domingo, 26 de maio de 2019

Saúde mental


Aluguel social
Aos que estão acostumados com aquele maluco da esquina que atira pedras nos passantes, forçando-os a se abaixarem para não se ferirem, também se agacharão quando ele lhes jogar uma pluma. O gesto, o movimento do arremesso define por si, inserido que está no inconsciente. A reação é instintiva.

Sob esse viés vemos, no imediato, a fala do hóspede do Palácio da Alvorada. 

Sem nenhum projeto, sem nenhuma proposta racional já se tornou reconhecido e identificado como atirador de ‘pedras’, o que se materializa nas ameaças e loucuras várias e gestos nada recomendáveis a quem exerce a mais alta magistratura da nação. 

Tudo estamos a dizer porque andou falando em ‘aluguel social’, o que, de imediato, nos cheirou a mais uma pedrada. Inclusive houve quem nela embarcasse, criticando-a, sem analisar a profundidade nela contida, caso aplicada em consonância com a sanidade.

Não deixa de ter razão quem assim pensar.

Certamente o dito cujo nem sabe quem foi o arquiteto e urbanista Affonso Eduardo Reidy, tampouco o que representa uma coisa chamada Projeto do Pedregulho, no Rio de Janeiro.

Destinado a atender a demanda de moradias pelos funcionários públicos do estado continha o princípio que norteava a arquitetura de Reidy: Habitar não se resume à vida no interior de uma casa

Assim, no Conjunto Habitacional do Pedregulho, nos idos de 1947, o conjunto da obra correspondia ao pensamento do arquiteto que o planejou e executou. Praças, aproveitamento do espaço respeitando a natureza, igreja, escolas, parques, reserva, teatro, construções em consonância com o ambiente etc.

Não havia aquisição do imóvel, mas a utilização remunerada.

As ideias de Reidy, Niemayer, Lúcio Costa, Burle Marx e outros estavam inseridas na concepção humanística para uma reforma urbana (uma daquelas anunciadas futuramente por João Goulart no bojo das ‘reformas de base’) compatível com a realidade do homem e não do mercado imobiliário, razão por que por este sempre foi combatida.

Tanto que, para enfrentar o ideário daquela gente, no imediato do golpe de 1964, houve por bem o governo de desenvolver a ideia da moradia própria como única forma de alimentar a autoestima para o morador: ser proprietário importava mais que morar bem. 

Para corresponder ao 'sonho' foi criado o Sistema Nacional de Habitação e o famoso estilo dos conjuntos financiados pelo denominado sistema BNH, um punhado de cortiços ofertados como se fossem versões do Palácio de Versalhes.

Para quem precisa de um teto três caminhos respondem ao anseio: aquisição, aluguel ou comodato.

O tema apresenta complexidade em dimensão de análise, mas, de imediato, aqui nos colocamos diante do anúncio de substituição de faixas de financiamento de imóveis pelo Minha Casa, Minha Vida por ‘aluguel social’. Ou seja, em vez de financiar a aquisição o governo construiria para alugar. 

Os desdobramentos embutidos – justamente por falta de estudos, pelo menos não apresentados – podem tornar temerária a pretensão, inclusive pelo uso político-partidário. Mas, a ideia não é ruim. Bem aplicada é excelente, desde que os investimentos do Governo federal sejam efetivados (e dúvida fica à conta de ser anunciado por quem anda economizando em educação etc. etc.) venha a dispô-los para a construção, não fora a garantia para o locatário de efetivamente pagar um aluguel compatível com suas condições financeiras.

Ariano Suassuna dizia-se encantado pelo doido em razão de sua ‘lucidez’.

Pelo menos ocorre neles, aqui e ali, um lampejo de lucidez.

O risco é quando voltam ao ‘normal’.

Voltando ao 'normal'
Mal iniciada a administração o administrador convoca a sociedade para uma passeata de apoio.

Não fora a singularidade de pedir apoio para projeto nenhum em andamento fica uma outra singularidade: o número de apoiadores que acorreu ao convite.

Também cheira a coisa daquela gente 'lúcida' de fala Suassuna.

E a caixão e vela para a imagem 'gestora'. 

domingo, 19 de maio de 2019

Palco de ópera bufa


Tudo a ver, ou não!  I
Texas, Arizona, Oklahoma... são nomes nunca esquecidos. Palcos de duelos, terras onde a lei do mais forte se impunha. Armas na cintura davam a dimensão da sociedade daqueles confins em fase inicial de exploração e conquista.

Determinado país, que retoma políticas de faroeste, anuncia seu dirigente no Texas para homenagem.

Tudo a ver, ou não!

Os tempos são outros. Ainda que o faroeste pretendido seja o mesmo.

Tudo a ver, ou não!  II
Não teria havido homenagem. Autoconvite apenas. Vergonha internacional. 

Nem o prefeito da cidade aceita 'anfitriã' receber um ‘presidente’ de um país que exalta o seu país (dele, prefeito).

Quem está a perder a ‘dignidade’ é o próprio país, chamado Brasil, aplaudido pelo ‘Brazil’ de quem o chefia.

Este o país singular que em meio a tudo que já fez por merecer ser conhecido e reconhecido revela ao mundo sua nova invenção: não-convite para um não-evento.

Campeão 
O mandatário acaba de alcançar reconhecimento internacional. Quem o diz é o jornal londrino Financial Time: ‘personalidade’ indesejável no meio diplomático.

Da pior espécie de leproso na Galileia.

Só há uma solução: a volta de Cristo.

Talvez o consiga valorosa ministra que conhece o Salvador de perto, quando o viu 'naquela' goiabeira.

No misto de carta-testamento e renúncia de Jânio resta uma ópera bufa
Outra mentira veiculada pela internet ‘agrada’ aos que sonham com o endurecimento do regime. Cabe, de imediato, registrar que o que está por dentro do endurecer em 2019 não repete 1968 (golpe dentro golpe), mas a implantação, pura e simples, de uma ditadura capitaneada por aquele que não tem condições, tampouco capacidade, de governar a nação mas se acha ungido (como monarca absolutista) e legitimado em razão dos votos que o elegeram.

A atuação governamental – incluindo a organização dos órgãos de governo – aliada ao ideário posto em andamento em nada se assemelha a outras situações pretéritas por que passou o país. No entanto, o panfleto embute elementos de dois instantes peculiares: o que antecede o suicídio de Vargas e o da renúncia de Jânio. Tudo posto nas palavras publicadas de um ‘anônimo’ em defesa do governante.

Assim os mesmos ‘grupos poderosos’ referidos por Getúlio como as ‘forças terríveis” ocultas de Jânio Quadros estariam presentes para inviabilizar as ‘boas intenções’ do governante. 

Não carece perguntar em que se materializam essas ‘boas intenções’ nestes nem completados cinco meses.

Sabido e consabido que nenhum vocacionado a ditador, em qualquer parte do planeta, convive com regras atinentes a uma democracia, porque incompatível com o mandonismo que o norteia.

Em 1968 Burnier tentou explodir o gasômetro do Rio de Janeiro para, nos moldes do Plano Cohen, de Vargas em 1935, lançar a culpa sobre os comunistas.

De terrorismo não se diga que não o entende o presidente, haja vista a ameaça de explodir a adutora do Guandu, no Rio, em 1986, como amostra da luta por melhores soldos para os militares, o que lhe valeu (ao hoje presidente) cadeia por 15 dias e a reserva/aposentadoria aos 33 anos, em 1988, porque a condenação não convinha aos interesses de cúpulas militares à época, naquele imediato de redemocratização e de possível caça às bruxas inversa atiçada pelos ares da liberdade recém conquistada.

No fundo, no fundo uma tentativa em andamento – que nos soa desesperada – de permanecer no cargo por meios nada ortodoxos, alheios àqueles que o levaram a onde está.

As corporações de que fala o apócrifo remete a circunstâncias previsíveis no futuro imediato: suicídio, renúncia ou impeachment.

Mais fácil – coisa natural aos descompensados – a renúncia com vistas a mobilizar os grupos de apoio pela internet (o que Jânio não dispunha) para armar-se e enfrentar o Belzebu. Para tanto, fechar o Congresso, o STF etc. etc. etc.

Aí entra a ‘preocupação’ posta no panfleto: salvar a pátria através do seu ‘divino’ de plantão, mesmo que isso represente a plenitude da destruição institucional, porque a econômica já se materializou.

De certa forma nos vem à mente Luis XVI, de França, quando pensou buscar fora do país o apoio de monarquias para fazê-lo retomar o poder em plenitude. 

Para tanto, fugiu de Paris numa certa noite.

Pensou Luis XVI, naquela que se tornou a famosa Nuit de Varennes, que retomaria o poder absolutista depois de organizar-se no estrangeiro, ele que não aceitava a monarquia constitucional implantada pela Revolução.

Por aqui, a fuga para o vazio na tentativa de reunir suas ‘milícias’ para assegurá-lo salvador de todos.

Mas a caixa de Pandora aberta por tão singular Epimeteu lança contra eles muitos dos que o apoiaram e hoje temem por sua continuidade. Inclusive os ‘poderosos’ ao seu lado.

Há cheiro, concreto, de queda do governante: por iniciativa própria ou de terceiros. Afinal, até os sonhos nos contos de fadas têm fim. Às vezes, deles resta um texto, um poema, um romance, um balé para registro.

Os sinais presentes nos rementem a concluir: buscasse o balet famoso, e se dele personagem o fosse, estaria no limiar da morte do cisne.

Sim, caro leitor. Aquele 13º movimento de “O Carnaval dos Animais” (1886), de Camille Saint-Saëns, coreografado por Mikkail Fokine a pedido de Ana Pavlova, que o estreou na primeira das 4.000 apresentações, em 1925.

Certo, dirá o atento leitor, que o nosso personagem parece estar longe das artes e como não possui a graça desta inspiração.

Mas, não esqueçamos do inovador não-convite para um não-evento, o que nos remete a uma novidade de ser levado um novo espetáculo ao palco: a morte do urubu.

Caso o tema não seja adequado a um balé, muito provável apenas o que já escreveu(?) até agora: ópera bufa sem comicidade alguma.

domingo, 12 de maio de 2019

"Por quem os sinos dobram"

Para estudo
Temos visto/lido manifestações pró e contra a condenação de Lula no caso do tríplex de Guarujá. Os que acompanhamos várias fases do processo, incluindo ouvida de testemunhas (onde nenhuma, inclusive das arroladas pela acusação, implica o ex-presidente) nunca entenderíamos a razão por que da condenação sustentada em ilações e delação premiada não fora um projeto hegemônico, em nível mundial, que está por trás de tudo, haja vista o que ora testemunhamos em nível de entrega do país.

Mas, do comentado nada seria estranho desde que amparado no noticiário, inteiramente descompromissado com a verdade factual. Tampouco do julgador em si, compromissado em efetivar o que efetivou.

Mas, ainda que este universo de juristas (brasileiros e estrangeiros) afirme que não há fundamentação jurídico-probatória para a condenação poderíamos tê-los, todos, como “lacaios de Moscou”, “comunistas”, “petralhas” e quejandos tais, que adjetivam os comentários.

No entanto, difícil de entender que advogados se deixem levar pela paixão ao comentar dito processo.

Alheio às paixões disponibilizamos a íntegra dos embargos de declaração interpostos pela defesa de Lula (GGN), onde todos os argumentos expendidos podem alimentar a interpretação em torno da verdade factual. Ei-los para a devida contraposição.

Faça a conta
O entreguismo pátrio, em sua versão mais nefasta – a atual – está em fase de permanente orgasmo por entregar a Petrobras às petroleiras estrangeiras aqueles 5 bilhões de barris de óleo adquiridos ao pré-sal por 42 bilhões de dólares, para exploração por 40 anos, ao tempo em que a moeda estadunidense estava a 1,75.

A euforia gira na possibilidade de caixa para a Petrobras de cerca de 106 bilhões de reais desta cessão que será levada a leilão.

Faça a conta o leitor: aqueles 42 bilhões de dólares pagos pela Petrobras hoje representam 168 bilhões. Ou seja: venderá por menos do que comprou, apurando em torno de 2/3 do dispendido à época.

Agora, outra continha: aqueles 5 bilhões de barris representam hoje (barril a 75 dólares) o equivalente a 1,5 TRILHÃO DE REAIS.

Assim, a Petrobras entrega/vende/doa 1,5 trilhão de reais por apenas 106 bilhões, entrega 100% por 8%.

Agora, imagine o leitor que as estimativas de reservas do pré-sal chegariam a, por baixo, 200 bilhões de barris (em torno de 130 bilhões já admitidos), ou seja, 15 trilhões de dólares ou, simplesmente, 60 trilhões de reais, o equivalente a 15 PIBs brasileiros.

Ressalte-se, por fim, que o custo de extração pela Petrobras varia entre 8 e 14 dólares.

Senso de justiça de Cármen Lúcia
O réu, condenado por crime ambiental, flagrado pescando em época de defeso, ainda que nenhum peixe houvesse pescado, não obteve habeas corpus, impetrado em fevereiro último, denegado pela ministra Cármen Lúcia, do STF, denuncia Luis Nassif

Morreu aos 33 anos, na cadeia, deixando sete filhos. 

A mesma Cármen Lúcia, que deixou prescrever procedimento por crime atribuído a Aécio Neves. 

Não sabemos para quem Ernest Hemingway  dedicaria sua obra famosa: se aos filhos do falecido (todos crianças) ou se à ministra, enquanto se regala com um medalhão de lagosta e vinho importado. 

domingo, 5 de maio de 2019

Pilatos


Um detalhe...
O valor final do contrato para aquisição de medalhões de lagosta e vinhos ficou em R$ 481.720,88, afirma-o a assessoria do STF.

O edital teria provocado desconforto entre ministros da Corte e indignado servidores do tribunal, o que levou um deles (ministro) a vazar, reservadamente (como natural à Corte) que a compra não fora discutida em sessão administrativa, daí não ter sido chancelada pelo colegiado. 

A licitação previa originalmente gasto de até R$ 1,134 milhão.

O valor final, ainda que mais alto que o preço vencedor, impedido de manter-se por razões técnicas (impossibilidade de contratar com o poder público) nos deixa um questionamento subjacente.

Aqui não nos incomoda a singular circunstância de uma gente adquirir, com dinheiro do povo, medalhão de lagosta e vinho para seus encontros.

É que cheirou à imoralidade o valor destinado à licitação (1.134.000,00) e tudo se materializou em cerca de 40%. 

Há um cheiro ainda mais estranho: por que valor tão alto fixado para o que poderia (como o foi) adquirido bem mais em conta?

Mas, ao que parece, estamos perdendo (se já não o perdemos) o olfato.

Cansativo I
Um punhado se esgoela. Não há quem ouça. E quem ouve faz de conta (como na ‘carochinha’) que não ouviu.

Folheamos os textos recentes (apenas deste emblemático 2019) e pudemos observar – ainda que pequena a amostragem – o quanto aconteceu de aprofundamento do buraco em que nos metemos. Ou melhor, em que fomos autolançados, por ‘escolha democrática’.

Um punhado se esgoela. E vai ficando no esgoelar. E mais: ‘coisa’ de esgoelado. Ou seja: estereótipo de uma realidade alienada.

A gravidade embutida em tudo que está acontecendo em detrimento do futuro do país e de seu povo (desmonte da educação, da saúde, entrega do patrimônio nacional, desconstrução das instituições e dos valores etc. etc.) parece não estar em andamento.

Enquanto os pedintes voltam às portas, o número dos desamparados aumenta sob as marquises, os desempregados e desalentados reocupando espaço que imaginávamos restrito aos alfarrábios de história o noticiário, a quem cumpria tratar com frieza os dados da verdade factual, apresenta um futuro cor de rosa para o país, mantendo sua linha de compromisso com aquela parcela da classe dominante a quem serve e sempre serviu.

Está se tornando cansativo escrever sobre isso. Por quê? Porque é o mesmo todo dia, toda semana, todo mês e o será em mais um ano que se repete recentemente.

Está ficando cansativo.

Ou, talvez, apenas estressante.

Cansativo II
E quem cabia parte considerável de responsabilidade para conter tal desastre a ele não podemos elevar nosso clamor, porque faz parte e mesmo se integra, com unhas e dentes, em cumprir sua parte para reservar espaço cativo no Nono no Inferno de Dante.

Inclusive servindo medalhão de lagosta e vinho.

Eis que mãos lavadas como as lavou Pilatos, aquele do Ecce homo (Eis o homem).

Mas, um comentário em texto veiculado pelo GGN deixa no ar a certeza de que este país e nossa gente não se fazem apenas da imprensa oficial que nos invade casa e mente a cada minuto do dia.

domingo, 28 de abril de 2019

De bois de canga e de euforias descompensadas


Par de canga
No sertão o caboclo diria que ambos dão um bom par de canga. Como são imprestáveis para puxar carros de bois comandarão, em parceria, a nau dos insensatos.

Um, ministro de estado brasileiro, acusando político em sua própria terra (Portugal), declaração espatafúrdia; outro, falando mal da corte onde ministro (STF) em país estrangeiro (EUA).

O primeiro se explica pelas próprias “convicções”; o segundo, por outras ‘convicções’.

Mas, quanto ao segundo, quem o levou para o STF? Quem? Quem?

Condenado em 3ª entrância
Passou ao largo da semana fato de gravidade impensável: a condenação, pela terceira vez, de Lula, sem que a verdade factual fosse levada em consideração no julgamento. Ou seja: o que fez Moro e manteve o TRF-4, legitimou-o o STJ. Que se fez de bonzinho e reduziu a pena que havia sido absurdamente elevada em Porto Alegre.

O porquê de se manter a condenação não foi objeto de atenção da mídia. Mas o reconhecimento da condenação e – alvíssaras! – a possibilidade de o ex-presidente cumpri-la em domicílio.

Estão desmoralizando Kafka.

E a esquerda eufórica!

Era tudo verdade!
A ironia embutida no título é o que nos resta semana estranha, como a que passou. Não pelo fato de o STJ limitar-se a reduzir a pena de Lula como se este fosse o limite do recurso interposto. Mas por tanto de alegria em muitos que se deixaram encantar pela ‘concessão’, como se fora prêmio reduzir a pena de quem nem deveria estar apenado.

Há meses o mundo condena a sentença de Moro porque prolatada por juiz incompetente, destituída de qualquer elemento probatório (a não ser matéria de jornal e delação premiada/remunerada).

Hoje – de forma indireta – aplaudem a sentença pelo viés de que a pena foi reduzida e Lula poderá sair para prisão domiciliar.

Ou seja, em palavras objetivas: Lula lavou dinheiro, cometeu crime de corrupção etc. etc. Tudo era verdade, legitima-o os que postam como vitória a mais retumbante derrota da democracia e do direito.

Ironia que seja, mas tudo era verdade!

Batalha perdida
As reações à questionável decisão do STJ mantendo a decisão morina referendada pelo TRF-4 pelos setores à esquerda bem demonstra uma derrota maior: para a comunicação. O petismo não soube enfrentar o problema e simplesmente aderiu ao combate nos moldes propostos, que lhe era desvantajoso.

Da mesma forma – perdida a batalha – reage somente dentro dos limites de quem a controla.

O outro lado da euforia
O mais grave é tudo isso – com apoio de setores que dizem defender Lula – estar legitimando as futuras aberrações jurídico-processuais.

Sabendo eles que uma redução de pena deixa eufóricos os que defendem Lula passarão a repetir o que fez Moro e o TRF-4.

E continuam acreditando na Justiça. Afinal, não foi o próprio Lula que disse acreditar na Justiça e num julgamento justo?

Chicana
Não se torna necessário ser jurista para compreender o jogo de cartas marcadas para afastar Lula do processo eleitoral e inviabilizar os programas políticos do PT em nível de políticas de Estado como as postas quando exercendo governo.

O picadeiro em que se tornaram os Tribunais superiores no Brasil moveu as peças para arrumar a casa diante das aberrações anteriormente cometidas. 

Assim, o STF pauta o julgamento que derrubará a prisão em Segunda Instância, define-a para a Terceira, libera Lula em Setembro e NUNCA julgará os fundamentos jurídicos insustentáveis na decisão de Moro.

Houve tempo em que isto se chamava chicana.

Aguardem, a porteira se abriu
A farsa vai se consolidando. E preparando a estrada para tornar Lula eternamente preso. Dentro de poucos dias o TRF-4 confirmará – e aumentará a sentença – no caso de Atibaia. E tudo continuará.

Simplesmente a farsa vai se afirmando como verdade.

Ou seja: condenação sem prova – desde que a pena venha a ser reduzida – pode!

Duvida o leitor? 

Apenas observe que de Moro ao STJ todo o julgamento antecipadamente arrumado, votos idênticos em resultados e quantitativos, elaborados a várias mãos e a um só tempo e pretensão.

Alguém dirá: "Tá tudo dominado!"

domingo, 21 de abril de 2019

Feitiço contra o feiticeiro

"Com Supremo e tudo"
O caos em que nos tornamos nunca foi imaginado na dimensão em que está quando posto em andamento, no imediato da ação político-judiciária para afastar a presidente Dilma Rousseff. Imaginaram – “com Supremo e tudo” – que ‘expulsar’ o PT do comando do país e traçar sua inviabilização político-eleitoral para 2018 atenderia plenamente aos reclamos da classe dominante (de roldão a pequeno-burguesia encastelada na classe média) e lhes asseguraria o que entendiam negado pelos governos petistas e suas políticas públicas de redução das desigualdades.

Tudo tão simples assim.

E aqueles que encabeçaram o processo lá estavam, desde a reeleição de 2014 – dizendo defender a Democracia – proclamando a não-aceitação do resultado eleitoral e anunciando sua atuação político-congressual voltada para “sangrar”.

Em tudo o papel exponencial do STF. Tudo aconteceu “com Supremo e tudo” (expressão de famoso diálogo entre o então senador Romero Jucá e Sérgio Machado) e porque o quis o STF, que não perdeu a oportunidade e mesmo dela se aproveitou para garantir uns garangaus de aumento para a corporação judiciária.

Por desdobramento aí está o busílis da questão.

Para que tal acontecesse o STF feriu de morte os pilares que lhe cabiam defender como instituição: da formalidade à materialidade jurídicas. 

Formalmente aceitou (por omissão) que a discussão da constitucionalidade do procedimento de impeachment (destituído de causa) fosse adiante e delegou (em novas e reiteradas omissões e fugas) que tudo viesse a se consumar. Materialmente deixou de reconhecer o que a lei previa: inexistência de crime de responsabilidade.

Resultado: em meio ao caos que precisou instituir a partir de si mesmo (iniciando uma verdadeira implosão em relação a sua credibilidade e confiança, refletidos na segurança jurídica) abriu a Caixa de Pandora e tudo aconteceu.

Hoje, também vítima dos males por ele liberados, tenta 'soluções' nos limites individuais de seu ‘poder’ e passa a ser criticado pelos mesmos aos quais beneficiou. Justamente por cometer – por ação – o que lhe cabe defender (liberdade de expressão) – o que admitiu, por omissão.

Não entramos aqui na análise dos fundamentos críticos em relação ao STF por aquilo que estão seus membros a praticar. Mas, diante de tudo que aconteceu nesses dois anos de efeito secular, o que está em jogo não é apenas o posto em discussão mas o próprio Poder Judiciário balançando na corda bamba no picadeiro do circo que ajudou a armar.

Considerando que seja este o aspecto preponderante (e os fatos o demonstram) como Poder da República na berlinda a coisa é muito mais grave do que possa imaginar a vã filosofia.

E o é, tenham certeza. 

Porque poucos estão folheando o livro certo, nestes tempos bicudos em que o maniqueísmo é a tônica entre eu (o que penso e o que acho) e o outro (o que ele pensa e que sou contra), no instante em que o diálogo e a conversa perderam espaço na mesa e não mais se faz olhando nos olhos.

Enrascada
A credibilidade do STF mais despencará, sob o condão dos meios que o levaram à condição de paladino quando se omitia em apreciar o que poderia beneficiar Lula e o PT.

Escolhera esse caminho, porque suas excelências (em maioria) adoram estar na telinha, serem atores do Jornal Nacional e quejandos. E, também o demonstraram/confessaram, adoram uma pressão das ruas no formato veiculado ao contento da mídia.

O STF está sob fuzilaria. A ponto de haver quem deseje vê-lo substituído por um tribunal militar.

A enrascada em que se meteu o STF quando preferiu fazer política eleitoral em detrimento de defender a Constituição nos lembra uma lição de Tormeza: quem não sabe rezar xinga a Deus. 

Considerando que saibam rezar, passaram a precisar de exorcismos.

No mais, a considerar a pauta do STF sob ‘vigilância’, resta saber se suas excelências honrarão as calças. A generalidade de gênero aqui se impõe, porque tem muita mulher por aí com postura muito mais macha que a de alguns machos que por lá estão.

Hoje o STF é atacado pelas mesmas forças que o elogiavam quando a serviço delas. De certa forma, feitiço contra o feiticeiro.

Invisível x visível
Em jogo uma realidade que atormenta qualquer humanista/democrata: os tradicionais meios de controle da informação visíveis (aqueles aludidos como detentores da ‘mensagem’ por serem o meio, para não esquecer McLuhan, tipo rádio, televisão, jornais e revistas), perderam o controle para a internet/rede, invisível quando o quer e lhe é conveniente.

Dados
O governo alardeia como méritos de seus 100 dias a redução de homicídios no país.

Esqueceu de falar do aumento da mortalidade pelas polícias e militares fazendo a vez delas: de 4.222, em 2016, para 6.160, em 2018.

Tudo acrescido de um detalhe: o número de policiais assassinados foi reduzido no período analisado: de 453 para 307 no mesmo período.

Simbólico
Nobilíssima expressão da classe dominante brasileira, que vive no exterior com o dinheiro que ganha aqui, ocupou manchetes pela doação de 88 milhões de reais para recuperar Notre Dame.

Não enveredaremos por não haver lembrado a ilustre benemérita de haitianos e moçambicanos (apenas para ilustrar) e dos milhões de crianças morrendo de fome diariamente por faltar-lhes uns míseros dólares.

Registramos o fato por entendermos que fez melhor que simplesmente investir em Miami.

Como o faz a maioria dos endinheirados daqui.


domingo, 14 de abril de 2019

Entre a cultura da certificação e a paz dos cemitérios


Cultura da certificação
Assim denominamos o resultado do processo educacional que desaguou no quantitativo em detrimento do qualitativo. No instante em que a escolaridade, em todos os níveis, passou a valorizar e referenciar o estatístico – ou seja, o quantitativo de aprovações – acompanhamos a tragédia em que se tornou o ensino/escola como primeiro instrumento social fora da família a contribuir para a formação do indivíduo/cidadão.

Em razão do tempo neste instante apenas lembramos que embutida está na proposta uma imediata contradição: se a família (hoje obrigada a trabalhar fora do lar) não tem tempo para cuidar dos filhos como exercerá o magistério doméstico? Certamente enquanto dormir, descansando de jornada iniciada às quatro/cinco horas (buscando transporte) e concluída às oito/nove.

A proposta de ensino no próprio domicílio (sem entrarmos nos méritos que envolvem o tema, da constitucionalidade ou não da pretensão aos desdobramentos que desaguarão na avaliação) aprofunda o processo de desqualificação formal. 

A avaliação/certificação referida não passa de um engodo. Tão somente o 'papel', como hoje em parte já o é. No caso, passa a ser piorado. Apenas ‘certificará’ para o mercado. Como já fizera as reformas do ensino a partir do final dos anos 60.

E atenderá às 'exigências' meritocráticas da "elite branca", como denomina Cládio Lembo a classe dominante brasileira.

Bem ilustrada, em suas pretensões, na foto de uma caminhada da turma do 'fora Dilma', vestida de verde e amarelo levando a empregada para cuidar do filho. Afirmam que o marido/pai era dirigente do Flamengo à época.

Urânio entregue
O avanço sobre a riqueza e a soberania nacionais move outra peça no xadrez do tabuleiro de interesses dos Estados Unidos: urânio.

US$ 100 bilhões anuais o comércio de urânio. O Brasil desenvolveu, inclusive, tecnologia de processamento, o que o qualificava para produzir e vender usinas nucleares. Prenderam o cientista de tudo isso.

Mas não só a entrega. 

A traição promovida por gente custeada pelo governo e encastelada na Procuradoria da República e na Magistratura Federal.

Para entender melhor (aqui).

Comunista desgraçado!
Noam Chomsky compara prisões de Assange, Lula e Gramsci como expressões do “calar” inconvenientes aos sistemas de dominação.

Comunista desgraçado, este Chomsky!

Quem faz um cesto... 
Há quem afirme confiar na apuração a cargo da Justiça Militar, instituição jurisdicional que só existe no Brasil (que muito lembra o júri originado dos ingleses no século XIII d.C.  os pares julgando os pares), para o caso dos 81 tiros dos militares do exército no músico Evaldo Rosa dos Santos, no Rio de Janeiro.

Apenas para lembrar: a mesma Justiça Militar, ainda que o detendo por 15 dias, não condenou o que hoje assume a presidência da república pela prática de terrorismo, em 1988, ainda que comprovada a sua atuação através da imprensa ameaçando explodir a adutora do Guandu, em 1986, caso o governo não concedesse aumento de 60% para os militares.

A Justiça Militar cuidou de administrar a imagem do Exército, desgastada no imediato do fim da ditadura, reformando/promovendo para a reserva remunerada, aos 33 anos, aquele tenente que a vem se tornar o capitão – ainda que “mau militar” no conceito do ex-presidente General Ernesto Geisel. (Leia o publicado em nosso blog no 31 de março)

... faz um cento
Quem faz um cesto faz um cento, ainda que outro o tempo.

A jornalistas em Macapá o eleito disse – referindo-se ao que denominou ‘incidente’ – que o Exército apontará responsáveis, porque “não existe essa de jogar para debaixo do tapete”.

Faz sentido. Porque no caso dele, ainda denunciado por terrorismo em 1986, teve como punição, pela Justiça Militar – repetimos , a reserva/promoção como capitão aos 33 anos de idade.

Parábola tupiniquim
Analisando a partir das reações do governo federal à luz de dois fatos concretos (os tiros da polícia paulista e os tiros do exército no Rio de Janeiro) é possível raciocinar sob a égide da parábola bíblica, visto que Cristo manda perdoar não sete vezes mas setenta vezes sete.

Em São Paulo a polícia matou onze assaltantes dos 27 envolvidos. Não faltou elogio do Planalto pela atuação policial.

No Rio de Janeiro um músico negro (mera coincidência a cor) morreu em meio a 80 tiros de fuzil disparados por militares do exército contra o carro onde estava com sua família. Nenhuma palavra do Planalto nem de quem lhe faça a vez.

Em andamento a militarização da população com a facilidade para a compra e o porte de armas de fogo.

O ministro da justiça pretende autorização legal para inocentar a atuação policial no combate ao crime mesmo por presunção de perigo ou risco (coisa experimentada pelo músico negro no Rio de Janeiro).

Apelação que seja: caminhamos para parodiar a parábola. Assim, na dúvida – presumido o risco – perdoados não estarão os que derem 80 tiros mas 80 vezes 80.

Agradecida a indústria da bala.

Ah! E avançamos para a Paz que pretendemos: a paz de cemitério.