Armadas deixam até 85% de leitos ociosos e não permitem que sirvam para atendimento a civis (247).

E por aí vamos! Este o ‘sangue’ de que dispomos para escrever.

No mundo real um punhado debocha da humanidade; um outro, encastelado por entre pilares dos palácios que os abriga, perde o bom senso e nada mais nada menos traduz em deboche o que se tornaram estes tempos.

Certo estamos que entre o mundo ideal e o deboche estes tempos bizarros escolheram o último.