domingo, 2 de fevereiro de 2014

Alguns destaques


DE RODAPÉS E DE ACHADOS *
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Quem casa quer casa
Ouvimos de Simeon Ibarra Torres, padre colombiano que vive no Brasil, nos tempos em que paroquiou em Itororó e desenvolvia uma típica pastoral da construção para assegurar moradia para famílias necessitadas: “A casa, psicologicamente, é fonte de equilíbrio e de segurança para qualquer indivíduo. É o refúgio natural, o lugar que busca quando está em perigo, quando quer descansar ou se alimentar. Ter sua própria casa é o pleno assegurar do lar”.

Levada em consideração a observação, alguns milhares de brasileiros – ainda poucos milhões – estão se sentindo mais seguros, mais próximos do equilíbrio psicológico natural à espécie.

Dados divulgados pela Agência Brasil sinalizam para a existência de 3,2 milhões de unidades contratadas somente através do Minha Casa Minha Vida, do Governo Federal.

Detalhe que destacamos: 35% dos contratos foram celebrados por jovens com menos de 30 anos e outros 45% a clientes entre 31 e 45 anos.

Pela idade dos adquirentes podemos afirmar que o “quem casa quer casa” pode muito estar contribuindo. Ou para os que querem casar ou para os casados que não tiveram oportunidade de conseguir sua morada antes das políticas atuais.

A evolução das unidades financiadas deixa claro o que acontece no país nestes últimos anos: de 28,93 mil, em 2002, para 529,8 mil em 2013. 

Vale-tudo
Registramos não pela importância em si do expressado, mas pela tristeza de vivermos em um país onde o pensamento dos que fazem oposição ao Governo Federal, diante da dificuldade em superá-lo democraticamente através de lícito processo eleitoral, parte para tudo.

O confrade Afonso Dantas fez circular no Facebook, material que teria viajado no twitter e reproduzido na coluna de Cláudio Humberto, com a sugestão de que na volta de Cuba o avião presidencial com Dilma Rousseff fizesse uma “parada técnica” no Triângulo das Bermudas.

Como naquela área do Atlântico ocorrem fenômenos pouco explicados, onde desaparecidos aviões e navios, a ‘sugestão’ tem o condão de torcer pela morte da Presidente da República.

Nem como piada trash pode ser compreendida a intenção.

Solução extrema
A propósito, Paulo Henrique Amorim vazou de forma velada a informação de que há uma pesquisa não divulgada acusando melhora na popularidade de Dilma, queda na de Aécio e de Marina Silva e Eduardo Campos oscilando de 7% para 8%.

A soma de intenções de voto, envolvendo os três adversários, daria quase dez pontos percentuais a mais para Dilma.

Com esse caminhar talvez a solução seja realmente remetê-la a uma turnê no Triângulo das Bermudas.   

Cuba
Tornou-se lugar comum na imprensa escandalizar os investimentos realizados pelo Brasil em Cuba. Mais recentemente, no porto de Mariel. (Leia nosso “Inserção geopolítica”, neste blog).

Sobre calote lembrou Kenedy Alencar que, até hoje, dos que receberam crédito brasileiro e não pagaram somente uma empresa dos Estados Unidos, que comprou aviões da Embraer e outra do Chile, que adquiriu ônibus. Mas, prejuízo não há, porque são acionadas as apólices de seguro que garantem os empréstimos.

Não é o caso de Cuba, que paga régia e regularmente o que financiamos para exportação de nossa soja etc.

Lição
Tem sido o “assunto do dia”: o caos aéreo brasileiro, que não suportará a demanda de junho/julho. Basta que se atente para o chavão dos âncoras – mormente globais – “imagine na Copa!”. O mundo desabará.

Obviamente não podemos imaginar que o salto de consumidores de transporte aéreo a partir da melhoria da renda e de distribuição da riqueza, acentuados nos últimos anos, encontre o ponto ideal nas atuais condições de nossos aeroportos.

Como contraponto aos críticos trazemos uma outra visão, no que diz respeito ao espaço aéreo, que muitos imaginam que também ficará caótico durante a Copa do Mundo.

Divulgado pela FAB


A Airspace Magazine, publicação oficial da Civil Air Navigation Services Organization (CANSO), órgão sediado na Holanda, publicou uma matéria de capa sobre a experiência bem sucedida do controle do espaço aéreo brasileiro durante a Rio+20, a Copa das Confederações e a Jornada Mundial da Juventude. 

A publicação internacional ressalta que os grandes eventos registraram um aumento médio de aproximadamente 18% do tráfego aéreo, mas que os controladores brasileiros foram treinados em simulações para uma elevação de até 30%. Para leitura 


Siameses
Alguns livros lançados recentemente certamente não chegarão a muitas estantes brasileiras. Mormente de figurões antes encastelados na vestalidade de oráculos partidários a serviço de uma elite que tem profundas dificuldades de entender o que lhe acontece à volta.

No entanto podem – ditos livros – alcançar uma repercussão nada imaginável. Justamente porque seus autores se debruçam sobre temas tratados de forma maniqueísta em todas as dimensões (digital, escrita etc.) na denominada grande imprensa e começam a ‘melar’ a informação antes ‘privada’ e aliada aos interesses daquela mesma elite.

Estão aí os mais recentes: Operação Banqueiro, de Rubens Valente, e Operação Satiagraha, de Protógenes Queiroz.

Em Operação Satiagraha poucos terão dificuldade para reconhecer o “Morcegão” e o “Dr. Draco” na vida real: um, de invejável carteira de influência; outro, influenciado – tanto que habituado a distribuir habeas-corpus a ricos. Ambos situam-se como personagens em Operação Banqueiro.

O mantra
Redução de precipitação pluviométrica – expressão para pouco ou menos chuva – em algumas regiões do país já levanta o apocalipse sonhado por parcela considerável da oposição, que tem na lembrança o nada agradável apagão da era FHC que contribuiu para a eleição de Lula em 2002.

Os arautos – ou agourentos para nós – já anunciam o caos: vai faltar luz.
Esquecem apenas de um detalhe: o apagão – literalmente – de FHC não e deveu necessariamente à falta de chuvas, mas a deficiência nas linhas de transmissão e reduzida capacidade de produção de energia termoelétrica.

O que não acontece agora.

Da civilização à barbárie
A Revolução Industrial somente se materializou porque desenvolveu um mercado consumidor que pudesse absorver o que tecnologia multiplicava em unidades produzidas com aquele embrião de produtividade. Nela se sustentou o processo capitalista.

A denominada economia de mercado se baseia no consumo. Sem consumidor a produção está fadada a encalhar.

No Brasil, por tudo que temos visto e ouvido, parece que a postura atávico-preconceituosa pretende estabelecer bolsões para o consumo: shoppings só para ricos; para a classe média que emerge das classes D e E as feiras livres, a paulista 25 de Março ou o carioca Saara.

A realidade fala mais alto. A emergência sócio-econômica de parcela da população – graças a políticas governamentais, como distribuição de renda e recuperação do poder aquisitivo dos salários – cobra a inserção destas camadas. Espaços antes destinados apenas a um percentual mínimo de aquinhoados começam a ser disputados, dentro da lógica do mercado: quem dispõe de recursos pode e deve comprar.

Certamente ainda persiste uma visão restrita que preferiria outro estágio de consumo. Ainda que não expresse, inconscientemente uma parcela considerável da elite brasileira gostaria de ver os que não integram o 1% que detém 60% da riqueza nacional se divertindo como em bolsões de miséria da África.

Em vez da busca por shoppings que se contentem com brinquedos de barro.

De leituras e borboletas
Lá se vão muitos anos das leituras que fizemos de “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez. Leitura fizemos muitas, caro leitor, até que dominássemos a genealogia/ideologia que se alternava entre José Arcadio Buendia e o Coronel Aureliano Buendia. No universo da Macondo fantástica, inspirada em fatos verídicos, havia um personagem cercado de borboletas amarelas. Era sua identidade, ainda que não visto. Por causa delas, e do namoro proibido, morreu.

Neste Brasil varonil, fantástico em personagens que não nascem da literatura de um Garcia Marquez, muitos aguardam o retorno de Joaquim Barbosa para mandar esquartejar José Dirceu.

Bessinha bem traduz tudo isso em charge. Na falta de borboletas amarelas, moscas em profusão.

Dois tapas
Joaquim Barbosa começa se ver humano. Pelo menos – é o que parece acontecer quando despido da AP 470 – suas fraquezas e erros vão chegando ao limite da tolerância (Não confundir com aquela “casa” em que Sua Excelência parece ter pretendido tornar o STF quando violou/estuprou regras, fundamentos e princípios jurídicos universais, na sanha condenatório-linchamento de algumas figuras do mundo da política que exerce o poder).

O ministro Lewandovski liberou o inquérito 2474 (escondido a sete capas por Joaquim Barbosa) que certamente teria absolvido alguns condenados de alguns crimes a eles atribuídos.

O mesmo Lewandovski acolheu pedido de liminar em Mandado de Segurança contra ato de Joaquim Barbosa como presidente do Conselho Nacional de Justiça.

Neste último caso o depoimento denúncia da parte interessada (uma advogada cega) fala mais que qualquer texto. Inclusive por dar nome aos bois. Ou, ao boi: Joaquim Barbosa. (clique em http://www.youtube.com/watch?v=axA3zoP5WxM)

Terceiro tapa
Associação de magistrados, através de seu presidente, critica a viagem de férias de Joaquim Barbosa às custas do STF (ou seja, dinheiro do povo) pela inoportunidade (do uso de diárias em período de férias) e péssimo exemplo.
Leia a íntegra de “Por trás dos holofotes”, do juiz Fernando Ganem, presidente da Associação dos Magistrados do Paraná em http://jornalggn.com.br/noticia/presidente-da-associacao-dos-magistrados-critica-viagem-de-barbosa

Quarto tapa
Não deixa de ser uma bofetada nas intenções do julgador: apesar de multas milionárias (uma delas incompatível com o patrimônio individual, como a aplicada a José Genoíno), campanhas de iniciativa popular (ainda que o sejam de membros do PT) têm assegurado arrecadações para o pagamento. Genoíno e Delúbio já pagaram a deles. E ainda sobra dinheiro para ajudar outros petistas presos, no caso José Dirceu e João Paulo Cunha.

Tiro pela culatra
A mobilização da militância para cobrir as multas aplicadas por Joaquim Barbosa a “companheiros” constitui-se verdadeira campanha político-partidária a trabalhar com os brios das bases.

Para quem falava em acomodação da militância se prepare para vê-la na campanha pela reeleição de Dilma Rousseff.

O que parecia caminho para o ocaso torna-se estrada de luta e de esperança.

Para quem pensou que prender próceres do PT levaria a turma à depressão simplesmente ministrou-lhes um estimulante.

Tensão
A tensão ora existente no universo político-administrativo de Itabuna não está limitado pura e simplesmente a um jogo ou disputa entre aliados.
Vemos o conflito entre manutenção de peças que demonstram incompetência para com o exercício da função a que foram delegados e a perspectiva de realizações que marquem a administração. Ou seja, parece prevalecer ‘vontades’ e não projetos.

Mais se agrava tudo quando circula à boca miúda o desejo de que um grupo gostaria de afastar o prefeito Claudevane Leite das funções para as quais foi eleito.

Qualquer que seja o caso Sua Excelência precisa ficar de olho. Por correr o risco de ser alijado de qualquer forma: ou pelo afastamento ou pelo desgaste da imagem de administrador. Que vai se afundando de acordo com pesquisas.

Fato concreto: a tensão existe. Setores do comando gestor da administração não estão se desincumbindo bem do papel que lhe foi atribuído. Um ano já se passou. Tempo mais que suficiente para mostrar ao que vieram.

‘Nem que a mula manque’
“Eu Quero é Rosetar” (Haroldo Lobo-Milton Oliveira) é um samba carnavalesco, gravado em 1946 por Jorge Veiga para o momesco de 1947. Por ser considerado uma imoralidade foi censurado e, naturalmente, proibida a sua veiculação. Quem andou insistindo em cantá-lo corria o risco de ser detido ou mesmo agredido, como um rapaz que teimou em ‘declamá-la’ na Leiteria Aviz, na rua do Riachuelo, e foi ferido mortalmente pelo proprietário com um furador de gelo porque causava ‘desrespeito às famílias presentes”.

Hoje, neste evoluído país de outros costumes ‘rosetar’ nada significa diante da qualidade do que chamam de música baiana. Claro, também, que não vivemos tempos de malandragem romântica.

Certo que em Itabuna, na falta do prometido Carnaval Antecipado, a turma não perdeu o mote e “rosetou” no Beco do Fuxico no aniversário de Cabôco Alencar, o filósofo do ABC da Noite. Onde ninguém sai ferido. A não ser pela “saudade”. Até o ano que vem.


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* Coluna publicada aos domingos em www.otrombone.com.br

Lamentável
O assassinato de Eduardo Coutinho é uma perda irreparável. O cinema perde uma de suas maiores expressões. Basta que lembremos a saga "Cabra Marcado Para Morrer".





sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Inserção

Geopolítica
A inauguração do porto em Mariel, em Cuba, onde aportados recursos oriundos do Brasil, inclusive financiados pelo BNDES, geraram uma histeria em noticiários televisivos. Como anunciam parece que o Brasil doou recursos do povo brasileiro aos cubanos a fundo perdido.

A má fé é tamanha que não entram no cerne da questão: os recursos financiaram empresas brasileiras (gerando empregos no Brasil) que estarão com uma cabeça de ponte no Caribe para ocupar comercialmente aquela região. Isso para não dizer que foram gerados mais de uma centena de milhar de empregos com o porto cubano, em produtos comprados aqui, trabalhados por brasileiros.

O volume financeiro é elevado a cântaros de cornucópia (esvaindo pelo ralo) como se tais recursos resolvessem o problema do Brasil. A esse propósito ninguém pergunta os cerca de 500 milhões dólares da sonegação da Globo – só em 2002 – ou os bilhões de propina (que podem alcançar a cifra de 9 bilhões de dólares) desviados do metrô e trens de São Paulo etc. Há muito Cacciola foi esquecido, apesar de levar 1,5 bilhão de dólares. Ninguém se lembra de patrimônios originados do povo através de empresas estatais doadas/entregues a preço vil pelo neoliberalismo tucano de FHC, como a Vale do Rio Doce, a Telebras, apenas para ilustrar

A sanha dos discursos coléricos busca se amparar em apoiar uma ditadura. Como se não fossem ditaduras a China, Arábia Saudita, Afeganistão etc., todos amigos e parceiros de negócios para os Estados Unidos.

No fundo, no fundo, coisa de colunismo colonialista. Se fossem os Estados Unidos em Cuba tudo bem... Brasil, não!

Para os céticos recomendamos uma entrevista a Heródoto Barbeiro de Thomaz Zannoto, diretor de departamento de relações internacionais e comerciais da FIESP através de http://jornalggn.com.br/noticia/a-importancia-do-porto-de-mariel-para-a-economia-brasileira 

Detalhe: o entrevistado informa que recursos brasileiros para Cuba se iniciaram ainda com Fernando Henrique Cardoso.

É preciso compreender que negócios são negócios. Dinheiro não tem pátria. E que ninguém dá dinheiro a ninguém: empresta. E de Cuba o Brasil tem recebido regularmente as parcelas emprestadas.


quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

A Gramática de Jânio

E a resposta ideal
Para a turma da oposição – acuada com as denúncias do metrô e trens em São Paulo e com a possibilidade de julgamento do mensalão mineiro ainda este ano – tudo que possa desviar a atenção entra no vale-tudo. Atrasos em obras para a Copa do Mundo estão na moda. E, de vez em quando, um extra, como a passagem de Dilma por Portugal. Tanto que surgem os pedidos de informação dos Álvaro Dias da vida, que espera – oh! sonho – causar uma hecatombe na imagem do Governo e da candidata Dilma Rousseff.

Insinua a existência de graves irregularidades em razão de uma estada de algumas horas em Portugal, necessária segundo as regras aeronáuticas por medida de segurança. É de todos sabido que a travessia atlântica, em circunstâncias normais (ausência de turbulências, tempestades etc.) praticamente consome 80% do combustível em aviões do tipo do presidencial. Isso não configura a segurança ideal.

O vôo da Suíça até Havana exigiria, portanto, um pouso para reabastecimento ou ainda na Europa (Portugal ou Espanha) ou em território estadunidense. Assim, tecnicamente nenhum absurdo a descida do avião presidencial em Portugal.

Caso houvesse de prosseguir depois de abastecido voaria à noite (sem falar nas condições atmosféricas). Essas circunstâncias levaram a Presidente e sua comitiva a pernoitarem em Portugal por cerca de dezesseis horas.

A turma não perdeu oportunidade e quer explicações. Ao que parece gostaria a oposição que a Chefe da Nação se hospedasse num pardieiro (com pulgas, percevejos e muriçocas, se possível), comesse em restaurante a quilo ou em boteco de esquina caso não optasse pela dieta do jejum.

Próceres do Governo ainda se debruçam em explicar – dando espaços à mídia ávida por factóides – coisas dispensáveis. Melhor que deixasse Dilma Rousseff publicar uma nota de esclarecimento simples e objetiva no estilo da ironia anedótica atribuída a Jânio Quadros, respondendo a jornalistas no imediato da renúncia, quando indagado das razões que o teriam levado ao ato extremo:

– Fi-lo porque qui-lo.

Também a Jânio, respondendo à pergunta provocativa de um jornalista “se bebia” (dizem que gostava de umas), quando em campanha em Belo Horizonte para presidente, é atribuída a seguinte resposta:

– Bebo-o porque é líquido; se fosse sólido comê-lo-ia.

Poucos sabem que Jânio foi professor de português, escritor, gramático e lexicógrafo. Publicou um bom Dicionário da Língua Portuguesa, sendo a sua obra mais conhecida uma Gramática Histórica, em meados dos anos 60, sobre a qual muitos nos debruçamos.

Como estaria melhor assessorada e distante do anedótico, diria a Presidente em escorreito Português, aos que a questionem:

– Fi-lo porque o quis.

Para respeitar a regra gramatical, visto que a conjunção subordinativa ‘porque’ atrai o pronome oblíquo átono ‘o’, daí a próclise ser a construção correta – e não a ênclise atribuída a Jânio, que ele negou tê-la pronunciado.


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O sistema

Presente
Este 2014 não é um ano qualquer. Muitos estarão voltados para dois eventos que nele se destacarão: a realização da Copa do Mundo (64 anos depois da primeira – bem provavelmente a última no continente sulamericano, como já o sinalizou a própria FIFA) e as eleições presidenciais, que podem alimentar mais quatro anos para o PT e sua gestão de centro-esquerda no Brasil.

A Copa é criatura do Governo do PT, que incomoda com a possibilidade concreta de permanecer no poder. Aí reside o conflito: sucesso para a Copa representa propaganda indireta para o Governo (leia-se, PT). Então, os que lhe fazem oposição ficam contra a Copa, não importa o que traga ela de vantagem para o Brasil. É a luta e o embate político eleitoral que estão em jogo. Em ringue de vale-tudo.

Não nos devemos pautar, no entanto, tão somente nos dois eventos. Mas tomar outros dois a serem lembrados neste mesmo ano e que, de uma forma ou de outra, apresentam lições para o observador em relação aos vários elementos que se interligam e se fazem presentes em todos.

Para que o leitor possa melhor entender o raciocínio, partamos para os dois outros fatos históricos de significação a que nos referimos acima, que devem ser lembrados este ano, especialmente por suas contradições e íntimas relações: a campanha das “Diretas Já”, em 1984 e o golpe de 1964. Separados por exatos 20 anos. 

Um para ser lembrado com alegria, por ter sido o móvel do processo da retomada da Democracia no país, completando trinta anos; outro, para não ser esquecido, já que o esquecimento sobre as razões que o levaram a ocorrer não podem escorrer para o limbo; mesmo porque ainda se fazem presentes, por outros meios, neste mesmo ano eleitoral, ainda que vetusto em suas bodas de ouro.

As eleições deste ano, por exemplo, trazem projetos antagônicos no âmbito de anseios políticos: as forças que enfrentam o poder instituído trabalham da mesma forma como trabalharam as que levaram ao golpe. Em 1964 um governo que buscava implementar reformas ‘de base’ e políticas públicas de caráter nacionalista e distributivista – reformas agrária e educacional, tributação sobre a riqueza etc. – foi destituído pelos ideais conservadores, que alimentaram e beberam não na vontade popular, mas na manipulação da informação e na distorção dos fatos acontecidos, parte deles custeada e promovida pelo reacionarismo, como meio de gerar o caos social, como hoje acontece através de manifestações de classe média alta nos mesmos moldes das ‘marchas’ da família com Deus pela liberdade e pela democracia naquele fatídico ano para a contemporaneidade brasileira.

Alguns movimentos ou mobilizações hoje correntes movem-se no mesmo ideário – se assim podemos chamá-lo – que norteou a atuação de elites em 1964: frustrar políticas que alcançam camadas mais miseráveis da sociedade. Em 1964, ainda em projeto; em 2014, já implantadas e em curso de aperfeiçoamento.

Hoje, como ontem
A presença de veículos de comunicação em um e outro merece consideração especial, porque a atuação permanece. Estiveram ao lado do golpe militar e, caso consigam o que insinuam, não seriam contrários a outro, desde que lhes fosse – e aos que defendem – assegurados o controle e a hegemonia político-administrativa.

Não se diga que contra a Copa do Mundo não está sendo desenvolvida uma campanha solerte, de conteúdo político-eleitoral para gerar factóides a serem utilizados na presidencial. Tal campanha encontra nos meios de comunicação um baluarte especial: a TV Globo.

(A propósito da Globo, a Polícia Federal finalmente instaurou inquérito para apurar o crimes fiscais e financeiros cometidos em 2002 e que hoje representam mais de 1 bilhão de reais de sonegação fiscal).

Não passa por nós apenas insinuar que tanto no golpe militar como na campanha das “Diretas Já” o sistema Globo atuou exemplarmente. Com o golpe ganhou o sistema de televisão, com o qual ignorou a campanha pela aprovação da emenda Dante de Oliveira.

Hoje, em relação à Copa do Mundo – ainda que detenha os direitos de transmissão – faz dela mote para campanha contra o Governo. Tornou-se lugar comum em sua programação jornalística o “imagine na Copa” para anunciar um caos que só ela enxerga.

Não à toa torna-se lugar comum palavras de ordem em manifestações, como “a verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura”.

Difícil será, para a maioria da população, compreender que o sistema – ontem e hoje – continua presente para derrubar o que seja melhor para o povo. 

Objeto, objetivo e meios são os mesmos.


domingo, 26 de janeiro de 2014

Alguns destaques

DE RODAPÉS E DE ACHADOS *
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Da turma de Davos
Um empresário canadense, em televisivo local, exultou diante da informação de que 3,5 bilhões de pessoas vivem na pobreza, enquanto 1% de terráqueos detém 50% dela. A sua alegria reside no fato de ser “o 1%” magnífico exemplo: “É uma grande coisa, porque isso inspira todo o mundo. Faz com que as pessoas olhem para o 1% e diga – quero fazer parte desta turma – passe a trabalhar duro para chegar ao topo”. (Da BBC Brasil).

Apenas esqueceu de falar em reduzir os ganhos do 1% para distribuição (com trabalho, educação etc.) com os miseráveis que ele deseja ver “chegar ao topo”. Muito menos conhece conceitos para ‘mais valia’ e ‘lucro’.

Claro que o ilustre fala de comércio. Não de Humanidade. Justamente por não explicar: 1. Por que não oferece trabalho aos miseráveis; 2. Como um faminto terá forças para trabalhar.

O Brasil chegou antes
Enquanto os Estados respondem por nevascas, em Bruxelas, na Bélgica, os 28 membros da União Europeia iniciam processo de degelo em relação a Cuba. A partir de fevereiro iniciam conversas para efetivação de um acordo bilateral que pode já vigorar a partir de 2015. Negócios são negócios. Giram em torno de interesses.

O Brasil chegou bem antes. Desde que o visionário Lula iniciou a descoberta da África, da América Latina e do Caribe (Cuba como cabeça de ponte).

Preocupante
Empresários e banqueiros mostraram-se satisfeitos com o discurso da presidente Dilma Rousseff em Davos, na Suíça. Perante a banca disse Dilma o que eles gostaram/esperavam ouvir.

Caso não tenha falado para inglês ver – para conter arroubos do sistema financeiro na próxima campanha presidencial – quem fica com a pulga atrás da orelha é a brazucada.

Afinal, todos sabemos que o que agrada banqueiro não agrada ao povo.

Deu no Diário do Centro do Mundo
“Em 2005, o ministério público do Estado de São Paulo enviou à prefeitura 147 requerimentos de informação, em média 12 a cada mês. De janeiro a setembro do ano passado – nove meses, portanto –, os promotores do Estado trabalharam bem mais nos assuntos relacionados à prefeitura paulistana. Foram 658 requerimentos, média mensal de 73 ofícios.
Uma diferença de 608%.

Em 2005, o prefeito era José Serra, do PSDB. Em 2013, Fernando Haddad, do PT.”

Não precisa explicar o que está sobejamente explicado. E tem gente que duvida de politização no Ministério Público no Brasil.

Não fora esse raciocínio, o MP de São Paulo prevaricou no tempo de Serra.

Recado
A considerar as declarações de Joaquim Barbosa em Paris, afirmando que se sentia incomodado com a exposição alimentada pelas transmissões da TV Justiça, razão por que – disse Sua Excelência – a superexposição contamina os julgamentos da corte.

O recado é claro: como brevemente estará na pauta do STF o mensalão do PSDB preparemo-nos para proteger o tucanato.

Mais petróleo
Fernando Brito, do Tijolaço, traz a informação de que a Petrobras pretende concentrar esforços em pesquisas no campo de Carcará, que sinaliza com a possibilidade de um mega reservatório com 470 metros de espessura e que pode render 40 mil barris diários de óleo de excelente qualidade por poço perfurado.

A espessura do Carcará é cerca de 50% maior que o de Libra.

Justifica-se o interesse da Petrobras: a exploração dá a empresa 76% do obtido. O restante está dividido entre a Petrogal, portuguesa em sociedade com chineses (14%) e a Queiroz Galvão (10%).

Pode ser o pimpolho!
Registramos em postagem neste sábado 25 no http://adylsonmachado.blogspot.com que o ministro Ricardo Lewandovski concedeu a advogados de réus condenados na AP 470 acesso ao inquérito 2474 que o ministro Joaquim Barbosa escondia nos escaninhos do STF sob o condão do segredo de justiça.

A dúvida levantada em torno das razões por que Joaquim Barbosa escondeu a peça pode não se limitar tão somente à presença de Daniel Dantas e de outras figuras (tucanas, inclusive) no imbróglio, mas, talvez – e bem possível que principalmente – ao fato de que os recursos da Visanet (alegados como públicos) também irrigaram uma empresa (a Tombrasil) onde trabalhava um filho de Joaquim Barbosa.

Caso confirmado tal fato – e seja essa uma possível razão para Joaquim Barbosa ter escondido a peça – o ministro relator/acusador pode ser desnudado, ainda que não no altar em que o incensam.

Ex-homem
Famosa a expressão “ex-mulher”, como metáfora, para definir o que representa de radicalidade numa pessoa diante do que foi anteriormente. “Isso é pior do que ex-mulher”.

Pincelamos o presente rodapé a partir de um acontecido em Goiânia – que levaria Stanislaw Ponte preta a frouxos de risos e de textos, depois de confabular com Tia Zulmira – onde “Thiago virou Laura e vai assumir a Delegacia da Mulher”, como noticiado no Diário da Manhã.

Tudo normal e natural neste mundo de Deus, amparado inclusive no discurso pela tolerância do papa Francisco. Exercitando o seu direito à personalidade e ao gênero um delegado (que já foi casado e tem dois filhos) fez cirurgia para mudança de sexo, alterou seu nome civil e, amparado na nova condição/circunstância, assumirá a Delegacia da Mulher.

Na função que exercerá, em razão da competência funcional – apurar crimes contra a mulher – ficamos a imaginar como serão tratados os homens que ali respondam por agressões ao sexo frágil.

É que – a partir da expressão ‘pior que ex-mulher’ – nos fica a inovadora “pior do que ex-homem”.

Miruna
A multa de Genoíno já foi paga. Junto com ela a visibilidade alcançando Miruna, filha do ex-deputado. Que pode levá-la a ocupar vaga na Câmara dos Deputados.

Tucanato na muda
O maior vexame da Copa do Mundo está para acontecer: a transferência dos jogos que seriam realizados na ‘Arena da Baixada’, em Curitiba, no Paraná, pelo atraso – e dificuldades, quase impossibilidade – de conclusão do estádio a tempo da realização da Copa.

O fato tem ocupado o noticiário. Não se tem ouvido, no entanto, no mesmo noticiário, quem é o governador do Paraná, responsável por parte das despesas – quando nada da gestão do empreendimento.

Como posta a mensagem televisiva parece que o ônus recairá sobre o Governo Federal, quando parcela considerável da responsabilidade é do governo do Estado.

Como o noticiário das grandes redes tem natureza política entende-se porque não se fala do governo do Paraná: o governador é Beto Richa, do PSDB.

Isto dito e posto, de compreender por que o tucanato pode entrar na muda quando o tema for Copa do Mundo.

Mais tucanato paranaense
Não bastasse, a OAB-PR denunciou o uso pelo Governo de Beto Richa dos recursos depositados em contas judiciais. Ainda que autorizado para sacar depósitos em demandas tributárias, o Beto atacou com voracidade de fazer inveja ao Leão do imposto de Renda, as contas não-tributárias – inclusive alimentares – o que é vedado em lei.

No fundo o governo de lá afanou os depósitos.

Para rir
Para os que assistiram a entrevista de Luiza Trajano, da rede Magazine Luiza, ao Manhattan Connection, sabem da calça justa em que ficou Diogo Mainardi, diante dos argumentos da entrevistada, a ponto de desafiá-lo com o futuro envio de dados por e-mail que demonstrariam (o que veio a ser confirmado, quanto à inadimplência) com dados oficiais amplamente divulgados pela imprensa nacional. E que registra a “década do varejo” (últimos 10 anos, depois de 30 perdidos – segundo declara).

Para quem não assistiu, assista através de http://www.youtube.com/watch?v=oA2r3-VDhAw destacando a partir dos 4 minutos do vídeo.

Quem pariu Mateus que o embale
De Paris – sob diárias pagas por nós, na ordem de 14 mil reais – Joaquim Barbosa esculhamba (a palavra não pode ser outra) e esculacha os pares que não assinaram o que competia a ele. Caso lhe faltava tempo, deixasse para depois. Mas pretendia os louros, tanto que deixou que fosse anunciada a sua iniciativa. 

Conta outra Joaquim.

De lá clama pela existência de um STF como colegiado, mas aqui se calou quando a imprensa o incensou personalizando-o como STF. Antes trazia para si toda a responsabilidade – de acusador e de julgador, de manipulador de prova (como em relação à data da morte de Martinez, sem falar que engavetou o inquérito 2474) – maltratava e agredia quem ousasse questionar uma só alegação sua. Simplesmente personalizou o STF em si tornando-se arauto e salvador da pátria, caçador de corruptos.

Pensou que todos teriam obrigação de cumprir o que decidiu, transferindo a eles os trâmites burocráticos. Ouvir-se-ia – da imprensa cândida e encantada – que Joaquim Barbosa assinara a prisão e os ‘colegas’ cumpriram a ordem de Joaquim. Subordinação.

Por aqui é possível que a caneta usada por Barbosa estivesse suja demais a ponto de enojar os plantonistas. Que não se sentem como subordinados de Joaquim Barbosa.

E simplesmente puseram em prática o famoso ‘quem pariu Mateus que o embale”.

Endoidou
Dia desses o PSDB entrou com representação junto ao TSE contra a fala da presidente Dilma Rousseff no final de 2014. Causou espécie a inovação conceitual de considerar fala presidencial como propaganda eleitoral antecipada.

Mas não ficou nisso. Revela Gerson Camaroti em seu blog que o PSDB vai denunciar reforma ministerial como crime eleitoral. Partindo da premissa de que a informação tem procedência – de tão absurda que é – estamos vivendo a esculhambação plena da atuação junto ao Judiciário.

Das duas uma: ou o PSDB endoidou de vez (pela falta de discurso) ou conta com o Poder Judiciário para um golpe branco.

Tempos outros...
Quando nos entendemos por gente exercendo função municipal aprendemos – ouvindo do setor de finanças – que gastos com festejos eram investimentos (Carnaval, Natal, São João, Dia da Cidade). Dizia-nos, por exemplo, João Manuel Afonso, que para cada real investido retornavam quatro aos cofres públicos.

No caso local havia uma proposta privada de quase total custeio do carnaval. Assim, o município conseguiria receita sem haver investido. De certa forma, um presente, uma receita extraordinária!

O que precisa ocorrer – afirmava João Manuel – é planejamento, para que desperdícios não venham constituir redução nos ingressos.

O que parece faltar ao município de Itabuna.

... melhor para Ilhéus
Pela lógica do expressado pelo senhor Secretário de Indústria, Comércio e Turismo é melhor que o itabunense não tenha renda em Itabuna e, junto com o folião, gaste seu dinheirinho e vá gerar trabalho, impostos e renda na praieira Ilhéus.

Que agradece, comovida, à postura itabunense!

Para não faltar nada
Considerando as explicações do Secretário de Indústria e Comércio de Itabuna para “analisar” a viabilidade de evento de caráter momesco por iniciativa privada, como difundido em O Trombone, vem-nos a ironia de que não tarda a administração municipal decretar festa sem povo.

Ne me quite pas
Não sabemos a que nos emociona mais: se a interpretação de Édith Piaf ou esta de Maysa. Que ouça o leitor. Destacamos a brasileira, em vídeo, mas disponibilizamos a de Piaff em http://www.youtube.com/watch?v=slHjkszSAKs


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* Coluna publicada aos domingos em www.otrombone.com.br 


sábado, 25 de janeiro de 2014

Abrindo

A porteira
As condenações decorrentes do julgamento da AP 470 encontram-se sob o crivo da coisa julgada, definitivas. Tanto que o cumprimento das penas já ocorre – ainda que fatiadamente. Neste particular nada a estranhar, desde que Joaquim Barbosa tornou-se um julgador de dois pesos e duas medidas.

Uma coisa, no entanto, cheira a mofo (para não usar o M para outra palavra): o que existe no famoso Inquérito 2474, feito desmembrar por Joaquim Barbosa a fim de não incluir suas apurações na AP 470, a ponto de correr – e permanecer – em segredo de Justiça.

Ao que parece o ‘mofo’ virá à tona, desde que o ministro Ricardo Lewandovski acatou – o que antes fora negado por Joaquim Barbosa – pedido de advogados para terem acesso ao conteúdo dos 78 volumes. O que há ali pode abalar pilares que se encontram sob proteção do sigilo, onde pode estar a figura de Daniel Dantas (identificado pelo delegado Zampronha, da PF, por relacionamentos com Marcos Valério) e nomes menos ‘influentes’ – como de diretores do Banco do Brasil indicados pelo governo tucano de FHC que autorizaram as operações da Visanet – todos afastados deliberadamente por Joaquim Barbosa do cenário da AP 470. Protegidos pela providencial ‘engavetada’ do 2474 efetivada pelo ministro-relator.

Falar em Daniel Dantas significa mexer em nó górdio com ramificações inclusive no Poder Judiciário e no STF em particular, este expressado na figura do ministro Gilmar Mendes (para Noblat Gilmar “Dantas”, tamanha a intimidade e interesses nutridos entre ambos).

Como escreve Paulo Moreira Leite na IstoÉ, “A experiência ensina que documentos mantidos em segredo não fazem bem à Justiça, que pede transparência e lealdade a todos”.

A suspeita que paira no homem comum está voltada para as razões por que Joaquim Barbosa tanto insistiu para que as apurações da Polícia Federal envolvendo fatos e personagens vinculados a AP 470 fossem desmembrados e escondidos de advogados e partes.

Ao acatar o pedido de advogados de Pizzolato para acesso ao inquérito 2474 o ministro Ricardo Lewandovski pode estar abrindo a porteira para uma boiada agitada, que sem rumo atingirá cercas diversas. Inclusive a fraude montada para condenar muitos dos que talvez não fossem condenados se as provas contidas no inquérito integrassem os autos da AP 470.

Que, no caso concreto, pode levar a uma revisão criminal. Ou, quando nada, comprovar um julgamento de exceção.


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Não estamos

Fora de órbita
Alguém pessoalmente nos questionou diante do que registramos em "Efeito viral, antídoto" publicado neste espaço na terça 21. Sentimos na ponderação a atávica postura - pautada no inconsciente coletivo de nossa sociedade - de admitir a discriminação social como fenômeno imutável, imperceptível quando não enfrentada em debate.

Os denominados 'rolezinhos' geram análises - já o dissemos. Aprofundam-se estas, como a de Eliseu Neto, psicanalista, psicólogo e gestor, veiculada no www.advivo.com.br desta sexta 24, que apenas perspassa por fato concreto que aprofundaremos em análise futura, mas que está contida no texto de Eliseu: a sua lógica econômica. 

No mais, é compreender um fenômeno tão velho quanto a existência da sociedade organizada: jovem sempre tem uma demanda reprimida - pelo menos a da necessidade de aparecer, se fazer presente/existente. Mas, vamos a Eliseu:

por Eliseu Neto
Jovem suburbano percebeu que está excluído e resolveu incomodar a classe média com o que tem de mais simples: sua presença
Rio - Dias atrás, quando o rolezinho do Shopping Leblon ainda estava de pé, vi muito preconceito vir à tona. Quando apoiei o ato no Facebook, a primeira palavra que apareceu foi “vagabundos”, seguida de “Engraçado você apoiar baderna. Ter livre acesso é uma coisa, causar pânico na sociedade é outra”. Um amigo espanhol, que vive aqui, escreveu “Shopping é lugar de família, odeio quem atrapalha meu lazer”. O que as pessoas não veem é que o pobre não tem obrigação de sair da pobreza, ele tem o direito de sair dela.
Temos uma economia de mercado baseada no consumo, mas ele é dividido: existem, por exemplo, no Rio, locais ditos populares, como a Saara. E existem lugares de maioria branca e maior renda da Zona Sul.
Essa é toda a questão do rolezinho. O jovem suburbano percebeu que está excluído e, num ato corajoso e inteligente, resolveu incomodar a classe média com o que tem de mais simples: sua presença. Shoppings fazem todo tipo de promoção para nos levar para dentro deles, sorteiam carros, fazem shows, decoram. Mas jovens pobres não são bem-vindos em certos locais. Descobriram finalmente o apartheid brasileiro.
Um amigo disse: “Eu faço a minha parte, ajudo deficientes no asilo.” Esse é o pensamento da classe média: o deficiente fica no asilo, o pobre, nos shoppings populares, a classe C, na econômica do avião.
“Trabalhar, ninguém quer...”, continuam os críticos. Mas qual a diferença entre o jovem de classe média que não precisa trabalhar e vai ao shopping e esses meninos? Por que presumimos que logo os pobres são vagabundos, se todos estão no mesmo lugar fazendo a mesma coisa, nada, só andando de lá pra cá (dando um rolé)? Mas o rolé dos pobres é logo definido como “baderna, arruaça e confusão”.
Num país com 75% de analfabetos funcionais e com 20% da população sem acesso nem a saneamento básico, o que sobra é a resposta das classes média e alta: pobre e negro tem que trabalhar — apenas trabalhar — sem reclamar. Não queremos ver aqueles que nos servem usufruindo a mesma coisa que nós, isso “atrapalha nosso lazer”.
O rolezinho é um dos movimentos mais legítimos e inteligentes que já vi. Usa o medo, o preconceito e os valores podres e deturpados de uma camada social contra ela mesma. Afinal, na maioria dos casos, não existe crime, existe pânico e histeria coletiva.
Eliseu Neto é psicanalista, psicólogo e gestor de carreira