domingo, 28 de dezembro de 2025

Marx, Kant, fato, revelação e narrativa

 

Quando a sociedade humana – assim referida porque vinculada a quem pensa, raciocina, dialetiza – falha em reconhecer no seu passado as suas tragédias, fadada está a vê-las repetidas de forma piorada.

A conclusão se ampara na análise de Karl Marx logo no início de seu “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”, tomando da dialética hegeliana o que entendia este haver citado: que todos os grandes fatos e personagens da história universal aparecem, por assim, dizer, duas vezes, e logo acrescentar, certeiro (para ele, o esquecido por Hegel): “a primeira vez como tragédia, e a segunda como farsa”.

E nos vemos, como escriba de província, a revolver fatos destes últimos oitenta anos desta terra brasilis, a partir de uma singularidade apenas (porque tragédias são tantas!): duas cartas ao princípio e ao fim. E, para não perder fatos histórico-pretéritos que então se afinam – porque religião e fé sempre encontram uso – o Concílio de Nicéia.

Palco de permanente controle do mandonismo das elites e de bissextas chances de ser nação para o seu povo (e haja bissexto!) este país nosso de cada, que alternou – como fenômeno sócio-político em vertente econômica – aquela fase de “feudalismo retardatário dos primórdios da colonização”, como observa Wilson Lins, e o transfigura na contemporaneidade sob outros rótulos acadêmicos, mudados apenas os elementos de divulgação e controle em razão de cada época, desde que mantido o status quo socialmente tão vetustamente como a expressão latina que o afirma como significado.

Mas, deixemos o muito a dizer para chegarmos ao pouco a que nos propusemos: instantes destes últimos oitenta anos incensados por coisas oriundas no séc. IV d.C.

Naquele agosto de 1954 Getúlio Vargas escreveu e se foi: “[...] Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida... meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos.”

Neste dezembro de 2025, às vésperas de uma manifestação de religião e fé, uma outra carta – que soa a testamento – proclama: “[...] Entrego o que há de mais importante na vida de um pai: o próprio filho para a missão de resgatar o nosso Brasil. ...Ele é a continuidade do caminho de prosperidade que iniciei bem antes de ser presidente”.

Naquele maio de 325 d.C. o Imperador Constantino I partia para encontrar a consolidação da Fé Cristã (até então dividida entre ser pretendida “do e para o Estado” e a que até então existira, do Cristianismo primitivo proclamado a todas as gentes) que se consumou sob égide da Santíssima Trindade (Cristo como “Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado e não criado, consubstancial ao Pai”), afirmando o dogma da Trindade Pai, Filho e Espírito Santo.

O melhor – e para dar fim ao conflito: apagar os fatos, e não precisar explicar a razão por que Jesus fora o criminoso judeu morto por judeus através do estado romano na solução que até hoje perdura em meio a alguns dogmas de fé (eureca!): Deus amou tanto o homem que deu seu filho à morte para resgatar os pecados dele, “para que todo que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (João, 3:16).

Caso nos voltemos para observar o processo desenvolvido pela História, ao longo de um lento e penoso curso para evolução, observaremos diferentes etapas que trazem, ao final, a conformação de conhecimento e informação, afirmando serem revelações que, em si se esgotam e se bastam, constituem fatos percebíveis porque verdadeiros. Verdades em si, verdades criadas à conveniência; fatos e narrativas.

Para não dispensarmos Emanuel Kant partindo-se de que intelecto humano se aperfeiçoa pela capacidade de colecionar incertezas – (“avalia-se a inteligência de uma pessoa pelo número de incertezas que ela é capaz de suportar”), muito nesta terra brasilis transita no terreno do transtorno cognitivo resultante da corrupção de todos os processos elucidativos e esclarecedores que se consumaram em verdades e certezas falsas para obtenção de um controle sob manipulação de quem as detenha.

Não à toa Paulo Freire é execrado por tal parcela de nossa sociedade, justamente por afirmar: “a prática de se pensar a prática é a única maneira de pensar certo.”    

Sócrates foi tido por uma das sacerdotisas do Oráculo de Delfos como o mais inteligente dos homens pelo fato de afirmar nada saber, razão por que não emitia nenhuma afirmação, tão só indagava, indagava...

Neste Natal, em tempos como o presente, de tão aprofundamento da narrativa (transtorno cognitivo) prevalecendo sobre o fato, não custa alguém afirmar que no ditoso solo brasileiro nasceu – não o mito – mas o próprio Messias.

E triste de quem disser que há um transtorno psíquico!

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