Em tempos de antanho o fim de ano nos rincões provincianos se fazia de mudar a roupagem apenas, porque nada de efetivamente de novo havia a não ser aquele “mais um dia” na vida de cada um.
Mas tudo transcorria naquele “existir” autêntico, oriundo de uma sinceridade implícita lecionada por gerações. Este escriba de província, prestes a alcançar 80 anos – se os donos do planeta permitirem que abril de 2026 transcorra no Calendário Gregoriano – viveu no curso de sete décadas o processo de evolução da Civilização e percebe em detalhes o que no curso delas ocorreu. E mesmo se debruça a escrever em torno disso.
Nesse final de 2025 muito teríamos a registrar.
Entretanto pouco a acrescer no universo da preservação de valores que
dignificam o homem como expressão da Humanidade. Buscando lições folheamos textos
deste espaço que vão se tornando alfarrábios e resgatamos um exemplo de vida
dignificante, impossível de existir nestes tempos hodiernos: o de ‘minha’
inesquecível mãe, e seu “Mingau de café".
Neste 16 faria 105 anos.
[...} “Faleceu sem alcançar os 64. Da
mais nobre estirpe sertaneja. Não por honrarias de família, títulos ou brasões.
Mas pela intrepitude em decorrência da vivência naqueles confins de mundo, à
época muito menos assistido que hoje. Por ali e além aprendeu a traduzir
os lajedos como natural à crueza do ambiente. E quem não o fizer sucumbe.
Nascer por ali exige marca na
testa em ferro em brasa como mensagem a ser lembrada diante de um espelho:
sobreviver é tudo. Sem faltar o “Se Deus quiser”! – porque Ele se
tornou dos púlpitos único caminho para tudo ‘desculpar’ do que o
semelhante por aqui causa ao semelhante.
Multípara, com sete
sobreviventes: dos nove, um levado aos dois meses; outro nasceu na terra quando
já no Paraíso.
Fazia milagres com o quase
nada. De invejar economistas, que só sabem teorizar em torno da acumulação da
riqueza, porque em seus vocabulários nenhuma palavra há sobre a escassez como
sinônimo de fome, onde a vítima participa tão somente como unidade estatística.
Desenvolveu singular técnica
para atender as necessidades familiares em nível de Vitamina C: uma laranja
espremida, tornada laranjada, e o bagaço levado ao próprio estômago. A
laranjada desdobrava-se em tantos copos ou meio copos até o limite de atender os
filhos.
Quando terminava o cozer, a
lavagem dos pratos de esmalte, de carrear água da cisterna para o encher de
potes e moringas, hora de cuidar da banca dos que estudassem e logo o pedalar
na velha máquina Singer para costurar os retalhos e torna-los em colchas,
cobertas ou cerzir as roupinhas dos filhos. De vez em quando um vestidinho, um
calçãozinho.
Nunca se viu nela uma lamúria,
um desassossego.
Tampouco alimentou ‘papai noel’
algum. Tanto que aprendemos a assistir os visitados escolhidos pela lenda
debruçados no batente das janelas quando amanhecido o dia. Até que
esquecêssemos que não fôramos visitados pelo velhinho porque, muito provável,
desobedientes quando insistimos em ficar acordados a sua espera para agradecer
por tudo.
No rádio da vizinha, “seja rico
ou seja pobre, o velhinho sempre vem” abafava o alarido da alegria infante
exibindo bonecas, carrinhos, bicicletas, bolas, brinquedos vários.
Mas havia algo mais.
Sabido e consabido que carne
seca – quando dispõe –, rapadura e farinha de mandioca são o milagre dos peixes
que faz sobreviver no sertão caatingado e resseguido.
Para ela, outro milagre: quando
tudo faltava – do dinheiro ao que comprar – café e farinha. Reunidos naquele
manjar dos deuses chamado mingau de café.
O mingau de café de Adelaide.
A “mãe e heroína” que nos levou
“à compreensão mais extrema do significado de saudade”.*
___________
*Extraído da dedicatória levada
ao romance Amendoeiras de Outono (Via Litterarum, 2ª edição, 2013).”
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