domingo, 26 de abril de 2020

Brasil, este cego em tiroteio, em meio a santos e demônios e pandemia


O construído neste país desde 2013, para corresponder ao jogo de interesses externos administrados internamente, capitaneado por órgãos da imprensa apoiando e incentivando aberrações judiciárias, sinaliza singular implosão. Antes do tempo (em que pese tanto) a caixa de pandora aberta começa a se voltar contra quem aqui a abriu.

Mas, como sempre posto no noticiário, os fatos não são aprofundados e tudo fica na superfície manuseando este ou aquele ator que encarna a personagem e não a própria personagem.

Fiquemos apenas nas seguintes ilustrações, começando por Gilmar Mendes, do STF, aqui:

"Há muito critico a manipulação da Justiça, por meio da mídia e de outras instituições, para projetos pessoais de poder. A criação de heróis e de falsos mitos desenvolveu um ambiente de messianismo e intolerância. Autoritarismo judicial e político são ameaças irmãs à Constituição".

"O combate à corrupção exige a ação de milhares de agentes públicos e o respeito à lei e não a atuação isolada de uma pessoa. Aprendamos: não há solução democrática fora da virtude política. Que a história recente nos reserve um reencontro com o Estado de Direito".

Sua Excelência ora posa de santo, esquecendo-se do demônio que muito contribuiu para o caos em que estamos. Escreve como paladino em defesa de um Estado de Direito, mas certamente não há de imaginar que tenhamos esquecido que Moro vazou um grampo ilegal (dentre tantos) plantado no Palácio do Planalto para o Jornal Nacional da Globo e o próprio ministro Gilmar Mendes naquele imediato (março de 2016) interveio indevidamente e inviabilizou a posse de Lula na Casa Civil, suspendendo sua nomeação e obstando a prática de um ato administrativo legítimo inerente à Presidente da República (“virtude política”). (Detalhe: a petição deferida por Gilmar foi subscrita por funcionária de seu Instituto, muito provável que redigida por ele mesmo).

Surreal país em que um ministro do STF que abusou de sua função em favorecimento político se diz preocupado com o fato de que “A criação de heróis e de falsos mitos desenvolveu um ambiente de messianismo e intolerância” e que “Autoritarismo judicial e político são ameaças irmãs à Constituição", quando é ele (ao lado de muitos de seus pares) quem deu legitimidade a ‘heróis’ e ‘mitos’ que materializam o ‘autoritarismo judicial e político’.

O Ministro da Justiça(?) do inquilino do Alvorada deixa o cargo e delata o ‘benfeitor’. Sendo verdade tudo o que até agora publicado Moro prevaricou (aqui). Justamente porque não cumpriu com o dever funcional ao omitir-se diante dos fatos criminosos que devia mandar apurar. Chafurdando em meio aos graves fatos que tinha conhecimento e acobertava visando uma cadeira no STF, objeto da barganha celebrada entre um e outro, cometeu ato improbo. Poderia alegar em sua defesa que não é funcionário público no sentido estrito, mas não que não seja agente público por delegação. Para ele basta aplicar o Código Penal:

Corrupção passiva – Art. 317 - Solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem:
        Pena – reclusão, de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e multa. 
        § 1º - A pena é aumentada de um terço, se, em conseqüência da vantagem ou promessa, o funcionário retarda ou deixa de praticar qualquer ato de ofício ou o pratica infringindo dever funcional.
        § 2º - Se o funcionário pratica, deixa de praticar ou retarda ato de ofício, com infração de dever funcional, cedendo a pedido ou influência de outrem:
        Pena - detenção, de três meses a um ano, ou multa.

Prevaricação  – Art. 319 - Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal:
      Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa.

O inquilino do Alvorada comete crimes de responsabilidade, de prevaricação, de falsidade ideológica como se estivesse comendo um sanduiche em Davos e a carreira familiar está vinculada ao avesso do que dizia defender. A obscura caminhada vai ficando às claras e busca evitar que crimes cometidos, pelos seus e à sua volta, sejam apurados.

A Globo que construiu Moro como paradigma de combate à corrupção, beneficiada por ele com os vazamentos privilegiados (ainda que criminosos) já encena a peça de 2022 com a singular figura como ator principal. Para ela ninguém melhor do que um presidente em quem possa confiar/mandar. Não mais aquela ‘esperança’ em quem ela Platinada se utilizou (o inquilino) para afastar o inimigo/PT.

Em meio a tudo uma coisa fica flagrante: tudo o que Moro atribui ao inquilino e constitui crime também foi por ele acobertado, na esperança de uma vaga no STF. Ambos são criminosos.

Mas onde há demônio há santos. A Globo já escolheu um e outro.

A santificação do ex-juiz começará de imediato. Como referência contra a corrupção, o mote de campanha.

Ficamos a indagar como será explicada a sua confissão de que pediu ao inquilino uma pensão para a família para cobrir o prejuízo financeiro de abandonar a magistratura tendo a obrigação de saber que tal pretensão não encontrava amparo legal a não ser oriunda a pensão de um caixa 2 de campanha administrado a partir das milícias que dominam Rio das Pedras e Muzema (aqui, sintetizado no GGN).

Enquanto a mídia aprimora a confusão e vai construindo seus fakenews lança o ex-juiz candidato, mas preparando o efetivo destinatário da missão redentora: o governador João Dória, o tertius perfeito, com seu ar de bom mocinho.

E a imprensa em geral, em vez de discutir os fatos presentes em profundidade, à luz dos remotos que precipitam o caos, acusa quem sempre defendeu e um de seus heróis posa de santo quando também envolvido, o que deixa o país como cego em tiroteio: não sabe para onde vai ou onde fica, tampouco quem é o mocinho ou o bandido.

Em meio a tudo tornaram este país – a considerar a postura de suas instituições (STF, Poder Executivo, o Poder Legislativo, imprensa) – um acobertador de ilicitudes quando estas beneficiam o sistema e correspondem ao jogo de interesses da classe dominante.

Não bastassem demônios e santos, ainda a pandemia por eles mal administrada.
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No dia 12 deste mês (“À espera”), quando os números sinalizavam 1.223 mortes para 22.169 casos confirmados, registrávamos a preocupação com a possibilidade de ao final do mês superarmos os 60 mil casos e as 5 mil mortes.

Neste domingo (quatorze dias depois e a quatro do final do mês) os últimos números divulgados acusam 61.888 casos e 4.205 mortes.

domingo, 19 de abril de 2020

Brasileiro


Não fiquemos aqui com a conclusão anedótica da resposta do Todo Poderoso a São Pedro diante do fato de haver dotado a terra brasilis de tudo de belo, rico e grandioso: – Precisa ver o povo que vou por lá colocar. Este escriba de província prefere ‘classe dominante’ em vez de ‘povo’.

Um vídeo do governador da Bahia circula nas redes onde pede para ficarem em casa, alertando para os riscos da região Itabuna-Ilhéus, que tem crescimento da curva exponencial, fora em muito do que ocorre no restante do estado. 

Chega a ser patética a maneira como o governador tem reiterado o apelo. Patético porque trata ele de repetir o óbvio ululante (para lembrar Nelson Rodrigues): a melhor forma de prevenção e redução de danos é o isolamento social. E ao fazê-lo é como dissesse que não está sendo escutado.

A saudosa Vó Tormeza legou às gerações o repetir “quem não ouve conselho, ouve coitado!” ou “Estão brincando com a cor da chita”. As ponderações do governador gerarão o “ouve coitado!” porque a forma como parte considerável da população anda reagindo à realidade lembra o “Estão brincando”.

Certo que o contraponto à lucidez de quem defende o isolamento social encontra apoio do inquilino do Alvorada e seu séquito de idólatras idiotas e/ou de quem imagina beneficiar-se individualmente em detrimento da coletividade.

Mundo afora ruas vazias; aqui parecendo que nada está a ocorrer. Alguma coisa além do horizonte está acontecendo.

Os números de infectados e de mortes por milhão de habitantes decorrentes do Covid-19 no Brasil aventam duas vertentes: 1. Ou estão errados; 2. Ou vivemos um milagre.

Lejeune Mirhan (Brasil 247) fala n"A mentira dos números da pandemia no Brasil" e, na esteira de suas observações, para demonstrar que estamos ‘brincando com a cor da chita’ vamos a alguns detalhes:

1.       O Brasil testa apenas 296 pessoas por milhão de habitantes; Suíça testa 75 vezes a mais que nosotros, a Itália 56 vezes, Bélgica e EUA 29. 

2.       O índice de mortalidade de apenas 5,5%. O mundo tem pelo menos o dobro: França, 10,85%; Bélgica, 12,14%; Inglaterra, 12,59%; Itália, 12,72%.

3.       Por aqui, quanto ao número de diagnósticos positivos por milhão de habitantes, tínhamos 104 casos no dia 10 de abril e 160 na sexta, 17; Espanha 34 vezes mais que nós, a Suíça 28 e a Itália e a Bélgica 24 vezes mais.

4.       No quesito mortes por milhão de habitantes estávamos com 7 por milhão, no dia 10, e com 10 no dia 17; Espanha e Itália, apenas para ilustrar, 400 pessoas por milhão.

Quanto ao número de mortos no Brasil pelo Covid-19 há quem admita estar entre 3.800 e 15.000, com dados analisados até 15 de abril.

A demora para a contabilização dos casos fatais aliada à subnotificação (casos não identificados que foram a óbito por falta de testes etc.) seria causa de números tão baixos como os acima apostos.

Há – evidentemente – algo de podre. E não é no reino da Dinamarca.

Em vídeo divulgado na quinta (16) o prefeito de Entre Rios-RJ, denunciou a mensagem que recebeu do Ministério da Defesa, através do  Comando do Exército da 1ª Região Militar, por ele exibida e lida, da qual destacamos:

"[...] solicito dos Senhores Chefes de Postos de Recrutamento e Mobilização, com apoio das Juntas de Serviço Militar, que seja realizado um levantamento de dados estatísticos referentes à quantidade de cemitérios, disponibilidade de sepulturas e capacidade de sepultamentos diários em suas respectivas áreas de responsabilidade".    
Em Manaus, mortos estão sendo empilhados em conteiners.

Aqui por Itabuna o prefeito anuncia para a próxima quarta-feira a abertura do comércio com as restrições que imporá.

O governador da Bahia implora por isolamento.

Um dos dois acredita mais que o outro que Deus é brasileiro. Ou tentando provar.

Em Brasília há quem se anuncie o tal e pretenda fazer da pátria de todos nós uma ditadura. Talvez uma democracia nos moldes da Costa Rica.
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Observação: os dados que alimentam o texto originam-se do UOL veiculados pelo ConversaAfiada e do Brasil 247.

domingo, 12 de abril de 2020

À espera


O Brasil insinua que nunca alcançará a sua catarse. Não se lhe apresenta no curso histórico qualquer que seja o instante em que encontre espaço para uma purificação, evacuação ou purgação caso metaforizássemos sua ocorrência em nível de tragédia, medicina ou psicanálise. Em qualquer de suas formas a catarse há de se constituir num trauma a levar a uma descarga emocional como meio de resolver o conflito felicidade-infelicidade. É a descoberta pelo espectador do choro profundo, da alegria em excesso e do deslumbramento individual ou coletivamente.

O ator Brasil não consegue despertar descargas de emoções, não desperta instintos para resolver conflitos nos que lhe são próximos e essencialmente consubstanciados em sua gente.

Por outro lado parece fazer prevalecer a técnica das obsessões, da insistência comportamental em perseguir ou importunar alguém. A conduta repercutindo a ideia fixa e persistente.

A abordagem soa árida e incompreensível a priori. Em especial sob a ótica de que o Brasil aí estaria como Pilatos no Credo.

No entanto não vê este escriba de província outra tela para explicar o quadro que por aqui ocorre.

O curso da história pátria – afastados os registros, que refletem a versão do vitorioso – é uma sucessão de tragédias tendo por conduto a exploração. No primeiro instante a exploração das riquezas naturais que há de se desdobrar na do semelhante para afirmar aquela. Para tanto, nativos e negros trazidos tornaram-se os personagens centrais. Essa gente sacrificada sempre não encontrou, até o presente, quem a reconhecesse violada e não são abertos os livros que explicariam o caminho de solução que reverta dantesca (in)compreensão.

Por trás de tudo o que escreveu a história e hoje sustentado nos meios que impôs para eternizar-se no poder que em torno dele concentrou foge como o Diabo da cruz de reconhecer-se imaginando por em risco o conquistado.

Por seu turno tragédias não se fazem sem obsessões. E são elas o móvel permanentemente utilizado como mantra para alimentar a pira com mais e mais sacrificados. O deificado mercado aí está para confirmar.

O mundo continua apreensivo exigindo medidas restritivas à circulação de pessoas como instrumento imediato para evitar contágio. O Brasil tinha, neste domingo, 22.169 casos confirmados e 1.223 mortes pelo Covid-19 (avanço, em um dia, de mais 1.442 novos casos e 99 mortes). Na segunda, 6 de abril, tínhamos, respectivamente, 11.281 e 487. Ou seja, em seis dias praticamente dobraram os casos confirmados e quase triplicadas as mortes. Caso mantidas as atuais restrições à locomoção e considerando o período de risco concreto, que pode ir ao início de junho, ao final das próximas duas semanas (final de abril), mantida a projeção acima, poderemos registrar mais de 60 mil confirmações de contágio e o risco de ultrapassarmos 5 mil mortes.

Há quem insista em fazer girar a economia, mesmo que isso possa colocar em risco vidas humanas. As soluções cabíveis ao Estado (assegurar os meios de sobrevivência imediata com políticas eficazes de custeamento) por estas plagas soam frágeis porque se sustenta na visão de políticas inumanas para atender ao mercado financeiro.

No fundo, tudo para não perdermos a capacidade de desconhecer catarses e de nos mantermos em permanente estado de obsessão.

E por aí transita o Brasil: de tragédia em tragédia não consegue despertar uma catarse diante de tantas tragédias; e se sustenta na obsessão de que a economia de mercado é e será a solução.

Tendo o Altíssimo por solução para o erro que praticamos é possível que a população tenha no período acima aventado adquirido a imunidade ideal. É porque, abençoados por Ele, à espera de uma catarse e em permanente obsessão, contamos com a imunidade

Ainda que não seja isso o que afirme a Ciência.


domingo, 5 de abril de 2020

Tragédias e ironias


Stefan Zweig (1881-1942), austríaco, famoso por escrever “Brasil País do Futuro” (1941), suicidou-se, em Petrópolis. A ironia afirma que não teria suportado o presente.

E não seria impróprio afirmar que as razões para o suicídio de Zweig, por irônico que seja, persiste no tempo e avançam, inexoráveis, pelo mundo nessa contemporaneidade.

Claro que esta Terra já foi um dia para todos. Mas alguns tomaram conta dela, se apropriaram do trabalho alheio e a riqueza produzida a concentraram em suas mãos, o que lhes assegurou poder.

Veem-nos os versos de Virgílio, no Livro I, das Geórgicas, como alento;

“... Ninguém antes de Jove as terras desmembrava:
A lei que as fere agora, e marcos lhes encrava
que dor faria então. Se tudo era de todos,
a paz era comum a toda a humanidade;
a terra, abrindo a flor dos sonhos soterrados,
punha frutos nas mãos dos homens sossegados”.

Destaque no curso da semana a atuação de governos exercitando típica pirataria tendo por butim material médico para combate ao covid-19 adquirido por países ao redor do mundo e que ficaram a ver navios ao largo.

Dentre os denunciados os Estados Unidos capitanearam as ações de apropriação de materiais, intervindo em aeroportos e retendo encomendas destinadas a outros países. Não bastasse, no jogo de quem tem pode mais estaria pagando até 4, 5 vezes o valor do material.

As posturas de quem promove a pirataria ou de empresas que descumprem contratos para beneficiar-se de vantagens pecuniares demonstra, à sobeja, que isto que denominamos de Civilização não alcançou – e tende a tardar alcançar – a compreensão de valores primários para a convivência em sociedade, dentre os quais a solidariedade.

Considerando os Estados Unidos – nunca dedicado a respeitar os outros – vem-nos a oportunidade de releitura de carta escrita pelo coronel Robert M. Bowman (1934-2013), com 122 missões de combate no Vietnã, autoridade em espaço, ambientalismo e segurança nacional, fundador da Igreja Católica Unida, dirigida ao presidente Bush sob o título Diga a verdade sobre o terrorismo, Sr. Presidente:

[...] o povo precisa saber a verdade, Sr. Presidente, e o Sr. não contou as razões pelas quais somos vítimas do terrorismo [...]

O Sr. Disse que somos alvos porque defendemos a democracia, a liberdade e os direitos humanos. Que absurdo, Sr. Presidente! Somos alvos dos terroristas porque na maior parte do mundo nosso governo defende a DITADURA, a ESCRAVIDÃO e a EXPLORAÇÃO HUMANA. Somos alvos dos terroristas porque somos odiados e somos odiados porque nosso governo faz coisas odiosas. Em quantos países os agentes de nosso governo depuseram líderes eleitos popularmente para substituí-los por marionetes desejosos de vender seu próprio povo a corporações multinacionais americanas.

[...] Destituímos continuamente líderes populares que desejavam que as riquezas de suas terras fossem repartidas pelo povo que as gerou. Substituímos líderes populares por tiranos assassinos.

[...] De país em país nosso governo obstruiu a democracia, sufocou a liberdade e pisoteou os direitos humanos. Por isso somos alvo dos terroristas. O povo do Canadá desfruta da democracia, da liberdade e dos direitos humanos, como o povo da Suécia e da Noruega. O senhor já ouviu de embaixadas canadenses, suecas ou norueguesas sendo bombardeadas? Nós não somos odiados porque defendemos a democracia, a liberdade e os direitos humanos. Somos odiados porque nosso governo nega essas coisas aos países do Terceiro Mundo, cujos recursos são cobiçados por nossas corporações multinacionais.

[...] Resumindo, deveríamos ser bons em vez de maus.” 
(Trechos extraídos do artigo Um pouco de fé no meu ceticismo!, de Fausto Wolff, em A imprensa livre de Fausto Wolff, editado por L&PM, 2004, p. 66 e 67).

Não há ironia em quem afirma que Stephen Zweig não teria suportado o presente. Como se sentiria diante de ações como a do governo dos EUA de impedir que Cuba receba ajuda humanitária ou que envie seus médicos para ajudar países outros, que seus agentes surrupiem material de combate ao covid-19 destinado a países vários, inclusive o Brasil (a Bahia em particular), enquanto em Guayaquil, no Equador, os mortos começam a ser incinerados em plena rua?

E enquanto 157 países impõe o isolamento social para prevenir a pandemia nesta terra brasilis, que abrigou Zweig, há quem defenda a liberação geral no jogo elementar para sempre levar vantagem.

Uma parcela apaixonada e deslumbrada vê em governantes o ‘deus/messias’ ansiado, que sempre encontrará uma profecia em suas falas dentro da mítica sebastianista rediviva fora dos rincões naturais, o Nordeste. Ainda que em estágio permanente de acuar as instituições, vocacionados que são para a ditadura.

Todos temos nosso deus/messias, padrão Antigo Testamento: vingador para aqueles que não leiam sob sua cartilha. Aqui e alhures.

Não podemos é perder a capacidade de ler Virgílio e de manter o olhar irônico sobre tudo.


domingo, 29 de março de 2020

Razão em duas convergentes


Abre-se o tema com a assustadora análise de estudo, titulado de “O impacto global da Covid-19 e as estratégias de mitigação e supressão”, do grupo de Resposta à Covid-19 do Imperial College, de Londres, particularizando o Brasil: prevê em 1.152.283 o número de mortes no país, caso medidas de contenção não sejam tomadas, que podem despencar para 44 mil brasileiros mortos com as medidas mais radicais e precoces. Aqui nos louvamos em veiculação no Conversa Afiada.

Em meio a tão catastrófica realidade – que assusta o planeta – exigindo tomada de posições drásticas mundo afora, por este país dividem-se opiniões. Havendo quem esteja virtualmente contra qualquer delas porque o ‘mito’ de seus sonhares e quereres assim o expressa. Ou seja: entre salvar vidas como sugerido pela Ciência Médica e assegurar veiculação de pessoas (que propagarão o mal, multiplicando-o quase geometricamente) sob o raciocínio de que a economia ‘não pode parar’ sacrifique-se o primeiro.

Nem entremos no vazio idiota de quem fala em economia (que é de marcado, de consumo) reduzindo consumidores. Tampouco de que, em momentos de crise, é dever do Estado custear e prover a sobrevivência porque – como costumamos dizer – ao Estado não cabe servir ‘o’ homem, mas ‘ao’ homem.

Todo o posto como introito visa buscar compreender a razão por que o comando da nação se encontrar sob as rédeas de quem demonstra, à sobeja, desconhecer o minimo minimorum (o mínimo do mínimo, o menor dos menores) do que seja administrar o cotidiano, muito menos crises.

Claro que não cobramos – até porque nunca o fizemos – por estar ocupando o posto maior do país quem nunca ofereceu qualquer exemplo de que dominasse a seara pública. Sua história e testemunho nunca enganaram ninguém. Não pode ele, o inquilino do Alvorada, ser cobrado porque – repetimos – nunca enganou ninguém.

Mas o questionamento que fazemos neste espaço passa, sempre, por entender as razões por que o inquilino atingiu o ápice. Um fato que se expressa, em suas raízes, presente e remotamente.
Sempre intrigou este escriba de província um fato concreto: por que as classes sociais menos favorecidas, beneficiadas diretamente com as políticas públicas encetadas por governos petistas, que melhoraram de vida efetivamente, não responderam em votação ao que lhes beneficiara? Ou seja: por que não reconhecidas as ações concretas de governos progressistas, com programas pautados na redução das desigualdades e distribuição de riqueza?

Aplique-se tal raciocínio às administrações do PT em nível municipal, estadual e nacional.

Ainda que alertado por observações preciosas, como a de Mujica, de que a esquerda estava cuidando de formar consumidores e não cidadãos, ainda não encontrávamos a resposta, que somente transitava pelo viés moral (presunção ou mesmo certo preconceito) do eleitor mal agradecido.

Não deixamos de cobrar do PT/governo o afastamento das bases, por acreditar piamente (assim pensávamos) de que seria compreendido em razão do reconhecimento “espontâneo” às ações que realizava. Cobramos por tal postura ‘vaidosa’. Cremos que, sob este particular aspecto, nos enganamos porque não apenas essa circunstância hoje alimenta o observador.

A resposta extraímos em texto de Bruno Reikdal Lima, no GGN. Transitando por Weber diz o articulista, com palavras irrefutáveis, que aquele “consumidor” formado pela esquerda reconhecia o seu avanço como dádiva de Deus. O emprego gerado, a distribuição de renda, o ganho real para o salário mínimo, o investimento público em obras de infraestrutura etc. não se originavam – para ele – das políticas de Estado postas em uso por um governo como nunca outro o fizera.

Ou seja, a ação humana, concretamente definida por políticas estatais através de governos progressistas, não se insere no imaginário pelo prisma externo (quem fez o que fez) mas por via de alienação eminentemente subjetiva e individual: EU, por bondade e graças de Deus, conquistei pelos meus méritos... etc. etc. etc.

Enquanto as políticas distribuíam renda e riqueza viam tais camadas na ação de Deus a sua vitória como reconhecimento de dedicação ao culto.

Assim, parcela significativa dos beneficiados por programas governamentais oriundos de governos petistas (em todos os níveis, federais, estaduais e municipais) viram sua melhora de vida atribuída ao pregador/pastor que lhe tomava parte da renda obtida para garantir mais de Deus. E assim, o governo dava e o igreja tirava a parte de ‘deus’ e o dizimista se via agradecido tão somente a Deus, não a quem – em nome d’Ele – aqui agia.

Mas, outro fenômeno há de ser observado. E vinculado ao processo de construção cívico-cultural do cadinho histórico-sociológico desta terra brasilis. Fato assemelhadamente ponderado/observado por Eduardo Galeano (As veias abertas da América latina) e Manoel Bonfim (1868-1932) (“América Latina, males de origem”, “O Brasil na América” e “O Brasil Nação”) Para tanto nos apoiamos, relendo-o recentemente, em Darcy Ribeiro:

O espantoso é que os brasileiros, orgulhosos de sua tão proclamada, como falsa, "democracia racial", raramente percebem os profundos abismos que aqui separam os estratos sociais. O mais grave é que esse abismo não conduz a conflitos tendentes a transpô‐lo, porque se cristalizam num modus vivendi que aparta os ricos dos pobres, como se fossem castas e guetos. Os privilegiados simplesmente se isolam numa barreira de indiferença para com a sina dos pobres, cuja miséria repugnante procuram ignorar ou ocultar numa espécie de miopia social, que perpetua a alternidade. [...]

E preciso, conclui assim seu raciocínio:

[...] O povo-massa, sofrido e perplexo, vê a ordem social como um sistema sagrado que privilegia uma minoria contemplada por Deus, à qual tudo é consentido e concedido. Inclusive o dom de serem, às vezes, dadivosos, mas sempre frios e perversos e, invariavelmente, imprevisíveis.” (O Povo Brasileiro – a formação e o sentido do Brasil, Companhia das Letras, 2ª edição, 2005, p. 24).


Compreendemos, caro leitor, que o tema exige um ensaio e que o espaço aqui não o permite. Mas não custa semear para tentar compreender a razão por que de tanta estupidez, de tanta divisão, de tanta indiferença para com os desassistidos.

Já nos bastamos em vislumbrar os caminhos originários e convergentes. Ontem e hoje.

domingo, 22 de março de 2020

Dante: – Presente!


Eis que este escriba de província se vê diante de uma escolinha chamada Terra onde o espaço-tempo não existe, aula em andamento. Quando da chamada um aluno há muito despercebido responde “Presente”. Todos se voltam para o ‘estranho’ tanto que não mais dele se lembravam. Mas, ao saberem quem era reverenciaram-no. Afinal, ali estava quem escrevera um dia sobre o Inferno, pondo um prólogo estarrecedor: “Deixai fora a Esperança, Ó vós, que entrais”. Redigira seus versos pelos idos de 1304 e 1321 d.C., ele que viveu entre 1261 e 1321.

Vão-se sete séculos de seu existir. A se repetir.

Sua terra natal padece de nova tragédia e não terá um outro conterrâneo, Giovanni Bocaccio (1313-1375), para reverenciá-lo, tampouco escrever sobre tema tão atual quando tomou a peste como motivo para o seu Decameron.

Também não disporá de Luchino Visconti (1906-9176) para levá-lo à tela inspirado em Thomas Mann, como o fez em “Morte em Veneza”.

Mas, eis que a terra da loba que amamentou Rômulo e Remo alcança seara inimaginável nesta contemporaneidade que denominam de Civilização: diante do estágio crítico – e da impossibilidade material de atendimento – sacrificará no altar da estupidez humana os idosos acima de 80 anos.

Estúpida humanidade, que concentrou na mão de meia dúzia a riqueza que faria melhor bem ao Homem se distribuída o fosse e parcela aplicada, ainda que mínima, muito evitaria de tragicidade cotidiana em que vive, porque se houvessem recursos públicos, ou mesmo particulares, investidos em prevenção e tratamento o quadro seria bem menos grave.

Eis caro leitor que a Itália – nação próspera, berço do Renascimento, pátria da Civilização Ocidental ensaia um novo ‘círculo’ para o Inferno, o décimo, que pode ser chamado de “o retorno à barbárie plena”. O Nono, acolhe os traidores, até que o ultrapassemos, como o fazemos neste instante, para o encontro com a barbárie plena.

Vislumbrava Dante a existência do Paraíso (o seu) – como o vê quando, ao lado de Virgílio,  ultrapassando o Nono Circulo – a partir do túnel onde refletidas as quatro estrelas do Cruzeiro do Sul, razão por que os intérpretes o têm ao Sul do Equador.  

Outro eis, caro leitor: cá estamos, ao Sul do Equador.

E não somos a Itália, não dispomos de Dante Alighieri, de Giovanni Bocaccio, de Luchino Visconti.

Na Itália programam deixar morrer os idosos acima de 80. Aqui, não necessários os octogenários, nonagenários etc., porque os pobres e desvalidos de sempre estão dispensados de qualquer programação. Apenas engrossarão as covas rasas dos cemitérios, longe das estatísticas oficiais.

Porque por aqui não há necessidade de medidas oficiais que ampliem o obituário. Não nos faltam peças (in)significantes da classe dominante para – mesmo sabendo estar portador do Covid-19 colocar seus amigos de São Paulo no mesmo jatinho e vir infectar a gente humilde de Trancoso, em Porto Seguro.

A pandemia que assusta o planeta corre por estas plagas montada no alazão chamado “perversidade”, orientado por ginete chamado “incompetente”.

E não falta quem a assista e apenas aplauda com suas atitudes, porque todos iguais, deles unha-e-carne, lé-com-cré – como diria vó Tormeza.

Enquanto isso, depois de terem negado atracação nos vários portos do Caribe, aquela ilha de comunistas e comedores de freiras e de criancinhas acolheu o transatlântico inglês com passageiros acometidos de coronavírus que nenhum outro porto aceitou.

Na ilha a solidariedade como exemplo. Por aqui – não duvide o leitor – não falta quem queira se aproveitar da tragédia para levar vantagem. Não aqueles que estocam álcool para revende-lo a preços exorbitantes; mas os que dispõem de outros tipos de estoques como do autoritarismo respaldado em figuras de caserna.

Para eles, afinal, Congresso, Judiciário, Democracia e quejandos civilizatórios tais são embaraço para quem deseja o bem da Nação e ‘deseja’ curar o povo, mas só o fará se dispuser de controle absoluto do  poder, ainda que venha a ser alcançado através de golpes. Única solução para concluir a “missão” – dirão. Que bem pode começar com inusitado ‘estado de sítio’.

Como nada mais faltasse inovam: criam enfrentamento desnecessário e estúpido com a China para agradar o “grande parceiro” do Norte, sem medir as consequências, como bem analisa Nassif.

E, em plena pandemia do coronavírus, o governo federal (com minúscula, revisor!) cancelará contratos de médicos do Programa Mais Médicos até abril vindouro, como denuncia o DCM. ‘Só acredito porque estou vendo – diria, se em vez de maracanãs da vida fora Coliseus, aquele narrador da Fox.

Como nunca leram Dante Alighieri desconhecem o que lhes aguarda no Nono Círculo.


domingo, 15 de março de 2020

E la nave va – de Shakespeare a Jarry no país revisto por Foucault


Um punhado de beneficiados – interna e externamente – sustenta o inquilino do Alvorada. Em nível interno aquela histórica classe dominante, dona do poder (para lembrar Raymundo Faoro), meritocrática e patrimonialista; em nível externo, os de sempre, destinatários das riquezas aqui existentes e produzidas, bajulados por aqueles que os têm como o espelho em que se miram Narcisos tantos desta deslumbrada terra brasilis.

E a terrinha vive os instantes de picadeiro, enquanto aguarda o 'drama' no final da função, como ansiado nos velhos circos de província. Sob o grotesco tudo se mantém sob a falácia de que há dirigente eleito democraticamente(?). 

Porque – quando interessa – a Democracia é o discurso barato, como aquele perfume meia-hora encontrado nas feiras-livres de antanho: cheira maravilhosamente por meia hora, mas – ainda que de curto existir – enquanto produz fragrância atende e impressiona. No caso tupiniquim, o meia-hora se repete indefinidamente sustentado na eleição democrática. Até opositores afirmam o respeito à sua eleição, Lula encabeçando-o.

Mas nesta terra brasilis ninguém melhor que o inquilino para atender aos interesses. Enquanto o mambembe se faz presente algumas castas (presentes em meio a militares de alto coturno, ministros, desembargadores e juízes, promotores, procuradores, políticos) vão nadando a braçadas largas sem ouvir um mísero reclamo.

Imaginar que haja algum respeito ao inquilino como presidente – além dos que são por ele vinculados com paixão inaudita – alimenta a insanidade e a total alienação, por cumprir o singular papel de antipetista, anticomunista e quejandos tais mais e mais aplaudido pelos mesmos. 

Como governante não passa de um traste a ser lançado às traças na hora oportuna. Mas, no fundo, reflete esta parcela singular (e considerável) da sociedade pátria.

Via Michel Foucault uma espécie de perversidade na governança como se racionalidade política o fosse, na intensificação do grotesco, a ponto de adjetivar como ubuesco (referência à personagem Ubu Rei, peça de Alfred Jarry) tal comportamento social norteando instituições do Estado. Neste viés, a truculência cômica mascarando absurdos leva ao riso, o riso como auto-instrumento de sujeição. 

Em “Os Anormais” (contexto de aulas no Collège de France entre 1974-1975) Foucault desenvolve a tese do ‘poder ubuesco’ como aquele amparado em três propriedades: o poder de vida e de morte, o poder de verdade e o poder de fazer rir. Na esteira, a desqualificação de quem o produz maximiza efeitos do poder. Reflete, assim, uma profunda análise das instituições e valores que as norteiam, levadas por ele ao divã.

O grotesco – assim o via Foucault – instrumentaliza a soberania arbitrária. Ubu, sintetizando o opressor bufão, está à solta encantando e fazendo rir.

Não custa ilustrar que Ubu Rei se inspira em Macbeth. Em Shakespeare, o poder em seu aspecto trágico; em Jarry, na vertente do ridículo e do grotesco.

Mas, voltando ao governante nosso de cada dia, o inquilino do Alvorada tem o mérito de ter trazido a público, de forma escancarada como nunca antes, verdade factual escondida nos armários daquela parcela de brasileiros que nunca imaginamos existir.

O país afunda. Mas rimos a não mais conter. O trágico do tombo nos faz rir e nos sentimos felizes. O palhaço mente escabrosamente, mas rimos, rimos...

Mas, caro leitor, há o grotesco e a perversidade também em quem julga ao arrepio do Direito, ao sabor de conveniências ou a elas submetido pela covardia.

Neste particular não ocorre o riso solto e desbragado oriundo do picadeiro circense, mas em outro palco, de onde fica somente o choro contido dos que não têm força para reagir, como na criança que apanha do adulto e sabe na pele a dor da impotência.

E neste outro picadeiro eis que o próprio confirma o que todos sabiam: o STF negou recursos da ex-presidente Dilma Rousseff em sua pretensão de anular o impeachment. Confirma o que já dissera Sérgio Machado no antológico diálogo com Michel Temer quando ensaiando o golpe: tirar a presidente “com Supremo, com tudo”.

Aquela singular e inaudita interpretação – à época – do ministro Barroso de que a forma prevalecia, no caso, sobre o fundo acaba de ser materializada e assim lança às calendas os mais comezinhos princípios de direito como instrumento de persecução da Verdade e de Justiça. Ou seja, para Sua Excelência à época e a maioria que o legitima neste instante ainda que não estivesse configurada a existência de crime de responsabilidade (fato confirmado, inclusive por análise do departamento jurídico do Senado e do TCU) bastava que o procedimento instaurado estivesse conforme as exigências do Regimento Interno. 

Assim, a tramitação tendo por objeto o não existente garante a punição como se existisse o fosse. Em outras palavras: condene-se porque houve processo, ainda que sem crime que justificasse sua instauração. Lindo de morrer!

Resta-nos retomar o cinema em Fellini, enquanto as reservas são torradas pelo inquilino do Alvorada em sua sanha trágica: E la nave va. Com classe dominante, com Supremo, com tudo o mais que nos acomete. 

Ou, talvez, melhor tudo vincular ao precursor do surrealismo Alfred Jarry em Ubu Rei (1796), porque nossas instituições exercitam, em plenitude, o grotesco, o absurdo, o cínico, o brutal e caricatural, reveladas como as viu Michel Foucault.

Porque não passamos de uma caricatura do nada tornado tudo. 

Isso o que verdadeiramente assusta: a legitimação do absurdo pela omissão enquanto rimos desbragadamente.