domingo, 15 de março de 2020

E la nave va – de Shakespeare a Jarry no país revisto por Foucault


Um punhado de beneficiados – interna e externamente – sustenta o inquilino do Alvorada. Em nível interno aquela histórica classe dominante, dona do poder (para lembrar Raymundo Faoro), meritocrática e patrimonialista; em nível externo, os de sempre, destinatários das riquezas aqui existentes e produzidas, bajulados por aqueles que os têm como o espelho em que se miram Narcisos tantos desta deslumbrada terra brasilis.

E a terrinha vive os instantes de picadeiro, enquanto aguarda o 'drama' no final da função, como ansiado nos velhos circos de província. Sob o grotesco tudo se mantém sob a falácia de que há dirigente eleito democraticamente(?). 

Porque – quando interessa – a Democracia é o discurso barato, como aquele perfume meia-hora encontrado nas feiras-livres de antanho: cheira maravilhosamente por meia hora, mas – ainda que de curto existir – enquanto produz fragrância atende e impressiona. No caso tupiniquim, o meia-hora se repete indefinidamente sustentado na eleição democrática. Até opositores afirmam o respeito à sua eleição, Lula encabeçando-o.

Mas nesta terra brasilis ninguém melhor que o inquilino para atender aos interesses. Enquanto o mambembe se faz presente algumas castas (presentes em meio a militares de alto coturno, ministros, desembargadores e juízes, promotores, procuradores, políticos) vão nadando a braçadas largas sem ouvir um mísero reclamo.

Imaginar que haja algum respeito ao inquilino como presidente – além dos que são por ele vinculados com paixão inaudita – alimenta a insanidade e a total alienação, por cumprir o singular papel de antipetista, anticomunista e quejandos tais mais e mais aplaudido pelos mesmos. 

Como governante não passa de um traste a ser lançado às traças na hora oportuna. Mas, no fundo, reflete esta parcela singular (e considerável) da sociedade pátria.

Via Michel Foucault uma espécie de perversidade na governança como se racionalidade política o fosse, na intensificação do grotesco, a ponto de adjetivar como ubuesco (referência à personagem Ubu Rei, peça de Alfred Jarry) tal comportamento social norteando instituições do Estado. Neste viés, a truculência cômica mascarando absurdos leva ao riso, o riso como auto-instrumento de sujeição. 

Em “Os Anormais” (contexto de aulas no Collège de France entre 1974-1975) Foucault desenvolve a tese do ‘poder ubuesco’ como aquele amparado em três propriedades: o poder de vida e de morte, o poder de verdade e o poder de fazer rir. Na esteira, a desqualificação de quem o produz maximiza efeitos do poder. Reflete, assim, uma profunda análise das instituições e valores que as norteiam, levadas por ele ao divã.

O grotesco – assim o via Foucault – instrumentaliza a soberania arbitrária. Ubu, sintetizando o opressor bufão, está à solta encantando e fazendo rir.

Não custa ilustrar que Ubu Rei se inspira em Macbeth. Em Shakespeare, o poder em seu aspecto trágico; em Jarry, na vertente do ridículo e do grotesco.

Mas, voltando ao governante nosso de cada dia, o inquilino do Alvorada tem o mérito de ter trazido a público, de forma escancarada como nunca antes, verdade factual escondida nos armários daquela parcela de brasileiros que nunca imaginamos existir.

O país afunda. Mas rimos a não mais conter. O trágico do tombo nos faz rir e nos sentimos felizes. O palhaço mente escabrosamente, mas rimos, rimos...

Mas, caro leitor, há o grotesco e a perversidade também em quem julga ao arrepio do Direito, ao sabor de conveniências ou a elas submetido pela covardia.

Neste particular não ocorre o riso solto e desbragado oriundo do picadeiro circense, mas em outro palco, de onde fica somente o choro contido dos que não têm força para reagir, como na criança que apanha do adulto e sabe na pele a dor da impotência.

E neste outro picadeiro eis que o próprio confirma o que todos sabiam: o STF negou recursos da ex-presidente Dilma Rousseff em sua pretensão de anular o impeachment. Confirma o que já dissera Sérgio Machado no antológico diálogo com Michel Temer quando ensaiando o golpe: tirar a presidente “com Supremo, com tudo”.

Aquela singular e inaudita interpretação – à época – do ministro Barroso de que a forma prevalecia, no caso, sobre o fundo acaba de ser materializada e assim lança às calendas os mais comezinhos princípios de direito como instrumento de persecução da Verdade e de Justiça. Ou seja, para Sua Excelência à época e a maioria que o legitima neste instante ainda que não estivesse configurada a existência de crime de responsabilidade (fato confirmado, inclusive por análise do departamento jurídico do Senado e do TCU) bastava que o procedimento instaurado estivesse conforme as exigências do Regimento Interno. 

Assim, a tramitação tendo por objeto o não existente garante a punição como se existisse o fosse. Em outras palavras: condene-se porque houve processo, ainda que sem crime que justificasse sua instauração. Lindo de morrer!

Resta-nos retomar o cinema em Fellini, enquanto as reservas são torradas pelo inquilino do Alvorada em sua sanha trágica: E la nave va. Com classe dominante, com Supremo, com tudo o mais que nos acomete. 

Ou, talvez, melhor tudo vincular ao precursor do surrealismo Alfred Jarry em Ubu Rei (1796), porque nossas instituições exercitam, em plenitude, o grotesco, o absurdo, o cínico, o brutal e caricatural, reveladas como as viu Michel Foucault.

Porque não passamos de uma caricatura do nada tornado tudo. 

Isso o que verdadeiramente assusta: a legitimação do absurdo pela omissão enquanto rimos desbragadamente.

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