domingo, 3 de novembro de 2019

Entre a utopia e o sonho, a estratégia e a Civilização contra a barbárie

Entre a utopia e o sonho
Em singela distinção teríamos a utopia como um sonho impossível e o sonho como como algo possível, materializável através de planejamento, de insistência, de confiança, de acreditar no que pretende e acredita ser o melhor.

Para muitos a democracia é uma utopia, existindo apenas no plano formal, porque nunca o povo, como destinatário da atuação estatal, e assim caminho para a igualdade (dela tônica), está presente. 

As ditaduras, por sua vez, são a negação de qualquer vocação democrática, pois se valem do formal levado à força para negar ao interesse geral o que lhe é devido em tese.

Na sociedade brasileira – por suas raízes histórico-formadoras – nunca a democracia foi ponto de convergência e sim de conveniência. Caso não possamos dominar plenamente aceita-se o partilhamento até que o possamos. 

Os governos destoantes dos projetos da classe hegemônica foram ‘suportados’ até o instante em que afastados seus mentores, onde os golpes foram um dos instrumentos. 

Modernamente o processo eleitoral viciado e manipulado foi utilizado com sucesso.
  
Como profetiza metaforicamente Raul Seixas, em SOS:


“Hoje é domingo, missa e praia, céu anil 
tem sangue no jornal 
bandeiras na avenida zil
Lá por detrás da triste e linda Zona Sul  
vai tudo muito bem
Formigas que trafegam sem porquê [...] 
E nas mensagens que nos chegam sem parar 
ninguém pode notar 
estão muito ocupados pra pensar.”

O detalhe é que a busca por discos voadores só se encontra na canção. E poucos, muito poucos, os que preferem a utopia e lutam contra o sonho.

Afinal, os ares estão nublados, como no tempo da canção. E a metáfora se faz necessária para explicar a razão por que temer o sonho.

No mais, como o título da canção, Save Our Soul.

Imaginar diversamente soa à inocência. 

A repressão de um Estado além fronteiras contra o povo que protesta inspira, como canção de ninar.

O uso de soldadinhos de chumbo não lembra o Quebra-nozes, tampouco pensa em Tchaikovsky mas em guerra nada infantil.

Estratégia
Circula na rede a observação  em torno da incrível capacidade do inquilino do Alvorada e família criarem uma crise a cada novo dia.

Não percebe quem assim pensa que nada há para ser cobrado além do prometido. 

Como nada foi prometido em obras e investimento/desenvolvimento tudo está conforme.

Em razão disso nenhum exagero considerar dita atuação como estratégia de (des)governo.

E de crise em crise – quem sabe? – encontrará apoio para reeditar um AI-5.

Civilização contra a barbárie 
Passos – não tão curtos – a caminho de uma ditadura vem sendo dados não de agora: desde antes de o inquilino do Alvorada assumir. Apenas ele se tornou o porta-voz possível de assumir – por sua incompreensão da realidade – tamanha aberração.

Mas tudo caminha para o desiderato. E não temos nada que justifique temores de governo contra as instituições. Ao contrário, as instituições é que estão preocupadas com o governo.

Mas – dizíamos – tudo caminha a passos largos para a consumação do intento. 

Dia desse o ministro Toffoli disse estarem as instituições desconstruídas... Se ele diz isso, portas escancaradas para a aventura. Mesmo porque o que cabe ao STF do Sr. Toffoli não se efetiva.

Por fim – para mantermos a compreensão das coisas que vivemos – “Com Supremo, com tudo” tudo o que aí está. 

Imaginar que o inquilino do Alvorada tem capacidade de organizar o que põe em prática e jogar sobre ele a responsabilidade nada mais é que mais uma infantilidade de quem esquece de reconhecer e combater o sistema que o sustenta.

Afinal, a tragédia não é o inquilino do Alvorada, mas o que e quem o ampara. E o inquilino mais enfraquecido e acuado fortalece quem o manipula.

Cabe à Civilização entender o quanto contribui para a barbárie. 

E aproveitar para proteger a vida do porteiro.

domingo, 27 de outubro de 2019

Colaboração sob a égide da semântica tupiniquim

(Des)cumprindo a Constituição
Nossos homens de toga, incumbidos – por juramento – de cumprir e fazer cumprir a Constituição passaram a dar-se ao gáudio de interpretá-la à luz de convicções, algumas tão rochosas quanto uma pluma ao vento. Eis-nos postos diante da elementar conclusão de que se estão a definir um ponto sob a interpretação da Carta não há como entender-se que tragam alheias dimensões àquela. 

Inclusive – o mais hilário – análises estatísticas do sistema prisional passam a alimentar a interpretação do quanto definido em cláusula pétrea na Lei Maior. 

Pobres crianças – diríamos, se estivéssemos visitando um jardim de infância – se sob o seu cutelo não fora o próprio ordenamento jurídico-constitucional de um Estado Democrático de Direito a cada dia lançado às falésias.

A compreensão dos senhores de toga não se conforma com a realidade social, tampouco pragmática. A compreensão dos senhores de toga tem o peso de uma pluma em ventania, sim, caro leitor.

Que o diga – para confirmá-lo – o proclamado ‘voto diferente’ que anuncia o Presidente do STF para o tema prisão antes do trânsito em julgado.

Enquanto Rosa Weber afirma em seu voto – ainda que reconhecendo haver votado anteriormente contra suas convicções para corresponder ao ‘instante’ em que o fez – que nem a Inquisição executou sentença antes do trânsito em julgado ensaia-se nesta terra sem destino outorgar conceituação e definição específica (leia-se, politicamente conveniente ao instante) através de uma interpretação ‘diferente’ para mudar a construção histórica da Civilização no curso de milênios.

No plano da interpretação das sentenças e dos enunciados esta prestação jurisdicional presta inestimável (des)serviço ao que possamos entender como Justiça. 

A confusa significação ofertada aos fatos – à verdade factual – ocupa incompreendidas observações para os que dela (Justiça) carecem. 

E tal o promove até mesmo o STF, uma casa mais de confusão e menos de interpretação. 

Tudo porque não mais o Direito como essência os norteia, mas o instante. 

Um singular instante sob o vigoroso comando da imprensa, apoiada por militares de pijama. Que hoje mais ‘entende(m)’ de tudo, inclusive de Direito.

Na esteira dos absurdos até mesmo o inusitado e singular fatiamento de recurso criminal em prejuízo da apreciação das matérias prejudiciais ao exame de mérito, como o ensaia o Desembargador Gebran Neto, do TRF-4, pretendendo que seja julgado o que lhe vem a seguir, antes do antecedente, como pode ser observado através da reação da defesa, disponível no Conjur.

Teori também colaborou
Até o presente sabia-se que o falecido ministro Teori Zavaski, do STF, teria sido uma pedra no sapato das arbitrariedades da Lava Jato. Sabe-se agora, que nem tanto. Manteve presos – em conluio com procuradores – executivos da Andrade Gutierrez para assegurar a delação por eles pretendida pela Lava Jato. "Vida que segue" – como o diz Ricardo Kotscho.

A promiscuidade alcançou foros inimagináveis, incluindo o STF.

Se o lídimo Teori – temido por procuradores da Lava Jato – esqueceu convenientemente de apreciar um habeas corpus até que o crime se perpetrasse estamos todos perdidos. Em definitivo.

Este o singular Estado de Direito neste Brasil. A tortura como método: física ou psicológica.

Não há como não concluirmos com Fernando Brito, no Tijolaço, a propósito da postura do ínclito Teori Zavascki: “qual é a diferença entre um juiz que “engaveta” para fazer delatar e o monstro que foi exibido estes dias na rede, num curso de preparação para policiais, que faz apologia da tortura como meio de delação?

Eis como criada a colaboração sob a égide da semântica tupiniquim.

domingo, 20 de outubro de 2019

O luto que nos invade


Tudo se discute nesta triste terra brasilis, menos o país e sua razão de existir. A declaração de independência, consolidada nas batalhas da Bahia, pretendia construir uma nação soberana. Ainda que sobre pilares engendrados por uma classe dominante excludente individualista e patrimonialista caminhava – mesmo trôpego – na busca de seu santo Graal.

Em alguns instantes históricos isso ficou mais evidente, quando projetos nacionalistas se efetivaram. A indústria siderúrgica, o primeiro instante para fugir à dependência externa, abriu caminho para a metalurgia e o processo de industrialização. Forças produtivas foram despertadas.

O domínio das riquezas foi a tônica do projeto daquele país do futuro. Sua exploração pelos brasileiros marcava um sonho de Pátria e alimentava a autoestima. Não somente os heróis sucumbidos às suas utopias, à frente deles o Tiradentes, o mártir mais consagrado, também os que construíamos esta nação.

A criação da Petrobras e da Eletrobras, aliada ao projeto de pesquisa nuclear que originou o CNPq, ainda nos anos 50, ofertava novas e esperançosas perspectivas para o país no concerto internacional. Nem discorramos sobre os momentos mais recentes.

Mas hoje nada resta nesta triste terra brasilis além do exaurimento de suas forças produtivas e do resto de autoestima de uma gente para quem tudo aqui era “o maior do mundo”.

O projeto de além-mar no antanho, que passou por domínio de Portugal e da Inglaterra e mais recentemente dos Estados Unidos no xadrez da convivência e dependência no mapa do planeta, se consolida em detrimento de nossos interesses arduamente defendidos no curso da história.

No entanto, não mais o controle da hegemonia no jogo da geopolítica nos aliena, mas um sistema alheio a tudo que não seja seu lucro. 

E assim o sistema financeiro, com sua teoria e prática neoliberal, consuma um projeto amadurecido há anos: tudo aos bancos e nada a mais ninguém.

A vocação do Estado no quesito atendimento aos interesses da coletividade e do bem comum, onde o povo seria destinatário, perdeu o objeto; não mais serve ao povo  mas é o próprio povo servido por ele na bandeja. 

Engalfinham-se Executivo, Legislativo e Judiciário, cada um com sua conivência e participação no desastre, em discursos e manchetes elevando valores e não-valores na construção da esterilidade pátria como cães ladrando enquanto a caravana neoliberal passa. Esquecem os que discursam de que quanto mais humilhado o país maior a segurança dos que o dominaram. E que foram eles os atores e autores desta humilhação que hoje buscam um mea culpa como meio de fazer-nos esquecer a mácula que causaram.

E hoje nada mais temos a não ser tentar reduzir o grau de humilhação.

Enquanto o fazemos, ocupando searas alheias à realidade, caminhamos célere para nos tornarmos escravos em substituição ao complexo de súdito. 

Ainda que atônitos a tudo assistamos o (não)futuro nos encaminha para o precipício. 

E para a morte como nação.

Não à toa o luto nos invade... pelas praias.

domingo, 13 de outubro de 2019

Palco do Apocalipse


O que nos tornamos
Óleo bruto avança sobre praias brasileiras. Parte dele já ocupa algumas áreas do litoral. Mancha de 21 K² detectada por satélite caminha para a costa. Ibama localiza barril de óleo da Shell em praia de Sergipe. Há quem fale de óleo de origem venezuelana, o que seria uma ataque do país vizinho ao Brasil.

Parcela do pré-sal entregue a preço vil. Petroleiras internacionais, as grandes beneficiadas. Trilhões de dólares trocados por uma centena de bilhões de reais.

O comando vivendo a Idade Média. Inclusive amparado na venda de Indulgências no atacado.

Palestram para plateias 01, 02, 03...

Irmã Dulce dos Pobres, a baiana canonizada neste 13 de outubro, tem pela frente realizar um milagre: salvar o Brasil do Apocalipse em que nos tornamos.

Piada I
Dos arautos do caos a declaração de que o óleo que ameaça o litoral tem origem venezuelana e estaria no mar de propósito, como típica agressão à nossa soberania. Eis a versão da Petrobras e do governo brasileiro.

Este surrealismo – que se tornou lugar comum nesta hoje triste terra brasilis – encerra uma típica piada: caso tivesse partido da costa venezuelana fez uma curva para chegar ao Nordeste evitando a costa da Venezuela, das Guianas e Suriname, de ilhas do Caribe, do Amapá, Pará, Maranhão e Ceará escolhendo Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia.

E há quem duvide de inteligência na Natureza bruta!

Piada II
Em declarações o atual chanceler Ernesto Araújo (cuidando da representação diplomática do Brasil como Ministro das Relações Exteriores) diz que o clima tornou-se discussão ideológica. “Capturada por uma ideologia” – diz o ilustrado.

Para ele “O climatismo está para a mudança climática como o globalismo está para a globalização. A mudança climática deveria ser estudada de maneira serena, racional, mas também foi capturada por uma ideologia".

Como nos tornamos uma piada pronta eis aí um gênio a serviço da Pátria.

Reviram-se nos túmulos Santiago Dantas, Afonso Arinos de Melo Franco, Joaquim Nabuco, Ruy Barbosa, Graça Aranha...

Talvez careçamos de compreender Saint-Hilaire (1779-1853) como profeta ao metaforizar com sua imortal percepção: Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil. 

Por hoje chega, caro leitor!

domingo, 6 de outubro de 2019

De assassinos, assassinados e cavalgaduras


Os que matam também morrem
A Lava Jato está morta. Não porque pretendeu combater a corrupção. Morreu pelo remédio de que se nutriu, o método utilizado, de que se valeu. Não somente de meios ilícitos para apurar, condenar e prender, mas – e muito mais – para fazer política partidária. E naquele quesito – combate à corrupção – agiu de má-fé, dela utilizando-se para alimentar um projeto político-partidário que leva o país ao descalabro em que se encontra institucionalmente.

E não se negue que um de seus coveiros é aquele “com Supremo, com tudo” que a legitimou e hoje convive com o estorvo (por ela e por suas próprias decisões para responder à voz das ruas manipulada pela grande mídia) do qual faz das tripas coração para encontrar saída.

No entanto, o vício nela desenvolvido tem defensores ferrenhos, inclusive no STF.

No fundo, descobrimos que temos a cara de um Judiciário exposta: aquela que se vale de violações para dizer que faz Justiça.

Estados paralelos são atribuídos – na propaganda oficial – apenas ao crime (que já alcunharam até de organizado) mas, aos poucos, vamos descobrindo que suas raízes são muito mais profundas, porque encasteladas em alguns agentes do Estado à frente de Auditorias fiscais, órgãos de controle e julgamento fazendário, juízos e tribunais.

Posta a realidade em todas as suas dimensões de atuação se nos impõe compreender que a corrupção é a grande vitoriosa.

Tanto que até serviu de bandeira para o cometimento de aberrações judiciais para fins outros, como político-partidário-eleitorais como o promoveu a turma da Lava Jato.

Que “morre sem retrato e foguete” (Noel Rosa). 

Mas – muito provável que cumprindo o compromisso assumido com os interesses alheios aos nacionais – levando para o túmulo os bilhões de prejuízo causados à economia brasileira (ver texto abaixo), a leva de milhões de desempregados e, o mais irreversível, a ascensão de ‘líderes’ que destroem a história e a imagem da diplomacia pátria e que hoje nem mesmo são levados em conta no concerto internacional, onde mais causam asco e nojo que lástima. Quando não motivo de anedotas.

Não fosse a mácula sem retorno de que tudo ocorreu porque legitimado “com Supremo, com tudo”.

Entre os mortos
As guerras na Antiguidade tinham por condão o saque de riquezas e a escravização do povo vencido; as modernas para impor mercados. Conflitos bélicos que resultaram (só para falar nos mais recentes) em destituições de governos pautados estiveram em controlar riquezas (Iraque, Líbia) e outros em andamento visam controlar riquezas (Venezuela).

O exercício do poder é caminho para controlar mercados, impor os seus aos outros. Nenhum governo mantém encontros e conversas com outro pelos lindos olhos deste ou daquele dirigente, mas para vender/impor mercadorias, tecnologias, reservar consumo para suas indústrias e prestadores de serviços (inclusive construção civil).

Em regime de paz a diplomacia exercita justamente este entrelaçamento de interesses: negociar vendas e compras. Compro de você e você compra de mim. Um financia o outro para que compre o que venda. Os bancos de fomento são o instrumento de financiamento: em nível multilateral ou bilateral. O controle de agências de fomento são a chave-mestra do controle de mercados. Através delas são impostas exigências, estabelecidas condições para que este ou aquele governo possa participar dos negócios.

Caso um país dependa de um empréstimo fora de seus limites territoriais, à guisa de exemplo, se submete às exigências do FMI ou do Banco Mundial, o que, no fundo, são formas de controle do mercado interno do indigitado país (privatização, reforma cambial,  desnacionalização, abertura de setores da economia etc.).

No curso de décadas (mais de meio século) o Brasil conseguiu ocupar espaço significativo no exterior com suas empresas de construção civil. A tecnologia apurada levou-as a dominar parcela deste universo. Quando necessário, o Brasil (através de suas agências de fomento) custeava o tomador dos serviços financiando o investimento desde que a empresa nacional fosse a contratada e nossos serviços e bens vendidos.

No plano interno os investimentos em obras públicas (hidrelétricas, rodovias, portos, aeroportos etc.) ou de interesse social (moradia/casa própria) são financiadas por aquelas agências de fomento (BNDES, CEF etc.) com recursos oriundos de fundos públicos (FGTS, PIS/PASEP etc.) garantindo emprego, arrecadação de impostos, consumo e retorno dos investimentos de forma direta com a remuneração dos financiamentos.

Lemos que a CEF e o BNDES pedem a falência da Odebrecht.

A empresa, impedida de contratar por estupidez de decisões judiciais que confundem pessoa física com jurídica (e pune a empresa em vez de punir a pessoa física do seu dirigente) perdeu mercados (só de obras em andamento na América Latina mais de 5 bilhões de dólares) passou a viver dificuldades para honrar os compromissos (quem não ganha não tem como pagar o que deve) e pediu intervenção judicial para que fossem administradas as dívidas.

A isso atropelaram as iniciativas da Caixa Econômica e do BNDES com o pedido de decretação de falência, a oficialização da extinção da empresa, que empregava entre 200 a 350 mil conforme os investimentos públicos em obras, não fora estar integrada a setores estratégicos, como o petroquímico e mesmo à construção do submarino nuclear brasileiro.

Assim, o país não se bastou em parar de financiar novas obras, tampouco de pagar por aquilo que já fora realizado, cuidou também de matar a empresa.

Em meio a tantos mortos há assassinos e assassinados. Muitos assassinos ocupando altos cargos e impunes diante dos crimes cometidos, contra a lei e contra a Pátria.

“Com Supremo, com tudo”.

Dois instantes que se aperfeiçoam
Há em livro de Luiz Maklouf Carvalho (O Cadete e o Capitão - A vida de Jair Bolsonaro no quartel, lançado pela Editora Todavia, em agosto, como sinaliza Carta Capital)  a vida do inquilino do Alvorada na caserna. 

Não enveredemos pela substância de sua personalidade revelada no texto, mas no seu “nome de guerra” em documentos da caserna: Cavalão.

Daí para sua forma de ver as coisas na imagem exibida na rede durante a campanha tudo a ver.



domingo, 29 de setembro de 2019

Em meio a freios de arrumação e vexames


Freio de arrumação
O desespero já bateu na turma do punitivismo a qualquer preço. Quando brotaram (como cogumelo) as denúncias do Intercept – ainda que reconhecidas quanto à origem – passaram a questioná-las quanto à forma de obtenção. E com isso (e a o valiosa ajuda e apoio da imprensa servil, sempre presente e a favor) a coisa foi sendo lançada no fosso como fora iniciativa de quem pretendia combater a Lava Jato como ‘único’ instrumento eficaz de combate à corrupção.

Mais uma vez – como vem ocorrendo em julgamentos de porte (inclusive no STF – “Não tenho provas contra José Dirceu, mas a literatura jurídica me autoriza a condená-lo”, dito por Rosa Weber) – ou no impeachment – vide Barroso legitimando a forma em detrimento do fundo – para alcançar a pretensão do que “eu acho”. E os fins justificarem os meios lançando às calendas os valores, princípios jurídicos e institutos insculpidos na Constituição para conduzir, prender, ameaçar.

E tudo caminhava conforme o script, cena a cena elaborada para que nada prejudicasse a Lava Jato, ainda que por terra lançados os mais comezinhos valores e princípios norteadores do Estado Democrático de Direito (“com Supremo e tudo”). E os que puseram em prática um direito à base da conveniência se fizeram arautos da moralidade, eles os homens de bem e o resto a representação do Mal, a ponto de tornarem um princípio indisponível, como o da ampla defesa, em faculdade da defesa, legitimado na absurda ‘convicção’ (Fux) de que cabe ao réu provar a sua inocência e não ao Estado a culpa, esquecendo – por conveniência – que em direito penal a prova é objetiva e não subjetiva, cabendo ao acusador demonstrar os fatos que alimentam a acusação. 

Mas, a inversão de valores se impunha para que tal prosperasse. E prosperava, no caudal alimentado por uma mídia que fez dos tribunais palco e delegados, promotores e juízes atores e atrizes. E punir tornou-se instrumento acima do direito no instante em que este submetia-se àquele.

Mas – dizíamos – o desespero bateu na turma do punitivismo a qualquer preço.  Sem esquecer que tudo se consumava “com Supremo e tudo”. Uma festa! “O Fachin é nosso”, “Nós confiamos no Fux” etc. etc.

Mas, o escândalo alcançou foros de intolerabilidade, de anadmissibilidade e mesmo alguns dos envolvidos começaram a ficar incomodados com o que fizeram. O véu da vergonha cobriu o Judiciário brasileiro e maculou gravemente a imagem da concepção de Justiça no país.

E nesse quesito o próprio STF começa – tímido – a restaurar a interpretação legalista.

E a turma se arrepia. Certamente menos preocupada com a legalidade e mais com o que vai deixar de faturar (2,5 bilhões da Petrobras para uma fundação criada por eles e para eles, palestras para igrejas, banqueiros, empresários, futuro político-eleitoral, vagas na PGR e no STF).

E nesse viés estranhos mea culpas vão ocupando o palco como canhestra ópera bufa, com palhaço sem graça daquele mambembe medíocre de lona furada pontilhando “de estrelas nosso chão” tentam fazer-se de legalistas para ver se convence a plateia.

Então, mais uma vez trilhando a seara do absurdo (cesteiro que faz um cesto faz um cento – dizia vó Tormeza) aqueles violadores contumazes da lei agora tomam a iniciativa de eles mesmos pedirem a progressão da pena de Lula para o semi-aberto. Ou seja, em meio a processos de dezenas, centenas de apenados a justificar a progressão o MPF toma a iniciativa (Ó, Glória in excelsius Dei) de defender o preso Luís Inácio Lula da Silva.

Ah! Quanta bondade!

Fica este escriba de província a imaginar como de esperança se enchem os milhares de apenados Brasil afora que aguardam há dias, meses ou anos o reconhecimento de tal direito, ainda não consumado graças à ‘rapidez’ com que Suas Excelências (promotores e juízes) apreciam tais direitos, mesmo que já provocados pela defesa no exercício de suas prerrogativas (Salve! Salve OAB!) sabendo (os presos) que têm agora a ‘iniciativa’ do Ministério Público para lhes fazer Justiça.

Caso algum leitor, mais arguto como sói sê-lo os que acessam esta coluna, questione este escriba dizendo que tal é impossível de acontecer porque o Ministério Público não tem o controle de tal situação (a cargo do juízo da Execução penal) diremos, tão somente, por que, como iniciativa de que não lhe é comum, o pretende o MPF com Lula?

Cremos que muito há de freio de arrumação. Quando o veículo furou o tambor de freio transitando ladeira abaixo em estrada nos Andes peruanos.



Ah!, para finalizar: o filho de Teori Zavaski, o ministro que morreu em decorrência de um acidente aéreo em 2017 – por invulgar coincidência quando andou questionando algumas posturas da Lava Jato –, diante das declarações homicidas de Rodrigo Janot em relação a Gilmar Mendes, postou na rede: “O ex-Procurador-Geral da República abertamente admitindo que queria matar um Ministro do STF e ainda tem gente querendo me convencer que o avião caiu por acidente!"

Fecha o pano!



O outro lado da bondade
A cada dia mais escancarado fica: os pilares da civilização, construídos no curso de milênios (aprofundado nos últimos cinco séculos) caem por terra quando manipulados por quem deveria sustentá-los – o próprio Estado. 

E na esteira uma atuação estatal com objetivo válido e justo torna-se um ato de violação àqueles princípios universais em matéria de persecução penal: o devido processo, o direito à plena defesa e o princípio do contraditório.

E – nunca esqueçamos, porque não há defesa – tudo aconteceu “com Supremo e com tudo”.

Uma operação voltada para extirpar da sociedade (utopia?) a chaga da corrupção deixou-se corromper para tê-la como instrumento de atuação político-partidária-eleitoral, “com Supremo e tudo”.

De vexame em vexame

A foto diz muito: indiferença, cumprimento de dever funcional, ironia , espanto, angústia. Tudo que pode ser resumido numa frase: ‘Não acredito no que estou ouvindo’.


Ele para ele
Depois de longos 60 minutos de espera a confissão explícita em 17 segundos, trazidos por Lauro Jardim, em O Globo:

Bolsonaro diz:
"I love you"

Ao que Trump responde:
"Que bom te ver de novo"


Afastando tudo o que somente Freud pode explicar fica a certeza de que a viagem do inquilino do Alvorada piorou a situação do Brasil no exterior.

Refrescando a memória
Como víamos o que ora vemos. Ou, quando antecipamos o que ora vemos, em maio de 2017, no Rastilhos da Razão Comentada.

domingo, 22 de setembro de 2019

As faces da insanidade e o sumiço da lista


Faces da insanidade que nos acomete
A insanidade definitivamente ocupou este país. Algumas expressões são mais palpáveis que outras. Umas, cotidianas – historicamente cotidianas porque cada tempo tem a sua e seu profeta – impregnadas no inconsciente coletivo, no dia a dia, de tal forma que se tornou natural com elas conviver. Outras melhor expressadas por autoridades que se dizem arautas das soluções finais. 

O exercício do poder em todos os tempos, o combate aos vícios no curso da história humana, os estereótipos pautados para explicar ao alvitre do explicador.

O que vemos em tudo isto que chamam de Civilização pautado está em interesses. A dimensão ofertada à licitude entre eles. Afinal, sem violência (para defender a ideia de defesa própria e segurança) não há como vender armas e munições; sem consumidor/usuário de drogas não há como desenvolver a indústria em torno do combate que a elas se exige objetivo, porque evitar não convém a tal produção; com escola pública não há como vender a educação fornecida por particulares. E por aí vai.

Sob esse viés nunca será demais indagar quem direta e indiretamente se beneficia neste jogo de interesses.

Fernando Brito (no Tijolaço) toca numa daquelas “expressões cotidianas” acima referidas para expor a dor de uma família diante da morte de uma criança (de 8 anos), fuzilada no complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, por um governo que é incapaz de enfrentar técnica e cientificamente o crime e, por falta de câmaras de gás, encontrou outra fórmula para a sua solução final.

Mas, recorramos a Brito:

E a razão é simples: armas e drogas, tudo isso dá lucros. Não apenas aos traficantes, mas há policiais e ex-policiais enfiados até o pescoço no tráfico de ambas”.

Não basta acrescentar ao dito que talvez quem menos ganhe seja (em nível de tráfico) aquele que comercializa na ponta. Não fora isso, como explicar o sumiço de mais de meia tonelada de pasta pura de cocaína de um helicóptero de um político, amigo de outro político, apreendido pela Polícia Federal?

Brito não exageraria se acrescesse que não só policiais e ex-policiais. 

Também aqueles a eles vinculados ou que deles se beneficiam e que através do terror por eles implantado se elegem e constroem um império singular à sombra do denominado Estado de Direito. 

Não à toa até são condecorados ou apadrinhados em cargos públicos de livre nomeação.

E dizem que vivemos num Estado moderno e civilizado.
...
Há bandidos e bandidos. Uns perseguidos pela lei, porque cometeram ilícitos; outros, acobertados pela lei, utilizando-se da lei para cometer ilícitos na certeza de que a Justiça não os alcançará.

Nessa vertente a tirania se faz presente, a vontade do tirano e loucuras afins levadas a efeito de dominação porque detentor do poder. Poder outorgado ou não.

Um governante que – a título de segurança da população – autoriza a matança como forma de combate ao crime não pode ser considerado além de um símbolo de tirania. Porque desconhece (por interesse) as regras que norteiam a apuração criminosa no estado de direito e põe a solução final (sem processo) como saída única.

Há bandidos e bandidos. Um fio de navalha conceitual os distingue. Uns à margem do Estado; outros nele encastelados.
...
Mas também há povo e povo. Povo que espera, porque acredita, que o Estado seja o instrumento de soluções. 

Há, também, povo que sublima no tirano a tirania que é dele e não tem como exercitá-la por si. Transfere-a a outro pelos meios de que dispõe. 

A eleição de alguns tipos bizarros bem sinaliza este estado de degradação naquilo que Etienne de La Boétie (1530-1563) analisou em torno da servidão e da voluntariedade da servidão. 

Para ele a existência da tirania está vinculada à aceitação daqueles prejudicados pela tirania mas que com ela consentem, a toleram.

Nesta terra brasilis, laboratório singular da insanidade cívica, os governos não são somente os eleitos pelo povo, mas também a sua cara no espelho de Narciso em permanente estágio de voluntária servidão.

Quem pense diversamente explique ao escriba a razão por que, passados quatro meses de denúncias gravíssimas contra figuras do STF, Judiciário Federal, do Ministério Público Federal e da Polícia Federal, tudo está como dantes no quartel de Abrantes. E mais, com velado apoio da mídia tradicional que, quando muito, as veicula, e nenhum movimento faz para que o país supere tamanha desídia para com a apuração de tão graves fatos.   


E a lista sumiu!
Denuncia Joaquim de Carvalho, no DCM: aquela famosa lista do mensalão mineiro (1998), subscrita por Marcos Valério, desapareceu do STF. 

Algum bandido a surrupiou. 

Bandido de dentro do STF ou de fora, que alguém do STF deixou entrar. 

Claro que nenhum pobre mortal!

STF já deixou sumir os valores insculpidos na Constituição. E passa a sumir com o que lhe dão para apurar e julgar (pelo menos guardar).

Mas como no bordel vulgar, onde os ladrões e os miseráveis de Victor Hugo transitam por entre os lupanares enquanto a nobreza e a burguesia os explora, não sabemos quando pretenderá o STF deixar de ser este bordel de toga quando se torna político ou guardião de interesses de políticos de sua panela.