sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

À espera

Do legado
Há quem seja contra a realização da Copa do Mundo, assim como das Olimpíadas, no Brasil. Nossa posição é de que se fosse realmente ruim não haveria tanta luta para sediar tais eventos, a ponto de ocorrer até denúncias de suborno para 'facilitar' a definição.

Veiculado no Valor Econômico de 19/12 um artigo do Ministro do Esporte, Aldo Rebelo, onde, entre outras coisas, fala do volume de investimentos no Brasil - públicos e privados - apenas a propósito da Copa do Mundo, que girarão em torno de 256 bilhões de reais.

Diante dos vícios presentes em nossa cultura na aplicação de recursos públicos sabemos dos "riscos" que corremos. Entretanto, por menor que seja, haverá algum legado. Ainda que o custo seja alto virá alguma coisa que não ocorreria caso não sediássemos a Copa do Mundo.

Não fora a visibilidade. 

Que o digam hotéis e cidades, como Porto Seguro, que tendem a sediar delegações europeias.


A propósito, duas indagações

Como desejar um ano novo feliz?
A propósito do rodapé "Pedagogia da desgraça", publicado no último fim de semana, um leitor, em conversa conosco, lembrou de como o dia a dia televisivo pode nos tornar piores. E- dizia ele - insistimos em vivenciar o suicídio constante de nossos valores e existência humana.

Para evitar a busca, reproduzimos as razões do comentário, que circulou na rede:

Tem uma novela em rede nacional... seu nome é ‘Amor à vida’... mas muita coisa estranha acontece no ar... em horário nobre... filho roubando pai... marido traindo esposa e vice-versa... amante de sobrinha matando e esta enterrando a tia... tio tentando matar sobrinha recém nascida... ensinamentos de como traficar drogas... esposa dosando medicamentos para cegar marido, como vingança e para obter vantagem financeira. Alguém pode me dizer como manter as famílias estruturadas com esses ensinamentos? Ou alguém pode me explicar que amor à vida é esse?”

E proclamamos 'feliz ano novo' quando velhas práticas - como assistir a certos folhetins - nos tornam infelizes.

Até quando não enxergará?
Na mesma esteira do quanto aqui veiculado, relembramos outro rodapé - "Vê, mas não enxerga" (publicado no 15 de dezembro), sobre uso que consideramos impróprio ou indevido para recursos públicos, ora reproduzido: 

"Um deputado doa ambulância para uma instituição itabunense. Até aí tudo bem. Louvável, inclusive. No entanto, fixa seu nome no veículo, que por onde roda leva a propaganda de Sua Excelência.

Permanente publicidade com dinheiro público. Afinal, o dinheiro da ambulância não saiu do bolso do deputado e sim do Estado.

O Ministério Público não percebe. Ou não quer enxergar. A não ser que não haja lei para coibir o procedimento parlamentar".

Reiteramos a observação, agora em nível de indagação, diante de duas matérias publicadas: uma, no A TARDE, de 30 de dezembro, tratando do aumento de gastos em sede orçamentária da Assembleia Legislativa da Bahia para 2014, que corresponderá a 18,4% além do estabelecido para o exercício findo;, outra, do A REGIÃO, há duas semanas: "Deputados sulbaianos torraram R$ 1,4 milhões".

Dinheiro público gira a lusitana roda. Todos enxergamos. Mas a outros cabe enxergar mais - por dever de ofício.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Holofotes

Apagados
Causa espécie. Parece fato acontecido no século XVIII ou XIX, tamanho o esquecimento. Lembrado somente por quem tem o hábito de folhear velhos alfarrábios. No entanto o caso de tão fresco ainda nem ultrapassou o ponto de maturação, caso tivéssemos de considerar o instante ideal para preparar (salgar) uma boa carne - depois de despostada a rês - para torná-la "de sol".

Breves pinceladas no assunto. Assim o tratou a grande imprensa, aquela que se diz detentora da informação, senhora da verdade e da investigação.

E continuamos todos aguardando o que aconteceu com aquele helicóptero flagrado transportando 500 quilos de cocaína pura. 

A grande imprensa mostra como devem ser tratados os "poderosos". Acatou, de logo, a explicação e a culpa recaiu sobre o mordomo/piloto. E os holofotes saíram do palco.

Na coxia políticos de coturno. Pesos pesados que dominam os bastidores.

Barbosa

Descartado
Encantou o país durante pelo menos um ano. Tornou-se referência no combate à corrupção, assim o entendeu parcela significativa da população que o aplaudiu a partir da visibilidade dada pela mídia quando assumiu punir muitos – se não todos os possíveis – ainda que faltassem provas contra alguns. Para tanto pouco importava a existência de violações à lei ou a princípios universais do direito.

Na catarse nacional – sempre carente de um Dom Sebastião redivivo de Alcacequibir –, da qual viveu, vive e (sobre)viverá a classe dominante, passava a encarnar a esperança de regeneração de uma sociedade que, através dele, se encontraria escapada do domínio do mal sob o condão de um legítimo ‘salvador da pátria’.

Fernando Henrique Cardoso jogou a pá de cal nas pretensões de Joaquim Barbosa – se as tinha, como o demonstrava – de candidatar-se ao cargo maior da Nação. É dito por Ricardo Chapola, do Estado de São Paulo:

“O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse que o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, ‘não tem traquejo’ para ocupar a Presidência da República na hipótese de o ministro decidir se candidatar ao Planalto. Para FHC, Barbosa não possui as características necessárias para liderar o País e sugeriu que seria ‘mais positivo’ se ele eventualmente se candidatasse ao Senado ou à Vice-Presidência.

Ao senado, sonha o PSDB do Rio de Janeiro; à vice, o PSDB de Aécio Neves.

Tudo caminhava para um final feliz. Uma candidatura a presidente, quem sabe? O sonho – para não desmoronar – lhe reserva apenas um papel de coadjuvante. De vela, como se dizia no interior para quem apoiava ou acobertava namoro alheio proibido.


Barbosa está descartado. Não pelo prazo de validade, mas de utilidade.

De sua cruzada fica apenas o papel de carrasco.


Barbosa

Não é unanimidade
No último dia do ano o ministro Joaquim Barbosa esteve no Renascença Clube, que fica no Andaraí. Para quem não sabe – como não sabíamos – é um clube para negros e negras associados em torno do compromisso de manter suas tradições no Rio de Janeiro, valorizando líderes e seus ícones, uma vez que tem isso como objetivo.

O Clube todo ano elege um Zumbi no Dia da Consciência Negra. Desta vez Joaquim Barbosa. Lá já foram homenageados Abdias Nascimento, Ruth de Souza, Zezé Motta, Nei Lopes, Candeia, entre outros.

Joaquim Barbosa foi aplaudido. Mas não lhe faltaram vaias. Não sabemos – em ambos os casos – se o foi por traduzir em sua trajetória – de negro e pobre que ascendeu – uma contradição que muitos entenderam elogiável (aplausos) ou criticável (vaias).

Mas, por qualquer dos fatos, nos vem o expressado pelo deputado federal Edson Santos – fala aqui observada sob prisma semântico: “Às vezes meus irmãos do movimento negro me perguntam porque eu não apoio Joaquim, já que ele é um irmão de cor. Eu respondo citando Cruz e Souza, poeta negro: os negros que seguram o chicote para bater em outros negros, não são meus irmãos”.

Claro que o deputado pode não ser referência. Afinal, integra um dos quatro “P” contemporâneos, acrescido aos três anteriores destinados à cadeia.

Mas, do ocorrido no Renascença Clube fica uma certeza: Joaquim Barbosa não é a unanimidade que muitos imaginam.


quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Mundo

Melhor
Pesquisa de fim de ano da Win/Gallup em 65 países detectou expectativa de que 2014 seja um ano melhor (BBC Brasil). É a resposta revelada por 48% dos cerca de 60 mil entrevistados. O percentual de otimistas é o mais alto desde 1990. Dos dois mil brasileiros ouvidos 57% acreditam num ano mais promissor. Dentre todos os países o Brasil apresentou a mais alto índice de otimismo.

Respondendo sobre o nível de felicidade, lá fora o percentual ficou em 60%; no Brasil, 71%. No entanto, dentre os povos mais felizes destaque para a Colômbia (86%), Arábia Saudita (80%), Finlândia (78%) e Argentina (78%).

São números distantes do que mostra nossa grande imprensa. E certamente não agradam aos que pretendem ocupar o poder, visto que podem refletir (os números no Brasil) uma satisfação com o que aí está.

Ao leitor a análise

De oráculos
Não que seja uma praga. Mas há em nós o atávico desejo de saber como será nosso futuro: tarólogos, cartomantes, quiromantes, astrólogos, entre outros, são os donos da festa.

Vimos de uma taróloga, pela rede, que a presidente Dilma Rousseff não se reelegerá. 

Assim como de um vidente que expõe a realidade de nosso futebol afirmando não só que o Brasil não vencerá a Copa em seu território, mas - para massacre de nossa autoestima - que a Argentina levantará a taça.

Ao leitor a análise do impacto.

De leituras
A passagem de ano – tradicionalizada em queima de fogos, recentemente aprofundado o costume – mereceu em Itabuna alguns poucos espocados, suficientes mais para espantar cães medrosos e menos para traduzir uma programação local digna de referência à chegada de um novo ano pelo Dia da Confraternização Universal.

E fomos nos debruçar sobre lembranças. De leituras vividas ou brotadas de textos alheios. E descambamos na vala do perceber que Itabuna – se tomamos o fragor das comemorações – mais está para integrar o universo literário de Monteiro Lobato e seu “Cidades Mortas”, conto que dá nome à obra, escrito quando esta terra entrava nos cueiros de pretensão à cidade, em 1906 (alcançada quatro anos depois), publicado em 1919, quando já comemorando bodas de cerâmica ou vime, como melhor o admitir o caro leitor.

Caso Lobato não houvesse se dedicado ao Vale do Paraíba certamente deixaria um vigésimo sexto conto (na edição original) para o torrão amadiano, incluindo um “Cacau!Cacau!”, perfeita paródia para “Café!Café!”.

Lá, a decadência com o débâcle do ciclo do café a partir do final do século XIX, quando deslocada sua produção para o Oeste paulista; aqui, o alegado impacto de uma crise também na lavoura: a do cacau.

Uma diferença, no entanto, se apresenta. Não há aqui a morte de uma cidade, mas do planejamento para uma terra vocacionada à grandeza. Mesmo que sustentada em vícios que busca superar. Ainda que haja, como em Lobato, a reconhecer-se um marasmo político-econômico-literário que faríamos acrescer com um cívico-artístico-histórico. E que (man)tenhamos idêntico espaço e personagens para reproduzir os contos “Os senhores do café” e “Um homem honesto”.

Na verdade a passagem de 2013 para 2014, em nível de comemorações, é o retrato de uma terra que só não alimenta um Cidades Mortas porque lhe impuseram vocação para o progresso, quando a tornaram ponto de convergência da malha viária regional nos idos dos 30 do século passado.

E insistem em tirá-la do limbo em que se encontra, quando promovem a implantação de uma gama de investimentos no denominado complexo intermodal.

No mais estamos como 'cantou' representante local (composição própria) em programa televisivo neste domingo: gostando de pancada.