Quando a sociedade humana – assim referida porque
vinculada a quem pensa, raciocina, dialetiza – falha em reconhecer no seu
passado as suas tragédias, fadada está a vê-las repetidas de forma piorada.
A conclusão se ampara na análise de Karl Marx
logo no início de seu “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”, tomando da
dialética hegeliana o que entendia este haver citado: que todos os grandes
fatos e personagens da história universal aparecem, por assim, dizer, duas vezes,
e logo acrescentar, certeiro (para ele, o esquecido por Hegel): “a primeira vez
como tragédia, e a segunda como farsa”.
E nos vemos, como escriba de província, a revolver
fatos destes últimos oitenta anos desta terra brasilis, a partir de uma
singularidade apenas (porque tragédias são tantas!): duas cartas ao princípio e
ao fim. E, para não perder fatos histórico-pretéritos que então se afinam –
porque religião e fé sempre encontram uso – o Concílio de Nicéia.
Palco de permanente controle do mandonismo das
elites e de bissextas chances de ser nação para o seu povo (e haja bissexto!) este
país nosso de cada, que alternou – como fenômeno sócio-político em vertente
econômica – aquela fase de “feudalismo retardatário dos primórdios da
colonização”, como observa Wilson Lins, e o transfigura na contemporaneidade
sob outros rótulos acadêmicos, mudados apenas os elementos de divulgação e
controle em razão de cada época, desde que mantido o status quo
socialmente tão vetustamente como a expressão latina que o afirma como significado.
Mas, deixemos o muito a dizer para chegarmos ao
pouco a que nos propusemos: instantes destes últimos oitenta anos incensados
por coisas oriundas no séc. IV d.C.
Naquele agosto de 1954 Getúlio Vargas escreveu
e se foi: “[...] Tenho lutado mês
a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante,
tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para
defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não
ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem
continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida...
meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma
sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso
peito a energia para a luta por vós e vossos filhos.”
Neste
dezembro de 2025, às vésperas de uma manifestação de religião e fé, uma outra
carta – que soa a testamento – proclama: “[...] Entrego o que há de mais
importante na vida de um pai: o próprio filho para a missão de resgatar o nosso
Brasil. ...Ele é a continuidade do caminho de prosperidade que iniciei bem
antes de ser presidente”.
Naquele
maio de 325 d.C. o Imperador Constantino I partia para encontrar a consolidação
da Fé Cristã (até então dividida entre ser pretendida “do e para o Estado” e a
que até então existira, do Cristianismo primitivo proclamado a todas as gentes)
que se consumou sob égide da Santíssima Trindade (Cristo como “Deus verdadeiro
de Deus verdadeiro, gerado e não criado, consubstancial ao Pai”), afirmando o
dogma da Trindade Pai, Filho e Espírito Santo.
O
melhor – e para dar fim ao conflito: apagar os fatos, e não precisar explicar a
razão por que Jesus fora o criminoso judeu morto por judeus através do estado
romano na solução que até hoje perdura em meio a alguns dogmas de fé (eureca!):
Deus amou tanto o homem que deu seu filho à morte para resgatar os pecados dele,
“para que todo que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (João, 3:16).
Caso
nos voltemos para observar o processo desenvolvido pela História, ao longo de
um lento e penoso curso para evolução, observaremos diferentes etapas que
trazem, ao final, a conformação de conhecimento e informação, afirmando serem revelações
que, em si se esgotam e se bastam, constituem fatos percebíveis porque
verdadeiros. Verdades em si, verdades criadas à conveniência; fatos e
narrativas.
Para
não dispensarmos Emanuel Kant partindo-se de que intelecto humano se aperfeiçoa
pela capacidade de colecionar incertezas – (“avalia-se a inteligência de uma pessoa pelo número de
incertezas que ela é capaz de suportar”), muito nesta terra
brasilis transita no terreno do transtorno cognitivo resultante da
corrupção de todos os processos elucidativos e esclarecedores que se consumaram
em verdades e certezas falsas para obtenção de um controle sob manipulação de
quem as detenha.
Não
à toa Paulo Freire é execrado por
tal parcela de nossa sociedade, justamente por afirmar: “a prática de se pensar
a prática é a única maneira de pensar certo.”
Sócrates
foi tido por uma das sacerdotisas do Oráculo de Delfos como o mais inteligente
dos homens pelo fato de afirmar nada saber, razão por que não emitia nenhuma afirmação,
tão só indagava, indagava...
Neste
Natal, em tempos como o presente, de tão aprofundamento da narrativa (transtorno
cognitivo) prevalecendo sobre o fato, não custa alguém afirmar que no ditoso
solo brasileiro nasceu – não o mito – mas o próprio Messias.
E
triste de quem disser que há um transtorno psíquico!
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